BERKELEY E A CRÍTICA À ÓPTICA GEOMÉTRICA

                                                Everaldo Skrock 


I

 

Assiste-se na Europa do século XVII a um intenso debate em torno de novas teorias da visão. Os problemas de óptica, que eram objeto de  crescente atenção desde os trabalhos de Kepler, recebe grande impulso com a Dioptrique de Descartes e é alvo de grande interesse, na época de Berkeley, por parte dos físicos Molineux, Wallis e Barrow entre outros. Neste período o grande modelo ainda era a óptica de inspiração geométrica cartesiana. Berkeley publica, em 1709 seu “An Essay Toward A New Theory Of Vision”, no qual critica o modelo geométrico de óptica, questionando não só seus resultados como também a doutrina metafísica sobre o qual está fundado.

A expressão “óptica geométrica” é utilizada para se denominar tanto a óptica cartesiana quanto a óptica newtoniana, já que elementos fundamentais da Dioptrique - como a concepção corpuscular da luz e a idéia de que sua propagação se dá instantaneamente e em linha reta - continuam exercendo papéis importantes na Óptica de Newton. Apesar de corrermos um risco de minimizar as diferenças importantes existentes entre as duas obras, podemos dizer que -  pelo menos face à crítica imaterialista de Berkeley - elas podem ser ditas da mesma espécie, já que são ambas solidárias do mesmo dualismo metafísico que afirma a matéria como realidade auto-subsistente. As referências de Berkeley a Newton são, no entanto, extremamente raras quando se trata de questões de óptica, ao contrário do que acontece quando Berkeley questiona outros aspectos da física da época[1]. Parece-nos razoável, portanto, considerar como interlocutores diretos de Berkeley os ópticos de inspiração cartesiana, em especial Barrow, Molineux e Wallis e é por isso que voltaremos nossa atenção mais para ao modelo geométrico cartesiano do que para o newtoniano.

Desenvolveremos o trabalho a partir dos seguintes passos: trataremos inicialmente do problema da passagem, em Descartes, da metafísica para o conhecimento material, em geral, e para o conhecimento científico almejado pela Dióptrica, em particular. Trata-se de perguntar como os conceitos de matéria, de espaço, de percepção, de corpúsculo, etc,  tal como definidos no interior do dualismo metafísico cartesiano, determinam sua teoria da luz e da visão. Em seguida, procuraremos mostrar em que sentido a Dióptrica - aplicação de uma metafísica dualista em um discurso científico - será criticada pelo Ensaio para uma Nova Teoria da Visão - uma obra de interesse aparentemente  apenas científico, mas que já anuncia a filosofia eminentemente crítica de Berkeley, geralmente conhecida como “imaterialismo” e que será melhor explicitada em seu Tratado Sobre o Entendimento Humano. 

 

II

 

A Dióptrica de Descartes não pode ser entendida separadamente de seus pressupostos metafísicos. Destes não nos deteremos traçando a gênese mas nos limitaremos a indicar os postulados fundamentais. Para Descartes a evidência é garantia da possibilidade de posse da verdade. Esta evidência revela, ao fim de um processo de dúvida metódica, um mundo composto de três elementos irredutíveis, “...que peuvent exister sans l’aide d’aucune chose créée”:[2] a substância material, a substância pensante e a substância infinita. Cada substância, menos a infinita,  possui um modo, que é seu atributo principal, aquele que define a sua natureza. Assim, o principal atributo da da alma é o pensamento e o modo que define a natureza matéria é a extensão. A possibilidade do conhecimento depende da possibilidade de uma comunicação entre substância pensante e substância material,  que é garantida pela substância infinita. A Mathesis Universalis, modelo por excelência do conhecimento objetivo, quando aplicado ao conhecimento da extensão, identifica na matéria relações de ordem e medida e delas deduz verdades necessárias.

