[Palimage, 2004]
CARTA À OUTRA FACE
para que saibas qual o sabor das pedras que rolam entre as sílabas do sofrimento dividido nas horas aguçadas. para que saibas qual o azulejo para onde deverás saltar e adivinhar o início vocal da canção que espremeste, anteontem, num momento de rumo perdido festejado a gemer. quero-te falar do afamado ouro, escondido na pronúncia vital do vil erro que à noite me visita:
derrière sa mère le jour s’étonne l’or de ma nuit ne rayonne à personne même si le feu royal embrasse l’étrange j'attends sa douce mort – mon trésor change derrière mon esprit tout est jaune et écœurant l’or de ma nuit c’est mon seul petit chant eu olhei; conheci escura a reflexão e por ter olhado reconheci o pecado que habitou puro todas as bocas. eu olhei e logo fui engolido nesse instante por aquilo que ignorava desde então. eu olhei... assisti à marcha do esqueleto por dentro da imagem até à sua desintegração total. olhei e ceguei de mentira... je rentre pour redessiner la carte d’âme – la montagne a disparu
j’ouvrirai ma langue enflammée pour enterrer le cœur vinaigrant de cette saison le venin des affects circule dans les veines du corps abattu dos escaparates do cérebro, vezes sem conta pisado, a maldição cobre os iluminados soldados que decifraram os virtuosos braços do cataclismo. sob a pirotecnia chauvinista – pressuposto ciclone festivo – os escritos encharcam-se de assombro humano... daí o planeamento estratégico de ressalva: providenciar peões de recarga; anotar possíveis pontos de fuga e esconderijos – em suma, o sonambulismo artificial para que se aloje o abençoado quisto social. «não ouves? parece-me uma flauta... olha!» – PARADA MILITAR: osmótica multidão na praça. branca e curvilínea a estação na qual floresce a palma dos mortais que, ansiosos por cortejarem os arbustos carregados de bagos químicos letais, ignoram a húmida palha da sangria – fátuo manjar dos justos – remetida a um canto já fria, foco de poder e ameaça. as flores perdem cor no jardim da pioneira amargura e olhando com dor uma carcaça, a mãe retalha o vestido quebrando a jura. dos longos braços que a poesia ao homem confiou, estranhos cansaços e os olhos ainda baços do pouco que se incendiou. escrevo-te para que conheças em diagonal o percurso da jornada:
compromisso – ir ao encontro do irrequieto rosto da água emboscada – ataque surpresa dos loucos karatecas do gelo repreensão – a monstruosa onda gulosa do sono de papel prémio – visita ao claustro dos profetas e um naco de pão ... e a nova visão do espelho: ce qu’on mord avant de plonger dans le miroir ne se raconte jamais sans qu’une vraie faim déflagre sur la peau. l’eau de ce miroir est flegmatique si on le regarde avec les yeux ouverts; il faut les fermer, il faut les sacrifier pour que l’épicentre éclate et qu’ainsi, l’eau des disparus puisse exprimer son mouvement tyrannique et vivre protégée grâce au verre renforcé par la magie des reflets. dormem seis crianças junto à árvore que conta as fábulas dum mundo perdido – beijam sonhando as raízes. pelo carreiro do bosque um homem sem cabeça traz nas mãos uma caixa negra selada a lacre. o cometa – a terra ameaçada; alvoroço: a cor grita, o som cora, a caixa negra abre e desfaz-se de seguida – um cubo axadrezado nas mãos, perdido o resto do corpo. uma manada furiosa de cabeças selvagens estremece o solo – as crianças acordam. gemendo, a loba de úbere cheio atrai, piedosa, os cordeiros catecúmenos. ô gorge où le rouge deviendra mortel [un couteau] ô vent malade goûteur de pauvres cueillettes [un poireau] ô cascade poissonneuse de la nymphette cruelle [un ruisseau] ô chevalier gitan du pays sans moulins [un drapeau] ô fantômes des femmes coquettes [un tombeau] «trago a chave da montanha escondida numa ruga» – assim se apresenta o velho de voz rouca, voz arrastada pela tosse seca. o traste que insinuando-se triste exibe a branca cabeleira como isco, cerca a presa na dança compassado e, por ser fosco desenha fusco, escorchando a pele dura da terra com sua bengala de ponta afiada. aproximando-se toca com o indicador na nervura saliente do peito do escolhido, intumescendo-a com movimentos circulares e é ao te aperceberes do sentido, que vês a seda ejectada de cada um dos dedos, alvejando-te desprevenido e envolvendo-te em sucessivas camadas de teia, onde amoleces com clichés digestivos – «vomitarás um músculo negro cheio de sementes». le mot sera le fruit de l’ombre
en écoutant la voix profonde «si la pomme pleure en tes mains un nom s’agite chez tes plumons» – c’est la voix de cet an et des prochains quel désert – j’ai soif et je ne veux plus des citrons ô cheval du temps viens me sauver promptement espero que, entre os folhos das sete danças, possas recolher pétalas de carne para os teus mais recatados ritos, e, por encantamento, comungues o oráculo dos malditos.
