JUSSARA DE PINHO COSTA¹
LIANA GOMES NETTO²
O Serviço Social é institucionalizado no Brasil no auge do desenvolvimento industrial nos períodos de supervalorização do capital, e o Assistente Social surge como um profissional mediador das relações sociais. Diante disto, espera-se com esta pesquisa envolver o leitor na compreensão da cultura do trabalho e nas relações sociais de trabalho na atualidade, e trazer o conhecimento das especificidades do Assistente Social a sua prática, e pensar na contribuição e relevância que este profissional tem para atuar nestes espaços.
Serviço Social; Relações Sociais; Empresas Privadas.
¹ Graduada em Serviço Social, Unifamma.
² Mestre, professora orientadora, conteudista e mediadora da pós-graduação EAD Unicesumar
Em suas particularidades profissional, o Assistente Social é qualificado para atuar frente as relações de conflitos existentes nos meios de produção e garantir condições que possam favorecer o bem estar e qualidade de vida dos trabalhadores, no entanto, é importante conhecermos a cultura do trabalho e explorar as condições das relações de trabalho para identificar as possíveis demandas para este profissional e a sua práxis profissional para atender este mercado como um espaço a ser ocupado por ele.
Tendo em vista que o Assistente Social atua no campo das relações sociais, e que essas relações estão presentes no dia a dia do ser humano e se estende para uma jornada de trabalho de 08 horas ou mais, inserindo-os em relações interpessoal no ambiente de trabalho, é importante o entendimento sobre possíveis conflitos existentes nestes espaços, em quais condições atuam os trabalhadores e quais as possíveis questões sociais podemos apreender?
O desejo pela pesquisa bibliográfica surgiu a partir de uma experiência de trabalho numa empresa privada, no qual foi realizado um trabalho de diagnóstico social e planejamento para avanços na qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores no ambiente de trabalho, alcançando também seus familiares. E foi observado algumas condições nestas relações, que são possíveis demandas para a atuação dos Assistentes Sociais e a relevância deste profissional nestes espaços, no qual serve de interesse para o estudo.
Desta forma, o objetivo deste trabalho é compreender a partir de pesquisa bibliográfica sobre a cultura de trabalho nas empresas privadas, as condições dos trabalhadores no século XXI, e a importância dos Assistentes Sociais atuando nesses espaços a partir do seu saber técnico e teórico considerando a sua ética profissional e o Projeto Ético Político da profissão.
Para a compreensão da construção social do indivíduo e as suas relações sociais, é fundamental discorrer sobre o conceito do “trabalho” e o que surge no seu cotidiano a partir dessas relações de trabalho. Iamamoto (2008) sugere que o homem é construído a partir da sua atividade laboral, e é da sua natureza criar condições para sobrevivência, e o trabalho é o meio utilizado para produzir, criar e suprir as necessidades humana,
O trabalho é uma atividade fundamental do homem, pois mediatiza a satisfação de suas necessidades diante da natureza e de outros homens. Pelo trabalho o homem se afirma como um ser social e, portanto, distinto da natureza. O trabalho é a atividade própria do ser humano, seja ela material, intelectual ou artística. É por meio do trabalho que o homem se afirma como um ser que dá respostas prático-conscientes aos seus carecimentos, às suas necessidades (IAMAMOTO, 2008, p. 60).
No entanto, o trabalho gera conhecimento e aprendizado ao homem, e por meio dele, constrói a sua relação com o mundo e com as pessoas para dar um significado a sua vida, e em cada período histórico, ele se reinventa para conseguir evoluir concomitante às suas necessidades, e se ajusta para viver culturalmente toda a transformação deste processo. Se no início da existência humana, o homem usava o trabalho para desenvolver instrumentos apenas para garantir a sua provisão, após algumas mudanças históricas da qual não vamos conseguir nos estender nesta pesquisa, podemos dizer que, no contexto atual, o homem vende a sua força de trabalho para o mercado, e a partir dele garante também a sobrevivência (MARTINELLI, 2007).
Porém, o trabalho deixa de ser apenas um meio para criar condições de suprir as necessidades individuais, mas também, determina uma mudança significativa do “ser”, porque o mercado capitalista é o responsável por definir a cultura, a política e a economia, sobretudo, as relações sociais. Conforme Iamamoto e Carvalho (2011), o modo de produção capitalista determina o modo de vida, do cotidiano e dos valores culturais dos indivíduos a partir das relações sociais, e que toda essa relação o faz dependente da venda da sua força de trabalho deste sistema.
