D9

Recentemente vi uma cena dantesca se desenrolando em um grupo de whatsapp de uma empresa multimilionária: gestores pedindo para que subordinados atuassem em função distinta daquela contratada, em horários não contratados, de forma “voluntária” e agradecendo de antemão o “comprometimento” com a empresa. -Até aí é insano, mas relativamente frequente- o que me assustou, mais do que o plano cruzado 2, é as pessoas agradecendo efusivamente a “oportunidade” de contribuir, agradecendo a lembrança e alegremente caminhando para o cadafalso profissional…

Ser profissional é você possuir habilidades e receber por essas habilidades quando as executa. Faz parte do contrato social- não é ser mercantilista mas sim a essência de você exercer um ofício em sociedade e ser remunerado por isso. Simples assim. Não é feio ser pago por algo que você conquistou. Não é feio você ser pago por abdicar do seu tempo livre. Au contraire, é o natural.


Não receber por seu serviço pode ser louvável em situações de benemerência e certamente o é em situações humanitárias, mas executar serviços gratuitamente para empresas com lucros imorais e que lucrarão com o serviço profissional que você fez gratuitamente ( e saltitando de alegria) é assustador. É a corrente da felicidade plena que só aqueles em idiotia completa podem sentir.


E…what the hell this occurs in this goddam country???


23 a 28 de agosto de 1973, Estocolmo- Suécia. Nesse período ocorreu um assalto a banco, com reféns. No desenrolar as vítimas começaram a defender seus captores, inclusive após a “libertação” durante os processos judiciais.


Este fenômeno foi estudado e aventou-se a hipótese de que em situações de ameaça extrema, o pânico é tamanho que as pessoas se dissociam da realidade e buscam as menores coisas que possam se contrapor a ameaça. No caso do assalto, as vítimas identificaram qualquer gesto que não fosse ameaça como algo bom, mesmo que estivesse vindo de quem criou a ameaça- os sequestradores.


Então, por exemplo, a pessoa recebia um copo de água de um dos sequestradores, e imediatamente a vítima identificava aquilo como um contraponto a ameaça dissociando quem criou a ameaça do gesto gentil e se apegando a este contraponto. Como aquilo seria contra seu temor absurdo, a pessoa passa a defender mais daquilo. E o ato é antropoformizado na pessoa que o cometeu, sendo então “seu herói”. Louco, né? Pois é, o ser humano é.


Pois bem, sigamos.


Nas sociedades menos desenvolvidas, como o nosso patropi, o poder das oligarquias é muito presente no cotidiano pois as sociedades foram construídas na base do “jeitinho” do “favor” do “padrinho”.


Muitas vezes as próprias estruturas regulatórias das sociedades ainda estão em conluio com essas oligarquias e dessa forma não importará a sua habilidade em determinada área mas sim a sua capacidade de agradar as estruturas dominantes. E quem assim não o fizer, não poderá exercer suas habilidades profissionais independente de quão boa elas sejam pois o foco não é o “saber” mas sim “agradar” essas estruturas.


Então as pessoas se sentem ameaçadas pelas estruturas de poder, dissociam e qualquer gesto da estrutura de poder que não seja ameaça direta, ela entende como “não-ameaça” e passa a idolatrar e fazer alegremente qualquer coisa imposta.


Síndrome de Estocolmo, que nada! Essa síndrome deveria chamar-se Síndrome do Jeca Tatu, muito anterior aos nossos irmão nórdicos.


E assim caminha a nossa sociedade emulando práticas colonialistas, saltitantes na corrente da eterna felicidade idiocrática.




DeLemos