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A Humanidade teme monstros. E os monstros que ela teme são comuns. Os temores coletivos precisam ser racionalizados e terem um rosto reconhecível por todos. Figuras como demônios, vampiros, bestas assassinas, mortos-vivos, , espíritos do mal etc. São comuns a todas as culturas desde sempre. Elas simplesmente personificam nossos medos enquanto espécie, por isso sua universalidade.
Na mesma medida as divindades que veneramos são comuns. Existem diferenças sutis (apenas para os mais atentos) inexoráveis frente aos “filtros” das diferentes culturas, expressas em religiões e as intervenções humanas a fim de obter vantagens frente aos seguidores dessas religiões.
Não poderia me furtar o prazer de discorrer mesmo que brevemente sobre a data religiosa que é feriado em nosso laico patropi (laico?!)- A páscoa.
Importante feriado para os cristãos, segundo a empresa líder do mercado, o mesmo remete ao vencimento da morte pela absolvição dos pecados da humanidade ao acontecer a ressurreição do Messias.
Curiosamente a data ocorre em meio ao Pessach, que é considerada a Páscoa judaica que representaria a liberdade, a salvação, a passagem para a liberdade do povo hebreu após a décima praga infligida ao Egito (um anjo vingador matou todos os primogênitos não hebreus- seria um temor coletivo, ou seja um monstro?) como represália pela escravidão do povo Hebreu e sua consequente libertação.
Até aí tudo bem haja visto o Messias e seus seguidores serem judeus, mas a coincidência das datas é curiosa haja visto essencialmente o sentido de ambas serem a libertação de uma forma ou de outra. Mas ok, prossigamos.
Anteriormente ao Pessach que curiosamente (sinto muito, é uma palavra que vou usar bastante) situava-se no equinócio primaveril comemorava-se a chegada do mesmo pela antítese que significava o inverno: Esperança, vida, procriação, fartura. Nas diferentes sociedades antigas e anteriores ao Pessach temos o culto a Deusa Oester dos Celtas que remetia a fertilidade, o Noruz do Zoroastrismo celebrando a chegada de novos tempos, o culto a Deusa Ishtar da Babilônia, virgem que concebeu um Deus e era adorado no equinócio primaveril e a Deusa Astarte da região Fenícia que era conhecida como Deusa da Fertilidade. Certamente fogem da minha memória cansada mais exemplos, mas um ponto em comum nessas celebrações mantidas pelas velhas novidades da Páscoa e do Pessach é o ovo- um símbolo de esperança e fertilidade. A lebre, incorporada nas tradições modernas tem suas origens nessas celebrações pagãs antigas como símbolo de fertilidade.
E embora poucas evidências existam, acredita-se que o culto universal anterior a esses, o da Deusa-mãe, do sagrado feminino, que era celebrado no equinócio primaveril, celebrando a esperança em tempos melhores, de fertilidade, seja o ponto de partida para os diferentes filtros que se tornaram diferentes cultos.
Posto isto, repito: Nossos monstros e nossas divindades são comuns. As diferenças devem ser tratadas como se formaram: detalhes. Diferentes perspectivas do mesmo fato. O ser humano, precisa de simbolismos para entender o meio em que vive e para se entender enquanto ser.
Brigar, discutir, guerrear por isso é simples e objetivamente uma única coisa: burrice. Sem floreios. Na bruta.
Manter feriados religiosos em um país laico é pedir para haver desarmonia e conflitos desnecessários.
E o paralelo com a Medicina? A busca por alguém ou um centro voltado para a cura também é formado por anseios comuns à humanidade. E o que se busca? Lembremos da etimologia da palavra paciente- vem do latim de patior que significa sofrente e não apenas como o incauto leitor pensou que seria no sentido de paciência. Então quem nos busca, busca porque padece de algo, porque sofre e deseja alívio. E o sofrer é muito mais amplo do que a esfera física- engloba a mente e a alma. E o que se vê hoje? A medicina sendo tratada como comércio, como produto que visa lucro ou como um produto ineficiente oferecido pelo estado que não foca em resolver a dor de quem o procura e sim em servir as engrenagens de poder do Estado.
Existe alguma possibilidade de isso dar certo, desse jeito?!
Fica para sua reflexão pascal, caro religioso.