[Universitária Editora, 2002]
pousa a boca no peito fissurado da terra
colhe o silêncio do que está morto regressa para onde nunca estiveste reconstrói em ti a pequena ruína dos brinquedos no quarto escuro refaz o fugitivo corpo da rumorosa existência de papel bebe a ansiedade venenosa das palavras o sangue das perdidas aves no surdo coração da viagem quando chegares ao límpido limiar do corpo incendeia a cruel noite da infância despede-te porque ao regressares aos tristes dias de hoje terás esquecido a breve alegria do rosto e uma luz extinguir-se-á vagarosamente no interior da mão envelhecida Al Berto
ABISMO
falar da montanha o real da cordilheira de papel sem jasmim o cheiro a suor como soporífero terror dos currais ambicionados decanto o pranto desenhando a anca absorvo o fluido predilecto a tarde em que morre o cárcere dono do esperma ressentido uma cara desertora exibe o silêncio dum monólogo interior apagam-se mãos nas cortinas encarnadas e as pevides não ardem; ainda é cedo para ressuscitar o nódulo encarapinhado derrapo fedendo em mim num chão de desejos rotulados a abelha brocada persegue-me ao vislumbrar a soldadura incólume prevendo a luxúria nos lábios ●
AFINIDADES
sobre a mesa a muda faca e seu espectro como boca mareja minerais; o alumínio dissimula o suprimento cívico da redundância terminal de tudo os olhos apartados perdulários afastam formas ciciam os justos títulos para o assomo acuchilado pela nesga de luz o arabesco turvo do silabar oscilante principia o gesto brusco da limalha ensaiada autêntico dízimo brejeiro o pão ázimo inculca o peito nomeado seu gume afiado ameaça no cruciar verídico e a lua emboca com seu núcleo oculto na cinza dum corpo pagão recordando o borbulhar o cismar do arroxeado queimor incógnito que abrolha na linha acidental da era finda ●
a chave espetada na parede onde haveria uma porta se azulejos iconoclastas não destruíssem a simetria do que é real e que se povoa hermeticamente suspirando carreiros perpendiculares perpetuados por um esgalhar de escrita abissal entre esculcas que ávidas apontam ao movimento conto a partir do nada instalado refiro-me ao extasiado breviário de ditongos clonados em penúria pela ave negra que voa engordando com a sublime gravidade tácita volúvel no aturdimento inconfesso ●
olhando-me insípido renovo o descrédito amontoado tonalidade da demanda parasita causticando o arco cume enquanto verme tendo como capa a manta morta uivos iniciam a sinfonia do descampado vale ou garganta em sangue o potro finta as escamas a poética entra em oclusão entranha-se nas redes microscópicas dum pedaço de pele sofrível e as labaredas acolhem indecisas um sopro insígnia da ardência verbal ●
trio damascos côncavos enquanto recluso fricciono os músculos no soalho até poder cheirar uma outra carne morrem seres no armário caliginoso viajo na janela quase ecrã – a cera inimaginável em breves depósitos do decalque ocular a criança mutante aponta o dedo ao peito do pai enquanto a mãe recolhe os fragmentos de mercúrio logo adulterados pela química lacrimal abaixo do reflexo em roda o outro lado escrito cifra do tecto sinuosoANCORADOURO encravando no arranque repelente no solavanco defraudado colarinhos aveludados coincidem com o desaparecimento da palavra a denúncia dos actos envenenados na mente druida trilha a gula frágil da ruga a voar em asa delta – pausa – o espelho comanda a força não há decisão fremente no que se acusa através de feridas amordaçadas num antigo destino conotado pela noção de casa surge a estrela desavinda do que se encontra quando só e um relance musical atrai o desenlace – pausa – um instrumento hipnótico escuta o tambor da fala e a voz rouca canta para acrílicas paredes incrédulas a nuvem de pássaros pedintes desperta e o céu oferece-se de novo – pausa – uma nova melodia aviltada no crepitar da revolução; vampiros da legião guerreira afunilam dogmas do ressuscitar