A extensão é a qualidade mais geral tanto da matéria quanto  do espaço, já que para Descartes as duas coisas não podem ser dissociados: o espaço nunca é vazio, está sempre ocupado pela matéria. Segundo as Regras[3], extensão é tudo que tem comprimento, largura e profundidade. O conhecimento da extensão começa com a percepção. Os sentidos “externos”, são essencialmente passivos e apreendem a extensão como figura.[4] A figura é a extensão enquanto representação dos objetos externos, enquanto “impressão” nos sentidos. Esta impressão, diz-nos Descartes, deve ser entendida literalmente: os órgãos dos sentidos são afetados como a cera que recebe a impressão de uma imagem. Cada sentido apreende à sua maneira a figura, esta qualidade mais geral dos objetos extensos. A figura, após ser recebida nos órgãos dos sentidos, é comunicada ao “sentido comum”, que por sua vez a imprime na imaginação, também concebida como “une véritable partie du corps”.[5] Este primeiro momento da percepção é pensada em Descartes como uma transmissão instantânea de movimento  dos órgãos dos sentidos até o cérebro. As mesmas relações espaciais e de intensidade dos movimentos que afetam os sentidos são conservadas na passagem dos órgãos correspondentes até o cérebro. Nas Regras Descartes compara este movimento ao de uma pena, que repete em sua extremidade superior todos os movimentos executados em sua extremidade inferior, no ato da escrita.[6]

A figura não deve ser pensada, entretanto, como uma cópia exata do objeto extenso. A figura é uma representação e como tal basta que ela se pareça com o objeto que representa, que tenha com ele pelo menos alguns elementos em comum. Descartes diz na Dióptrica que assim como a gravura, que pode com muito poucos traços revelar múltiplas características daquilo que representa, a figura que os sentidos transmitem à imaginação não precisa ser uma cópia exata de seu  objeto. O importante é que a imagem sensível possa dar à alma os meios necessários para que ela apreenda as diversas qualidades dos objetos com os quais se relaciona. A figura, como imagem do objeto externo impresso nos órgãos sensíveis, é um signo, não uma cópia literal. De qualquer forma, este signo tem como significado um objeto tido por Descartes como real e situado no espaço. Nada, portanto, que não seja compatível com seu dualismo metafísico fundamental.

A apreensão da figura se dá de forma diversa, dependendo de qual órgão dos sentidos esteja envolvido. No entanto, como a figura objetiva da extensão é uma só, no sentido comum elas equivalem-se. Quando impressas na imaginação já não temos senão uma única idéia do tamanho, por exemplo, do objeto extenso, seja qual for o sentido que o apreendeu. Isto porque os vários sentidos se reportam a uma mesma substância material independente da alma. Esta concepção cartesiana da identidade de natureza entre as percepções dos diferentes sentidos,  juntamente com a explicação da natureza da luz e de sua propagação, serão destacados por serem dois aspectos da Dióptrica que exemplarmente decorrem da doutrina cartesiana da substância e que serão os alvos preferenciais da crítica berkeleiana.

Descartes apresenta uma teoria da luz e de sua propagação que é, antes de tudo, hipotética, ou seja, que não pretende descrever a verdadeira natureza das coisas  e sim permitir que se partade uma idéia clara e distinta para a explicação dos fenômenos. Este procedimento é coerente com as Regras, em especial a de número IX, que fala da necessidade de se fixar o espírito inicialmente em algo mais simples e fácil, para que assim ele se habitue a ver a verdade de forma clara e distinta. Diz Descartes ali que

 

...ce n’est pas de principes imposants et obscurs, mais seulement de principes faciles et for à portée de la main, que l’on doit déduire les sciences, si profondément cachées qu’elles soient.”[7]

 

“A luz se transmite instantaneamente e em linha reta”. Este é o dado imediato e evidente de onde parte Descartes. A luz é impedida ou desviada por obstáculos assim como qualquer outro corpo. Como a luz se propaga em linha reta e assim continua após ser desviada, as leis geométricas podem explicar os fenômenos da reflexão e da refração. Porém o fenômeno da propagação instantânea da luz não pode ser explicado a partir do movimento de um corpúsculo.[8] A propagação deve-se, diz Descartes, à uma transmissão de movimento pelo meio material. Ainda aqui é à regra IX que devemos nos reportar:

 

“Ainsi par exemple, supposons que veiuille examiner s’il existe quelque puissance naturelle qui puisse dans un même instant passer dans un lieu éloigné en traversant tout l’espace intermédiaire (...) Et je remarquerais qu’une pierre ne peut passer d’un lieu dans un autre en un instant, parce qu’elle est un corps; mais qu’une puissance semblable à celle qui meut la pierre ne se communique qu’en un instant, si elle passe à l’état nu d’un sujet dans un autre.[9]

