ISABELA CAROLINA WEBER LEAL¹
CAROLINA GALVÃO SARZEDAS²
A gestão da qualidade é ampla e extremamente completa, portanto, através das suas ferramentas atrai normas, certificações, acreditações, entre outros. E no ambiente hospitalar não seria diferente, por isso o presente artigo tem por objetivo mostrar as ferramentas de qualidade utilizadas na Gestão da Qualidade, abordar o trabalho da enfermagem e seu contato direto com o paciente, através da sistematização da assistência em enfermagem. O presente estudo, ainda, analisa as etapas e processos da SAE considerando-a uma ferramenta da qualidade, a fim de colaborar para obtenção de acreditação e certificações para empresas hospitalares. O trabalho foi realizado utilizando a pesquisa bibliográfica exploratória, por meio de livros e artigos científicos sobre o tema. De acordo com os resultados encontrados, o serviço pode obter acreditação hospitalar se realizar a SAE e o PE, conforme o Conselho Federal de Enfermagem aborda.
Ferramentas da Qualidade; Enfermagem; Gestão; Cuidado.
¹ Pós-graduada em Gestão da Qualidade em Saúde pelo Centro Universitário Cesumar – UniCesumar. Enfermeira pela Faculdade de Apucarana e tecnóloga em Gestão da Qualidade pelo Centro Universitário Cesumar – UniCesumar.
² Doutora em Ciências (Química Biológica) pela UFRJ, mestre em Ciências Biológicas pela UFRJ, bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
A qualidade passou a ser propriedade essencial nos cuidados em saúde, o que se faz ideal para construir um sistema de gestão da qualidade nos serviços hospitalares, necessitando de certificação, acreditação, licença, inspeção e regulação. (MORANTE; FERREIRA, 2017).
Segundo Souza (2018), as ferramentas de gestão de qualidade são imprescindíveis para implementar um Sistema de Gestão de Qualidade. Dentre as ferramentas de gestão de qualidade mais utilizadas nas instituições acreditadas pode-se citar: diagrama de causa e efeito e brainstorming, fluxograma, 5W2H e procedimento operacional padrão. (RODRIGUES; LAGE, 2015).
Toda pessoa que busca algo, um serviço ou atendimento, preocupa-se com a eficácia e resolutividade do mesmo. Ou seja, em todo o momento procura-se qualidade no que se está comprando, investindo ou utilizando. Dessa forma, os conceitos que a gestão de qualidade traz, estão vinculados às metas, objetivos, melhoria contínua, envolvimentos das pessoas, e claro, à satisfação do cliente. (PARDO, 2016).
Dessa forma, o profissional enfermeiro está capacitado para realizar uma Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) informatizada através do processo de enfermagem, garantindo cuidado, assistência e qualidade?
Pretende-se mostrar através desse estudo a necessidade da sistematização da assistência de enfermagem no ambiente hospitalar. O trabalho almeja que a atuação do enfermeiro seja correta e de extrema excelência e cuidado ao paciente, dando-lhe uma qualidade de atendimento no serviço prestado.
Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica, por meio de busca eletrônica, base de dados online, livros e publicações científicas. Com o objetivo de pesquisar as formas de implementação da SAE no ambiente hospitalar, analisar a qualidade de assistência que o enfermeiro presta ao paciente e compreender a SAE como uma ferramenta da qualidade.
Pardo (2016) aborda que o gestor deve conhecer ferramentas e métodos, a fim de promover uma melhoria contínua, aonde irá envolver as pessoas, clientes e satisfação dos mesmos, atingindo os objetivos e metas.
Em relação à avaliação da qualidade dos cuidados prestados nos serviços de saúde, tem-se Avedis Donabedian, professor em Michigan – Estados Unidos, que propôs sete pilares: aceitabilidade, efetividade, eficácia, eficiência, equidade, legitimidade e otimização. (MORANTE; FERREIRA, 2017 apud. DONABEDIAN, 2001).
Portela (2000) traz que dos sete atributos, três apresentam especial interesse para um controle de qualidade em saúde, sendo eles eficácia, eficiência e efetividade. Assim, a eficácia é o melhor resultado do cuidado, na melhor situação que se encontra. A eficiência é o resultado supremo diante do custo mais baixo e acessível, enquanto a efetividade traz o verdadeiro resultado obtido na situação. (MORANTE; FERREIRA, 2017).