em oração e de novo o relance musical a loucura de subir pelas paredes, o cântico negro a fugir das vogais em convulsão – pausa – um estômago emerge sozinho vomita ganha braços e punhos e esmaga golas desencontradas num peditório ou banco de esperma imaterial palavras esfaqueiam projectos defecados em sonho como espuma parida por um mar poluído e de novo o relance musical o bando de pássaros aflora sem aviso prévio para um renovar a partir do vetusto trilhar empoeirado; outra sílaba no descanso e há um dilúcido arrependimento ao auscultar carunchosas óperas aniladas dulcificado pábulo do solevantar inicial apadrinhado por algum céptico corrupto ●
alongo o pus na ferida imutável exalo a fúria dum tentáculo corroído posteriormente mastigado por bocas imundas o consumo ardente da nova aurora direito à perda perante o público na ascensão da parábola saciada rua coberta de paralelos esdrúxulos sob frenético lençol esverdeado a penugem do ensandecido púbere alcançando as rochas negras o navegante eremita suaviza a paisagem energúmena do ridículo no lago navegam alfaiates obstinados – a escada não se releva como astro íngreme é antes disseminada em argutas utopias ●
ao aplaudir serpentes que se esfregam a desejar anfíbios e ovos dilaceram-se gostos da promíscua serenata degolada esquina sombria renitente do fôlego alheio e os objectos metálicos reluzem os dedos não escondem a soturna face embriagada negra de crer em fictícios ícones, geleias nocturnas suprimento de candeias no deserto algente o carbúnculo do eremitério a luzir e a velha dorme sequiosa perfila na gigantesca roda ou álamo perfidioso unguentado pela maresia chistosa para déspota armação ●
na evaporação o halogéneo simula a corrente diletante como anémona acorrentada em vago aquário inculcado rematando as pontas duma raia drogada que escuta a música de orcas em festa a rusga insidiosa entre elementos esfomeados por negritude assaz convoca o cometa do desarranjo planetário em cada palavra a linfa detentora e o porão repleto de injúrias manjar inopinado de tribos ●
o último desperdício
e a salamandra insurge exibindo suas manchas chamas como auréolas sobre as cabeças invasões em terapias provisórias que ineficazes escavam poros num antro desmontado a cada viragem de entoação ●
monges jejuaram diante do lamento desadunado pelo efebo de olhos húmidos monges beberam lágrimas seminais cumprindo em oração até à exaustão gótica um estranho jarro de estanho jorra soluços sincronizando espáduas antagónicas painéis apodrecem à primeira fala do prior na tarde alumiada em que estigmas afloram ●
foi-me dado o tremeluzir da fleuma a província escolástica guardada como morro beneditino o cabelo enxuga os pés molhados o coração guarda-se em casa numa caixa perene à senda dos tempos e relíquias perdem valor enquanto meros artifícios passados valorizam com estrénuo suor depositado ●
assistindo à solidão das galinhas prestes a provarem o cúmulo da perdição engulo o lagarto sapiente em justa harmonia o onde em verão ao deglutir tâmaras envenenadas com palavras postiças, autênticas falácias em combustão em conspiração arquitectada para um arborescer maligno o sangue ferve nas demoníacas veias da hegemonia felpuda irrigação sonante, querido fado de chinelos – apercebo-me da vertigem ao beber a saliva de ícones ●
o muro em células intacta rosa do deserto seu aroma, balbuciar indiscreto do peregrino que propaga pétalas de choro com seus olhos contíguos ao luar envidraçado cinco incisões e prossegue-se o baptismo com pó de anjos cinco chagas, flores quaresmais de todo o sempre apregoado os tigres adormecem no covil onde o movimento oureja ●
folhas amolecidas, negras arrastam-se pelo chão visitam o musgo repousado na rocha paciente o rosto claro da ampla magnitude soberba, murmurada na brisa da manhã húmida que entreluz ângulos incertos e depois um sopro assenta a geometria cintilante de fungos espermáticos ●