●
O BAILADO DAS FACAS
auréolas de fumo coroam os pulsos: a questão
a estrela moveu-se
enquadra-se na cruz que divide o olho: o brilho do Sete-Estrelo ¿boa-nova ou receio de enfrentar o exército de plátanos? deveras surpreendente a assombrosa região onde se respira com os pulmões aos sobressaltos deslizando a sumptuosa forma regressa ao grotesco bailado das facas as mesmas que assistiram o parto ¿partir? subo um degrau e um degrau é subtraído na escada homóloga a esta que subo – a mesma ou outra? reflexo desta mesma escada só que vazia: espelho glutão a escada afigura-se móvel forma o A ou o triângulo incompleto a escada que subo e a inversa sua irmã nas antípodas a matéria e a anti-matéria a escada e a outra escada duas escadas ou nenhuma: uma apaga a outra ¿a ressonância do reverso torna letal a ideia? o vórtice encoberto planalto da meditação o cérebro invade libertino com os seus tentáculos contrácteis – o polvo axiomático: suga factos defeca sofismas e arranca obsessivo com hipocrisia inata os tentáculos dos seus semelhantes resumo: borrões de tinta a vaguearem expressivos no espaço e no tempo ¿porque não arde, agora, o papel? adulto: adúltero enquanto esmaga vidrado
a essência; ler o manual entrar na caixa e dançar organizado percalço: trazer sempre na algibeira um pequeno frasco de bílis para eventuais situações indigestas ¿ninguém cala essa criança frágil que berrando ordena? ondas vulcânicas cortinas de ar quente na sala do mímico interrogatório sozinho entre bocas torcidas fui julgado ao estalarem dedos coro o sangue vacila como ordinário líquido sujeito a fervura diagnóstico: paralisia existencial – averiguar urgentemente qual a causa ¿ensaio de matança ou anómala herança? apercebo-me que não estou só jamais ver-me-ei só o Grão-Olho-Ubíquo espreita e persegue os filhos do caldo primitivo ninguém está livre enquanto respirar a sombra do rosto ensanguentado prevalecerá sobre a escrita do húmus – a culpa é a virtude dos que vivem apresento-me de mãos desamparadas
num ímpeto agarro-me à parede lisa as mãos sujas escorregam e num rasgo mancham de dor o branco glacial – a ferida negra novo ciclo em cada noite mote da flagelação: «o tempo passou o bicho amou o cérebro decantou a morte assobiou – quem sou?» a carne é a única morada seus folhos escondem a razão dos espasmos há que extrair energia cheirando a terra móbil escutar o mundo tocá-lo agarrá-lo e engoli-lo vê-lo já dentro do estômago [expansão apaixonada dos sentidos] o corpo dança como ressurgimento da génese planetária ¿como descrever a demanda doentia de auscultar em todas as coisas o solitário coração? a flor nua empalidece
[arcaboiço suspenso] um calafrio apaziguador ao visionar o terno esqueleto da palavra vértebras soltas organizam-se: a mágica centopeia silábica desperta a carcaça da ignorância ¿como elaborar um cartograma legível para que alguém possa romper-me a membrana invisível? rebentaram as águas dessa luz que o objecto rejeita – o mensageiro chega abrindo as asas tu não reconheces o teu refúgio sem que ouças o poema lamuriado que agudiza o desgosto – tristemente o silêncio propaga-se quando um punhal é apontado ao peito ¿roubas essa luz? descalço-me à entrada do pinhal os pés alertados para o sofrimento pontual mãos à procura as unhas ferem o dorso dos pinheiros com movimentos certeiros corro: o sangue a pingar dos dedos ao sangrarem os pés tornam vermelha a caruma
à minha passagem à saída uma bacia de água limpa e uma toalha branca esperam-me mas lavo as feridas cuspindo e esfrego o sangue por todo o corpo até tornar rubra a minha condição ¿se denunciam o orgulho qual a razão de defenderem com certo zelo o entulho? para ir cabendo neste casulo de fibra pronuncio alto a senha de guerra preso ao zumbido sério do zangão que ameaça com seu ferrão venenoso rendido ao licor pastoso que o relógio derrama brinco com a criatura de barro moldando-a ininterruptamente até que o ser imponente se insurja ¿em que significado foram embebidas as caricaturas? amanheceu: a cifra diferente e hoje é maldito o sol o lápis de luz rabisca a escuridão
¿onde colhi o lídimo cereal da solidão? aquele que me ataca é meu aliado – estou contra mim como ser eu se acordei com a pele vestida às avessas? ninguém conhecerá jamais o turbilhão das sensações por que passa quem escreve apaixonado no peito duma rocha com o sumo da romã esventrada ¿mas quem é digno da morte dum fruto? ali é o canteiro dos monstros que ainda assombram o presente o pedaço de terra que reanima a saliva agressiva do que se vê brutal enquanto sincero animal ali é o canteiro das flores silvestres que verei crescer e talvez morrer mas que nunca desaparecerão enquanto eu não libertar esta água imprópria para beber ¿quem ousa disseminar as sementes do mal sem se ver por um instante como desorientado animal? ●
O ECLIPSE DO CÉREBRO
para cada eco há um ouvido sempre pronto
escutando o tambor apressado e tenaz
manipulo as sombras estuais do passado faz muito frio nas passagens vocabulares e a certa altura todas as vozes se contradizem – o que é mais construído é a destruição MIRADOURO ALFA
o gato preto
em »===» fuga o cão amarelo : cal + cu * la – o momento exacto para detonar a bomba presa à coleira vermelha do gato preto sobre os destroços de carne o cão amarelo e o gato branco fornicam noite adentro sempre serei um ser desesperado
nesta terra de cima [o barco nevrótico partiu em busca do sonho] relance compulsivo a estrada passeia-se-me nas veias sobram apenas os mortos que detonam a noite já túmulo do sono início à peste ou o início da peste antedita com jorros de ferrugem aparecem coisas mortas aferroadas na camisola do filho protegido pela imagem efémera mas cortante desfiladeiro dos imprevistos [a rígida mão morta em queda assaltou-me os bolsos] a água outrora limpa é agora lama e o choro sobrevive através da vida que lá nasce: algas rãs alguma flor brava início à peste ou o início da era da peste na câmara de carne mais profunda os vermes ressurgem com a boca suja realçam a escuridão dos objectos o amarelo extremo dos ornatos geme no aroma reduzido a acenos cínicos a fonte sugere leveza no viver pesado
devido à forja diligente onde arde quem é novato aquele que ociosamente tudo declara para dentro de si [linha irregular com múltiplas necroses] aquele que esconde religiosamente o umbigo em ferida mágoa de sabor atrabiliário gosto arrastado para a súplica dolorosa beijo a cara mordaz e táctil de polpa assustadora e no corpo a glândula fatal busca a palavra executada suicido-me tantas vezes na mesmíssima tarde e o que resta é doença MIRADOURO BETA
