O POSTE, AUTO SACRAMENTAL EM DOIS ATOS DE ALEXEI BUENO – UMA RESENHA
Nesta sua peça teatral em dois atos, que ele classifica como “auto sacramental em dois atos”, o poeta, ensaísta e editor Alexei Bueno explora um dos mistérios da nossa história: o sumiço da cabeça de Tiradentes. Por seu crime de “lesa-majestade” como líder da Conjuração Mineira, que visava transformar a capitania de Minas Gerais em uma república independente, foi Tiradentes condenado a ser “conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre [enforcamento com posterior exposição do cadáver], e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica [atual Ouro Preto], aonde em o lugar mais público dela será pregada em um poste alto até que o tempo a consuma”, segundo a sentença do Tribunal de Alçada.
A tradição da ficção histórica, seja em romances, contos ou peças teatrais, preconiza a fidelidade aos fatos cuja historicidade tenha sido comprovada e consagrada, porém admite que se introduzam personagens fictícios, mas fidedignos à época, e acontecimentos imaginários que não entrem em colisão com a realidade dos fatos históricos, O sumiço da cabeça de Tiradentes da gaiola no alto do poste constitui um dos enigmas da história pátria, dando asas à especulação: teria sido arrebatada por simpatizantes da conjuração que, aproveitando um descuido da sentinela, quiseram assim zombar das autoridades coloniais, odiadas pelos altos impostos que impunham às riquezas extraídas das Minas Geraes?
E quem melhor para especular sobre possíveis soluções ao mistério do que a imaginação dos escritores? Foi assim que, na primeira parte de seu livro Histórias e tradições da província de Minas Gerais, intitulada “A cabeça de Tiradentes”, o romancista Bernardo Guimarães, celebrizado pela obra A escrava Isaura, conta sua versão do sumiço misterioso da cabeça, que não cabe reproduzir aqui. O livro pode ser obtido no site Domínio Público. Bernardo encerra seu relato com a observação: “Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história não é de minha lavra.” Ou seja, ele não inventou, mas ouviu contarem.
Agora chegou a vez de Alexei Bueno expor sua versão do episódio, na única peça teatral até agora de sua carreira, escrita em 2017, publicada em 2018 em edição despojada, sem ISBN, com baixa tiragem, fora do comércio, que só agora ganha uma versão à altura, pela Editora Anadiômene, com um bonito projeto gráfico. Uma moeda de D. Maria I de 1792 dá um toque especial à bonita capa, foto anônima de Outo Preto de cerca de 1870 ocupa a contracapa, e, nas orelhas, vemos um recibo assinado pelo Aleijadinho em 1796. Nas palavras de Alexei em e-mail para o autor desta sinopse: “O episódio é verídico, metade dos personagens existiram, e o que há de ficcional só ocorre quando a História nada registra. É passado no fim da Inconfidência, naquele ambiente ultracatólico, opressivo e decadente que vivia a então Vila Rica.” “Conheço tudo sobre o assunto, que sempre me fascinou, inclusive a narrativa do Bernardo Guimarães, que é uma das minhas fontes.”
Já que não se tem ideia de quem cometeu aquele ato ousado, cabe à imaginação preencher a lacuna. Assim, Alexei Bueno, numa peça em apenas dois atos que segue rigorosamente as três unidades clássicas preconizadas por Aristóteles – unidade de ação, unidade de tempo e unidade de lugar – imagina um complô do Mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, para resgatar do “poste da ignomínia” a cabeça do inconfidente. “Este é o atentado maior, o mais doloroso. Como a cabeça é o alto e a coroação do corpo, os quartos eles os deixaram aí pelo Caminho Novo, mas a cabeça, a humilhação maior, a nos olhar sem olhos e a nos expor a mudez de uma boca que tanto falou a todos nós, esta tinha que vir para esta Vila Rica do Pilar.” “Se houvesse homem válido e de inteiriça coragem, deveria arrancá-la desse poste e dessa gaiola, e dar-lhe enterro cristão [...]”.
Dito e feito: após confiar ao seu escravo africano de meia-idade, Maurício, a missão de embriagar a sentinela, incumbe então seu escravo mais moço, Januário, ávido pela liberdade, de trepar no poste e trazer a cabeça do alferes. Munido da carta de alforria e de umas moedas de ouro, entregará a cabeça a um padre de confiança que lhe dará um enterro cristão, e fugirá para longe, onde nunca seja encontrado.
São sete os personagens da peça: o próprio Aleijadinho, um padre hospedado em sua casa, o entalhador chefe da oficina, dois escravos de meia idade e o escravo mais moço, além de um arauto. A peça, cujo ritmo é pautado por obras da música sacra mineira do período, além de trechos da Missa de Bach, ostenta passagens brilhantes como aquela em que, ante a observação do Padre Estêvão de que “será difícil para a geração futura […] acreditar que tantas obras-primas foram feitas por um escultor aleijado”, o chefe da oficina retruca: “Pior do que isso só se imaginássemos um compositor surdo.”
Também abrilhantam a peça reflexões sobre os absurdos da vida, como esta observação do Aleijadinho: “Que grande mistério é a dor, o sofrimento? Por que nosso Deus Onipotente, tudo sabendo e podendo, nos fez dela escravos?” Questão perene da Filosofia, sem solução satisfatória.
A rigor, um auto sacramental “é uma peça teatral religiosa alegórica de um ou vários atos e de tema preferencialmente eucarístico” (Wikipédia). Na nota ao final da peça, Alexei explica por que a enquadra nessa categoria. “Sua ação, cerrada nas três unidades, evolui de tal maneira num clima mítico e místico que a justificativa nos parece clara.”
Esperamos um dia ver essa genial peça, sobre uma passagem de nossa história imersa nas brumas do mistério, levada ao palco ou às telas do cinema!