a sorte a boiar no lago reforço da carapaça prateada caruncho da carne ou véu indemne lança espetada na monotonia casual a sorte do pulgão que assalta o floema da planta robusta não há sorte que conforte a má sorte está lido o gemido contido no ser sofrido as medalhas arrecadadas afogarão o vencedor ●
decorado está o ostíolo em chama morbígero alardeia a língua inepta pupilas decaem no regaço aberto lomba de mentor inconsciente para triagem da languidez ou rícino jactância predilecta em compromisso a fala não engana o dono do falo relicário no sudário ambulacrário o quarto com cama inalterada servirá de poço – no lençol a única nódoa é a de lágrimas amontoadas histericamente ●
da maldade fiz farinha dessa farinha fiz pão desse pão falo agora com o esófago congestionado trinco o que deveria apregoar dou comigo a fruir o que injurio dou o que rejeito amando ao longe ainda aqui a ver o de lá definhando sobra-me o fatal dizível querendo morder minha crua carne nímia denuncio a rotatividade nociva o ciclo devasso entre ciclos fidos – no espelho nada é proeminente embora saiba que a boca está cheia ●
embarco na fala da chuva
e na do trovão colérico estremecem telhas corações frágeis embarco na ira fria da enguia eléctrica ouço brados ensandecidos vejo navalhas afiadas e chicotes ao som de golpes desferidos a equivalência dum choro tácito embarco no desdém a ferimentos o laranja halogenado quase mártir cintilam fímbrias arrojadas cinza de olhos e algum granizo embarco no mote dúbio e distante à flor do que vive abaixo desse fogo ●
num elo próximo abrir de novo os pulmões afogados no passado rever rubis a arderem como olhos decepar aglomerados em nubladas contrições lenificadas ao ritmo dos gestos complacentes – lápide: em tudo o fundo deste mundo ●
pálido sob a figuração
espezinhando a negritude entediado no antro do lume ouço a voz e cravo no peito a pluma da outra terra terra de lâmpadas que fundem mudas um vulto emana intensíssima luz e tudo cega à volta do já cego meditabundo ●
prosseguindo a estação visionária um pé franzino na areia arrisco um sopro súplica nítrica ou louco zumbir a bandeira mergulhada no lago, fraco sol sobre a pele rente ao coral medito sobre a esfera, dedilho fragmentos de madressilva; pecador isento traficante de pecados pescador em alto mar, a dor é aguda: palma ou solha não tens lugar nos mortos pois esta festa é sesta na cama sulfúrea, uivo como uva salgada e o mar longe degredo instancial braçada na terra tumor sem dor e o corpo com mazelas os dentes a roerem imagens passadas fugidias enguias a contorcerem-se e é estranho o som resultante da fricção destes corpos expandidos; não subestimo a matéria nem o vácuo, reato a frugal subsistência verbal o vivo canto vertical intermitente sou cúmplice ao ver extinguirem-se sopros vertiginosos acendo fósforos a partir do cume na noite de néons e estudo a alquimia dos seres que se apagam no painel clarão com marcas de água estampado no rosto dos olhos a tinirem sussurros discretos sobre a dissolução do mal; realço a azia ou gaivota bravia em tamanha heresia tardio consolo da boca que arde fendida no corpo calçado ●
o silêncio colhe o catarro da arquibancada
prestes a ruir o alento a sisudez cárnea gorjas expandem-se no prelúdio feérico eis o sóbrio halo no devaneio balístico a sede de metais aquando a decadência de escórias a sombra colhe o medo do extorquir pedinchando o debruçar sobre o cristal deixa de ser culto e o pulso transfigura o recipiente do sémen baldio eis o contorcer férrico acusando dissimetria a fome de acrílicos aquando a revolução arbórea os desavindos rostos em armadura libertam faúlhas de cumplicidade e rubros mantêm-se profundos
●