um muro
esponjoso ergue-se ameaçador a caligrafia do medo [roseiral a vindimar] «os cavaleiros da noite triangular empunham suas espadas não escrevas no escuro» grandes horas comerei iguais às que comi
assistindo a pequenos derrames de pó saboreio o pão amassado pela alma anémica reanimada por mãos de folha outonal
do lenho amarelo ou ar de mofo suspirado MIRADOURO PI
alguém espreita-se dono de si
gerando ventania poeirenta o ciclo irredutível que a mão empena o halo imundo do mundo reduzido a paisagens hormonais amenas
ouço o grito do jarro atirado contra a parede alguém está na garagem ¿o ladrão de sonhos? «sim vi-lhe o capacete luminoso» gota aliada ao destino
em cetim aliviado o corvo tornado assassino voltaram os assombros gota amordaçada à beira dos lábios tepidamente ridentes o fantasma assalta a casa e masturba-se
defronte do busto de Freud garganta seca minúsculo demónio de saias longo ditongo do pombo como assombro alijo redes aleivosas do polígono mental bifronte e mensageiros da inverdade indagam acerca da punhalada MIRADOURO GAMA
gadanhas de osso
bailam perigosas uma força inexorável fustiga a pele escapa-se à guilhotina mas cai-se no poço sem fundo ...............pausa............... encostar o ouvido ao crânio e escutar a cascata trovejante entre a vida e a morte um passo
que ainda ninguém soletrou entre a fragilidade amedrontada das palavras e a sombra plantada no deserto o hipotético equilíbrio das probabilidades palavras tantas
tantas línguas e feridas ouvem-se os sinos brincalhões no átrio coronário esta é a música a única música tantas palavras como tantos homens MIRADOURO LAMBDA
telescópio animal
ali mal o fantasma encurralado pela teia de artérias metálicas renuncio o bife malfadado negro e fedorento temperado com o veneno da víbora presunçosa tareia em tremátodes
lupa incisiva entre seres depressa nessa controversa revessa anexa da luz convexa doente o invento de ser partícula [não pensar] um estalo a nuca desfeita e um beijo espúrio ou abraço peçonhento entre inimigos falsas lágrimas forçadas nos âmagos sulfúreos amálgamas pusilânimes dançando contrariadas só depois muito depois
o arrepio aquando o assobio do trio frio o corpo curvo principia a dança do cisne embusteado a fraude célebre inculcada no olho vidrado que com pedras se arranha [tardio fermento] pudera aceitar a tralhoada emocional com a frívola ablação dos ícones entranhados amenas holotúrias drástico amar sai demo do gesto não do corpo-poema MIRADOURO MICRON
pinheiros masturbam-se ao vento
esperma seco que salga a língua
tempo de escoar a linfa
depois do tiro falso bago de uva equilibrado na língua
crepita sangrando substância franzino cruzar de pernas fugidios espantos de maré silenciosa gulosa caravela comandada por juizes do inculpável manto imaterial parto difícil
a cebola doa suas vestes o luar cristalino acolhe o lago
cujo nome é desenhado por peixes que sangram pelo ânus o solo da infância remexido recordações da gruta do bocal da aclamada boa hora [o novilho sobre a palha iluminada pela tocha pagã] células esféricas amam espectros ocres o quarto perpassado pelo olor a sangue frio o corpo encolhido e eis que surge o anelídeo de amianto um galopar de sons hereges ritmo convulso dogma incestuoso no entanto o animal dorme edificando vocábulos levianos visitando o fogo intoxicado das usinas deliciando-se com o ranger das máquinas que molestadas afincam o sentido da volúpia metálica o gesto brando sobre a secura da arena acaricio o deserto aceso retábulo idiossincrático derradeira manjedoura e são robustos os ombros do muro
quando a mão apalpa o mundo tipo solha atordoada MIRADOURO OMEGA
tarefa:
riscar a parede do cubo gelatinoso frágil e transparente e enfrentar a tempestade com os pulsos garroteados por tripas secas ¿o que é um relâmpago? «é o arroto dos céus» ávido movimento de cardumes febris
a triagem segue o padrão de desintegração obsessiva e o desacerto não demora a favor duma oferenda toalha nas mãos
sorriso indelével cume das discrepâncias emergindo da gula ciente do irmão falácia da honra lancetada na hora frígida estreita falésia entre confrades deturpadores sonâmbulos atraiçoam a película visível
a mão vigilante sobre a adaga agasalhada ao acaso
partir a telha outrora orquídea despojada da organização de suas peças flores e flores comi murchas dentes rebeldes energúmenos assassinos a cintilante visão alimentada de cal uma voz lancinante perdura nas vísceras do coração azeda o vinho no lagar da culpa degredo ensaiado minúsculo segredo ¿para quê explicar couraçadas evidências? decantar as aberrações objectais é o ofício da coruja que ao lusco-fusco oculta o culminar dum trajecto indefinido cumprido por finitos pés de acrimónia infinita atrás da porta o túmulo os dedos desagregam-se olho fixamente para o vazio detrás da porta os olhos secam [a onda engole-me] a realidade é-me mortal
●
A REVOLUÇÃO ESPERMATONUCLEAR
o engenho locomove-se libertando vapor de esperma
as batidas de caudas no pavimento
e o sol esventra a criatura de rompante tremendo-lhe as faces de terra hedionda [terra de petróleo embriagada] tórrido castigo as mãos magras à procura do trigo longínquo chovem flechas atómicas e a mulher grávida foge com uma criança ao colo deixando cair o biberão de plutónio morno ó rochas brancas que chorais ferrugem ó rochas de polpa dura mas terna na infância dividida em brincadeira – a multiplicação honesta da areia áspera aveia para mastigar em peregrinação as árvores de betão espezinham
os distraídos são monstros na era do desperdício feitiço dos bruxos agora presos num frasco por terem quebrado ensandecidos a cúpula da estufa e enxotado os cavalos selvagens da ciência apontando-lhes o céu – o cérebro disforme expande-se como húmus para o ventre da terra fórmula: absolvição por extermínio o ar é água neste precipício então os pulmões afogam-se ocorrem explosões rítmicas no tórax e surgem pústulas de adrenalina na cara do coração dos sulcos risonhos florescem os espigos de cloretos os genes excêntricos cabalmente atordoados pelo suor de nuvens electrónicas em confronto convite para um mergulho no painel fluído esse mar de químicos possível dimensão sideral da libertinagem assassina [artificial espelho colorido] em que cada átomo entra em coma perante o festival de estímulos eversivos em fúria se assina o folclore inorgânico