A realidade do trabalho a partir do modo de produção capitalista é uma ilusão para uma grande massa que não consegue ser incluído no mercado de trabalho, principalmente com o avanço tecnológico que substitui o trabalho humano por máquinas, e inaugura uma imensa população desempregada e totalmente dependentes do Estado, da sociedade civil e outros setores, para garantir o mínimo para subsistência, e é neste cenário que surgem os Assistentes Sociais, para contribuir com o enfrentamento das refrações da questão social crescente e que estão expressados em fome, miséria, desemprego, violências, alcoolismo dentre outros, que vão surgindo conforme gerado pelo conflito capital x trabalho.
Neste contexto de conflitos e aumento da questão social, o Assistente Social surge inicialmente para garantir a organização da classe trabalhadora de modo que sejam ajustados para atender as necessidades do mercado, como trata Iamamoto e Carvalho, (2006, p. 209)
O Assistente Social, ao mesmo tempo em que deverá atuar no sentido de garantir ao trabalhador e sua família um nível de vida moral, físico e econômico normal, e a correta aplicação das leis trabalhistas, deverá combater o absenteísmo, o relaxamento no trabalho, velar pela moralidade, promover a conciliação nos dissídios trabalhistas e adaptar o trabalhador a sua função na empresa.
Desta forma, o Assistente Social exercia a função de mediador para atender as necessidades de sobrevivência dos trabalhadores e garantir que não houvesse nenhuma ameaça de lutas e greves, e assim, educá-los para a conscientização da importância do trabalho e da colaboração deles para o desenvolvimento industrial. E é nessa condição que o profissional do Serviço Social se constrói para a sua atuação, e a partir de cada desafio enfrentado pelo Assistente Social, a sua prática profissional foi se renovando.
Para entender melhor a construção da identidade profissional do Assistente Social, é preciso salientar que as intervenções surgem seguindo as necessidades demandadas pelo modo de produção capitalista, e o empregador ditava as regras para a execução da sua prática profissional. Assim, é possível observar um avanço na prática profissional a partir da década de 1940, quando os Assistentes Sociais começam a participar de congressos no exterior e ter uma aproximação com outras ciências para ter bases técnicas de apoio a sua intervenção, sendo essas psicologia e sociologia (ANDRADE, 2008).
A prática profissional que emergiu o Assistente Social no Brasil foi assistencialista e de caridade seguindo a doutrina cristã que tinha por objetivo tratar a moral das pessoas, contudo, quando intensificam as expressões da questão social, a prática assistencialista não é suficiente para atender a demanda, e a partir da implantação de políticas sociais, o Estado passa a se tornar o maior empregador de assistentes sociais, regulamentando a profissão pelo Ministério do trabalho (YAZBEC, 2009) e exigindo um profissional mais tecnicista e qualificado para o atendimento da classe trabalhadora.
Alguns anos mais tarde, o Assistente Social ganha mais espaços sócio-ocupacionais e é solicitado para controle social e ajustamento dos trabalhadores para a sua inclusão nas empresas privadas. Portanto, para atender as expectativas da realidade do mercado neste período, a prática profissional do Assistente Social era funcionalista, uma ideologia com base nas teses de Mary Richmond, um modelo que “centrava-se na personalidade do cliente” (ANDRADE, 2008, p. 280), conhecida como Serviço Social de caso que tinha por objetivo fazer um diagnóstico social para então propor uma ação de ajustamento dos sujeitos que não se adequaram ao trabalho.
Assim, a superação da prática anterior teve apenas uma mudança em fazer diagnóstico social e ajustar aqueles trabalhadores que não cooperavam com o fluxo do trabalho.
No Governo de Juscelino Kubitschek, o Serviço Social atuava com os métodos DC (Desenvolvimento de Comunidade) e existia uma preocupação com o bem-estar social, e era um momento em que o desenvolvimento do País dependia da população, conforme abordou Iamamoto e Carvalho (2011, p. 365)
A preocupação central do que poderia ser caracterizado como projeto desenvolvimentista janista estaria na formação de uma nação forte, com um povo forte e uma economia globalmente forte. Desse eixo central decorre uma atenção especial ao social; a meta prioritária é o homem e não o crescimento econômico em si mesmo.