o pulgão frouxo na areia dissimula o visco ejaculado no culminar da dança pela alameda lábios em euforia e como estorvo as palavras e os dentes traz-me o basalto para emoldurar a escultura de gelo e seda e um cálice de vinho para amadornar acérrimos presságios vesti a túnica de alumínio para este deserto no qual a flor explode e ganha gomos moribundo hei-de segredar à vagina da montanha os pecados ridículos borbulhando para dentro as fábulas espectrais da infância intermitentemente sacudida as esculturas mirabolantes construídas com papel e cuspo as fantasias estrambóticas da adolescência litografada e depois a dolorosa ressaca em que se viaja chovendo meteoros tónico para descompressão: reviver a gula por presépios em construção esbofetear o rosto e cheirar e ler os velhos papéis que assombram o presente ●
preocupa-me o precipitar de corpos mortos em pantomina o sexo dos anjos caídos o portal a demora anacrónica dos acontecimentos almejados para os dias vindouros agarrados ao exasperar granítico preocupa-me a repulsa entre salivas a fuga imediata do calcário e um abraço fratricida rompendo a madrugada os músculos contundidos no duplo disparo de atalaias os olhos feridos solitários repetindo o espectro lunar irrequietos arredo as tulipas na mesa movediça estampo a mão direita na face argilosa e sorvo os ruídos os ditongos ao abandono na tarde estéril o sol purificando os poros da pele já cortiça um desalento frívolo as pálpebras procuram o cabelo o medo só o medo ao raiar a fogueira insaciável preocupa-me o canto das ninfas embriagadas aprisionadas em baladas do absurdo infinito e o tampo sob a monotonia azulácea que o magenta crepuscular dissolve gorgolejando como antevisão da solitude hipocondríaca da noite e o austero relógio ameaça com seus ponteiros ●
apraz-me rebolar com as metáforas das imagens porém há que ter cuidado as víboras adoram surpreender ternas suavizam os conceitos balouçam a cabeça o corpo mas mordem e o veneno traz a ressaca fervorosos alucinogénios povoam o corpo tornam o intacto no difuso transparente quando acordadas estas víboras emigram para o interstício fictício até alcançarem a câmara sulfúrea do icebergue nas profundezas do mar gelado aninham-se e segregam veneno para vasos que irrigam de imediato o cérebro o coração os músculos da periferia do sonho a esterilidade destas víboras inquilinas das metáforas explica o apanágio de cada veneno singular surgem ininterruptamente por geração espontânea e cada qual herda a acidez do instante ímpar aspergindo o seu fruto exclusivo ●
as palavras agravam-se o sangue precipita nas veias
e depois a nuvem de electrões navega hesitante entre o confessar fluido e o abalroar da barragem memorial os dilemas ofendem as incontornáveis orações pragmáticas e por vezes a assilabia é sorvida como asilaria sulcando tecidos ocultos abrindo fendas coronárias após os disparos de pólvora o desarrumo interpessoal e a ablução do desentendido desenterra cadáveres já corroídos pela solidão acetosa o arrependimento aniquila os alicerces do confabular o diálogo volta a ser moita por desbravar a fidelidade dos pombos é posta em causa os halogéneos tornam precária a ambiência estilhaços de hemáceas obstruem arteríolas as palavras consensuais oxidam na garganta dispersos os despojos de guerra apodrecem e a emanação dos gases pressagia a serenidade a letargia de argumentos acéticos até nova contenda ●
ergo a tábua despida de simetria tiro medidas e fétido guardo uma estilha acesa evoco o cuinchar de ratazanas envelhecidas junto ao contentor do lixo no bairro desnudado a cada sílaba do tempo transitando entre objectos os nós lassos respiram difusos feixes de fotões e na reentrância de luz pressente-se o estridor de alvéolos ergo a taça transparente roubo a cor ao vinho por beber declaro intragável esse alegórico líquido e sorvo a aquilina quilha naufragada inane fosforescência ●
