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Mais um natalício chegou. 

Embora não dê muito valor para estas datas, o valor que as pessoas dão  acabam nos afetando de alguma maneira. E em mim culminam nas inexoráveis reflexões. 

É interessante como as pessoas reagem aos natalícios das pessoas dependendo dos contextos que se apresentam. Já estive nos mais diferentes possíveis, nas inúmeras atividades que exerci.

Lembro-me da infância. Nessa época as lembranças giram em torno da família. Naquela época as famílias se reuniam para comemorar o natalício de alguém, principalmente das crianças. As casas eram abertas para a família.  As mulheres se reuniam na casa do aniversariantes já pela manhã para preparar os quitutes. Os homens faziam as compras, ajudavam no que fosse determinado mas acabavam sendo enxotados da cozinha com a justificativa de que estavam atrapalhando- de fato atrapalhavam. Normalmente as comemorações ocorriam no sábado no meio da tarde. Naqueles tempos predominavam ainda as casas em nosso meio. Pouquíssimos moravam em apartamentos, o que era até visto de forma preconceituosa pelos mais velhos , tal como um "insucesso financeiro". As cidades ainda não eram verticalizadas.  Dentre os acepipes  invarialvemente havia o "mexicano" pâo francês com carne moída e o  o rocambole de presuntada para a criançada. Os adultos ficavam com os queijos, salames e azeitonas. As bebidas variavam ou refrigerantes ou sucos "maguary". Para os adultos cerveja e whisky. Cabe um registro: refrigerantes e cervejas não eram vendidos em embalagens descartáveis. Eram garrafas retornáveis, você tinha de levar a garrafa vazia para comprar uma nova. Todo quintal tinha engradados de cerveja e refrigerante. Também haviam os doces. Não podiam faltar brigadeiros, cajuzinhos, olhos de sogra e créme de la créme que era o bolo- algo que conferia a dona de casa um certo status- o de boa boleira. Ou não, quando não era.  Não sei bem quanto tudo isso acabou. Hoje as pessoas tem as casas fechadas e as comemorações são impessoais em patéticos espaços destinados a isso. Pobres crianças.

Na sequência, já na adolescência, mais um foco se apresenta: o da integração com os grupos. Os natalícios ganham novos contornos, não sei se melhores ou piores, mas diferentes. E por aí vão diferentes nuances e diferentes etapas que se sucedem. Hoje, já na etapa derradeira da jornada os fantasmas do passado de quando em quando aparecem para dialogar e confesso que são diálogos bem alegres, nostálgicos mas sem melancolia. Ok, talvez uma pitada de melancolia mas tal como uma pitada de cumari- para realçar os sabores.

Também é interessante do ponto de vista profissional. Quando você ocupa cargos de poder, como já ocupei algumas vezes, as pessoas que visam obter alguma vantagem fazem fila para dar o "cumpleanos". Quando em cargos de menos destaque, a fila do beija-mão some dando espaço apenas as pessoas que se importam contigo e que se lembraram. Eu mesmo me importo com muitas pessoas mas não me recordo dos aniversários.

Hoje, pouquíssimas pessoas se importam e menos ainda se lembram. Mas a fila do beija-mão anda grande...

Enfim,  é vida que segue.


DeLemos