D11- Ainda na toada de antigos escritos...esse deve ter uns vinte anos. Prova a tese do anacronismo discutida anteriormente.
Réquiem para um clínico
Escuro. Não, mais que escuro,trevas totais. Foi sua primeira percepção ao abrir os olhos. Se é que tinha aberto mesmo os olhos, a esta altura era impossível dizer - não sentia o próprio corpo. Tentou movimentar todas as partes passíveis de serem movimentadas – sem êxito. Apesar da situação , não sentia-se aflito, tão pouco tranqüilo . Era apenas uma mente vagando à ermo no limbo . Sua privilegiada mente clínica que outrora desvendara casos complicadíssimos , sequer suspeitados por assumidades na área , estava agora alijada do que outrora conhecera por realidade . Sem sobressaltos , ocorrera-lhe , que neste inexplicado estado não teria condições de atender seus pacientes . Analiticamente ponderara sobre todas as situações que poderiam ter-lhe ocorrido – doenças , drogas , acidentes ; lembrara-se inclusive dos pormenores dissecados nos tempos de faculdade pelos austeros professores , e como eram vívidas as lembranças , sempre estiveram ali –estavam apenas escondidas em um canto escuro e mofado , sem uso , obscurecido pelo impiedoso dia – a – dia... Não encontrou respostas, não formulou hipóteses-diagnósticas , não emocionou-se...Emoção? Sim, doravante seu estado , não sentia nada , não sentia...simplesmente não...O primeiro passo havia sido dado – a queixa principal. Subitamente uma explosão de cores invadiu o nada . Sentiu- se atordoado e por um ínfimo instante , sentiu ... –(Senti? Senti!)- Novamente um turbilhão de cores o assaltou seguido por um barulho agudo , incrivelmente perturbador , que o atirou de volta ao nada . A frustração fê-lo emergir do nada com a mesma velocidade , atirando-o a um ambiente que logo reconheceu como seu –estava na clínica na qual trabalhara boa parte de sua vida profissional- e percebeu-se deitado. (Deitado?!) Tentou levantar-se (posso mexer-me!),todavia foi trespassado por dores lancinantes, que fizeram-no gemer , sendo seguido por um coro de “bips”.
Seu pranto convulsivo foi seguido de imprompérios adsorvidos pelo éter...-Seu puto!Seu merda!-sem platéia travava diálogo mudo com suas emoções... Após todos estes anos de sacrifício,sempre à teu lado, como pudestes abandonar-me?- Como resposta apenas o obsequioso silêncio do gélido ar da manhã do Getsemani e de seus eternos moradores...Findo o fúnebre cortejo as emoções contidas há tanto fluíam em um rio sem fluxo...
Bonito seria, um final floreado, e uma narrativa cheia de esperanças, doravante não seria real...
DeLemos