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Considerações sobre o exame de suficiência em Medicina: De tempos em tempos alguém reanima um assunto que há muito deveria ter deixado o campo das ideias e se transformado em algo do cotidiano. A falta de uma política continuada (cada governo adota uma linha) voltada para a abertura de vagas em cursos de medicina e de novas escolas médicas, bem como a falta de estruturação de um plano de carreira de estado para o médico, a fim de distribuir de forma equânime de acordo com as necessidades dos locais, tornam obrigatório o exame de suficiência em Medicina. Não é possível desatrelar o tópico sobre abertura de novas vagas e novos cursos com o exame de suficiência em Medicina pelos vieses possíveis a essas concessões. Abordaremos mais a frente o tópico.
E antecipo uma pauta dentro da pauta: que seja estadual o exame e jamais nacional- hoje, só posso exercer medicina se estiver inscrito no conselho regional de medicina que têm abrangência apenas estadual. Não posso exercer a medicina em São Paulo se estiver inscrito apenas em Minas Gerais. O exame nacional só serviria mais uma vez para paternalizar os estados e” burrocratizar” o processo. O egresso estaria apto para a prática nacional e só poderia exercer a medicina em âmbito regional- no conselho em que estivesse escrito. Mais uma jabuticaba? Que seja no Âmbito de sua atuação- estadual.
Com frequência vejo alunos de Medicina “esperneando” sobre o exame de suficiência com o argumento de que estariam sendo punidos por falhas da instituição, que a responsabilidade é exclusiva da instituição de ensino. Falácia total. A instituição de ensino tem sua responsabilidade, sim, e deve ser responsabilizada até judicialmente por falhas na formação. Mas o aluno é corresponsável por sua formação. Deve ser pró-ativo, deve apontar falhas, deve denunciar práticas mercantilistas, deve denunciar professores incapazes ( mas os incapazes de fato, não os que se tornam impopulares por serem rigorosos). O aluno tem responsabilidade moral sobre sua formação. Há muito que os médicos antigos diziam: “Quem faz a faculdade é o aluno…” E é fato. Observo no dia a dia muitos alunos reclamando de tudo e de todos mas faltando as aulas para atender a assuntos diversos, apontando dedos mas, ao invés de estudar, postando fotos em redes sociais sobre as “baladas” que frequentam. Assumam vossas responsabilidades na qualidade do ensino que é ofertada, denunciando a quem de direito o que está errado e se dedicando a cumprir suas obrigações de estudo. Podem fazer birra, mas queiram ou não, Medicina ainda é sacerdócio.
Também já ouvi alunos de Medicina reclamando que não é apenas uma prova que validará seu conhecimento. Na verdade, um indivíduo bem formado, é capaz de ter seu conhecimento avaliado por uma prova, sim. Uma prova bem construída, avaliando teoria e prática é capaz de avaliar o que foi sedimentado durante a formação. É capaz de avaliar os elementos mínimos necessários a boa prática médica. Esse temor só serve para os que se reconhecem como não preparados.
E os médicos ainda são pilares importantes da sociedade. Sua função é essencial. O que a sociedade espera dos futuros médicos? Qual sua opinião? É lícito prescindir da opinião da sociedade havendo meios para isso, ainda mais em tema tão sensível? Hoje, com os meios eletrônicos disponíveis um plebiscito sobre o tema é não somente factível como indispensável. E já antecipo o resultado expresso nas manchetes de jornais: “A maioria esmagadora votou à favor de exame de suficiência”.
Não existe nenhum argumento amparado pela lógica, plausível, sobre ser contra que apenas os médicos que passarem no exame de suficiência pratiquem a Medicina. Você aceitaria a possibilidade de em uma emergência, uma situação extracontratual, ser atendido por alguém não suficiente em Medicina?
Outro argumento falacioso é proferido por alguns postulantes a abertura de novos cursos de Medicina: “ Faltam médicos no Brasil, vamos formar novos médicos”. Não é fato. O que falta é uma política de estado para fixar médicos em regiões carentes de médicos. E ademais, existe um viés socioeconômico nos alunos dos novos cursos de Medicina: em boa parte possuem altíssimo poder aquisitivo- algumas mensalidades passam de dez mil reais. Os egressos se fixarão nos grandes centros e não em zonas carentes de profissionais da saúde.
Acho importante destacar que existem muitas faculdades de Medicina, novos cursos, que são instituições sérias de fato, voltadas para a formação de um bom médico. Mas também existe a possibilidade de existirem cursos “caça-níqueis”.
No campo das possibilidades é lícito aventarmos a seguinte hipótese ( que combateríamos fragarosamente com o exame de suficiência): As faculdades de Medicina no Brasil geram lucros altíssimos, dessa forma é objeto de desejo de onze entre dez “empresas” da educação enquanto investimento e nessa lógica é interessante que se mantenham o s custos os mais baixos possíveis e os ganhos os mais altos possíveis. Como?
Primeiro mão de obra barata, servil e multitarefas. O que invariavelmente terá em sua maioria pessoas despreparadas para a docência. Pessoas que não questionarão, pessoas que executarão.
Segundo, infraestrutura o mais básica possível. Hospital-escola nem pensar. Será muito mais barato ocupar espaços assistenciais já em funcionamento. .
No quesito maximizar ganhos seria interessante que se tenham clientes e que estes clientes estivessem sempre satisfeitos e não abandonassem o curso. Para tal, primeiro eu precisaria facilitar o processo seletivo. Se escolherem muito não teriam muitos clientes. Se buscar somente os mais preparados e com aptidão certamente não teria clientes para todas as vagas. Dessa forma a tônica dos novos curso seriam indivíduos despreparados e ainda com um viés de classe socioeconômica importante pois essas faculdades seriam extremamente caras. Como teria pessoas com formação ruim, os processos avaliativos deveriam ser “facilitados”, de preferência mascaradas por teorias pedagógicas alternativas que as validassem. Repito que a teoria retrocitada é apenas uma hipótese, um exercício de lógica, afinal de contas não posso apontar dedos sem provas, mas como um exercício de lógica, você, caro leitor crê que seria possível? E se sim, você não gostaria de impedir que esses indivíduos o atendessem e a sua família, no futuro?
Os fatos inegáveis, são que: 1) Instituições de ensino sérias e comprometidas com a formação do aluno, com um bom processo seletivo, não tem com o que se preocupar. 2) Alunos sérios e comprometidos com sua formação, pró-ativos e ciosos de sua corresponsabilidade no processo de formação, não tem com o que se preocupar. 3) A sociedade só tem a ganhar colocando somente médicos preparados para sua assistência, em especial a massa de vulneráveis que não tem opção de escolha, dependendo exclusivamente dos serviços públicos e isso quando presentes…
Que mil faculdades de Medicina sejam autorizadas, mas que somente os capazes, os preparados possam exercer a arte da cura.