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As sociedades vivem de aparências. Mais do que isso: as sociedades  vivem de símbolos. E os símbolos são a materialização dos desejos e anseios de muitos. 

E esses desejos  e anseios nada mais são do que uma catarse coletiva, desta forma, invariavelmente, símbolos são falsos pela sua própria natureza.

Cada esfera da vida é regida por simbolismos, enquanto sistema de símbolos, e sendo os mesmos falsos, podemos inferir que, enquanto indivíduos, criamos ilusões coletivas e em comum, para as vivermos plenamente em sociedade. 

Enquanto seres sociais, que somos, precisamos que nossos devaneios tenham projeção em outros membros da sociedade e o reconhecimento dessas ilusões em outrem é o que causam afinidades ou não.

Dessa forma nos iludimos e nos juntamos a outros com as mesmas ilusões. 

O porque dessa necessidade de ilusão? Toda ilusão é fuga.  Fuga do que? Das dores essenciais do ser humano. Quais? Aí já é tema para outra reflexão...



Esse Silva!

No começo todos o acharam irreverente. Uns riam, outros franziam o cenho, mas o fato é que não passava despercebido. Aprovando ou reprovando, todos o percebiam- era o centro das atenções. Até equipe de reportagem aparecera tentando entrevistá-lo algumas vezes. Todas sem sucesso, pois quando o avistavam no corredor do Hospital, como se em um passe de mágica, ele sumia. Numa dessas tentativas conseguiram uma foto que saiu meio borrada e foi parar na grande mídia com os mais diversos títulos, todos com ponto de exclamação no final: “Doutor Silva protesta contra a corrupção na saúde!”, “O protesto do Doutor!”, “Doutor Silva: reserva moral da nação!”

Esse Silva!-diziam como se dele não pudesse vir outra coisa, embora fosse até discreto no dia-a-dia.

***

Não frequentava clubes, restaurantes, nenhum tipo de evento social. Na verdade nem “Silva” era seu nome, prenome ou sobrenome. Sequer apelido. Simplesmente o chamavam assim e ele não retrucava, aliás, sequer atendia quando o chamavam. Costumava andar com a calva cabeça baixa, e embora usasse um jaleco (diga-se en passant uns três números a menos do que precisava), passava despercebido. Ele não se incomodava com a “invisibilidade”, ou se o incomodava ele não demonstrava. Aliás, não demonstrava nada. E também se demonstrasse, ninguém perceberia.


Quando entrava no Hospital ia direto para o laboratório, era patologista, pegava o material burocrático em uma caixa escrito “entrada” que ficava na janela que fazia a comunicação entre o laboratório e a secretaria, assinava laudos, relatórios, resolvia toda a papelada, depois se dirigia para a bancada para fazer os exames que tinha de fazer (o material já se encontrava na própria bancada). As técnicas de laboratório que trabalhavam com ele, deixavam o material através de uma janela. Provavelmente nunca se perguntaram quem fazia os exames ou talvez acreditassem que este era um dos mistérios da vida, daqueles que é melhor nem pensar, pois jamais será encontrada uma resposta.

Findo os trâmites, devolvia tudo em uma caixa escrito “saída” ao lado da caixa de entrada.


Na sequência, como nos últimos vinte e cinco anos, se dirigia para a lanchonete do Hospital, comprava uma fatia grande de bolo de chocolate (sempre a mesma atendente, não deixava de perguntar: grande ou pequena?) e uma caneca de café de coador puro (Expresso ou de coador? Puro ou com leite?). Ato contínuo pegava uma mesa no canto, retirava o jornal diligentemente alojado na pasta marrom, surrada, que trazia a tiracolo. Ajeitava o jornal a esquerda do prato com o bolo e passava os quarenta e cinco minutos seguintes lendo os destaques do jornal.


E foi aí que tudo mudou. Não foi uma notícia em específico, um evento ou mesmo uma data especial. Foi o somatório de notícias de uma vida em um dia qualquer. Usando um clichê: foi a gota d´água. Corrupção, má-gestão, ineficiência e “politicagem” na esfera da saúde haviam ultrapassado todos os limites. E ele? Anulara sua vida em prol do sacerdócio da Medicina. Deixara de lado suas vaidades e vontades para exercer a profissão de forma digna e honrada como idealizara um dia. Não tinha tempo para conversas mundanas ou fofocas (tudo o que o ambiente hospitalar, nos últimos tempos, oferecia), por isso retraíra-se. Para realizar a análise dos exames da melhor forma, oferecendo o que de mais moderno e melhor havia para os seus pacientes, gastara uma fortuna durante sua vida profissional em livros, congressos, revistas e cursos. Não se casara, não tivera filhos e não acumulara bens materiais. Percebia-se como médico, transparecia a seriedade que julgava inerente ao cargo e portava-se com a dignidade necessária. Ao assumir essa postura tornou-se invisível aos que não partilhavam de seus ideais. No início, poucos. Com o passar dos anos, praticamente todos. Mas agora, não. Não se sentia mais como médico. Toda sua frustração, impotência e sensação de menos-valia, frente a todo esforço e sacrifício realizado até então, colidiram. Dessa colisão nasceu outra pessoa. Agora sua auto-imagem era a de um palhaço. Um palhaço triste...


De forma coerente, como em toda a sua vida, decidiu comportar-se como tal. E assim, introduziu na sua indumentária profissional o nariz de palhaço. Tal como um triste Pierrot...


Foi trabalhar no dia seguinte e todos os outros, com o nariz de palhaço. Não mudou seu jeito de ser, continuou introspectivo, sem falar com ninguém, mas todos o reconheciam. Agora de uma forma ou de outra as pessoas o notavam. Não era o seu objetivo, mas era curioso... Talvez se reconhecessem, talvez o invejassem. Estórias mil foram criadas sobre o “Silva” ou “Doutor Silva”. Todas inverídicas, lógico, mas com a veracidade dos mentirosos profissionais, tornaram-se reais e até oficiais.

Como ele aguentou o assédio? Na verdade, ele não precisou fazer esforço algum. Quando alguém se aproximava tentando qualquer interação maior, ele simplesmente tirava o nariz de palhaço e era como se um manto de invisibilidade imediatamente caísse sobre ele, livrando-o dos atrevidos.


DeLemos