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Medicina: Ciência ou arte?
Ciência é o conjunto de conhecimentos sistematizados adquiridos através da observação, identificação, pesquisa e explicação de fenômenos e fatos, formulados metódica e racionalmente. Arte- palavra em latim- ars- que significa técnica ou habilidade, e abordando pela ótica de Kant, no que tange a Medicina, é o conjunto de habilidades necessárias para a realização da anamnese, exame físico, interpretação do mesmo e também de exames complementares e a proposição da terapêutica, bem como o compliance necessário à relação médico-paciente.
Desta forma temos que o conhecimento necessário à prática médica é a ciência, e a prática médica per se a Arte.
Médicos diferentes, utilizando as mesmas técnicas e com o mesmo conhecimento conseguirão resultados diferentes com os mesmos pacientes. Para chegar ao objetivo final de uma consulta, o diagnóstico e/ou a terapêutica é necessário passar pela anamnese e o exame físico, elaborar uma hipótese- diagnóstica, testar esta hipótese, concluir o diagnóstico e propor a terapêutica. Esta é a forma, o padrão que toda consulta deveria ser conduzida. Ainda há a exegese ao paciente e aos profissionais paramédicos que acompanharão o caso, e a necessário aceitação. Em cada uma destas etapas é fundamental ir muito além da ciência. Na anamnese perguntas "cruas" e atitude hostil ou desinteressada por parte do médico, muitas vez fazem que o paciente retraia-se perdendo muito o valor da mesma. Demonstrar empatia a um completo desconhecido e muitas vezes agressivo, quando você está com sono, dor, febre, frustrado, problemas familiares, preocupado em como pagar as contas atrasadas etc. é arte pura e simples. O que dizer, então, do exame físico?
Observar detalhes sutis na inspeção, primeira etapa do exame físico, frequentemente em lugares com iluminação inadequada, palpar (segunda etapa do exame físico) dependendo exclusivamente da sensibilidade de suas mãos e dedos e detectar pequenas variações de pressão e calor nos segmentos examinados, percutir e auscultar (terceira e quarta etapas do exame físico) em ambientes com extremada poluição sonora é ir além do possível para uma grande maioria.
Feito isto, ainda deve-se julgar qual a porcentagem da anamnese e do exame físico foram mais relevantes para esclarecer a morbidade em investigação na composição do raciocínio clínico. O médico ainda deverá acessar memórias antigas de conhecimentos básicos como fisiologia, bioquímica, histologia, patologia etc, e outros casos semelhantes que atendeu ou acompanhou para análise comparativa.
Na sequência determinará a necessidade ou não de exames complementares e assim por diante. Isto é Arte! Com "A" maiúsculo.
Qualquer etapa não realizada prejudica e muito o processo, podendo causar danos irreparáveis ao paciente. Determinar qual será o tempo da consulta realizada pelo médico é, na minha opinião, além de leviano, criminoso.
Hoje em dia, todas as ações de gestão, tanto na esfera pública quanto privada, são direcionadas para a ciência pura e simples, sem espaço para a Arte. Na verdade, sendo essas ações exitosas, caminhamos a passos largos para a extinção da Arte. Protocolos para a diagnose e terapêutica são excelentes enquanto "norte" porém uma temeridade quando dogmas. Não fosse o fato de não respeitar a individualidade do paciente; em outra vida quando tive atuação marcante na Medicina Baseada em Evidências, fiz a análise de vários protocolos de sociedades científicas que mais eram baseados em "achismos" dos pseudoexperts da área do que em evidências científicas de fato.
A solicitação indiscriminada de exames (até então) complementares, só tem o papel de gerar falsa sensação de segurança, aumentando falso-positivos e negativos e "incidentalomas" expondo os pacientes aos riscos inerentes à métodos diagnósticos cada vez mais tecnológicos, diminuindo cada vez mais o contato com o paciente, a anamnese e o exame físico.
Os exames tecnológicos enquanto complementares a Arte Médica e os protocolos como guia, elevam a Medicina a um patamar jamais alcançado. Paradoxalmente quando assumem o protagonismo, excluindo a Arte, nos levam de volta à era do obscurantismo.
O fato é que os atuais gestores de saúde enxergam o médico como um "mal necessário" e a melhor maneira de "adestrá-lo" é diminuir ao máximo o papel da Arte com artifícios tecnológicos. O que eles não entendem, talvez por não conseguirem inserir em uma planilha de Excel é que investir e valorizar médicos com boa formação diminuiria e MUITO gastos com exames, consultas e internações desnecessárias.
Medicina é Ciência e Arte. Arte sem ciência é temerário. Ciência sem Arte é criminoso.
Existe alguma maneira disso dar certo, no caminho que a sociedade segue?
DeLemos