entretenimento dos mutantes e um ardor metálico caracteriza a nova respiração a estranha ave de rapina sobrevoa aturdida a praça esfomeada esvoaça procurando um cume onde possa construir o seu ninho com arame farpado o eco distorcido do vírus desdobra-se na sequência de imagens cítricas [poliedro radioactivo] corre líquido reatando postos de passagem nódulos de afinidade selectiva voo mental sobre a praça acompanhado pelos ruídos do ADN contorcionista o mercado da praça: apregoam-se saldos de órgãos para transplante as barracas cheias escorrendo ranho enfeitadas com flores pulmonadas que cospem para o chão pontes de osso entre cadáveres a pilhas esgotam-se de sedução no centro da penumbra os olhos choram químicos formando-se uma sombra em cada um dos sepulcros das pálpebras onde ferve a espuma da contrição revelada – o fluxo de electrões corre para o apaziguamento astral o ser tracejado a força escutando
recriando trajectos soletrados tão friamente fiel à fome transumante coleccionando rasgos de plantas que a luz artificial propicia através do incêndio em que o fogo se apresenta como retornado recusando-se a deflagrar a milagrosa deiscência da cinza as bolsas de pó mágico estão vazias o pé de feijão abocanhando o céu apodrece de novo aos quarenta pés de altitude os rins desfazem-se e o grito de urina estremunhece com pedaços da mancha retocada pelos outros qual dor qual sono – gratos sucumbimos à benção orgânica da natureza a escrita muscular descreve a guerra oxidativa lémures organizados tecem jornada a jornada os esteios das trevas e assobiam à noite evocando antigos demónios o prato giratório conserva os corpos em movimento e a mímica provém da confusão dos vapores emanados pela compota nuclear do cântaro boquiaberto enraizado na terra deserta cadeiras volantes ocupam o espaço
rompem a membrana do tempo coagulado os homens lêem entre si os grunhidos palavras toscas a formarem frases: apenas uma quebrará o feitiço os filhos gatinham nus brincando entretidos junto ao lago das algas radioluminescentes onde barbos de branca fluorescência procuram agitados sedimentos de urânio privilégio do sacrifício ou até obrigação concêntrica a insólita travessia do sonho químico [hipnose experimental] mirando o chapéu às cambalhotas no céu cuspido pelo engenho avassalador da (pro)criação humana uma lança nasce do vale entre os seios da excelsa mãe dos homens senhores da guerra – ¿que tóxico esconde o tão precioso leite? os ovários escondidos limpos cada qual no seu átrio de luz espermatozóides rondam a armação até entrarem pelo canal metálico externo artifício distante do coração luminoso da mátria o cubo da amargura guardado fundo
sob a influência da supra-violência de medusa encarcerada – o ódio alimenta-lhe a insónia o engenho encontra-se permanentemente refrigerado dois arcanjos ventilam com suas asas negras sem nunca imaginarem a cabeça que equilibra toda a estrutura – a cegueira é a nascente mais óbvia a glande à espreita e arrumada na prateleira rente ao chão uma barriga de aluguer espera a sua vez o murmurinho de vacas leiteiras em ruminação contrabalança o negro peso da ambição – os filhos montaram a tenda e bebem regalados o sarcasmo iónico no fontanário fumegante saudades da erva verde do seu sumo amargo mas estimulante saudades do grandioso jardim [mar de orvalho] navega agora em pleno nevoeiro o espectro da caravela – debruçada na proa a feiticeira raquítica decifra diligentemente o futuro na sua bola de cristal que o gás violeta escurece a partir do cerne
um rebento de avião brota
do pavimento quebradiço balouçando o pelicano indígena de estranha inteligência estudado por uma bióloga com um balofo coração a substituir-lhe a cabeça os filhos montam o papagaio com cartilagens secas das aves ancestrais que morreram à fome e à sede no ar sempre voando amedrontadas pelo tédio peganhento da superfície atam juntos o fio [comprida trança de veias enrijecidas pelo desespero] e lançam-no ao ar à espera que o caldeirão dos espíritos ferva dissolvendo as nuvens amareladas adiando assim a tenebrosa chuva de enxofre o céu ferido pelo gume luminoso – pássaros mergulham cegos unem os bicos de néon [boca do sábio tempo decorrido] para contarem a história do escultor que numa tarde sangrou a sua obra dando-lhe vida assassinando-a ●
AURORA
recordas agora roendo a maçã
acariciando o oportuno sorriso amargo que te iliba as noites em que suportámos o peso da paixão com os ácidos tendões da adolescência ¿recordas? vês passar em frente o desfile carnavalesco das identidades pueris
[máscaras do zoo romântico] os animais que fomos em euforia sísmica? – diz-me o que ainda lês nas constelações florais dos teus sonhos sufragados com o chá de ervas queimadas no inverno nevoso cada vez mais presente corríamos na rua liquefazendo as montras e nelas a nossa imagem distorcida o orvalho apressado mancha de ciúme a luminosa fruteira estremecendo o combalido vagão cárneo que tímido desfila à volta é doloroso falar das nascentes do teu corpo:
a água quente correndo lentamente formando um rendilhado de seda doce – ó água que te quero mágoa no meu corpo sei que ainda usas as tuas armas pões à espreita os pequenos seres vegetais dum sonho de qualquer noite baldio onde a varejeira não suporta o cheiro a carne morta e põe os seus ovos no coração dum malmequer ¿onde estavas tu quando enraivecido quebrei os braços a uma árvore? anoitece subo taciturno a nossa rua e admiro um gato bêbado de amor com os olhos fixos na luz dum candeeiro público – lambe os dedos das patas coça o peito comichoso e procura a lua escondida por detrás das casas relembro deitado todo o esplendor da prima imagem saías do banho e uma floresta se abria os teus pés realçados por pingos de chuva brilhantes suavemente balançavas de encontro à noite não brincas mais com o meu dolorido peito nem ouvimos juntos o estridor dos corações em dueto ressoa agora o beijo afunilado da angústia
o amor às fatias ressalva a paixão limpa dos fungos serôdios do prazer o anel de vapor não nos circunda eternamente sempre soube embora me deixasse seduzir pelo emaranhado de pétalas perfumadas pela dança das ninfas cuspidas dos tufos de erva fresca por debaixo da ponte onde confessámos dúvidas e embaraços arremesso ao chão todas as moedas de basalto que arrecadei já não preciso de comprar o mundo e com as mãos livres faço música entrelaçando as cortinas de aço fujo dos momentos banhados a ouro e prata pérfida condição de olhar a ausência – talvez banhe tudo a cobre e bronze enregelaram os diálogos na estação do frio os lábios azuis murmuram ainda como facas que insisto acariciar com os dedos negros dum ódio cúmplice a morrer no açúcar das recordações a desembrulhar no último suspiro terror de te entrever na espuma do antedito fim vergonha de sussurrar o que no sonho é confessado aos gritos arranquei os olhos ao peixe dourado que atento
