MANUELA MILANI MENEGOTTO¹
PAULO OTAVIO FIOROTO²
Esse estudo objetiva a análise, através do método comparativo dialético e histórico, da interferência da indústria pecuária sobre as mudanças climáticas e como o mercado gastronômico projeta-se para um novo conceito de proteínas alternativas feitas à base de plantas. A revisão teórica discute, sucintamente, os fatores influenciadores de hábitos de consumo alimentar, e realiza a comparação dos impactos ambientais desencadeados pelo agronegócio com a necessidade da renovação de hábitos alimentares. A discussão evidencia que os meios de produção devem ser capazes de suprir a demanda necessária, considerando índices de crescimento populacional, em modelos de produção sustentáveis. Assim, verifica-se que a pecuária produz diversos prejuízos à biodiversidade, através do uso desmedido de recursos naturais que são essenciais à manutenção da vida, e que a população em geral precisa ter acesso e clareza sobre essas informações. Diante disso, o artigo constata que deve haver maior abertura e incentivos para o mercado de proteínas alternativas, que vem ganhando força e aponta para expansão nos próximos anos.
Hábitos de consumo; Sustentabilidade; Proteínas vegetais; Tendências gastronômicas.
¹ Pós-graduada em Gastronomia Funcional e Natural pelo Centro Universitário Cesumar – UniCesumar. Bacharel em Gastronomia pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI.
² Mestre em Engenharia de Alimentos pela Universidade Estadual de Maringá. Especialista em Docência no Ensino Superior pela UniCesumar. Bacharel em Engenharia de Alimentos pela Universidade Estadual de Maringá.
Com as questões climáticas cada vez mais emergentes, muitos indivíduos têm passado a questionar seus hábitos, dentre os quais, suas escolhas alimentares e qual a implicância delas sobre as mudanças no clima. Em contraponto, em uma esfera cultural, muitas pessoas ainda encontram dificuldade de se desvincular de hábitos enraizados, como o consumo da carne, presente em praticamente todos os dias no cotidiano do consumidor, que pouco conhece sobre a origem da produção deste alimento, e os danos ambientais que a ela estão relacionados.
Estudos estimam que em 2050 será atingida a marca de 9 bilhões de pessoas no mundo. Nesse contexto, projeções indicam que não será viável continuar suprindo a demanda de produção pecuária através dos meios atuais, uma vez que a capacidade territorial do planeta já esteja saturada em termos de espaço para criação de pastos, e para plantação de grãos para alimentar animais, dentre outras questões.
Um novo mercado vem se popularizando no mundo, com a proposta de auxiliar na solução dessas questões. Organizações têm se dedicado a desenvolver novos produtos, a fim de atender ao público consumidor de carne, reduzindo o impacto ambiental, por meio da produção e comercialização de carnes vegetais, feitas à base de plantas, com textura e sabor similares à carne de origem animal.
Tratando-se de uma questão de consumo global, e conhecendo os problemas ambientais desencadeados pelo agronegócio, dá-se justamente a importância deste tema: analisar como a alimentação em um futuro próximo, poderá ser menos prejudicial a todo o ecossistema e mais sustentável. Esse artigo tem como objetivo avaliar de que modo a nossa relação com a comida pode interferir na preservação ou na devastação da biodiversidade, e apontar perspectivas de um novo setor de produtos feitos à base de plantas, como alternativa sustentável ao consumo da carne.
O presente estudo pode ser classificado como uma pesquisa exploratória. Em relação à metodologia geral, elegeu-se os métodos comparativo, dialético e histórico, e em relação aos procedimentos técnicos utilizados, a pesquisa será desenvolvida a partir de levantamento bibliográfico e documental, fundamentada através da leitura e fichamento de livros, e publicações científicas como artigos, teses, e outros documentos (incluindo-se publicações não científicas, mas também relevantes para o estudo advindos de sites de instituições, e relatórios de estatística).
Este artigo está subdividido em dois tópicos, em que no primeiro será abordada a base histórica dos hábitos de consumo de proteína animal, e dos impactos ambientais decorrentes do agronegócio, e no segundo tópico será apresentada a relevância do tema abordado para a sociedade atual, posteriormente a metodologia será evidenciada apresentando os principais conceitos baseados em autores como Schuck e Ribeiro (2018), Pazzini e Sparemberger (2015), Guerra e Cardoso (2017), dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Cultura FAO (2019), dentre outros, escolhidos para fundamentar o trabalho, encerrando com as considerações finais.