Seguindo o mesmo pensando, Chatalov (2017) mostra que a aceitabilidade busca suprir as expectativas dos envolvidos; a equidade é a distribuição justa na distribuição dos benefícios; a legitimidade é o que atende às expectativas da comunidade, em conceitos e valores morais; por fim, a otimização é o ponto que irá considerar o custo e o tempo.
Em busca da qualidade, com a evolução dos estudos, processos, produtos, serviços, pode-se ver que há sete ferramentas que facilitam a gestão de qualidade, sendo elas: fluxograma, diagrama Ishikawa, folha de verificação, diagrama de Pareto, histograma, diagrama de dispersão e cartas de controle. (FRANCO, 2017).
Brevemente vê-se que o diagrama de causa e efeito, Ishikawa ou espinha de peixe é simplesmente uma representação de forma gráfica, onde permite acoplar as informações, a fim de identificar pequenos problemas que podem se tornar grandes. Já o brainstorming é uma chuva de ideias onde se busca inovações e soluções para os problemas, podendo ser estruturada ou não. (FRANCO, 2017).
Carvalho e Paladini (2012) trazem que o fluxograma é útil nas atividades de programação computacional, onde através da sistematização irá registrar a sequência de atividade e evento, para possivelmente reconhecer as falhas.
Portanto, a técnica/matriz 5W2H (What, Who, Where, When, Why, How e How Much), faz uso de perguntas, com a finalidade de coordenar os problemas, analisar as respostas e solucionar as barreiras. (FRANCO, 2017 apud. SELEME e STADLER, 2012).
A autora, Franco (2017) ainda mostra que adjunto às ferramentas de qualidade, tem-se as Normas ISO (International Organization for Standardization), onde no Brasil é representada pela entidade Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT). Adicionalmente, há a ISO 9000 “um conjunto de normas que delimita uma referência de gestão da qualidade que pode ser praticado por qualquer organização”.
A ISO 9000 também apresenta sete princípios para implementação e operação do sistema, a partir de: foco no cliente, liderança, comprometimento da equipe, processo de abordagem, melhoria, decisão baseada em evidências e gestão de relacionamento (FRANCO, 2017).
Pardo (2016) aponta que através do caráter voluntário essa certificação é uma atividade que será tanto mais aceita quanto maior for a credibilidade de quem a testa. Portanto:
A partir dessa norma, a ISO criou um procedimento de certificação de sistema da qualidade, o certificado ISO 9001, que as empresas obtêm por meio de um processo de auditoria de certificação, é um documento emitido por um organismo independente (terceira parte) que testa que o sistema produtivo da empresa está capacitado para gerenciar o atendimento de requisitos dos clientes. (PARDO, 2016 apud. CARPINETTI, 2012, p. 49).
Chatalov (2017) apud. Luongo et al. (2011), trazem que a qualidade caminhou sempre com as atividades das organizações de saúde, pois os objetivos desses serviços são prevenção, proteção, reabilitação e promoção. E que ainda a Organização Mundial da Saúde (OMS) define que a qualidade de atendimento é proveniente de uma série de fatores: alto nível de excelência profissional, grau de satisfação, uso dos recursos e minimização de riscos.
De acordo com Carpinetti e Gerolamo (2016) as finalidades das normas ISO são:
Desenvolver produtos eficientes e favorecer o comércio;
Proporcionar base técnica em saúde e compartilhar tecnologias;
Difundir inovações, proteger consumidores e simplificar a vida com soluções.
Certamente, a certificação ocorre por meio de entidade reconhecida, sem vínculo com a parte interessada, onde manifestará a conformidade da empresa, processo e produto (nesse caso, paciente), mas com requisitos pautados em normas e especificações técnicas (CHATALOV, 2017).
Chartalov ainda cita que a acreditação é o impulso à melhoria da qualidade, pois a empresa recebe julgamento total de independência, de acordo com os critérios. O processo de acreditação avalia o hospital como um todo, o funcionamento propriamente dito, o cuidado direto ao paciente, gerenciamento e todos os demais serviços. Ainda assim, essa avaliação serve de método comparativo para garantir melhoria contínua e desempenho total.
