D2- Um tema recorrente em pequenas notinhas na mídia e na mesma medida recebidos de forma apática pela sociedade é o aumento do número de cursos de Medicina no Brasil. Na verdade nossos compatriotas são dormentes em qualquer tema que exija reflexão, qualquer coisa que não tenha ganho imediato. Qualquer coisa que exija um raciocínio mais complexo. Como o célebre Zygmunt Bauman bem identificou, nossa sociedade moderna é líquida com relações fluídas e compromissos fugazes. E como o célebre ninguém “eu” identifico, são as bases da idiocracia futura (futura?).
Mas os fatos são contundentes, sólidos e pontiagudos. O número de escolas médicas reflete no acesso as mesmas que por sua vez reflete na formação dos futuros médicos. E a nossa sociedade apática em raciocinar dependerá desses futuros médicos para promoção ou recuperação de sua saúde. Uma análise simples mas ignorada ou incompreendida. Com o passar dos anos meus filtros ficam cada vez mais gastos e inoperantes, por isso digo: é burrice mesmo.
Explico melhor, já sem a esperança de sua compreensão.
A formação de um médico adequada começa no processo seletivo. Em países como o Canadá, EUA, Inglaterra e outros, onde a sociedade reflete sobre o que deseja enquanto sociedade e os mesmos fazem suas vozes serem ouvidas, o processo seletivo de fato seleciona (sim, esse é o objetivo do processo seletivo). Leva-se em conta tudo o que o indivíduo fez no ensino fundamental e médio, atividades extracurriculares, e inclusive cartas de recomendação de professores que participaram da formação daquele aluno (afinal de contas ninguém engana por tanto tempo, não?). Há entrevistas por parte das Universidades. E em cada etapa pode-se ser excluído, ou seja, não selecionado. Isso visa permitir que apenas pessoas que tenham pelo menos formação em conceitos básicos e fundamentais e habilidades cognitivas minimamente aceitáveis, adentrem os portões do templo de Asclépio. E dentre essas pessoas, busca-se também as que tenham pendor para arte da cura.
Esses são os requisitos que a sociedade exige para os futuros médicos que elas desejam. A essa altura, se você faz parte da ínfima parcela que foi capaz de compreender o texto e chegar até aqui, te deixo uma pergunta: O que você esperaria de um médico para lhe atender no futuro? Pense. Dói no começo mas acostuma depois.
E o que acontece neste combalido patropi? Em primeiríssimo lugar podemos dizer que a sociedade de fato não participa destas questões. Sequer as reconhece enquanto questões, muito menos reflete sobre elas. Sequer reflete. Sequer. Estão ocupadas em consumir e serem consumidas. As normas são impostas por órgãos estatais que de forma paternalista as impõem- Afinal de contas o Big Brother sabe o que é melhor para nós... Tratar os idiotas como idiotas os perpetuam nessa condição de idiotas e tiram o élan dos não idiotas. Conveniente, né?
As faculdades de Medicina no Brasil geram lucros altíssimos- na faixa dos 80%- dessa forma é objeto de desejo de onze entre dez “empresas” da educação enquanto investimento e nessa lógica é interessante que se mantenham o s custos os mais baixos possíveis e os ganhos os mais altos possíveis. Como?
Primeiro mão de obra barata, servil e multitarefas. O que invariavelmente terá em sua maioria pessoas despreparadas para a docência. Pessoas que não questionam, pessoas que executam. Segundo, infraestrutura o mais básica possível. Hospital-escola nem pensar. É mais barato ocupar espaços assistenciais já em funcionamento. .
No quesito maximizar ganhos é interessante que se tenha clientes e que estes clientes sempre estejam satisfeitos e não abandonem o curso. Para tal, primeiro eu preciso facilitar o processo seletivo. Se eu escolher muito não terei muitos clientes. Se eu trouxer somente os mais preparados e com aptidão certamente não terei clientes para todas as vagas. Dessa forma a tônica dos novos curso é terem indivíduos despreparados e com um viés de classe importante pois essas faculdades são caras. Obviamente nesse” bolo” entrarão pessoas preparadas (Dans la médécine comme dans l'amour, ni jamais, ni toujours... ), mas invariavelmente serão minoria e serão prejudicadas pela massa inapta ao redor. Como terei pessoas com formação ruim, os processos avaliativos deverão ser “facilitados”, de preferência mascaradas por teorias pedagógicas alternativas que as valide.
Dessa forma teremos pessoas incapazes, com formação ruim exercendo a medicina no futuro. Pergunto novamente, já com a certeza de que ninguém mais lê nesse momento, o que a sociedade espera de um atendimento médico no futuro? E na sequência: Com este cenário, o que ela terá?
É a verdadeira corrente da felicidade, idiotas tratando idiotas regidos por idiotas em um contínuo eterno, pois idiotas não se percebem enquanto idiotas dessa forma não aspiram deixar de ser idiotas perpetuando a classe de idiotas.. Enfim…
Mais quel est donc ce quelque chose? C'est la question que tous se posent sauf les imbéciles, parafraseando a célebre cantora…