SOBRE OS CAMINHOS DE FERRO NO RIBATEJO

 

 (Texto publicado em 18 de Setembro pelo jornal “O Ribatejo”

  com o título: “A improvável estação do TGV em Rio Maior”.)

 

    Os jornais noticiaram, com base em informações da RAVE e da REFER, que iria ser construida em Rio Maior uma estação para comboios TGV .

    Penso que esta estação nunca virá a ser construida pelas razões que a seguir passo a expor, e que peço ao jornal “O Ribatejo” para publicar, como elementos de um debate sobre os Caminhos de Ferro que me parece urgente iniciar no distrito.

    Em Agosto de 2005 a RAVE adjudicou a um consórcio, por 4,3 milhóes de euros, o estudo de um troço de Pombal a Alenquer, com uma estação na Ota, da futura linha do Porto a Lisboa, destinada a comboios TGV de bitola europeia , sem ainda saber como é que esta linha entraria em Lisboa.

    A avaliação ambiental deste projecto não chegou, no entanto, a ser feita, porque teria de ser feita em conjunto com a avaliação ambiental do projecto do aeroporto da Ota, que nunca passou de um vago esboço.

    O estudo feito revelou, no entanto, desde logo, o inconveniente do trajecto proposto obrigar, na passagem entre as serras de Montejunto e dos Candeeiros, a declives demasiado elevados que o tornavam inconveniente para o trânsito de comboios de mercadorias.

    Posteriormente, as populações dos concelhos de Alcobaça e da Batalha aperceberam-se, também, de que a pasasagem dos TGVs nos seus concelhos lhes trariam significativos inconvenientes.

    A grande incógnita continuou, no entanto, a ser a de como é que a futura linha entraria em Lisboa, o que poderia obrigar a custos elevadíssimos.

 

    O que a RAVE agora aparentemente propõe é que o referido estudo (que tivemos de pagar) em vez de ser posto de lado, seja remodelado (o que obriga a novas despesas) para ter uma estação em Rio Maior em vez de na Ota.

    Assim a RAVE, que se dispos a construir uma linha com inconvenientes e custos elevadíssimos para fazer passar os TGVs no aeroporto da Ota, dispõem-se a fazer uma linha, com os mesmos inconvenientes e os mesmos custos, para fazer passar os TGVs numa estação em Rio Maior.

    O problema relaciona-se com o da TTT, terceira travessia ferroviária do Tejo.

    A decisão sobre a TTT não pode, obviamente, ser tomada sem, simultaneamente, ser decidida a saida de Lisboa da futura linha de bitola europeia para o Porto , que será a mais importante linha ferroviária portuguesa.

    Tem sido anunciada a construção de uma ponte para o Barreiro destinada aos comboios para Badajoz, para o Algarve, e para a navetes para o novo aeroporto, mas não para os comboios para o Porto, e foi igualmente anunciado que o Arquitecto Calatrava já foi contratado para ampliar a gare do Oriente de modo a ela poderem chegar os comboios vindos de Badajoz e dela partirem os comboios para o Porto.

     Mas, como seguirão para o Porto estes comboios saidos da Gare do Oriente?

   

     A proposta da Secretaria de Estado dos Transportes, da RAVE e da REFER parece ser a de que, à saida de Lisboa, estes comboios sigam pelo vale do Trancão.

     Ora, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimentos de Topografia que olhe a carta topográfica 1/50.000 editada pelo Instituto Geográfico Cadastral vê, imediatamente, que este trajecto teria custos gigantescos.

     Até agora, a RAVE e a REFER não tiveram a coragem de divulgar, nos seus site, o trajecto em que pensam desenhado numa carta com curvas de nivel.

     Espero que a Ordem dos Engenheiros se venha a interessar por este assunto.

     Penso, no entanto, desde já, que o projecto conjunto da ponte para o Barreiro, da ampliação da gare do Oriente, da saida dos comboios para o Porto pelo vale do Trancão, da passagem perto de Alenquer e estação em Rio Maior, passagem por entre as serras de Montejunto e Candeeiros e pelos concelhos de Arroiolos e Batalha, não é realizavel por ter vários inconvenientes e custos absolutamente inaceitaveis.

 

     Há outras soluções a estudar e, felizmente, não temos de tomar uma decisão imediata.

     O que temos de evitar são decisões precipitadas e soluções insuficientemente estudadas.

     Entre as soluções que já foram apontadas, há a da travessia ferroviária do Tejo ser feita na direcção do Montijo, podendo neste caso servir para os comboios para o Porto, e ainda, as soluções, incomparavelmente mais baratas, da travessia ser feita um pouco acima ou abaixo de Alverca.

     Em todos estes casos, a nova linha para o Porto seguirá pela margem Esquerda do Tejo, talvez, até perto da Chamusca.

     Faço notar que, neste caso, a nova estação de Santarém será na margem Sul, a vocação ferroviária do Entroncamente poderá ser mantida e poderá, talvez , ser evitada a duplicação da linha do Norte a Leste de Santarém.

     O distrito de Santarém é, assim, o distrito em que o futuro ferroviário mais depende das escolhas que vierem a ser feitas. Parece-me uma razão mais do que suficiente para os seus cidadãos se interessarem pelo assunto.

 

António Brotas
    Professor Jubilado do IST