nos sobrevoava cego morrerá de tédio e usarei sua espinha como amuleto as fotografias ardem junto com as cartilagens do malfadado peixe mas não há exorcismo completo antes que eu arda também pensava que formado o casulo a poeira branca toldasse as tentativas de fuga o brilho das novas visões que vivem com o sangue novo da ilusão pensava que fechando as persianas estávamos isolados do circo móvel das criaturas ridiculamente vestidas para o desmembramento de algo belo que subsistia da sede do desejo pensava que o casulo iria ganhar paredes carnudas e cintilaria ao tom dos orgasmos em simultâneo sobram as ruínas dum império construído por falsos operários com matéria frágil e transparente como o vidro resta olhar a neve: tudo é falso a beleza dos cristais sugere a mentira salgada e o sal cruel esboroa o casulo gargalhando baixinho danço com a armadura corroída
[a valsa do engate] só feliz de quem é engolido pelo amor ou morto quem conhece a colher do afecto é tarde nem chegámos a despir a carne dos nossos corpos e jamais conheceremos juntos o jardim das aves coloridas que se fundem biblicamente
no protoplasma da aurora
●
O LABIRINTO DO FOGO
da velocidade do que arde resta a melancolia das cinzas
um rosto azulado espreita
«a vida vazia» círculos de fumo pálido marcam a presença do ser líquido esqueletos dançam lampejantes à volta da fogueira [a música dos ossos] dão braçadas a ritmo asfixiante como se fossem lâminas afiadas seccionando a labareda com precisão cirúrgica imagens em movimento [senhas de vida mordida] «é preciso aprender a ler as vinhetas de fogo para condenar o trago comum» a boca cospe fome enquanto essoutra queima sempiterna [a boca de lume] corpos sanguíneos enegrecem enternecidos
a cada batida do tambor mole que desmaia nas pregas do tempo o chão estremece surgem pequenas fissuras na pele de lodo gigantescos pés vibráteis lavram a planície do último sonho terrento sacudindo como que desobrigados a fúria do tímido basalto martelos espinhosos fustigam a folha de ouro arrancada à argamassa fibrosa [células celulósicas semimortas ou películas fotográficas enrijecidas pelo calor?] ninguém chora preso às rochas da superfície do fogo embora lágrimas de hélio celebrem a origem de todos os corpos movidos pelo calor envoltas pela fumaça duas caveiras orbitam inebriadas experimentam o beijo ósseo como dissolução do casulo como abertura para novo abismo «finta as omoplatas da jornada esfaqueia o céu vertical alonga o golpe rasga todo o azul: verás o inferno» a larva dorme em sua casa o acaso intercepta o ciclo «lenha para a fogueira» e de súbito o arrepio anéis contrácteis dactilografam o corolário ondulam o brasão real tatuado que luminoso engole sumptuosamente o medo à boca da chama em forma de ovo estes dedos estes ramos cansados ardem em sentido inverso na fogueira sobre o mármore azul pequenas bolsas luminosas cheias de brasas [folhos caramelizados pressupostos corações lancetados] irredutíveis fogachos do indizível «é preciso aprender a linguagem do fogo usando seus ditongos para renunciar ao gelo estéril» o vidro derrete instaurando o silêncio ¿como ouvir o fogo nesta câmara escura? os tímpanos embarcam no furacão de cinza «fecha os olhos não ouças os soluços da criança assustadiça e enquanto ardes encurralado no infinito permite que o fogo povoe o teu sangue» a parede marcada pela teia de nicotina
ecrã: músculos dum vermelho brilhante entumecem ao olhar o corpo sem a pele «eis o animal verdadeiramente desnudado» tudo o que o todo revigora diluído no copo que o olho transforma a serosa frágil toca o ar e ferve [a imagem real sintetiza a mental subsistência] o muco movimenta-se em direcção ao foco rede: minúsculos raios de soro incolor aprisionam o observador onde está a terra? porquê esta pólvora seca? a fome ordena neste labirinto não adianta compreender a ameaça dos archotes acesos que alumiam ilusões [pupilas artilhadas pestanas queimadas pálpebras flageladas] «põe o dedo na minha chaga recolhe o coágulo da afinidade apaga esse borrão na labareda verás que o sangue ressuscitado se refugiará dentro da tua pele queimada e esse teu dedo será o marco do nosso novo estatuto: seremos irmãos de sangue pelo fogo e irmãos de fogo pelo sangue» contemplar de novo
as folhas de outono em brasa espalmadas entre as folhas do velho diário que tem como marcador uma fita de sangue corrente [a escrita do degredo] a língua podre as nervuras dos olhos incham [condensado mapa dum outro sentir] são benzidas palavras paridas e afastadas as que não seguram as letras seguindo o rasto de gelo da lua redemoinhos de espadas a quente confluem de empatia aparente sorvedouro complacente é o trato cénico da voz umbrátil a sós com as centelhas do sol [coágulo de esperma inflamável] a fogueira arde ainda sobre o mármore azul «conta os seios das flores junto à janela de fogo é chegada a hora de amamentar as almas penadas que se escondem sob a epiderme dos objectos reparte o leite perfumado por aqueles que esgotaram as reservas dos seus cofres de pólen» o incêndio digere a árvore das árvores
[os pulmões secam] «escuta o que o fogo tem para dizer» ardem florestas inteiras cá dentro é este o verdadeiro incêndio que vive preso na caixa torácica ¿como cultivar de modo ordeiro o elemento ígneo dentro do peito? o tecto da casa assume-se líquido desfocado aos olhos debaixo enxerga-se a face do lago que não espelha [o portal] um anjo desce com suas asas de alumínio perpassa o tecido esponjoso dum carmim submisso mantendo hirta a postura os olhos inflexíveis e suas mãos firmes exibem o esplendor do cálice de fogo «não fujas aproxima-te bebe pela ferida do lado direito [boca da redenção] queima-te não tocando em nome do coração que alumia quando morto cinjo-te com a vara angulosa da aurora» os esqueletos caminham taciturnos
rumo ao cemitério [a procissão das almas] cada um com sua vela acesa «eis a noite com linhas de giz entrecortadas e gritos de luz no estômago» a dança aconchegante de corpos um estilete maduro ao rubro e há fumo azedo [azia do desejo] «espreme as laranjas ácidas da última paixão e massaja o corpo teu que em teu corpo se encaixa» mãos esquecidas afagam o rosto perdido da memória «esquece a doce perfídia do desencanto vê o sol nascer de novo e visita teus irmãos de fogo para nova reunião na véspera das núpcias do gelo» choros uivos sincronizados e depois o mórbido silêncio [a lua trespassada pelo gume do icebergue] jaulas de náusea com pálida luz a esbofetear os rostos de lume «entoemos cânticos de absolvição e de degelo» partir à procura da flama