Todo o ecossistema ao qual o homem está inserido é, de alguma forma, afetado pelos seus hábitos de consumo. Assim como, tudo o que ocorre no ecossistema, cedo ou tarde, incidirá sobre a vida humana.
Existe hoje uma certa urgência quanto ao desenvolvimento de estratégias sustentáveis para conter tantos danos ambientais (muitos já irreversíveis), decorrentes da exploração desmedida dos recursos naturais do planeta, com intuito de garantir aspectos básicos de qualidade de vida, e reduzir os impactos sobre a vida na Terra.
Embora o hábito de consumir carne venha de uma herança cultural, pode-se dizer, conforme os autores Guerra e Cardoso (2017), que o ato de consumir em si não ocorre com o único intuito de subsistência, sendo voltado, também, ao suprimento dos anseios emocionais e psíquicos dos indivíduos. Assim, as autoras explicam que as relações de consumo que os seres humanos estabelecem para suprimento de suas necessidades vitais, como a alimentação, estão diretamente influenciadas pelas transformações culturais que ocorrem no seio social.
Para Celka (2016), ao longo da história ocidental, a carne sempre foi considerada uma iguaria, agregando sucesso social e riqueza pessoal daqueles que a consomem. Pode-se complementar essa afirmação através de um exemplo de Sant’Ana (2008), que relaciona a cristianização do império romano com a ideia da supremacia humana sobre os animais, e ressalta que a partir desse momento, passou-se a considerar que o status de uma pessoa estaria atrelado à sua alimentação, portanto, quanto mais carne ela consumisse, mais status essa pessoa teria. Dessa forma, segundo Rodrigues (2012), a carne foi transformada em um produto de luxo, gerando um valor socioeconômico, pois, somente as pessoas mais pobres consumiam cereais no lugar da carne (uma vez que os cereais eram utilizados para alimentar os animais criados para consumo). “Ela sempre foi a prerrogativa dos poderosos que governam o mundo, senhores, aristocratas e burgueses” (CELKA, 2016, p. 185).
Guerra e Cardoso (2017) destacam que alimentar-se implica na transformação de produtos de origem animal e vegetal retirados da natureza, em prol do sustento humano, e que, ao longo do tempo, essas transformações interferem nas relações de consumo, em decorrência de processos como as inovações tecnológicas, e a industrialização, assumindo traços diversos.
Segundo Pazzini e Sparemberger (2015), grande parte da população entende que a carne é um produto indispensável em cada uma das refeições realizadas, seja por razões culturais, por falta de informação e, principalmente, por lobby da indústria da carne junto à grande mídia. Guerra e Cardoso (2017) acrescentam que o hábito brasileiro da produção de animais para o abate, conduz a um intenso consumo de carne, incentivado inclusive pela mídia. Pazzini e Sparemberger (2015) ressaltam ainda que, em função disso, até as pessoas em extrema pobreza veem na carne um objeto de consumo de primeira ordem, deixando de comprar outros itens alimentícios, para consumi-la. Ou seja, “a carne agrega o “status de consumidor” aos seus adquirentes e segrega os que não podem pagar por ela - ou se é cidadão-consumidor ou se é nada” (PAZZINI; SPAREMBERGER 2015, p. 274).
Desse modo, conforme afirmam Guerra e Cardoso (2017), a indústria da carne no Brasil está diretamente vinculada ao desenvolvimento socioeconômico do país, recebendo incentivos junto ao Poder Público, e portanto, muito mais do que um ato enraizado à cultura, no que se refere ao estado do Rio do Grande do Sul, por exemplo, há um interesse nacional de que a indústria da pecuária se mantenha sólida.
Assim, entende-se que além do interesse da indústria e do incentivo da mídia, o consumo da carne em uma esfera cultural está diretamente relacionado ao sentimento de inclusão e de pertencimento, quase como uma “prova social” de poder, que demonstra uma boa condição social e agrega status perante à sociedade.
A produção da carne vem gerando muitos questionamentos relacionados ao meio ambiente e à sustentabilidade, principalmente devido à quantidade de recursos naturais desprendidos para sustentar esse sistema.
O setor pecuário, conforme Schuck e Ribeiro (2018), é um dos principais responsáveis pela degradação ambiental, considerando o uso extenso de terras, o volume de recursos naturais e energéticos, e o reflexo sobre a produção de bilhões de toneladas de resíduos poluentes.