sob a lua betuminosa compacto esperma luzindo o noctívago espuma químicos pela boca adormece no regaço sombrio com as narinas drenando o sal de excessos decalca a rua macadamizada por blocos de gelo a língua disforme trago de lava por engolir obliterado pelo granizo de insinuações cativo no palanfrório da circunlocução em rede o noctívago foge da luz da claridade que flui opaca em suas veias como tóxico imediato os lábios gretados do sofrimento os dentes fustigados o corpo em aperto os pulsos vibráteis sobre o balcão na pele abundam nódoas manchas de compostos oxidados nutre-se da própria sombra tatuada com o fulgor amargo de incentivos murchos de fósforos humedecidos pelo suor e depois grilos cobertos de néon invadem a cabeça e quando nasce o dia o noctívago procura uma outra noite na qual possa dormir ●
derreto o cálamo e pouso o cinzel sobre as pétalas duma flor menor mastigo sementes de maçã – negros diamantes amargos – os dedos montam a janela e desfiguram-na rotativamente albatrozes iniciam o bailado sangram o céu e bebem-lhe o laranja ejaculado efusivamente repito assíduo o configurar de hemorragias subalternas hilariante despeço o escárnio aéreo e translado gravuras bolorentas ●
o eflúvio digno da maresia ablaqueada colora a derme acordando os genes subtraídos a corolas caprichosas vultos luxuriosos em espiral no ar o lodo não substitui a configuração arrecadada dos rostos assim como o iodo das nódoas pálidas arreigadas em cândidos gladíolos não substitui as lágrimas derramadas à luz do candeeiro surdo na floresta negra o ariano florígero afugenta o corvo a fonética enrobustece o cango sobrecarregado os insectos embriagam-se com a abundância de néctar e o fruto apodrece solitário afogado na sua própria água ●
dilatas a culpa entras numa ala húmida escura e depois vês raiar a desolação de falecidos a falarem por entre dentes rumores aviltados abrigados pela sombra das noites impunes é aí nesse lôbrego espaço em que depões as ogivas denegridas pústulas amealhadas na boca não é segredo toda a carne é fraca toda a carne decai desfalece e apodrece bolorenta adúltera a cor não esconde pecados mesmo dissimulando os frutos como a aveleira verás que o disfarce cai sulcando essa mesma carne que aglutina prazeres e nessa caverna onde te escondes viverás para sempre o inverno da neve rubicunda sufocarás ao avistares as flamíferas torrentes de lava edificarás o inferno à tua imagem e também tu caminharás pela sombra das noites impunes ●
escuta o sustenido na adipsia de vocábulos órfãos e sente o carvão lúzio ascender no canal ausculta o carbono a cintilar efémero o enxofre a articular os cabelos o ferro a pesar no sangue volúvel que suporta o perfume de lírios em acrimónia ouve o desabrido coração abscôndito nos supérfluos minutos do dia e de cônscia postura queima incenso no eremitério erigido a partir de frases carnudas polposas quando pressentires a surdez impingida abstrai-te irradiando espectros falaciosos e bebe o azoto gasoso da tarde chuvosa ●
aconchegando os lençóis alumio truques carbónicos seguindo-se os sussurros cardíacos as costas buliçosas o rosto acossado na almofada atarraxado experimenta a respiração alcoólica imprimindo o bafejar a parénese barrenta sobre a analgia dos afectos o aguaçal a verosimilhança como cataplasma para desobstrução de meatos da entoação letárgica em desalento o sepulcro embusteado o vazio longínquo a semântica cadavérica das atrozes chibatadas eléctricas áscuas reboliças na cama de fumo soporífero Dédalo cativo no labirinto de Creta ●
os dedos apegados ao quartzo leitoso aduladores passeiam-no pelos mamilos dilatados que difusos emanam propano ulmeiros intimidam a sílica luzidia da pele em erupção contínua e olhares clorídricos avançam na atmosfera circunscrita à paixão quando exposto o narcótico disseminado na embriagante angiospérmica torna-se invisível e os encandeados cegam iniciando a lenta dança inebriante rumo à inércia inconsciente ●