 

A explicação da propagação da luz como transmissão de movimento será de grande importância para a explicação da visão através de sua comparação com o tacto. Esta comparação não se limita a ser meramente analógica. Ao contrário, aponta para uma identidade  de  natureza tanto entre  os  objetos dos diversos sentidos quanto entre os processos pelos quais a percepção se opera em cada um deles, já que devem se reportar a uma única realidade material autônoma. Na seqüência da Regra IX, Descartes apresenta um exemplo de transmissão instantânea do movimento que se apresenta como claro e distinto:

 

“...si je bouge l”une des extrémités d’un bâton aussi long qu’on voudra, je me repré sente facilement que la puissance qui met en mouvement cette partie du bâton fasse nécessairement mouvoir aussi, en un seul et même instant, toutes ses autres parties, parce qu’alors elle se communique à l’état nu, sans résider dans quelque corps...”[10]

 

É exatamente este exemplo que é utilizado para a explicação das diversas “qualités que nous apercevons dans les objets de la vue” na Dióptrica: a luz, a cor, a distância, a situação, a magnitude e a figura.[11]

A luz e as cores são para Descartes as únicas qualidades que pertencem propriamente ao sentido da visão, já que as demais podem ser percebidas tanto pela visão como por outros sentidos. A percepção da luz nasce da intensidade da pressão que as partículas luminosas exercem sobre as extremidades do nervo ótico e a cor resulta dos diferentes movimentos que animam cada uma destas partículas.

Todos os demais objetos da visão podem ser mais facilmente entendidos se compreendermos que a visão  tem um funcionamento análogo ao do  tacto, diz Descartes. As luz que atinge os olhos pode ser pensada como bastões utilizados por um cego ou por alguém que queira se orientar no escuro.[12]

Na percepção visual da distância, três são os fatores envolvidos. Primeiramente, percebemos a distância pela mudança ocorrida em nosso olho, que se adapta, mudando a forma de suas partes constituintes (a pupila, o cristalino, etc)  para a visão do que está mais próximo e para o que está mais distante. Esta mudança no órgão visual é transmitida ao cérebro e assim, sem que intervenha nossa vontade, a alma toma conhecimento das várias distâncias a que estão localizados os objetos.[13] Em segundo lugar, percebemos naturalmente a distância  conhecendo a relação espacial existente entre os dois olhos e destes com o objeto. O cego, mesmo sem saber o comprimento dos bastões que segura, descobre, através do conhecimento  da distância entre suas duas mãos e do ângulo formado entre estas e o ponto em que os bastões se cruzam, a distância a que está localizado o objeto. Assim também, percebemos a distância pela consideração do ângulo formado pelas linhas que vão de um de  nossos olhos até o outro e destes até o objeto. Finalmente, podemos perceber a distância pelo grau de distinção ou de obscuridade da imagem visual, resultantes da maior  ou menor intensidade com a qual a luz chega até nossos olhos.

A percepção visual da  magnitude resulta da combinação da percepção da distância e da situação das partes do objeto. Por uma espécie de “geometria natural”, fazemos uma estimativa do tamanho dos objetos comparando a imagem que se transmite do objeto para a retina - imagem esta de tamanho sempre variável - com a distância existente entre nosso corpo e o objeto percebido.

 

III

 

O Ensaio Para uma Nova Teoria da Visão, de Berkeley, tem como objetivo manifesto explicar os fenômenos da visão, tal como o fizera Descartes. Implicitamente, porém, é todo seu imaterialismo que ali se apresenta, o que faz com que sua crítica atinja não só os resultados da Dióptrica, mas também os pressupostos metafísicos em que assentam as sua idéias diretrizes. Já na seção 01 do Ensaio Berkeley apresenta, muito diretamente, quais são seus objetivos:

 

         “My design is to shew the manner wherein we perceive by sight the distance, magnitude, and situation of objects. Also to consider the difference there is betwixt the ideas of sight and touch, and whether there be any idea common to both senses”[14]

 

Berkeley nada diz, neste momento, sobre o estatuto destes conceitos que pretende elucidar, toma-os como fatos evidentes da percepção visual. Tal como fizemos ao comentar a Dióptrica, nos limitaremos a analisar o tratamento dado por Berkeley à percepção da distância e da magnitude.