O Procedimento Operacional Padrão (POP) é um documento que descreve como uma atividade deve ser exercida ou realizada, de forma detalhada e sequencial. Sendo um procedimento técnico, uniforme para toda a instituição, podendo ser alterado quando necessário e tendo sua nova edição registrada (SOUZA, 2018).
O POP é o mais conhecido e utilizado nos serviços hospitalares, por ser fácil de realizar, manusear e atualizar, onde todos os setores conseguem participar, e possui acesso direto com a enfermagem, a qual auxilia na assistência do paciente.
Nesse processo de cuidado com o paciente, está a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que conforme a resolução 358 “organiza o trabalho profissional quanto ao método, pessoal e instrumentos”. A mesma resolução traz que “o processo de enfermagem é um instrumento metodológico que orienta o cuidado profissional da enfermagem e a documentação da prática profissional” (COFEN, 2009). Dessa forma a SAE organiza para que o processo de enfermagem (PE) seja possível de se realizar dentro de uma instituição hospitalar.
O PE teve início entre 1955 a 1961 com Lydia Hall e Ida Orlando, Wanda de Aguiar Horta em 1979 escreveu um livro e em 2002 houve a resolução 272, que foi extinta após a resolução 358 de 2009 (COFEN, 2009).
Horta (1979) traz um trabalho profissional específico com ações dinâmicas para sua realização, com métodos e ações determinadas, pautadas em um sistema de valores, crenças morais e principalmente o conhecimento técnico-científico.
Ainda segundo Horta, a SAE organiza o trabalho profissional, isto é, quando o PE é o próprio trabalho profissional, as ações dinâmicas e inter-relacionadas, formam um instrumento metodológico. Além disso, constituiu seis passos/fases que direcionam esse serviço, sendo elas: histórico de enfermagem, diagnóstico, plano assistencial, plano de cuidados, evolução e prognóstico. Garantindo então que o paciente seja visto como indivíduo – pessoa, como família e também, como coletividade (HORTA, 1979).
Diferentemente do que Horta traz em seus estudos, o COFEN (2009) traz a Resolução 358 do mesmo ano:
Art. 1º O Processo de Enfermagem deve ser realizado, de modo deliberado e sistemático, em todos os ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem.
§ 1º – os ambientes de que trata o caput deste artigo referem-se a instituições prestadoras de serviços de internação hospitalar, instituições prestadoras de serviços ambulatoriais de saúde, domicílios, escolas, associações comunitárias, fábricas, entre outros.
§ 2º – quando realizado em instituições prestadoras de serviços ambulatoriais de saúde, domicílios, escolas, associações comunitárias, entre outros, o Processo de Saúde de Enfermagem corresponde ao usualmente denominado nesses ambientes como Consulta de Enfermagem. Art. 2º O Processo de Enfermagem organiza-se em cinco etapas inter-relacionadas, interdependentes e recorrentes.
Segundo o COFEN, as cinco etapas do Processo de Enfermagem da atualidade são organizadas em coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação da assistência e avaliação (COFEN, 2009).
Sendo assim, o COFEN (2009) aborda que a coleta de dados é aquela que obtém informações sobre a pessoa, coletividade, família e todo o processo saúde/doença. O diagnóstico é a junção de todos os dados com a interpretação dos mesmos, a serem pautados em intervenções almejando resultados positivos. O planejamento de enfermagem é determinar os resultados esperados, identificados anteriormente. A implementação é concretizar as ações e, por fim, tem-se a avaliação.
A quinta etapa do PE, denominada avaliação de enfermagem é aquela que alcança os resultados esperados, manifesta as intervenções e analisa se é necessário realizar alguma mudança.
Processo deliberado, sistemático e contínuo de verificação de mudanças nas respostas da pessoa, família ou coletividade humana em um dado momento do processo saúde doença, para determinar se as ações ou intervenções de enfermagem alcançaram o resultado esperado; e de verificação da necessidade de mudanças ou adaptações nas etapas do Processo de Enfermagem (COFEN, 2009).