que o círio híbrido celebra num barco com sua quilha apontada à ferida do norte [flecha de lava que oscilando desenha no espelho d’água o rosto queimado duma virgem em lágrimas] partir à procura do pavio machucado da vida num tapete chamuscado que sobrevoa a praia de cinzas cuja insígnia de ignição foi bordada com linhas de neve coloridas o ancião apresenta a marcha lunar em torno da fogueira bravia esconde o rosto com as mãos como que por vergonha e profere em surdina as sábias frases do mestre que comungou a volúpia do mármore enregelado a labareda respira suspirando e cada suspiro ecoa nas cabeças dos atónitos discípulos [a lição do fogo] espera-se o lampejo do oráculo o desabrochar da gema excêntrica a noite como ouro negro [genuína vigília em honra do miraculado feto] «eis o solene baptismo na pia de fogo onde se forja o coração» a noiva palmilha a passadeira de centelhas
traz as mão cheias de cera seu véu ondula [vem suando sereníssima] o vento assobia e aviva as rendas de fogo arde o vestido assim como o corpo ardem sem o nome imposto «eis a tua esposa celebra esta aliança com a erupção do beijo» a insónia cavalga pela noite dentro um arcanjo negro quebra a cápsula de néon carrega nos braços uma criança morta aspergindo luz doentia sobre o luar circuncidado que delineia buracos luzidios [câmaras de cinza centrípeta] onde óvulos e abortos foram incinerados «acaricia os abrolhos desamparados aqueles que secam ao primeiro contacto com o mundo enxofrado descarna-os depois e exibe as peças florais que farão parte dum templo noutro sonho» o calvário move-se enquadrado na dança os esqueletos benzem-se com histeria e depois um silêncio de fumo negro «pinta as faces do rosto com o negrume crepuscular do incêndio e arranca as estalactites do queixo pois essas lágrimas não te pertencem» as giestas vestiram-se de luto
povoam o ermo que lembra a pele dum braço suspenso entra-se na gruta dos excomungados protegida pelas cascatas de fogo as mãos molhadas pelo medo [oportuna miragem selvática no beco] apalpam o rosto da rocha saliente «lê os mapas do inferno encontra o capcioso altar de anfiboloxisto e ao ajoelhares-te perante o magno olho de rubi que refulge no peito dum querubim em mármore azul há muito adormecido marca a palma da mão esquerda com o carimbo oficial do purgatório» o mal desenhado pelo bem desorientado ¿quantos são os sais culpados? colisões de iões no corpo o dedo apontado à estrela [pirilampo do universo] inflamada de choro são falsas todas as sombras que caminham à luz do dia só à noite é que a sombra genuína vagueia pelas ruas fugindo das outras a verdade ensinada é mentira apregoada
pois na espada que se herda da lua raia o sangue maldito que anima o ser ameaçado pelo gume de gelo cujo reflexo desloca o pensamento atravessando fronteiras inimagináveis ¿de que cor serão os cactos da lua? hexágonos a carvão definem o pedestal [supedâneo concêntrico que se bebe do espelho] quando só uma pirueta explosiva [o mergulho na noite] esbracejando engolindo mágoas esperneando e quando se dá o beijo em profundidade na testa febril do imo a tertúlia de alucinações obtusas: o duelo entre iguanas assassinas o vinho arreganhando os dentes a cançoneta amarelecendo os dedos da amante um duende orquestrando estrelas-do-mar com um fémur o carrossel gigante lentamente movido por escaravelhos mutantes cheira-se o óleo da engrenagem mecânica o coração perfura o colchão e aninha-se uma geada miudinha reata o monólogo de subsistência reconstituir a casa
colando farrapos de húmus com o gelatinoso muco de ossos quebrados pelo ranger tenebroso da carruagem dos mortos reconstituir o espaço de cartilagens oscilantes humidamente amadas pelas mãos sujas dos outros reconstituir a escrita da carne escrevendo sangrando sem saber como estancar o sangue [o regresso ao jardim das estátuas de bronze] resta lamber a tinta amarga rasgar as páginas do martírio e lançá-las à fogueira o sémen luminoso escorre na ampulheta [ferros em brasa como prelúdio a mutilação mental dos sexos] arde o tempo na fogueira doente a branca alma navega nas chamas um ente de fogo paira acima da cabeça respira ofegante na sua ampola intocável morre e ressuscita em cada espasmo de renúncia «prepara-te para o derrame não te esqueças nunca do teu fantasma de gesso e arame» errando no salto o símio é engolido
pelos pulmões de fogo os pêlos queimados segue-se a formação da crisálida e passados os quarenta dias uma mariposa de cristal voa com suas asas pintalgadas de crateras rumo à ilha dos regressos o templo afigura-se cabalístico porém o perigoso limiar aflora nítido e a pele eriça «bem-vindo ao museu das espécies extintas» o espaço do passado reanima-se e rompe as carapaças de cada sufrágio metamórfico uma bomba alojada no tórax ameaça explodir em cada quadrícula de tempo e os nervos são os cabos de aço da máquina semimorta [autómato arquitectónico assombrado pela biomecânica emocional] a multidão cala-se e cada um está só o tempo pára «escuta o choro sentido dos crisântemos no adro das lamentações e quando entreouvires a tua voz abrigada no xaile que as outras ainda tecem estremecer-te-ão os intestinos como desmaiam as flores no inverno» o olho fragilíssimo gira cristalino
e frágil [ferramenta da irmandade] planeta dos múltiplos espectros que se interceptam ininterruptamente gira até imobilizar-se de abrupto modo e cair certeiro no ralo da fogueira entra-se na casa do fogo as entranhas do corpo assemelham-se agora a cândidas flores de nenúfares em festa «se olhares em profundidade o horizonte acima dos ombros da criança que aquece suas mãos de leite junto à verdadeira face do fogo verás que as sombras dos teus irmãos são montanhas que se elevam irregulares mas com a mesma pulsação» a casa vazia de tudo quanto enche as paredes de lava fluida [ondas assassinas beijam fragmentos de icebergues] e pelos corredores circulam ventanias flamejantes que acalentam o coração amordaçado cativo no quarto escuro da casa «entra de pés descalços neste templo e empunhando a sarça ardente purifica todo o teu corpo passando-a por ele» o antiquíssimo fantasma das labaredas