Como vimos, a óptica geométrica tinha uma resposta clara ao problema da distância.: já que a luz se propaga instantaneamente e em linha reta, o tamanho do ângulo formado pelas linhas que saem dos objetos e vão até o olho diminui quando o objeto se afasta e aumenta quando ele se aproxima. Ora, diz Berkeley, não percebemos estas linhas e ângulos de que falam os ópticos geométricos e sabemos que objetos estão mais próximosou mais distantes sem precisar fazer qualquer cálculo entre ângulos de supostas linhas retas formadas pela luz. Fiel ao seu princípio de que “ser é ser percebido”, Berkeley não pode partir do mesmo ponto que os  cartesianos, pois  “linhas” e “ângulos” não são dados diretamente na percepção. No entanto, temos a inegável sensação de que uns objetos estão mais próximos e outros mais distantes. Por que isto se dá? Ao que Berkeley responde: a distância não é um objeto próprio da visão, não é uma idéia imediata. As idéias imediatas são aquelas que nascem diretamente da percepção.  Quanto às idéias mediatas, ou indiretas, “... when the mind perceives any idea, not immediately and of it self, it must be by means of some other idea.”[15]  Assim, a idéia de distância é similar à idéia de tristeza, que não é percebida diretamente mas é inferida da percepção dos sinais presentes no rosto de uma pessoa triste. É preciso, portanto, identificar as idéias imediatas que sugerem a idéia de distância assim como as idéias de magnitude e situação.

Antes de tudo, é preciso fazer uma distinção entre a percepção da variação das distâncias mais próximas e das mais afastadas. Quanto aos objetos mais distantes: primeiramente, pela experiência sei que determinados objetos (casas, rios, campos, etc), possuem certos tamanhos, ocupam determinado espaço. Vendo estes objetos entre meu corpo e os objetos cuja distância estou avaliando, sei que eles estão pelo menos a uma distância maior do que o espaço ocupado por estes  objetos intermediários. Em segundo lugar, objetos que eu havia experienciado como tendo determinado tamanho quando perto devem estar mais longe quando me parecem menores ou os percebo menos distintamente.

Quantos aos objetos mais próximos, percebemos a maior ou menor distância, sua aproximação ou distanciamento, através da percepção imediata de sensações que decorrem do próprio funcionamento do orgão da visão: primeiramente, quando o objeto se aproxima, sentimos que as pupilas tendem a se aproximar (os globos oculares convergem); em segundo lugar, quando o objeto está muito próximo tende a se ofuscar; em terceiro lugar,  sentimos que é exigido um maior ou menor esforço do olho segundo olhemos para objetos mais próximos ou mais distantes.

A elucidação de como se dá a passagem destas idéias imediatas para a percepção da distância está ligada ao segundo dos objetivos do Ensaio, ou seja, “...considerar a diferença entre as idéias da visão e do tacto, e se há alguma idéia comum a ambos os sentido”. Como na ontologia imaterialista de Berkeley só há substância pensante, ele pode dispensar o enorme aparato de faculdades que Descartes precisou postular para dar conta da comunicação entre substância extensa e substância pensante. As únicas idéias legítimas são as da percepção. Porém estas idéias não são cópias ou representações de objetos num mundo externo auto-subsistente e portanto as percepções dos diferentes sentidos não precisam ser unificadas em uma única idéia, aquela que legitimamente reproduziria a realidade do objeto. Ao contrário do que diz Descartes, Berkeley pensa que as idéia provenientes de um sentido são essencialmente diferentes das idéias provenientes dos demais, mesmo que recebam o mesmo nome. Uma coisa é o tamanho percebido com o tacto, outra coisa, de natureza diversa, é o tamanho percebido pela visão:

 

         “Having of a long time experienced certain ideas perceivable by touch, as distance, tangible figure, ans solidity, to have been connected with certain ideas of sight, I do upon perceiving these ideas of sight forthwith conclude what tangible ideas are, by the wonted ordinary course of Nature like to follow. Looking at an object I perceive a certain visible figure and colour, with some degree os faintness and other circunstances, wich from what I have formerly observed, determine me to think that if I advance forward so many paces or miles, I shall be affected wich such ideas of touch.[16]