reflexos moldados por oleiros fúlgida empatia dois corpos coriscam no salão com ventosas pregadas cambiam suores rompem-se lábios e as peles roçam-se húmidas uma contra a outra primeira investida esfaqueia-se o ar com dois punhos irmanados depois a segunda a terceira e o foco estampa-se ébrio vultos rodam arfam espevitam o ânimo fissão centrifugação fusão sublime dos corpos que empalidecem até ao brilho metálico a faca dança ritmada obedecendo ao metrónomo corações sincrónicos ignoram o público obsidente ●
o livro pesa morto nas mãos leprosas chove o vinagre escorre nas telhas amordaçadas pela aragem defunta chove o orvalho mudo dos deuses esquecidos subsiste no mofo salomónico chove as hélices enferrujam com o vapor eflúvio de murmúrios secos chove sonâmbulos deambulam nas estantes abandonadas chove a caravela de velas córneas enfrenta a intempérie em plena saliva chove o marfim definha esponjoso e asfixia no sonho estridente chove o coração balouça num abismo destilado em horas calcárias chove e não é chuva ●
um vulto corpóreo abatido a lupa a galope estranho torpor ósseo algas negras no derrame filamentos das pálpebras alquebradas oscilam aleatoriamente as dunas desmoronam-se e no laboratório estudam-se alquímicas reminiscências a inquisição intrapessoal persegue os ecos recapitulados como funestos espectros do avejão tímidos fantasmas alcalinos surpreendem aquando o vago ressentimento iminente e alvejando os cristais linfáticos masturbam-se alterados desnudados sob a mesa transparente o olhar côncavo pelos objectos que murchos gatinham para a margem abissal e após a consternação maleável da distância um sopro fastiento como último decesso antes do fenecer recto ●
dados mergulham na cerveja paulatinos dedos engendram órbitas o copo queima em todo o perímetro e a boca do degredado símio incha atónita regressando a casa o polvilhar de enxofre as faces em metamorfose o clamor no peito incendiado a elasticidade dos corpos em torno dum eixo naufragado e térmites algozes escarafuncham a vítima e depois na cama roda gigante em movimento desponta a viagem vertiginosa à ilha das aves brancas entre vómitos abrolhosos o subterfúgio da sede delírio de polímeros extintos ao pequeno-almoço ●
a criança principia o tumulto na água tépida o cisne de jade levanta voo verdes vimes enastrados na soledade cal exaltada sobre dorsos a fragata anestesiada alívio incauto no domínio da neve dolo fragrante sob a saliva repudiada espuma postiça nos lábios da onda a cadeira como chão após o suspiro e depois um olhar destoante sobre o ábsono vale arrependido ●
bebo a infusão de aves marinhas e emigro no espelho fingido para o rito de pautas corrompidas pelo óleo lacónico jejuo em plena alvorada renuncio a esquálidos líquidos e patenteio a polpa sumarenta de frutos espiráculo em ascensão tónico para viajar no limbo amnésico culmino no promontório trémulo afundo-me lentamente na água betuminosa esbracejando apaziguado sempre indiferente ao sabor insalubre dos dias ●
o fogo prende com sua chama a pele da face povoada por escamas de paixões fugazes retomo o fluxo jorrando o forro são inúmeras as sogas sob o hélio solar solitário o andor impune retalha a maresia lunar e assomam-se seres ambígenos que taciturnos circunscrevem estrelas ignescentes ●
tudo é redutível ao incêndio deliquescente equídeos do câmbrico exalar vigiam ásperos fragmentos dum diálogo há um buraco negro na fala uma ardência cúmplice no rosto em permanente declínio estalactites rangem no cogitar esfíngico e reflexos espessos em erosão fulminam poros causídicos estigmas de depuração há suor estampado delíquios interiores ecos baldios em constante turbilhão e primorosos animais matizados no olhar ●
a casa na ravina o ouvido acochado à terra para escutar o murmúrio acrisolado e com o plasma a ferver nas artérias analiso eufórico o quase partir o quase apagar a rebolar na manta ouço o choro dos flamengos o leito a cair para trás o entorpecer do cais zumbi de umbigos iludidos pela memória turva rasguei os mapas ininteligíveis e acendi uma fogueira beijo a cinza de outros corpos até a maré encher provo o sal reluzente e invoco Neptuno plantado na férvida ejaculação de ondas depois a melancolia do vazio e a convicção de que a idiossincrasia cíclica congemina casulos negros na face oculta de vitrais ●