[nobilíssimo gladiador vencido na perpétua guerra das trevas] surge pouquíssimas vezes após um brevíssimo clarão laranja de semblante fugaz e ilegível com seu corpo coberto de pêlos em brasa uma cobra amarela rasteja na planície lunar seu olhar cego fere o mundo reinventado pelo ser em novo dia aos outros alheio [a fogueira boceja] arde o tempo e tudo recomeça para quando a visita aos bastidores? horas de marasmo descomedido minutos de sujar os dedos com a tinta de paisagens instantâneas segundos de equilíbrio na corda bamba [apetrecho da grande farsa] ensopada de adrenalina recebe-se a frígida notícia [um irmão de fogo apagou-se na última noite] um calvário ganha contornos sete punhais trespassam o crânio e o cérebro sangra azedando aforismos o velório diurno
[última visita] morrem por dentro os irmãos vivos mordem as veias arranham o peito vestem o luto [túnica negra e cíngulo vermelho] forma-se o círculo das pupilas de fogo para última homenagem aninhado sobre os pés do defunto um mocho moribundo as penas carcomidas empestadas de suor frio os olhos pardacentos voltados para o nada absoluto o mestre fecha a urna com estampido ensurdecedor e os irmãos iniciam a procissão fúnebre até ao cemitério «à terra tudo é devolvido o que é jurado é esquecido coração de carne é coração de lama perdido está todo o tempo sofrido aparta-te do teu fiel ouvido pois viverás d’olvido na tua última cama» ●
PERTO DO CORAÇÃO
apesar da ambição sempre se vive perto do coração
a página incha
soro palavras densas confessam o litígio seiva num minuto – lugar masmorra familiar ou o pátio das injúrias garganta da árvore = casulo carbónico «nasceu a espécie de morfologia rotativa» agora réptil, rastejar em honra do graal aliás cobra [cobrar o ouro dos dias] e depois olhar a lua perder as escamas – húmus quero a culpa em botão para aprender o gentil modo de espicaçar o cacto ¿quem começou a linha? que faço no meio? «está aberta a caça aos animais do amor»
farol erecto perdigueiros morrem afogados beco execução da separação coração procura-se lição: se pára o coração separa-se a cor do que é são procura-se o eremita que dá pontapés nos astros Eros morreu o sopro devolvido aqui na angra do mal-estar onde a dispersão é honesto fruto do indizível senti(do)mento com prurido doloroso sob a pele encantamento macambúzio ou nova sessão do ritual lunar já viciado pirilampos esvaem-se em fogo [presságio-pão] «chegou a carruagem do pandemónio»
o fugitivo apresenta-se entra na carruagem sofrendo espasmos de toda a ordem e ao deparar-se com o rosto do rapaz de cristal é engolido pela titânica onda do nojo a fome desdobra-se em cada esquina morre o alimento à imagem do corpo docemente débil a norte brilha a esfera que o som sustenta e desflora com azedume a boca rasgada os dedos cingem o território árido da sedução a romã feminina sangra desleixada canto integral todo o mal a facécia do estômago em explosão um bramido – canção a mão como real sonido – perdão canto integral todo o mal o riso do andrófobo funicular revolta do lobo forçado a uivar e na lua o arcanjo receia pisar o arranjo por acabar fixo ponto
dor aguda no peito coração enlouquecido = semáforo intermitente espreita-se à janela da flor triste ¿valerá a pena subir até ao cimo pela corda de estames secos entrelaçados? a teia do contrabaixo sustém a flauta que hipnotiza o ovo oco dúvida, dádiva da vida dado da diva adormecida flor selvagem ou onanismo subversivo lavagem ao cérebro com detergente vulgar reinventar o ser numa semana: SEGUNDA-FEIRA caio no útero da terra queimada
e envolvido pelos folhos duma placenta renasço da prosa tubular ensanguentada TERÇA-FEIRA mergulho perdendo o ruído na noite plácida irrigada seduzindo a trompa d’água – gemido QUARTA-FEIRA distingo o solilóquio dissonante da bravura imitada a partir do rochedo escamoteando o diálogo agravante QUINTA-FEIRA
inscrevo a noite no meu peito
sombra derradeira ou espelho como prelúdio dum sonho desfeito SEXTA-FEIRA desafio a barganha miscigenada e inalando a aragem retalhada pela abelha ostento a centelha da palavra nomeada SÁBADO vejo a fome sobre a mesa e desenho o estranho fruto latejante que repousa no balaio da camponesa DOMINGO vivo no colo das algas negras – a hora vã;
nutro-me da celeuma do verso entoado pelo poeta surdo que crê na lua órfã regresso assistido os ombros limpos após a viagem cinema de sucção – película projectada na parede do quarto forrada pela pele extrasensorial expandida: cromossomas abraçam-se comovidos duas alforrecas apaixonadas brindam ao amor valsando com as campânulas a arfarem em simultâneo coração marinho = coração solto do feto a ventania orgânica nos corredores do corpo
[sístole] a sombra devolvida renovada com seu vestido de oxigénio que se desintegra à sua passagem por todas as igrejas do corpo e quando nua esconde-se repetindo a pequena escala o Jardim do Éden [diástole] regresso de tudo quanto vive nos subúrbios arrancam-se pecados celulares sílabas do cancro e o mal gasoso o grito subsiste – o azul do vulcão enfurecido sobreviver com os estigmas acesos sobrepondo dolorosamente as paisagens assegurando víveres para a dança das vísceras para que a bandeira negra da casa clandestina seja hasteada na décima terceira lua cheia em que os fantasmas descem navegando [filamentos de leite translúcido] terríficas ondas de enjoo que delineiam os pulmões com as lâminas doutro sentir vigiado pelo ouvido murcho da câmara morrente colónia de fantasmas = aorta pejada as mãos imersas no mapa movediço
balouçam em sintonia com o alarido da manhã em que colho rebentos de topázio – desabrocham virados para o tufão a rosa tal como a pele rosada mancha ao contacto frívolo e o edema traz a morte roxa dos excessos enquanto que a flor da dor vive do sangue pisado e purifica-se no silêncio dado entre os estilhaços perímetro da flor = periferia do coração confuso desmaiam as pétalas da agrura passional a voz última suspende o cortejo «olhai a flor engasgada»
●
O POMAR DOS MORTOS
último acto – sobe o pano – mortos todos os actores
a rocha magnânima deveras intocável
no entanto apunhalada à nascença ¿morta? não eternamente viva por nascer morta – a vida é o outro que nos mata ¿como colher o cogumelo hemofílico que se prende à rocha como a rocha se prende à morte? reconheço-me agora estranhamente repetindo na retina dos olhos o caos das coisas que se derretem depois de olhadas ¿magia ou poder? ver para ser? ou então «nada» mera ilusão? à saída da feira dos fantoches um visco grumoso arranha-me a garganta ao ser descoberto liquefaço-me e entro num sulco desconhecido o arvoredo equilibrado na ponta do nariz ouço passos a sombra regressa o trilho desaparece pedaços de fadas espalhados pelo bosque abantesmas aflitos entrelaçam-se confusos o anão verde surge protegido por uma esfera transparente brada: «fujam depressa refugiai-vos na bola de cristal» persigo a borboleta que rouba a cor ao carvalho até ao horto dos corvos vigários pontos transversais substituem ímpetos que somados equivalem a zero guio-me pelo eco poético