 

 Assim, o que percebemos imediatamente não é a própria distância ou objetos na sua realidade tangível, mas sempre idéias próprias da visão. O que nos faz pensar que o objeto percebido está mais próximo ou mais distante é a associação que fazemos entre idéias do tacto e idéias da visão, que costumeiramente não distinguimos porque lhes damos o mesmo nome. A sensação de distância nasce quando as idéias da visão  antecipam as idéias táteis, nos fazendo lembrar o que a experiência sempre nos ensinou: que a uma percepção visual sempre corresponde uma percepção tátil. Temos aqui enunciada a tese central do Ensaio: as idéias de sentidos diferentes são essencialmente heterogêneos. Idéias pertencentes a uma classe (percebidas por um sentido) “significam”, “sugerem”, ou “antecipam” - nas palavras de Berkeley - as idéias pertencentes a uma outra classe (aquelas percebidas por outro sentido).

Nas seções 52 a 87 do Ensaio, Berkeley oferece uma explicação do fenômeno da percepção visual da magnitude utilizando a  mesma estratégia pela qual fora explicada a percepção da distância. Diziam os especialistas em óptica geométrica que a percepção do tamanho é resultado de uma inferência feita a partir da consideração da distância em sua relação com o tamanho dos ângulos formados pela luz que incide sobre  o olho. É preciso, portanto, que primeiro se conheça a distância para só depois se fazer a comparação que resultará no conhecimento da magnitude: um mesmo ângulo em conjunção com uma grande distância significa um maior tamanho e vice-versa.[17]

Ora, Berkeley não aceita a descrição geométrica como descrição da realidade material, como Descartes. As linhas e ângulos dizem respeito apenas ao tamanho visual, imediatamente percebido, mas o que importa é o tamanho "real", táctil, que dele é inferido. Partindo deste pressuposto, Berkeley nega que só depois de conhecida a distância é que se pode conhecer o tamanho. Este é conhecido por meio de uma inferência feita a partir dos mesmos dados (as mesmas idéias imediatas) pelas quais se inferiu a distância.

Se deixarmos de lado a idéia abstrata de extensão, o que nos é dado imediatamente na visão? Uma aparente variação de tamanho à medida em que nos aproximamos ou nos distanciamos dos objetos. Mas o que queremos dizer como "mudança de tamanho aparente"? Queremos dizer que percebemos um número maior ou menor de pontos visuais, que Berkeley chama de mínimuns.[18]A magnitude do objeto, ou seja, o número destes mínimuns que aparece na visão é variável de acordo com a distância, mas o que importa realmente é o tamanho tangível. Este também é formado por pontos perceptíveis, só que, ao contrário do tamanho visual, aqui temos sempre um mesmo número de pontos. O tamanho tangível é, portanto, invariável. Se quisermos que as unidades de medida de tamanho tenham alguma invariabilidade de sentido, precisamos remetê-las sempre ao tamanho táctil e nunca ao tamanho visual: a medida de um centímetro em uma régua, por exemplo, muda de tamanho visual se dela nos afastamos, mas permanece invariável enquanto tamanho táctil.[19]

Com base nestes mesmos princípios, Berkeley procura resolver um problema de óptica ligado à magnitude que era motivo de grande controvérsia: porque o tamanho visual da lua  parece mudar, segundo esteja ela mais próxima ou mais distante do horizonte? Já que o tamanho real não muda e nem muda a distância, como explicar esta aparente variação da imagem imediata? E, ainda, porque esta variação às vezes é maior e às vezes é menor? A solução apresentada por Berkeley é a seguinte: quando a lua se encontra próxima do horizonte, a sua luz deve atravessar uma extensão maior de atmosfera até chegar aos nossos olhos. A atmosfera está sempre mais ou menos impregnada de vapores, poeira e outras partículas. Estando próxima do horizonte, a luz da lua é impedida em parte por estes corpos e portanto um menor número de raios chega até nosso olho, fazendo com que a imagem visual se torne na realidade mais fraca e não menor. A quantidade de pontos visuais que compõem a lua, esteja ela  no horizonte ou no zênite continua o mesmo, não há razão para que se altere. Porém a imagem visual é apenas uma percepção imediata pela qual inferimos o tamanho "táctil", “real”. Ou seja, algumas circunstâncias fazem com que a mesma imagem visual (idéia imediata) sugira um diferente tamanho real (idéia mediata). Como pela experiência estamos acostumados a fazer uma conexão entre uma imagem mais fraca e um maior tamanho real, pensamos ver uma imagem visual da lua  com tamanho maior do que aquele que ela realmente tem.

