D1:   "D1"...Até nas raras horas vagas a Medicina não dá descanso. "D1" é como indicamos o tempo de internação de um paciente ou de alguma droga em uso, aí no caso seguido dos dias previstos, como "D1/7", ou seja primeiro dia de sete previstos. O "Ser" pensa em anotar pensamentos e reflexões cotidianas da profissão e o inconsciente já transforma em prescrição...ok...tá valendo. Bem, prossigamos. A grande vantagem da falência cognitiva dos tempos atuais é a liberdade que ganho na escrita. Primeiro que as pessoas não leem, segundo quando o fazem, raramente entendem e terceiro se não está nas redes sociais da moda, certamente não presta. Mas então por que fazê-lo?  Além do clássico " Qui-lo"  creio que será um material cyberarqueológico interessante. Um ponto de vista sobre o contemporâneo, longe de ser uma verdade, mas quiçá uma pequena parte do mesmo, pelo menos a minha verdade. 

 Mas também pode ser um material totalmente inútil pois creio que avançamos para uma idiotopia. Em alta velocidade.  Além dos óbvios indícios, a história nos mostra que os eventos são cíclicos. Os grandes avanços científicos e tecnológicos são sucedidos por períodos "trevosos". Duvida? E o que me diz dos grandes avanços matemáticos, sociais e filosóficos dos gregos, foram engolidos pelo aparecimento do obscurantismo dogmático e oligárquico das religiões misturadas com o Estado.  E o que dizer dos avanços da Medicina, da astronomia e da física sucedidos por proibições e negações do Estado após a idade média? Me parece que se os avanços no conhecimento obrigatoriamente devem estar pari passu com o desenvolvimento moral das sociedades, caso contrário os avanços no conhecimento são explorados e utilizados de forma inconsequente criando as fundações para novas idades trevosas. 


E o que a Medicina tem a ver com isso? Ora pois, com tudo. Como explorado por Foucault, o Estado busca o controle das massas controlando os corpos dos indivíduos, a forma como vivem. Ao Estado pertencem a vida e a vontade das pessoas. E o que melhor para o Estado do que controlar a profissão que tem íntimo contato com os aspectos mais vulneráveis da pessoas- a Medicina. Somente alguém insano ou alienado diria que a prática médica, hoje, é eivada de boas práticas.  E o que dizer da formação médica então? Criam-se cursos e mais cursos para prover aos pobres uma medicina pobre feita por profissionais de pobre formação. E como isso é fiscalizado? Pergunta de retórica. Se eu controlo as ofertas e a qualidade das mesmas eu tenho as demandas na mão e as uso como melhor me aprouver. As incompetências não advém de insuficiências mas sim de um projeto. Maquiavel coraria. 


O "D1" é simplesmente o dia em que eu comecei a escrever no site. Não tem uma ordem cronológica ou simbolismo é simplesmente um jorro controlado das reflexões dos últimos 29 anos dedicados ao sacerdócio médico.


Quem eu sou? Um simples médico que caminha entre dois mundos. O mundo das artes e das ciências. O mundo assistencial e o acadêmico. Entre o high-society e os vulneráveis. Alguém com a chama do inconformismo explodindo no peito pelos rumos criminosamente equivocados das nossas sociedades.