Nesta perspectiva de preocupação com a população, foi pautada a importância de cuidados com a saúde, alimentação e campanhas contra desnutrição infantil, e os Assistentes sociais eram os responsáveis pela execução destes trabalhos, e continuavam se especializando para atender as necessidades práticas que estavam sendo exigidas no momento.
A partir da ditadura militar em 1964, o Serviço Social foi avançando para uma renovação na sua identidade profissional, e este processo, foi muito marcado pelo rompimento com a visão conservadora, no qual o Assistente Social era apenas um executor de tarefas, e não se percebia como classe trabalhadora, não enxergavam as nuances que geram as expressões da questão social (NETTO, 2011).
Porém, apenas na aproximação com a corrente filosófica Marxista que apresentará um profissional mais investigativo e crítico para compreender além da realidade apresentada, ou seja, é preciso investigar as causas do desemprego, do absenteísmo, da fome, da violência e os problemas que surgem nas relações sociais e de trabalho interferindo diretamente na condição de vida dos sujeitos, conforme traz o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS, 2012), é importante ter clareza de que a análise sobre a questão social expressa uma realidade que se materializa na vida dos indivíduos.
Desta forma, a partir da renovação profissional, o assistente social atua para a garantia dos direitos, à liberdade e à emancipação dos indivíduos. Ele interpreta, investiga, analisa e decifra a realidade social, com intuito de propor soluções e trazer respostas para amenizar as expressões da questão social, e não trabalha apenas como um profissional executor de atividades, e conquista em 1993, o Projeto Ético Político e o código de ética profissional, que servem para nortear os profissionais e definir o ethos profissional do Serviço Social (BRASIL, 1993).
Como já tratamos, o Assistente Social sempre atuou nas empresas privadas, e em cada momento histórico do desenvolvimento do mercado, a sua prática profissional foi sendo moldada para atender as demandas que surgiam. Esse processo foi muito importante para construção da sua identidade e prática profissional, e aos poucos foi desenvolvendo capacidades de atuar em equipe interdisciplinares, realizar e executar projetos sociais, planejar políticas públicas, investigar realidades sociais e realizar intervenções para garantir o acesso aos direitos e as políticas públicas.
Nas empresas privadas, principalmente nas indústrias, o Assistente Social desenvolve uma função de mediador entre o empresário e operário, e as suas atribuições eram garantir o bom desempenho na produção. Frequentemente, era necessário desenvolver um trabalho não apenas com o operário, mas também com toda a sua família. Entretanto, o assistente social controlava a jornada de trabalho dos operários, administrava a segurança no trabalho, e exercia a função de gestão dos operários, conforme trata Iamamoto e Carvalho (2006, p. 209),
O assistente social ao mesmo tempo em que deverá atuar no sentido de garantir ao trabalhador e sua família um nível de vida moral, físico e econômico normal, e a correta aplicação das leis trabalhistas, deverá combater o absenteísmo, o relaxamento no trabalho, velar pela moralidade, promover a conciliação nos dissídios trabalhistas e adaptar o trabalhador a sua função na empresa.
A função de “organização” da classe trabalhadora para garantir a boa qualidade no trabalho, ainda é muito comum na prática profissional dos Assistentes Sociais nas empresas privadas. Mesmo não sendo o maior empregador do Assistente Social, as empresas contratam esses profissionais para atuar nos setores de Recursos Humanos, Gestão de Pessoas e segurança do trabalho (CFESS, 2012), porque supõem-se que as suas particularidades profissional de intervenção nas relações sociais, é um fator importante para dar respostas ao desenvolvimento dos trabalhadores, porém, ainda é muito desconhecido pelas empresas privadas a prática profissional do assistente social e como ele poderá trazer soluções para beneficiar os trabalhadores e as empresas com o seu saber técnico operativo e teórico metodológico.
O século XXI tem trazido algumas mudanças nas relações de produção, e os espaços de trabalho são o local onde as pessoas passam a maior parte do seu tempo, e muitos são os desafios para as empresas e os trabalhadores adequar-se à evolução tecnológica e as crises e contradições existentes dessas relações. Contudo, na atualidade, temos um novo modelo de organização e cultura nas empresas privadas, no qual as pessoas que formam a organização, são a peça fundamental para o crescimento da empresa, e têm criado setores para o desenvolvimento e gestão destes trabalhadores. Desta forma, tem aprendido que é lucrativo investir em pessoas para que através deles a organização seja bem-sucedida com os clientes (CHIAVENATO, 2010).