Sendo assim, uma objeção poderia ser feita: se colocássemos, entre nossos olhos e a lua no zênite, um corpo  que retivesse a maior parte dos raios de luz, deveríamos ver uma imagem maior ainda do que aquela que vemos quando a lua está próxima do horizonte, já que sua imagem seria ainda mais fraca. Porém, diz Berkeley, a relação significativa pela qual inferimos um maior tamanho táctil a partir da obscuridade (faintness) da imagem visual é uma relação semelhante àquela existente entre uma palavra e o seu significado: é arbitrária, aprendida, não-necessária. A interposição de um  corpo, tal como o descrito, entre o olho e a lua no zênite provoca uma obscuridade da imagem visual que não é normalmente experimentada e associada com um maior tamanho e portanto não sugerirá um maior tamanho nem fará com que pensemos perceber uma imagem visual maior. A relacão de significação entre idéias de diferentes sentidos, que constitui a linguagem da natureza, (ou linguagem de Deus), é semelhante àquela existente em nossa própria linguagem: a idéia visual é como uma mesma palavra, que não tem um único sentido, que pode ser usada em situações ou contextos diferentes, significando coisas diferentes. Como estamos acostumados a dirigir nosso olhar em direção ao horizonte, a obscuridade da imagem visual nos sugere um maior tamanho nesta situação e não na situação não-usual de olharmos para cima. Em geral, a maior obscuridade da imagem visual sugere um maior tamanho táctil, mas ocorre que este tamanho não é sugerido pela imagem visual, sempre da mesma maneira. Este é um dos casos possíveis, uma situação particular, mas a linguagem da natureza é tão complexa quanto nossa própria linguagem, onde as palavras significam de forma diversa de acordo com os diferentes contextos onde estão inseridas.

 

IV

 

A teoria da visão de Berkeley  e, podemos dizer, toda sua filosofia,  possui um caráter eminentemente crítico e como tal denuncia ilusões que levam as doutrinas metafísicas de sua época a se envolverem em problemas insolúveis.  O principal alvo desta crítica é aquilo que Berkeley chama de “abuso das palavras”, ou seja, um uso inadequado da linguagem, onde palavras são usadas sem um critério rigoroso de significação. É neste contexto que podemos compreender sua crítica às idéias abstratas.

Para Berkeley as idéias abstratas são de dois tipos[20] (ou são ditas em dois sentidos): em primeiro lugar, elas nascem da tentativa de se nomear duas idéias distintas com o mesmo nome, na crença de que com isto se está nomeando uma nova idéia, diferente de ambas. Em outras palavras, as assim ditas idéias abstratas são na verdade termos gerais aos quais se pretende que corresponda uma idéia diferente das idéias particulares às quais aquele termo se aplica. Assim,  quando dizemos “o branco em geral” estamos usando a palavra branco, que nomeia uma idéia particular, para nomear todas as idéias de branco que venhamos a ter. Isto é legítimo e necessário para o funcionamento da linguagem. O erro consiste numa passagem indevida da semântica para a ontologia,  na crença de que haja uma idéia correspondente a “branco em geral”.

O segundo sentido de “idéia abstrata” apontado por Berkeley liga-se ao fato de separarmos e tomarmos como representantes de entidades independentes idéias que não podem existir separadas, como é o caso das idéias de cor e extensão ou de movimento e corpo. Se tomarmos uma delas apenas, por exemplo a cor, sem a outra que está necessariamente a ela conectada (a extensão), temos uma palavra à qual não corresponde  uma idéia, já que ao vermos um corpo temos a idéia de sua cor indissociavelmente conectada à idéia de sua extensão.

