O escritor judeu Scholem Rabinovitch, mais conhecido pelo nom de plume Scholem Aleichem (assim como o escritor Samuel Langhorne Clemens é mais, muito mais conhecido como Mark Twain), nasceu na atual Ucrânia e se tornou um escritor popular entre as comunidades judaicas da Europa Oriental falantes do dialeto ídiche, antes de emigrar para os Estados Unidos, destino de milhões de judeus daquela região fugindo da pobreza, preconceito e perseguição.
Quanto ao nome: Scholem Aleichem é uma variante ídiche da expressão hebraica Shalom Aleichem, Salaam Aleikum em árabe, que significa “a paz seja convosco”.
Quanto ao ídiche, trata-se de um dialeto do alemão medieval falado pelos judeus da Europa Oriental desde a época medieval até que a catástrofe nazista viesse a varrer do mapa essas comunidades. Embora jamais se tornasse a língua oficial de algum país – os judeus, ao retornarem à sua pátria milenar após quase dois milênios de dispersão, preferiram ressuscitar sua língua então reduzida ao uso litúrgico, o hebraico, relegando o ídiche ao segundo plano – o fato de ter legado uma rica literatura faz com que o ídiche possa se alçar acima de um mero dialeto e reivindicar o status de um idioma, uma língua. Escreve Otto Maria Carpeaux na Introdução a A Paz Seja Convosco (pág. 6), coletânea de contos de Sholem Aleichem traduzidos ao português e publicada pela Editora Perspectiva em 1966: “Por que é uma língua o holandês, cuja base também é um dialeto alemão medieval? Porque existe a grande e rica literatura holandesa.” E a concessão do Prêmio Nobel da Literatura a um escritor de língua ídiche, Isaac Bashevis Singer, em 1978, bem como o sucesso internacional do musical Fiddler on the Roof (Um Violinista no Telhado), inspirado em personagens e situações dos contos de Sholem Aleichem, representou a consagração desse idioma que hoje estaria quase morto, não fosse sua rica literatura.
Scholem Aleichem costuma ser classificado como um escritor da escola realista, junto com Mêndele e Berguelson, contrapondo-se aos escritores “simbolistas-místicos” como Peretz e Anski, que “estilizam […] a vida judaica, envolvendo-a numa aura de recordações histórico-religiosas e místicas” (Carpeaux, idem). Mas será Scholem Aleichem realista no sentido em que o são um Balzac e um Charles Dickens? Não, você pode enquadrar um autor num “estilo de época”, mas cada um desenvolve seu projeto próprio. Se o projeto de Dickens é denunciar as mazelas sociais, e o de Balzac, retratar os diversos estratos da sociedade, qual o projeto de Scholem Aleichem? Seu epitáfio, escrito por ele mesmo, lança uma luz:
“Aqui jaz um judeu comum
Que escreveu, isto é verdade, apenas em ídiche,
E para as mulheres e para a gente comum.
Era humorista, era autor
Que zombava de tudo.
Apanhou muito na vida,
Mas seu público riu e bateu palmas,
E só Deus sabe como ele sofreu”.
Seu projeto era escrever para o grande público de judeus simples, na maioria pobres (ué, os judeus não são todos ricos? Voltaremos a isto adiante), habitantes do stetl (vilarejo) do leste europeu no final do século XIX e início do século XX. Para isso, valeu-se da realidade quotidiana do stetl, de seus tipos característicos – o rabino, o chantre, o marido suando para prover o pão de cada dia, as crianças irrequietas presas àquele mundinho limitado, a mulher nervosa com a sobrecarga das tarefas domésticas, o caixeiro viajante, Tevye, o leiteiro (ou Teive, ou ainda Tobias, personagem celebrizado no já citado O Violinista no Telhado), o ingênuo e trapalhão Menahem-Mendl (ou Menahem-Mêndel) da cidade fictícia de Yehupetz, que tenta enriquecer metendo-se em todo tipo de negócio, mas sem êxito, etc. Escreve Baal-Machschoves, pseudônimo do Dr. Israel Eliaschev, em “O Escritor de um Povo”: “sem romantismo, sentimentalismo, nem idealismo, suas descrições trazem como leit-motiv o grosseiro e tosco da própria vida.” Mas à realidade nua e crua o escritor acrescenta algo mais: à semelhança do autor russo Tchekov, que pode tê-lo influenciado, Aleichem cultiva uma espécie de “humorismo melancólico”, de tragicomédia, explorando por vezes situações absurdas, como a do relógio de parede antigo que, do nada, se põe a bater “treze horas” (em “O Relógio”: “Porventura já ouviste falar nalgum relógio que bata treze vezes?”); do viajante que se vê às voltas com um cadáver por enterrar (em “Vida Eterna”: “Viajávamos, portanto, os três, contando o cadáver.”); ou do alfaiate às voltas com uma cabra leiteira que se recusa a dar leite (em “O Alfaiate Encantado”: “Como é que um judeu alfaiate se mete a negociar cabras?”). No conto “Ester” pratica uma espécie de “comédia dos erros”, trocando os destinatários das cartas, gerando uma enorme confusão (“Vou confundir as coisas: os versos do rebe, entregarei a Ester, e o Livro de Ester entregarei ao rebe”). Outro tema caro ao autor é o ponto de vista das crianças, como nos contos “O Canivete” e “Três Cabecinhas” (para ler este conto, clique aqui). Ainda outro é a perspectiva dos animais, humanizando-os, como em “Matusalém” (um velho cavalo) ou “Rabtchik” (um cachorro escorraçado). O viés tragicômico, patente por exemplo no conto “Guetzel”, nome de um “rapazote já crescido, abrutalhado” que de tanto sofrer bullying no heder (escola religiosa de primeiras letras) acaba pirando, atinge o auge em “O Homem Mais Feliz de Kodni”, em que um homem está radiante de alegria porque conseguiu que um médico afamado venha ver seu filho vítima de doença grave. E “Cântico dos Cânticos”, a história do amor de um irmão por sua irmã adotiva, eleva a literatura de Scholem Aleichem a um lirismo a que poucos autores românticos conseguem se alçar (quem diria, um escritor realista!), embora o conto se encerre com esta observação melancólica: “O princípio, por pior que seja, é sempre melhor que o mais belo dos fins.” Também a fina ironia perpassa a obra do autor, como em “Uma Expropriação Pascal”, conto em que uma turba de jovens socialistas expropria a ceia de Pessach do ricaço de Kasrílevke.”
Scholem Aleichem criou um stetl imaginário, Kasrilevke, a “cidade da gente miúda”, "onde os judeus foram amontoados um sobre o outro, como arenques num barril, com ordem de crescerem e se multiplicarem”, cuja população, “pobre, mas alegre”, “não se envergonha da sua pobreza” e se orgulha de seu cemitério velho que abriga “mártires dos bandos cossacos”. A cidade é palco de cenas impagáveis, como do “casamento estragado” porque os famosos músicos de Iehupetz não puderam vir (mas no fim aqueles da própria Kasrilevke dão conta do recado) e a dos gêmeos que de tão semelhantes na infância eram indistinguíveis e, quando mais tarde o pai vem a morrer, brigam como inimigos fidagais pela cadeira cativa legada pelo pai num lado privilegiado da sinagoga (“Os Herdeiros”). No final o sábio rabino, que se Kasrilevke não ficasse naquele fim de mundo seria mundialmente famoso, soluciona a disputa.
Em suma, Scholem Aleichem é um realista na medida em que retrata a vida do povoado judaico, mas pratica um realismo temperado com o proverbial humor judaico (aquele mesmo que nos deu um Groucho Marx e um Woody Allen no cinema) e o senso do absurdo judeu, que celebrizou Kafka. Corroborando esta tese, o conto “O Alfaiate Encantado” termina com os dizeres: “Rir faz bem à saúde. Os médicos mandam rir...”
Voltando à pergunta: como os judeus do stetl eram predominantemente pobres se o estereótipo do judeu, consagrado na literatura (Fagin, Schylock, Gobseck) e no imaginário popular é a do “judeu rico”? Essa é uma longa história que vou tentar resumir ao mínimo: os judeus, marginalizados pela cultura cristã que os acusava de “terem matado Cristo” e impedidos de possuir terras e exercer uma série de ofícios, viram-se compelidos a se restringir a atividades como a usura, o comércio de diamantes, a atividade bancária, a atividade de caixeiro-viajante, etc. Mas até que os judeus adquirissem plenos direitos civis, com a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas e a criação dos Estados modernos como a Alemanha e Itália, a grande maioria viveu isolada da sociedade maior, em guetos urbanos ou aldeias interioranas, falando um idioma próprio, o ídiche, a maioria vivendo em relativa pobreza, com apenas uma minoria bem-sucedida.
Somente com sua “emancipação” e a conquista de direitos iguais os judeus tiveram a oportunidade de explorar seus dons e ascender em atividades mais nobres como a imprensa, o show business, a medicina, a pesquisa científica, etc. Lembremos que os judeus tinham uma vantagem sobre a sociedade maior: eram todos letrados, já que aos treze anos o menino judeu deve ler um trecho em hebraico das escrituras sagradas em público na sinagoga, comemorando seu bar-mitzva, sua maioridade religiosa.
Um falante do português poderá começar a se familiarizar com a literatura de Scholem Aleichem através do livro A Paz Seja Convosco, coletânea de contos muito bem traduzidos que integra a Coleção Judaica, o primeiro grande projeto editorial da Editora Perspectiva, organizada por J. Guinsburg e publicada originalmente em 1966. Embora esgotado no site da editora, o livro está à venda na Estante Virtual. Outras obras do autor traduzidas para o vernáculo: são Stempenyu: um romance judaico e Tévye, o leiteiro.