Para o acompanhamento e desenvolvimento destas pessoas, algumas organizações contratam os assistentes sociais, para ocupar cargos nos setores de Recursos Humanos, assessoria gerencial, e gestão de pessoas considerando a sua qualificação técnica em atuar nas relações sociais.
Entretanto, muitos são os desafios para os Assistentes Sociais, mesmo sendo um profissional liberal, deve ser norteado pelo código de ética e o projeto Ético Político, levando em conta, a garantia de direitos dos trabalhadores, a sua liberdade e o bem-estar.
De acordo com o CFESS (2012), o domínio do processo de planejamento; a competência no gerenciamento e avaliação de programa e projetos sociais, além da capacidade de negociação, conhecimento e know-how na área de gestão de pessoas, entre outros, devem-se somar às possibilidades de trabalho nos níveis de assessoria e consultoria para profissionais mais experientes e qualificados em determinadas áreas de especialização.
Mas, é importante salientar, que não temos uma definição sobre a prática profissional dos Assistentes sociais nas empresas privadas, porque este profissional precisa atender a perspectiva das entidades empregadoras, e cada organização dispõe de necessidades específicas, porém, é importante investir em capacitação e qualificar-se para atender as demandas do mercado de trabalho, e dar prioridade para conservar a identidade profissional nestes espaços e que estejam condizentes com a competência teórico metodológico, ético-político e técnico operativo do Serviço Social.
O Assistente Social é um profissional que surge para atender a demanda a partir das relações de produção, com objetivo de mediar conflitos existentes nessas relações, como também, para executar as políticas sociais que foram elaboradas com intuito de fortalecer o desenvolvimento econômico e industrial. Para isso, a prática profissional foi sendo moldada e elaborada a partir das exigências que esses processos de trabalho e as crises de relações de produção demandam. Nestes movimentos de construção da identidade, e prática profissional do Serviço Social, é possível observar que, a partir da década de 1980, com a renovação teórica metodológica da profissão, a prática investigativa e análise crítica voltada para a humanização e a emancipação do cidadão como um sujeito de direito, e a sua compreensão como parte da classe trabalhadora, foi um diferencial significativo para a profissão.
Tendo em vista, que o capitalismo sofre mudanças constantemente e envolve transformações principalmente nas relações de produção, é preciso reinventar-se para garantir a mão de obra, os clientes e a venda da força de trabalho, e é nesse contexto que as organizações têm percebido a importância de investir nos trabalhadores, apresentando um interesse no desenvolvimento humano, na responsabilidade social e na participação dos lucros, porém, não é um espaço ocupado pelo profissional do serviço social, e nos dias atuais, muitas organizações desconhecem as atribuições dos assistentes sociais.
Muito provável que perdemos esse espaço de trabalho devido a visão societária do projeto ético político, que afirma a superação do capitalismo, porém, talvez seja o momento de repensarmos que, o Assistente Social tem como objeto de trabalho a questão social, e o desemprego é uma das expressões da questão social, e este tempo em que vivemos de mudanças no mercado de trabalho, a inserção nestes espaços será um benefício para propor estratégias aos trabalhadores e garantir a sua permanência no mercado de trabalho, colaborando com a sua capacitação e qualificação, trabalhar com o seu desenvolvimento pessoal. Desta forma, o assistente social atuará nesses espaços com intuito de intervenções para inclusão, recolocação e humanização dos trabalhadores nas organizações.
ANDRADE, Ângela Rodrigues A. O metodologismo e o desenvolvimento no Serviço Social brasileiro: 1947 a 1961. Serviço Social & Realidade, Franca, v. 17,n.1, p. 268-299,2008.
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CFESS. Conselho Federal de Serviço Social. Atribuições privativas do/a assistente social em questão. Brasília, DF: CFESS, 2012.
CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.
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IAMAMOTO, Marilda Villela; CARVALHO, Raul. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 19. ed. São Paulo: Cortez,2006.
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MARTINELLI, Maria Lúcia. Serviço Social identidade e alienação. 16. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
NETTO, José Paulo. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós 64.16. ed. São Paulo: Cortez, 2011b.
YAZBEC, Maria Carmelita. Fundamentos históricos e teórico-metodológicos do Serviço Social. In: CFESS.ABEPSS. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília, DF: Unb, 2009b.p.125-139.