Já no Ensaio  Berkeley apontava para o papel desempenhado pela ilusão da identidade de natureza entre diferentes séries sensíveis na gênese da crença em uma extensão como idéia abstrata:

 

 

         “...when men speak of extension as being as idea common to two senses, it is with a secret supposition that we can single out extension from all other tangible and visible qualities, and form thereof an abstract idea, which idea they will have common both to sight and touch. We are therefore to understand by extension in abstract an idea of extension, for instance, a line or surface intirely strip of all other qualities and circunstances that might determine it to any particular existence; it is neither black nor white, nor red, nor hath it any colour at all, or any tangible quality whatsoever, and consequently it is of no finite determinate magnitude.[21]

 

Em Descartes a expressão “extensão em geral” quer denotar uma idéia abstrata, postulada para dar significado ao termos geral “extensão”, ou seja, algo comum a todas as coisas percebidas, não importa por meio de qual sentido. Ocorre, diz berkeley, que na verdade percebemos diferentes tipos de extensão conforme utilizemos um ou outro sentido: com a visão percebemos uma extensão visual - que qual é extremamente variável - e com o tacto percebemos uma extensão que não muda e cuja natureza é totalmente distinta daquela da pura visão.

O racionalismo cartesiano permite, e mais do que isso, exige a crença em idéias abstratas deste tipo, já que a extensão é considerada uma realidade em si, a fonte única de onde uma mesma extensão, que é percebida de forma diferentes por cada um dos sentidos mas que é rapidamente reunificada no sentido comum. É por isso que o cego com dois bastões não é uma mera metáfora do homem que vê: Descartes reconhece nos dois casos o mesmo processo fundamental de apreensão de uma mesma e única extensão. Berkeley não condena o uso de termos gerais, pelo contrário, reconhece sua necessidade e utilidade. Acredita, porém, que os termos gerais  podem ser significativos de forma mais econômica do que em  Descartes, isto é, sem que precisem ter como correlato uma entidade separada  chamada idéia abstrata.

 No Ensaio Para uma Nova Teoria da Visão Berkeley quer mostrar que é possível usarmos justificadamente as palavras  “distância”,  “magnitude” ou  “situação” sem que para isso precisemos assumir que elas sejam qualidades intrínsecas de uma extensão abstrata. O termo geral “extensão” só é significativo enquanto nomeia idéias diretamente táteis ou então idéias visuais enquanto antecipações de idéias táteis.  O  uso da mesma palavra “extensão” para significar  indiscriminadamente idéias oriundas de sentidos diferentes  nasce da crença na homogeneidade entre os diferentes dados sensoriais, que por sua vez nutrem-se da crença na  matéria como essencia de um mundo exterior e independente do espírito.

Mas o que dizer então, afinal de contas, da distância ou a magnitude? O que a palavra "distância" e “magnitude” nomeiam, se não são nem idéias abstratas e nem idéias imediatas?  Qual é, afinal de contas, o estatuto destas idéias mediatas, percebidas apenas indiretamente? Qual é o estatuto de todos os termos da linguagem que não nomeiam idéias e tampouco são termos gerais? Só podemos ter uma resposta a esta questão se encararmos a teoria do significado de Berkeley  como um dos elementos constituintes de uma concepção de linguagem onde a relação de significação é marcada por uma complexidade essencial. A significação não depende de uma relação simples, pela qual a cada coisa corresponde uma idéia e a cada idéia corresponde uma palavra. A distância, ou a magnitude são conceitos  que nascem da conjunção de várias idéias imediatas, em determinados contextos, numa processo em que concorrem tanto os dados sensíveis quanto uma dinâmica interior à própria linguagem, análoga àquela que rege a linguagem da natureza. É esta mesma característica geral da linguagem que explica  como um termo geral pode significar uma grande variedade de individuais  - sem que por isso seja necessário que se postule a existência de  uma idéia abstrata - e também como, a partir  de várias idéias imediatas que são dadas pelo órgão da visão chegamos a forjar conceitos que não têm correspondentes diretos no mundo material, mas que adquirem sentido quando as relacionamos às idéias de outros sentidos, em especial às idéias do  tacto.