O artigo sexto da mesma resolução cita que a execução do PE deve ser registrada formalmente, isto é, “os resultados alcançados como consequência das ações ou intervenções de enfermagem realizadas”.
É evidente que a necessidade do preenchimento correto desse material, a fim de obter uma resposta do trabalho realizado, traz resultados positivos e eficazes para a continuidade do cuidado prestado, ou seguir em busca de uma melhoria para esse paciente.
Rosaneis (2015, p. 2) diz que
Estudos sobre indicadores que avaliam a qualidade e desempenho dos serviços de enfermagem vêm ganhando destaque nos modelos de avaliação.
A avaliação da qualidade do cuidado de enfermagem por meio de indicadores deve ser utilizada como instrumento para os profissionais da saúde visando melhoria da assistência prestada, ao mesmo tempo em que consiste numa das formas de compreender a qualidade desse cuidado (CALDANA, et al., 2013).
Nesse estudo foi possível identificar a gestão da qualidade em saúde de uma forma ampla em todos os serviços, principalmente no ambiente hospitalar e uni-la ao trabalho da enfermagem. Pois até os princípios de implementação da ISO 9000 possuem o mesmo raciocínio que o processo de enfermagem aplica.
A equipe de enfermagem possui um trabalho essencial para que um hospital funcione, ou seja, sem a equipe completa de enfermagem, não há assistência e cuidado direto.
Portanto, vê-se a necessidade de vincular a Sistematização da Assistência de Enfermagem e o Processo de Enfermagem com a gestão de qualidade no ambiente hospitalar. Pois sem dúvida a SAE é uma ferramenta de gestão de qualidade, nesse caso vinculado ao serviço hospitalar, no cuidado e assistência prestada ao paciente.
Dessa forma, se comprovada como ferramenta da qualidade, o serviço pode obter acreditação hospitalar se realizar a SAE e o PE, conforme o Conselho Federal de Enfermagem aborda.
Certamente, acoplando esses serviços, trazendo melhorias ao controle de qualidade da empresa – hospital, retorno dos cuidados prestados ao paciente, e estando sempre voltado para as certificações e acreditações, a gestão de qualidade em saúde terá melhorias visíveis e de extrema excelência.
CALDANA, Graziela, et al. Avaliação da qualidade de cuidados de enfermagem em hospital público. Londrina, PR: UEL, 2013.
CARPINETTI, L. C. R.; GEROLAMO, M. C. Gestão da Qualidade ISO 9001:2015. São Paulo, SP: Atlas, 2016.
CARVALHO, M. M. de; PALADINI, E. P. Gestão da Qualidade: Teoria e casos. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier: ABEPRO, 2012.
CHATALOV, Renata Cristina de Souza. Normas e Processos de Certificação. Maringá, PR: UniCesumar, 2017.
Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução n. 358 de 15 de outubro de 2009. Brasília, DF: COFEN, 2009.
FRANCO, Jheine Oliveira Bessa. Ferramentas da Qualidade e Seis Sigma. Maringá, PR: UniCesumar, 2017.
HORTA, Wanda de Aguiar. Processo de Enfermagem. São Paulo, SP: EPU, 1979.
MORANTE, Jovelina Guimarães Borges; FERREIRA, Adriana Queiroz Palmieri. Acreditação Hospitalar I. Maringá, PR: UniCesumar, 2017.
PARDO, Paulo. Gestão da Qualidade. Maringá, PR: UniCesumar, 2016.
PORTELA, Margareth Crisóstomo . Avaliação da qualidade em saúde. Rio de Janeiro, RJ: FIOCRUZ, 2000.
RODRIGUES, A. C.; LAGE, M. L. C. Utilização de Sistemas, Técnicas e Ferramentas de Gestão da Qualidade em Organizações de Saúde Acreditadas no Brasil. RAHIS, 2015.
ROSSANEIS, Mariana Angela, et al. INDICADORES DE QUALIDADE DA ASSISTÊNCIA: OPINIÃO DE ENFERMEIROS GERENTES DE HOSPITAIS DE ENSINO. Londrina, PR: UEL, 2015.
SOUZA, Renata Cristina de. Garantia da Qualidade e Certificações. Maringá, PR: UniCesumar, 2018.