[bruma em sangue por chorar] até ao cais do roxo acre e despeço-me do que não vejo partir volto para trás deambulando louco e sem dar por isso adormeço junto à fonte dos pecados acordo ouvindo a cantata estéril [a esfinge do medo] canta o parvo sábio: «cremado na circunferência em jeito de absolvição sorvo a exigência o ácido ilegítimo do tendão canto desafinado o hino da criação rodeado pelas arestas do pesadelo canto a orgânica da indefinição o ritmo cardíaco do enigmático flagelo» e de seguida o sábio parvo: «o arguto gesticular insípido encrespa o tacto em busca do segredo não há paixão nem cupido e a última palavra o último degredo da cinza ou corpo ressentido é a resposta à esfinge do medo» en-tarde-Ser eis a hélice ensanguentada do devir a noite gulosa aproxima-se rebuçados entopem os intestinos o automóvel morreu de congestão auto da pasmaceira móbil arabesco [o recreio] tentilhões etílicos debicam o cenário [risos] «sou um sobrevivente ferido no matagal das sombras apresento-vos a maldita terra dos espelhos» trabalho incolor da alegria cósmica: esculpir o gelo sob a queda eminente das estalactites que contornam a noite procuro o buraco negro do silêncio nuvens alinhadas brancas vértebras móveis doce calcário a pender no azul benção ou desejo de morder os cavalos do sol que relincham cansados dedos sequiosos remexem as pedras libertam leite ósseo de suave aroma mergulham no âmnio e acariciam o feto que não nascerá uma musa de luto bebe o chá dum corpo a atingir o orgasmo que solitário se despega de tudo e se retrai culpado o sangue juvenil é agridoce [combinação de giesta e pólen] resina espessa reservada para a ressaca junto ao tampo as notas musicais desconhecidas aconchegam o sexo bêbados perseguem à noite borboletas narcotizadas que deambulam ansiosas por beber a luz
que sobra da janela do quarto onde dança a filha do semeador d’almas dona e senhora dos homúnculos é ela que guarda a máquina das sementes
o cerco criado a partir dos versos de jasmim cânticos enegrecidos pela agonia da minúscula criatura de cinza ¿onde perdi a pérola da imunidade ao forjar alvéolos factuais? não escapo à sogra da verdade tragam-me a saltitante refeição ancestral e o vinho sangrento mórula de tecido a boiar no lago fumegante ¿nevoeiro como fim? propósito de início ou halo perturbador que arrebanha os corpos num só fôlego? o fim? quem sepultaram nas rochas? raízes gigantes cercam-me perdido no tempo [jaula carbónica] os lábios secos cheiram a maçã «ó mãe do cataclismo subversivo lava a culpa dos homens com o teu choro e gera em teu ventre frutos já podres imunes ao sofrimento» ¿quem ainda por entrar? às vezes
olhando uma cabeça em profundidade quase perpassando-a concentrado embora impaciente consigo observar o bico mágico do andorinhão sobressaído do ouvido que rodopia incansável namorando os insectos até comungá-los num acto célere e subtil alguém gemendo oferece talhadas de oxigénio carrega nos dedos a preguiça de atender o telefone que toca incessantemente junto à cabeceira segregando o muco da indiferença d’ontem a pausa comestível relançada no vagão da desonra entrecortada [espasmos irregulares pulsação esquizofrénica vómitos doentios] hoje arrancadas as fibras coronárias da estátua anoitecida no pensamento beber-se-á a infusão de líquenes amargos linfa do distúrbio suicida eis a ascensão dos aracnídeos assassinos que silenciosos bebem álcool e segregam o veneno vocabular «ó tu que morres lentamente
ao longo das décadas agarra-te ao alguidar e concentra-te na cobra de sal que lucidamente nada pois ela irá te expurgar a azia que mancha os pulmões atravessa a moldura de água que ondula na bacia» lábios de cinza beijando as paredes do aquário de seda peixes hipocondríacos alimentam-se de algas nauseabundas um feixe luminoso torna-se corda dorsal da água luz suja nas escarpas gotas de chuva lodosa [o sangue dos fantasmas] a cidade corre para a loucura dos últimos dias torna-se inútil desculpar a agitação frenética da ignorância turbilhão insalubre ínfimo crepúsculo deglutido na escuridão do lúmen da arquitectura cilíndrica a muralha aflita cerca o boato
vendaval de serão caras rendidas ao abismo personalizado sucumbem infestadas de caroços de betão pés de talco deslizam nas lajes luzidias que transpiram clorofórmio estacas humanas dissecam órgãos frágeis rasgam inadvertidamente serosas bebem metodicamente fluidos corporais a mulher feia abre os braços plana sobre a noite a lua escava-lhe o rosto aterra na esplanada resta-lhe ler a triste sina nas constelações de grãos de café o outono choroso amarelece os folhos de carne breve instante de hesitação à entrada do pomar dos mortos [os frutos caídos] e pesa tanto este capote bordado no silêncio com fragmentos de vidro aguçados se os mortos tivessem asas o penoso olor desapareceria e poderia saborear o genuíno perfume dos limoeiros cara negra enquadrada nos latidos
do violino branco [identidade surda mergulhada na caixa de sons] ofício da indagação viver a trincar o betão diário de bordo escondido entre o tórax e o abdómen entre os pulmões o coração e o fígado o estômago os intestinos a multicolor solidão resume-se à acumulação de calcário impressões que se arrancam da dor passos no pátio gélido [uma pegada plangente gravada na laje do impasse] rajadas de dissonância murmúrios ouvi-los torna-se mutilação somática a pele transparente mostrando o carácter da carne o silêncio rasgando a postura a dor da criação é serva da imaginação a lâmpada do remorso rouba luz um veio de água fúnebre absorve energia [estaleiro dos poetas sem cabeça] sortilégio infindo amortizado pelo solene artifício do desprazer crónico batidas inebriantes cegam o insofismável ensaio ¿será legítimo seduzir o conteúdo dos hiatos para arrancá-lo com veemência desnecessária omitindo o presságio nebuloso do equilíbrio? sonolento embraveço esguio oriento as mãos no interstício entre a superfície do corpo e o vácuo o complexo ser de números cria a infusão que conquista o sono se sorrio minto como semente atrevida esfrego os pulsos nos lençóis pouso lentamente a cabeça e extasiado pela vertigem adormeço |