Nesse contexto, segundo Guerra e Cardoso (2017), perante às questões ambientais emergentes, relacionadas à necessidade de se repensar certas atitudes em prol da natureza, o consumo de proteína animal revela-se como uma prática contrária à sustentabilidade e “não se tratando apenas de uma questão de bem estar animal, mas sim, de ordem humanitária, que pode interferir na vida das presentes e futuras gerações” (GUERRA; CARDOSO, 2017, p. 11).
Para Schuck e Ribeiro (2018) os impactos ambientais da atividade humana estão intimamente relacionados com nossos hábitos de consumo, principalmente nossos hábitos alimentares. Elas afirmam que quase seis bilhões de animais são abatidos por ano apenas no Brasil, e que para sustentar esse sistema, utiliza-se uma determinada quantidade de terra, água, alimento e energia, ao passo que também produz-se uma quantidade significativa de dejetos e emite-se, direta e indiretamente, poluentes que serão dispersados pelo solo, ar e água.
A pecuária está associada à emissão de gases de efeito estufa, segundo Schlickmann e Schauman (2017), já que as queimadas são utilizadas como mecanismo de desmatamento, para abertura de pastos e campos para o cultivo de alimentação para o gado. Conforme Schuck e Ribeiro (2018), hoje na Amazônia cerca de 70% da área desmatada é usada como pasto, e grande parte do restante é ocupada para produzir ração. Porém, para Rodrigues (2012), a grande maioria das pessoas não relaciona o consumo de carne e a pecuária ao problema de desmatamento da Amazônia, por exemplo, por falta de informação ou pelas informações distorcidas promovidas pela mídia, talvez por interesses pessoais ou ligados aos produtores pecuaristas.
De acordo com dados de um relatório da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2013):
Com emissões estimadas em 7,1 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2-eq) por ano, representando 14,5% das emissões de gases do efeito estufa induzidas pelo homem, o setor pecuário desempenha um papel importante nas Alterações Climáticas. A produção de carne e leite bovino responde pela maioria das emissões, respectivamente, contribuindo com 41 e 20 por cento das emissões do setor. Enquanto a carne de porco e de aves e ovos contribuem, respectivamente, com 9% e 8% para as emissões do setor. (...) A produção e processamento de ração, e a fermentação entérica de ruminantes ‘advindos da digestão do gado', são as duas principais fontes de emissões, representando 45 e 39% das emissões do setor, respectivamente. O armazenamento e processamento de estrume representam 10 por cento. O restante é atribuível para o processamento e transporte de produtos de origem animal (GERBER et al., 2013, p. 13).
Além da emissão de gases de efeito estufa, e dos problemas referentes ao desmatamento e a excessiva emissão de dejetos decorrentes da criação dos animais, Pazzini e Sparemberger (2015) complementam que também existe o exorbitante consumo de água.
Sabe-se em geral, que a pegada hídrica do setor é altíssima, podendo ser necessário, segundo Hoekstra e Mekonnen (2012, apud SCHUCK; RIBEIRO, 2018 p.19), o uso de dez a vinte mil litros de água para produzir apenas um quilo de carne bovina, sendo que a maior parte é destinada para os cultivos da alimentação do gado e que “o setor agropecuário é responsável por mais de 90% do consumo global de água, onde um terço disso, pelo menos, se destina principalmente à irrigação e ao crescimento de cultivos para produzir ração” (HOEKSTRA E MEKONNEN, 2012, apud SCHUCK; RIBEIRO, 2018, p. 19).
Sordi (2013) argumenta que uma vez que os animais são alimentados com grãos que nós também comemos, como a soja e o milho, eles tornam-se nossos comensais, e, em tempos de crise ecológica e nutricional, isto implica dividir com eles uma parte da produção de cereais. Para o autor, "é exatamente a partir deste ponto que os críticos da carne desenvolvem uma narrativa segundo a qual o consumo e a produção de carne são geradores de fome, desigualdade social e desequilíbrios ambientais” (SORDI, 2013, p. 89).
Nesse cenário, Pazzini e Sparemberger (2015), questionam se ao invés de alimentar animais para que estes venham a servir de alimento aos privilegiados que podem pagar, se não seria melhor fazer com que os vegetais servem diretamente à população, diminuindo drasticamente a fome no mundo, com um custo econômico e ambiental muito abaixo do praticado hoje? E completam que “a estimativa é de que metade dos grãos produzidos no mundo sejam utilizados na alimentação dos animais para consumo, enquanto cerca de 870 milhões de pessoas não têm o que comer” (PAZZINI; SPAREMBEGER, 2015, p. 273). Sordi (2013) conclui que para produzir-se um quilo de carne, é preciso utilizar-se de muitos quilos de cereal e muitos mais litros de água, demonstrando portanto, a inviabilidade desse sistema.
