D12
Todos os médicos se consideram clínicos. Na verdade é um ponto de honra. Para ser um bom médico o indivíduo tem de ser um bom clínico, como é dito a boca miúda. É um conceito bem estabelecido, ninguém questiona, praticamente um dogma. Mas...
Isso não é fato. Para ser um clínico de verdade, e nisso leia-se um Especialista em clínica Médica, em primeiríssimo lugar há de se fazer um excelente estágio teórico-prático, seja residência ou especialização (haja visto em muitas instituições as duas situações coexistirem no mesmo espaço sendo apenas um limite burocrático) Em segundo lugar há de se obter o título de especialista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica de acordo com as normas da Sociedade.
Até aí obtêm-se o direito de usar o título, mas ainda não se é um bom clínico.
Em terceiro lugar há de se entrincheirar nas fileiras do assistencialismo e atender de forma ética e resolutiva dezenas de milhares de pacientes e...ser aclamado por eles como tal. Mas não para por aí. Medicina é ciência e arte e ambos tem sua expressão máxima na clínica médica. Um bom clínico é como um bom vinho: melhora com o tempo. Poderiam dizer que com a idade deixa-se de assimilar atualizações- ledo engano. Um bom clínico é apaixonado pela ciência e pela arte e dessa forma assimila as atualizações de uma forma ainda mais efetiva- de forma crítica, com filtro, descartando modismos e imposições da indústria farmacêutica e assimilando apenas o melhor para o seu paciente.
Quando um bom clínico tem uma dúvida sobre um caso, a dúvida é dele, não terceiriza a dúvida para o paciente sair caçando um subespecialista para saná-la.
Enfim...Mesmo as ilusões tendo maior peso do que os fatos, não deixam de ser ilusões.
A crônica abaixo é inspirada em um conto de Rodolfo Margheritto, como descrito por Jô Soares, no livro “Jô: Uma autobiografia desautorizada” volume 1.
Eu quero!
-Eu vou chamar o PROCON! A polícia! Que absurdo! A propaganda de vocês é bem clara! “Cobrimos qualquer oferta”.
-Calma senhora, calma.
-Calma nada! Vou é fazer um escândalo se não cobrirem a oferta da outra loja!
- Mas minha senhora, eu vou ter prejuízo... Não tem como cobrir o preço de uma banca de camelô, eles nem impostos pagam... Eles não podem nem ser considerados como loja.
-Vai discutir isso com o delegado, seu descarado! Polícia! Polícia!
-N-n-não precisa, vamos escolher um modelo, madame?
-Humpf.
-A senhora tem alguma preferência? Homem, mulher? Alguma especialidade em particular? Sem especialidade está em promoção. E se a madame preferir também dispomos de algumas unidades importadas com oitenta por cento de desconto.
-Importadas de onde?
-Er... bem... o que sobrou foram algumas unidades aqui da América latina mesmo...
-Nem me mostre ou vou começar a gritar de novo!
-Não precisa madame. Seja qual for sua escolha, eu farei um desconto.
-Estava pensando em um endocrinologista...
-Perfeito, madame. Mas...
-Mas o que?
-Nada não, madame. É que me sinto na obrigação de informar que eles têm um probleminha... Eles acabam aumentando um pouco a conta de supermercado. A noite, quando as luzes estão apagadas eles costumam atacar a geladeira e comem tudo aquilo que eles proíbem os outros de comerem.
-Não, não! Chega de despesas. E um dermatologista?
-São baratos, mas a manutenção é cara. Exigem tudo do bom e do melhor. Se não tiver água termal três vezes ao dia disponível, não funcionam.
-Deus me livre! E um cardiologista, então? O que me diz?!
-Bem, tá num bom preço e a manutenção é barata...
-Ótimo! Vou levar um.
-Mas...
-Ah não! Que mas é esse meu filho?! O que tem de errado com o cardiologista?
-Nada senhora. É que recomendável levar uns acessórios para ele funcionar direitinho...
-Acessórios? Que acessórios?
-Calma, eu só estou avisando para senhora não ficar chateada comigo depois. É que sem uns aparelhos eles superaquecem muito rápido e param de funcionar. Se não tiver o maquinário para fazer um eletrocardiograma, um ecocardiograma eles “batem pino” e aí a madame vai ficar com uma mercadoria avariada, sem serventia em casa.
-É... você tem razão. Ortopedista?
-Fica do outro lado da loja, na seção de ferramentas, mas antes de irmos lá, posso dar uma sugestão para a senhora?
-Diga.
-Um clínico.
-Um clínico?!
-É. Um clínico.
-Não sei... É tão simplesinho... Meio brega, né? Você quer me empurrar a mercadoria porque tá encalhada? É isso?
-Em hipótese alguma, madame. Esse produto é o que mais vendemos. Preço bom, manutenção ridiculamente barata e não quebra. Bem, na verdade ele tem data de validade: depois de uns trinta ou quarenta anos fica imprestável. Mas se a senhora parar e pensar verá que é um excelente custo-benefício!
-A manutenção é barata, mesmo?
-Vixi! Quase inexistente! A senhora dá um café velho de vez em quando e tá tudo certo! Esse trabalha em qualquer condição, temperatura e clima. Até reclama de vez em quando, mas não para de trabalhar nunca.
-Ok, eu quero!
DeLemos