Aventura no Pico do Jaraguá
Era ano de 2015 ou 2016, não me recordo corretamente. Tinha 15 ou 16 anos. Meu amigo (João), um ano mais novo, e eu gostávamos de aventura e resolvemos embarcar na maior que já havíamos participado. Decidimos ir ao Pico do Jaraguá, numa sexta (porque estávamos de férias), e decidimos ir cedo, para voltarmos antes do horário de pico. Saímos, cada um, com dinheiro de somente duas passagens, uma de ida e outra volta, com duas garrafinhas de água, cada um com um celular. Saímos às 9 horas da manhã, embarcamos na estação Metrô Carrão e nossa ideia era descer na estação Jaraguá.
Porém, alguém, melhor, um desconhecido nos disse que a melhor estação para descermos e chegarmos mais rápido era a estação Vila Clarice, uma anterior à Jaraguá, na mesma linha, a Rubi. E foi o que fizemos, alegres e saltitantes, descemos na estação Vila Clarice. Chegamos super felizes, já víamos o Pico, porém ele estava um bocado longe. Tínhamos que ir a pé. Fomos. Mas estávamos mais perdidos que "cego em tiroteio". Resolvemos ir perguntando para as pessoas. Quem disse que isso seria uma boa opção? E não foi. Cada um falava um caminho diferente. Íamos seguindo cada caminho que nos falavam. E aquele Sol, estava de rachar nossas cucas. Nossas águas já estavam quentes e pela metade, mas o caminho, parecia que só aumentava.
Chegamos a um ponto que nos assustou muito, naquela época éramos assustados, novos e bobos. Um dos caminhos indicados, nos levou à uma escadaria que beirava à esquerda a rodovia (sei lá qual), e à direita uma comunidade desconhecida por nós. Descendo a escadaria perguntamos a uma senhora:
-Com licença.
-Pois não?
-Gostaríamos de chegar no Pico do Jaraguá, como fazemos para chegar lá?
Com prontidão a senhora respondeu:
-Estão vendo aqueles dois barracos no meio da favela?
-Sim.
-Então, passem por ele que vocês chegarão à rua que dá acesso, lá vocês perguntam novamente.
Ficamos felizes, finalmente estávamos próximos. Agradecemos e fomos. Ao terminar a escadaria, umas pessoas lançaram uns olhares estranhos para nós (vale lembrar que poderia ser coisa só de nossas cabeças), ficamos apavoradíssimos. Começamos a correr, para qualquer lugar. Passamos dentro de bares, reuniões, casas, lugares com pessoas discutindo e jogando sinuca com estampa vermelha. Foi apavorante, porque aquela sinuca... haviam poucos dias que uma cena na Televisão mostrara bandidos discutindo em volta de uma mesa idêntica àquela. Aí nossos corações dispararam, não sabíamos de mais nada, ficção, realidade, vontade, medo, desejo, coragem, tudo estava misturado, mixado.
Nossa única alternativa era ir por fora, pelo morro à esquerda, que encontrava com a rodovia. Não sei como chegamos, mas chegamos. E ao chegarmos, vimos que estava tudo queimado, o fogo era recente, coisas carbonizadas. descemos esse morro e andamos beirando à rodovia, mas nessa descida, nos cortamos com restos mortais de vegetais, coisas, sei lá, estávamos com cortes em nossas pernas.
Andando, tínhamos que subir uma hora e essa hora já estava próxima. Decidimos subir aos poucos, porque já estávamos cansados. Na subida o solo estava muuuuito friável. Não tínhamos segurança. Mas isso não nos impedia. Até que num determinado momento, escorregamos. Foi pouca coisa, talvez menos de um metro. Como estávamos muito cansados, decidimos descansar um pouquinho. Porém, que péssima escolha. Não vimos onde tínhamos caído. Lá era um formigueiro. Umas formigas enormes que só vendo. Só sentimo-las quando começaram a nos picar. Picavam e queimavam nossos braços, pernas, rostos. Tinham subido demais em nós. Resolvemos subir a toda velocidade e voltamos a entrar na comunidade. Acho que entramos em uma das casas, mas saímos muito depressa.
Nos chacoalhávamos muito para tirar todas aquelas formigas enormes. E, naquela rua onde a senhora tinha indicado, usamos o resto de nossas águas para nos "limpar" e aliviar o que aquelas formigas tinham nos causado. Após esses acontecimentos, já estávamos receosos do que ainda poderíamos passar. Na rua, perguntamos mais uma vez para um desconhecido como fazíamos para chegar no Pico do Jaraguá. A pessoa explicou e conseguimos chegar.
Entrando no parque vimos patos, outros animais. Ficamos estonteados com o fato de finalmente estarmos lá. Rapidamente nos dirigimos à trilha que queríamos fazer, a maior trilha, a Trilha do Pai Zé. Nossa, quanta emoção, era subida que só vendo!! Decidimos ir correndo... ai ai ai... esse dia não estava com boas decisões... claramente cansamos logo. E a subida que era tão esperada começou a se tornar um tanto indesejável.
Fomos subindo, e subindo. Víamos de tudo: um monte de plantas, insetos, pedras... ops... rochas... foi muito cansativo, porém bem divertido. Notamos algo que é impossível não notar: conforme subíamos, a vegetação ia mudando. Até que chegamos a um ponto que conseguimos ver a torre, lá no alto, bem alto. Pensamos "puxa, estamos quase lá"... hahakkkk doce ilusão. A caminhada ainda seria muito longa.
Finalmente terminamos a trilha, tínhamos uma vista lindíssima que merecia uma foto panorâmica. Tiramos. Depois fomos andando para a torre, porque tínhamos que estar no lugar mais alto!! Indo para lá, passamos por uma cede da TV Cultura. Eu enlouqueci, quando mais novo eu era viciado nessa rede de televisão, passava os melhores desenhos e depois uma das séries que eu mais gostava: Doctor Who. Claramente merecia outra foto.
Chegamos à escadaria. Poxa, tinha que ser tão grande? Já tínhamos passado por tanta coisa, que já estávamos esgotados. Mas, já estávamos lá. Começamos a subir. Subimos num cansaço, que só vendo. Mas, quando chegamos no topo, foi maravilhoso, muito recompensador. E tiramos nossa última foto antes de acabar nossas baterias.
Então, o que nos restava? Voltar para casa. Cada um só tinha dinheiro para mais uma passagem e estávamos sem água ou bateria... Descemos as escadas, a trilha e saímos do parque. Para onde tínhamos que ir? Não sabíamos, mas sabíamos que não queríamos fazer o caminho que tínhamos percorrido, então fomos na outra direção. Olha, andamos, andamos que só vendo. Tinha cada subida e cada descida, nossas pernas e pés já não aguentavam andar. Nossas gargantas estavam tão secas quanto o Saara. Porém, perguntando, fomos nos guiando. Sei que chegamos à estação Julio Prestes e lá pegamos o trem e o Sol já havia dormido. Pegamos era umas 18:20, bem no horário de pico. E assim retornamos pelos trens e metrô para casa.
Realmente esse dia foi uma aventura.
Além dessa vez, fui outras 3 vezes, mas fui com a faculdade. Em 2017 fui como calouro na semana de recepção, em 2018 fui como veterano também na semana de recepção e em 2019 fui em uma disciplina treinar medição de ângulo de rocha.