atenta na sáfara nuvem manchada de óleo
e guache até descobrires a morada dos banidos ressoam cavernosas sonatas distorcidas é proibido chorar no átrio aleivoso da felonia frontispício do espécimen que cansado vê correr o egoísmo nas veias espreita instintivamente habitáculos e cerra as pálpebras para caldear rostos e feições em cenários lamacentos com espectros de cores em alvoroço ouve o marulhar estriduloso ao extinguir-se o som e banzo sente o empedernir silente da egolatria ●
de outro pão o furor sulcado rio de prata definhando sob o artifício prolífero a mão dum corpo infectado açulado por desaires implícitos torna-se a quilha provisória em fortuitas tempestades lancinantes decifrar a inveterada geografia de corpos oscilantes é como tentar enxergar debaixo do oceano de agitadas águas reboliças cegamente turvas de outro pão o silenciar fosforescente a cáustica agonia a equimose imperecível e biliosos fungos abstergem a orgânica de corpos a carne fundida dum novo corpo em alucinação ●
a cair os pulmões encharcam-se de vertigem caveiras a arder as cinzas dissolvem-se na escuma de mostrengos despertos na cegueira negra safiras dançam em rostos de cobiça alheia e inflamado derrapo no ar pulsos cadavéricos pedem auxílio exânimes dedos ousam tocar em nódoas de sangue ressequidas diante dos olhos a melodia barroca invade o antro aquando o transplante cerimonial do órgão anómalo a cair sempre a cair na devassidão com ardência rubra atropelando fantasmas transluzentes rasgam-se corpos num círculo de escarros as gaivotas definham deprimidas no alcatrão defecado a linfa congela e explode convulsiva no peito dum estóico voluntário de voz rouca e balofa coleópteros luzidios passeiam calmos pelas teias de aranhas falecidas ao fundo a lava de canais ferve ininterruptamente e anémico continuo a cair ●
recordo as amoras que assassinaste com desdém antipático ao disparar contra ti frondosos bagos verdes ainda enrijecidos pelo ódio a tua pele áspera repousa sobre lírios murchos pela desolação acre de improvisos claudicados reconheço esse teu arquear erudito a agilidade exibida ao refreares ironias a sagacidade irónica de palavras que sensual temperas com cianeto continuo a disparar até perfurar o pálido coração que carregas apática e o fruto amadurecerá até explodir povoando de pigmentos o antro coronário ●
as paredes caiadas o declive achamboado
do varal semimorto mexo remexo o que há muito nem sequer movia indago bandurreando pelas linhas dum metal abstémio toco em nostálgicas fotografias sem espreitar e o ranho salitroso babuja os dedos tornando-os pegajosos acendo paisagens amodorradas revejo diapositivos para corroer as túnicas de circunstância nu diante do espelho colmato lacunas do sorumbático exalar retoco manchas espermáticas da alma ardente e recito orações rumorosas das noites esdrúxulas ●
esgaço sufrágios da cepa torta os lábios a sangrar é daqui que parto pelo mar fora bebo sucos frases intemporais os filósofos mijam sobre mim beatas mecenas masturbam-se com imagens mundanas banais e matam discretamente bodes expiatórios morro de nylon ao pescoço na última vinheta da jornada grávida registada na agenda o corpo queixa-se vítima da fugacidade pertinente da noite a quilha deteriorada padece de embaraço mas enxovalho o pranto negando tudo sangro ditadura para aspergir autoridade numa baiúca velha que leprosa sobrevive e dilacero ossos bolorentos intimidando o rival doentio à minha imagem zombeteando em memória de Sartre ●