[1]A questão das cores, por exemplo, que adquire tanta importância na crítica de Goethe e Schopenhauer à óptica newtoniana, está significativamente ausente na obra de Berkeley. Já ao criticar conceitos como “massa”, “movimento”, etc, no  De Moto, as referências à Newton são bem mais frequentes.

[2]Descartes, Princípios, 51.

[3]Descartes,  Règles Pour La Direction de L’Esprit, XIV, 442.

[4]Descartes,  Règles Pour La Direction de L’Esprit, XII, 413.

[5]Descartes,  Règles Pour La Direction de L’Esprit, XII, 414.

[6]Descartes, Règles Pour La Direction de L’Esprit, IX,  414.

[7]Descartes, Règles Pour La Direction de L’Esprit,  IX, 402.

[8]No Le Monde  ou Traitée de la Lumiére Descartes apresenta uma concepção corpuscular da natureza da luz. No início da Dióptrica Descartes explica a transmissão da luz não como movimento dos próprios corpúsculos, mas como transmissão de movimento de um para outro, e por isso mesmo instantânea.

[9]Descartes, Règles Pour La Direction de L’Esprit, IX, 402. Na Dióptrique as duas hipóteses utilizadas por Descartes para explicar  a natureza da luz e sua propagacão se contradizem: a natureza corpuscular da luz explica a refração mas não a propagação instantânea e a propagação instantânea como transmissão de movimento não explica a refração. Porém não é este um  problema que particularmente nos interessa aqui.

[10]Descartes, Règles Pour La Direction de L’Esprit, IX, 402.

[11]Trataremos aqui apenas da explicacão cartesiana da distância e da magnitude, para depois relacioná-las à solução alternativa apresentada por Berkeley.

[12]Descartes, Dióptrique, I, 30 ss.

[13]Novamente a analogia com o tacto  está presente na exposição de Descartes: "...tout de même que, lorsque nous serrons quelque corps de notre main, nous la conformons à la grosseur et à la figure de ce corps, et le senton par son moyen, sans qu'il soit besoin pour cela que nous pensions à ses mouvements." Dióptrique,  VI, 15 ss.

[14]Berkeley, An Essay Towards a New Theory of Vision,  seç. 01.

[15]Berkeley, An Essay Towards a New Theory of Vision,  seç. 09.

[16]Berkeley, An Essay Towards a New Theory of Vision,  seç. 45.

[17]Berkeley, An Essay Towards a New Theory of Vision,  seç. 53.

[18]Existe uma polêmica sobre se com a idéia de “ponto perceptível” Berkeley poderia estar aceitando, ou pelo menos dando margem à uma possível aceitação, da teoria corpuscular de Descartes e Locke. Acreditamos que não, porque ao falar de "indivisíveis", Berkeley não está falando de uma entidade material, como os  corpuscularistas. Quando Berkeley fala de "ponto perceptível" está dizendo, coerente com o caráter essencialmente crítico do princípio "ser é ser percebido", que não se pode falar, com sentido, nem de uma partícula (idéia), infinitamente divisível, nem de uma partícula (idéia) indivisível mas não perceptível.  Nada podemos dizer, com sentido, sobre "pontos matemáticos" ou  "indivisíveis imperceptíveis", pois as únicas idéias que a percepção nos oferece são pontos percebidos. Quando Berkeley diz que um ponto perceptível não pode ser dividido, diz que não há nenhuma idéia correspondente a algo que  seja menor do que o menor tamanho percebido, nenhuma idéia correspondente à ficção "entidade inobservável".

[19]Assim, quando olhamos em um microscópio, não passamos a ver um número maior de pontos. A quantidade total dos pontos que formam o campo visual permanece o mesmo. Ainda precisamos focalizar um ponto de cada vez para vê-lo com clareza. O que muda é que agora a conexão que usualmente  fazemos entre as  imagens imediatas da visão e as imagens táteis deixa de existir. Por isso, um homem que adquirisse um olhar microscópico entraria em um "mundo novo", diz Berkeley no An Essay Towards a New Theory of Vision, seç. 85.

[20]Introdução a  A Treatise Concerning The Principles of Human Knowledge, seç. 7-10.

[21]Berkeley,  An Essay Towards a New Theory of Vision, seç. 122.

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