É possível perceber com clareza que o setor pecuário tem uma enorme responsabilidade sobre as emissões de gases do efeito estufa, emitindo poluentes do solo, do ar e da água, sendo um potencial colaborador das mudanças climáticas, impactando toda a biodiversidade. Além disso, entende-se que o número de pessoas em situação de fome no mundo, poderia ser drasticamente reduzido, caso os alimentos destinados ao consumo dos animais, fosse direcionado diretamente às pessoas.
Conforme as consequências dos meios de produção da pecuária citados no tópico anterior, as questões ambientais tornam-se evidentes. Há uma necessidade em se remanejar esse sistema, de forma que o ser humano continue a ter suas necessidades supridas, porém, reduzindo a agressão à biodiversidade do planeta, preservando a vida. Na verdade, de acordo com Guerra e Cardoso (2017), faz-se necessária uma mudança de caráter cultural e social, de modo que o ser humano conceba o meio ambiente como um bem de todos. Tendo assim, uma cultura de práticas sustentáveis em prol de um bem comum a todos, a natureza.
É válido ressaltar que ao longo do tempo o homem adaptou-se a um estilo de vida mais refinado, e que para continuar desfrutando de tudo o que está acostumado, a natureza também precisa estar em equilíbrio, ou então faltarão até mesmo recursos básicos. Para Schuck e Ribeiro (2018), o custo total de qualquer produto não é representado apenas pelo preço praticado no mercado. Além dele, existem custos sociais, culturais, estéticos, morais, entre outros, sendo que a maioria desses, ainda é desconhecida pela população. Entre eles está o custo ambiental relativo à exploração de animais para consumo, por exemplo.
Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas, 2019), estima-se um aumento da população mundial equivalente a 2 bilhões de pessoas para os próximos 30 anos, devendo chegar a 9,7 bilhões de pessoas em 2050, gerando uma demanda de consumidores que tornar-se-á insustentável para o setor pecuário. Desse modo, conforme Pereira et al. (2011), a expansão da produção de carne bovina mundial está diante de obstáculos, derivados da impossibilidade de ampliação das áreas de pastagens, dada a limitação de terras e remoção da vegetação natural. Por essa razão, existe a necessidade da adequação da alimentação e do uso das novas tecnologias a fim de otimizar esse mercado, de uma forma onde as pessoas que consomem carne (por prazer ou por status), possam continuar fazendo, ainda que através de uma carne de origem vegetal.
Para Guerra e Cardoso (2017) o próprio consumo de proteína animal, enquanto impulsionador da pecuária, é um hábito que prejudica a harmonia entre as espécies, o bem estar animal e o ecossistema, pois, ocorre que a ordem cultural instaurada conduz à máxima exploração dos recursos naturais, em atendimento à ótica consumista.
Portanto, compreende-se que as atuais formas de produção e consumo estão esgotando os recursos naturais do planeta, e que existe para a indústria o desafio de promover novas tecnologias, a fim de contornar os níveis de degradação do meio ambiente. Além disso, a população precisa estar ciente quanto à utilização dos recursos naturais que ocorrem nos meios de produção, para que haja maior interesse em transformar seus hábitos de consumo alimentar em prol de um bem comum: a preservação ambiental.
A necessidade por inovação no setor pecuário, reflete no desenvolvimento de novos produtos mais sustentáveis. O principal objetivo é encontrar soluções para atrair o público que consome carne, mesmo sem precisar criar animais para abate. Já existem estudos e testes sendo realizados para a produção de carnes criadas em laboratório, a partir de células de tecidos de animais, as quais são chamadas de carne cultivada. Segundo o GFI (The Good Food Institute, 2020) esta é uma nova frente tecnológica que deverá chegar ao mercado em breve, com o intuito de fazer alimentos idênticos aos que são consumidos atualmente, porém através do cultivo direto de células, sem a necessidade de abater animais, utilizando técnicas de reprodução de tecidos em laboratório para obtenção de comida.
