D10

De quando em quando, me aventuro entre diferentes moldes de escrita. Esse é um conto que escrevi quando fazia uma reflexão sobre os “vazios” da sociedade contemporânea. Hope you enjoy it.

Flerte com o mal

-Droga!-vociferou Diego. Estava sozinho, e talvez até por há muito tempo ter deixado de estar e de fato ser só, construiu o hábito de pensar em voz alta. Em tempos de individualismo galopante onde o próximo é um incômodo a ser evitado, para as putas e drogados, seus vizinhos, parecia que moravam duas ou até mais pessoas naquele apartamento.

-Sem luz elétrica, de novo! Aaaargh!- nem reclamar podia, pois era um ponto de eletricidade ilegal, que como seus vizinhos, roubava do prédio ao lado. De vez em quando descobriam e encerravam a ligação clandestina.

-Pelo menos, a bateria tá cheia- disse em voz alta seguido de vitupérios inaudíveis.

Diego era um rapaz na casa dos vinte e poucos anos sem grandes atrativos físicos e menos habilidades sociais ainda. Poucos e virtuais amigos. Zero interação com o sexo oposto. Seus desejos carnais eram projetados e resolvidos em sites pornográficos e afins. O calor humano vinha apenas de sua esquálida mão direita.

Há pouco havia deixado a casa paterna, onde nunca se sentira à vontade ( os pais consideravam-no um vagabundo ”esquisitão”) e sustentava-se mal e porcamente com atividades online, como direcionar propagandas de sites via robôs, enviando propaganda por e-mail e respondendo questionários voltado para produtos. Sua parca renda dava para um decadente kitchnette no centro de São Paulo. Era errado, do ponto de vista numérico, dizer que morava sozinho pois uma legião de baratas, ratos e afins partilhavam da atmosfera nauseabunda dominante no ambiente. Comia lanches baratos, miojo e salsichas cruas. Pratos e talheres eram um luxo que não estavam em seus planos, tão cedo. O surrado e diminuto vestuário era cuidado na velha pia do banheiro e seco atrás da geladeira. Ainda não havia sido apresentado ao ferro de passar roupa. A única peça que destoava do cenário decadente, sujo e desorganizado era um notebook moderno, única coisa que trouxera da casa de seus pais. E era sua vida.  Com a internet indevidamente utilizada da loja em frente ao edifício, passava seus dias. Ou, melhor dizendo, os dias passavam por ele.
***
Durante suas infindáveis navegações na internet, Diego utilizava um app, o “Teriscope”, em que pessoas de todos o mundo, se expunham. Alguns idéias, outros sua intimidade e ainda outros seus talentos. O importante era a exposição e, na mesma medida o voyeurismo. Uns queriam ser vistos, outros ver. Diego gostava de assistir. Na verdade era um predador. Procurava principalmente mulheres solitárias que queriam se expor. Julgava-as como putas, seres desprezíveis que estavam ali apenas para inspirar sua masturbação frequente. “Buscava, inconscientemente, o que lhe faltava- a intimidade com outras pessoas, e toda a deturpação inerente a troca do real pelo virtual, principalmente toda a deturpação...


Numa dessas visitas ao “Teriscope”, lá pelas tantas da madrugada, Diego encontrou um perfil, ao vivo, que lhe interessou- Lilith. Na verdade a foto lhe chamou a atenção. Uma mulher linda com uma beleza exótica. Pele morena, radiante, intensos olhos verdes que pareciam olhar através da pessoa. Cabelos ondulados, negros como azeviche. Uma aura de “tesão”, puro tesão. O estranho é que não havia ninguém assistindo a “live” da morena. –Estranho...- pensou alto o garoto de forma reflexiva. –Será que é traveco?- emendou na reflexão.


Com a sutileza e prudência inerentes aos paquidermes em lojas de cristais, Diego clicou no perfil da tesuda sem espectadores para assistir a “live”.

Cabe um esclarecimento ao pudico leitor que quem se exibia não via quem estava assistindo a exibição. Apenas via o “nick” da pessoa. Pois bem, prossigamos. Ao abrir, a primeira imagem que viu foi a da morena, sentada, de costas para a câmera, ao fundo da tela. O que se passou a seguir causou um crescente de medo em Diego culminando com urina no chão de sua pocilga. Com uma agilidade impressionante em um pulo a morena tesuda levantou-se já virando da cadeira e veio em direção a câmera, sempre olhando para Diego com pupilas anormalmente grandes e incrivelmente negras para um ser humano. Definitivamente não era um ser humano. -Diego, Diego, meu amor, é você? Vem comigo! Diego!- disse de forma sequencial em súplica, desespero e urgência. As enormes pupilas que ameaçavam devorar quem ousasse olhar diretamente para elas, davam a ênfase das emoções. Uma assustadora ênfase...E num átimo de segundo suas pupilas ganharam toda a órbita ocular transparecendo fúria- Vocês está com medo de mim? Seus bosta! Me procurou a vida toda e agora me despreza?- em terror total e sem pensar, Diego fechou o notebook. Ato contínuo a campanhia da porta (que nunca havia funcionado) começou a tocar, as luzes do apartamento acendiam e apagavam, as portas dos armários batiam freneticamente e os poucos e não funcionantes eletrodomésticos ligavam e desligavam. Diego, em despero total, estava de cócoras, com as mãos cobrindo as orelhas. E com olhos fortemente cerrados, como se a atitude fosse espantar o mal que dominava sua habitação. No auge de seu terror, olhou para a janela pensando em jogar-se e terminar com o martírio, mas subitamente a manifestação cessou. Sem entender nada ,timidamente abriu seus olhos e de forma instintiva olhou em volta buscando algo. A primeira coisa que viu foi seu o notebook e reparou que não estava conectado a fonte e que a bateria que a poucos minutos estava cheia, havia acabado. Ainda tentando entender os “ocorridos” continuou esquadrinhando ao redor e, se é que era possível, gelou novamente. Não era seu apartamento! Sem janelas, sem portas, sem sujeira, sem suas baratas. Havia apenas uma mesa e uma cadeira e seu notebook. –Tomadas?!- não haviam tomadas. Ainda tentando discernir qualquer coisa que fosse dentro do turbilhão de informações que assomava seus sentidos, Diego ouviu um “bip” no seu notebook descarregado. A tela acendeu. Apareceu uma mensagem acompanhada de uma foto de uma morena: “Lilith entrou”.
De predador tornara-se presa, de juiz convertera-se em réu. Agora os voyeurs iriam procurá-lo... Ele era a puta a ser observada.


Agora vivia o verso de sua existência e a soma de todas as emoções vividas, como no teorema da física, culminou na apatia total.


Com o tempo, essa apatia permitiu que o mal primordial se instalasse de vez.


Diego, ou seja lá o que aquilo tinha se tornado, sequer notou mas suas pupilas foram aumentando e o breu aos poucos foi se apossando delas... agora restava apenas esperar os novos e incautos predadores...

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DeLemos