Além da carne cultivada, percebe-se uma expansão no setor de carnes vegetais. Para Cavalheiro et al. (2018), o mercado enxerga um potencial para explorar e estabelecer relacionamentos com o público vegano e vegetariano, carente de produtos que sanem suas necessidades, raramente atendidas pelo mercado convencional. Muito embora as proteínas vegetais não sejam destinadas diretamente a este público, uma vez que essa parte da população já eliminou a carne da sua rotina alimentar. Nesse contexto, conforme Sant’Ana (2008), entende-se que o público vegetariano seja consciente quanto aos meios de produção da carne, indo além dos limites culturais relativos às possibilidades de escolha da população. Sendo assim, esses produtos têm sido desenvolvidos com intenção de atingir especialmente o público não vegano e não vegetariano, para que essas pessoas compreendam que podem sentir o sabor e textura muito similares a carne, e até mesmo com diferenças imperceptíveis ao paladar, em uma alternativa sustentável ao consumo de produtos ao qual já estão culturalmente apegados.
De acordo com Bushnell (2020) as empresas estão projetando essa próxima geração de alimentos para carnistas, e não apenas para aqueles que já aderiram a uma dieta livre de produtos de origem animal. O conceito do que é “carne” está sendo repensado para fornecer a estes indivíduos a mesma experiência sensorial que eles conhecem e amam, mas produzida de uma maneira melhor e sustentável. Esse momento de inovação está recriando cada componente da carne, combinando aminoácidos, lipídios, minerais e água a partir de fontes vegetais, trazendo uma definição moderna de carne, que agora pode ser aplicada tanto para carne de origem animal, quanto para carne de origem vegetal (plant-based).
Quanto à aceitação do público, uma pesquisa do IBOPE Inteligência (2018) revelou que no Brasil, há um crescimento no interesse por produtos livres de ingredientes de origem animal na população em geral: 55% dos entrevistados, sendo 65% nas capitais. Para a SVB (Sociedade Vegetariana Brasileira, 2018) um dos fatores que impulsiona o interesse da população é justamente relativo à preocupação crescente com os impactos de seus hábitos de consumo, dentre as quais, o impacto ambiental negativo da pecuária e a indignação com as condições de vida impostas aos animais usados nos processos de produção.
Conforme o GFI (2018), as alternativas vegetais às proteínas de origem animal já são uma realidade mundo afora. Países como os Estados Unidos possuem um mercado de proteínas alternativas bem estruturado, que já gera mais de 3 bilhões de dólares por ano, e pesquisas preveem que esse mercado chegará a valer 6,4 bilhões de dólares até 2023 globalmente. Nesse cenário, conforme o autor, o Brasil já é considerado o 5° maior mercado de alimentos e bebidas saudáveis no mundo, com crescimento de 20% ao ano enquanto a média global é de 8%. Para Byrd (2018) todos têm o poder de levar o sistema alimentar para as proteínas limpas e para longe da pecuária industrial, ao simplesmente colocar mais proteínas vegetais no prato e mostrar à indústria de carne que as pessoas querem opções mais saudáveis e sustentáveis.
Portanto, verifica-se que esse é um desafio que a indústria já pode superar, com excelentes estimativas de crescimento para os próximos anos.
A dimensão dos efeitos das queimadas para abertura de pastos, da escassez da água e do uso de recursos básicos mal geridos visando apenas o lucro no curto prazo estão apenas no começo. O mercado pecuário tem ultrapassado os limites da razão: tornou-se mais importante lucrar em cima desses recursos, do que preservar a biodiversidade do planeta – o que de fato é um grande equívoco, ao passo que ao longo prazo, essa cadeia de produção não se sustentará.
Nesse contexto, precisa haver conscientização e conhecimento da população sobre a importância da mudança dos hábitos enraizados na nossa cultura, para que essa ocorra com naturalidade, aceitação e entendimento sobre os motivos do surgimento do mercado de proteínas alternativas em prol da sustentabilidade, uma vez que o setor promete manter características de sabor e textura muito similares à carne animal, nos novos produtos.
De tal modo, pode-se complementar que países que não estiverem dispostos a abrir caminho para essas novas tecnologias, oferecendo subsídios além da pecuária tradicional para este novo modelo de indústria, em um futuro próximo, poderão sofrer um encolhimento significativo na economia relativo à produção de proteínas, considerando o fato de que globalmente, caminha-se para uma redução de consumo da carne produzida conforme os moldes do mercado pecuarista atual.
Portanto, o momento é favorável a investimentos no setor de proteínas alternativas, e assim, as empresas gastronômicas poderão utilizar dessa demanda como uma oportunidade de negócio, que além de sustentável, é um diferencial competitivo crescente no mercado, com um considerável potencial econômico.
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