sobre o estrume débeis rosas demolhadas na água onde conspurcados sais se encontram dissolvidos o esperma na panela ao lume e virgens açambarcam-lhe o aroma tentando adivinhar o paladar ansiosas por sorvê-lo o instinto é feérico os corpos queimam para dentro na límpida folha de papel para sempre morará a urina de fragrância ímpar alguns monges dizem-se infiéis às ilhargas deleitadas na cama dóceis despojos do amor confundido na fundição de corpos em festa fúnebre os sexos húmidos embevecidos num exasperar de peripécias em contusão flamívoma imperceptíveis egos amassam fezes de ritos e repetem provérbios ao descerrar a cortina das menstruações agendadas a perfilhar nas cabeças dos proxenetas em constante masturbação as imagens abrandam um olor a sémen fermenta na ambiência em remorso nas janelas embaciadas desenham-se – com a respiração de dedos ainda trémulos – os destinos de cada um e a separação dói em todos os músculos e são inúmeras as mazelas apenas um sono restará no qual os corpos dormirão aconchegados e apaziguados no tempo que sobrou da noite vigiada pelo tigre dos olhos de fogo restará um sono como despedida da fusão alienada e partilha de suor fumegante ●
recuso-me a desnudar a elanguescente fábula de seres em ascensão erótica porque é imenso o labor no jardim de vocábulos em flor o perfume da terra empanzinada de húmus dissolve qualquer pretensão de esquadrinhar posições e ressuscita a fala orgânica no corpo espero pelo crepúsculo fecundo pois a carne e a terra crepitam fulgurantes e movendo-me placidamente aprecio a solidão inanimada dos objectos ciosos ●
escrevo-te sem saber a cor dos teus olhos feridos limpa a terra dos ouvidos pois lerei esta carta vezes sem conta um dia em alucinação beberemos cervejas juntos no inferno trocaremos mágoas e queixumes e na prancha de salto compararemos nossos umbigos comichosos umbigos ainda acirrados escrevo-te sabendo-te morto mas áureo eras novo ainda e tão sofredor quero que saibas isto: os delírios que viveste são hoje realidade os teus escritos sobrevivem ainda enuviados alumio-os insulado ao lusco-fusco no crepúsculo sangrento do dia agreste há ainda um ténue olor a roupa suada presente em cada frase em cada verso e o pesaroso eco do esgrimir entre palavras ensurdece aquele que experimenta o clarão afoito das trevas ●
o lamento vidra em surdina todos respiram o fumo dúbio – lúgubre dissipação de lágrimas – todos a bordo todos sangram ábditas células amontoam-se fugidios ícones em feixes purpúreos e atravessam-se silvados os jardins de outros recônditos gestos suspeitos estranhos estranham o facto dum estranho estranhar o que de si vê à sua volta todos choram silenciosos no quarto de ossos revestido de músculos e pele em desassossego todos a bordo todos sofrem todos tragam o elixir da longa morte ●
o felino jaze na tromba-d’água já não regressa às noites abochornadas de pólen doentio ergo a cabeça e enfrento o espelho indizível a avidez sepulcral de vestígios acesos pelo beijo da égua morta em putrefacção nos baldios onde se esconde hirto o esporângio? subtraio-me à mímica dum sentinela e no lago o peito inconsútil espelha cicatrizes ●
água escorre pelo corpo e a cabeça sangra por dentro o desplante palaciano substitui por momentos o frenesim de pólipos delirantes centro o dia no suplício da carne abundam escoriações obscuras e farto de mundos embutidos noutros fecho a porta e um tampo colossal – cisma do não tampar airoso – ameaça errático descendo lentamente com irregulares pseudópodes coruscantes o arfar da terra é contíguo ao corpo ●
fugas ao chover o pesadelo rasteja à volta do pináculo desponta o sono âncora de seda entre os livros provo a ferrugem de carris dum monólogo frustrado – ternura de pó que se acumula – engendro ódios no covil amado e sem verter o suor do dia visito o curral de centauros valdevinos sobram sóbrias imagens em declínio cáustico ●
a mosca cai moribunda não se esforça por voar sobre a contagem irreal o vento ver-te-á chorar tenta ser o vácuo pois no fim saberás cair até perderes tudo e nada te correrá nas veias quando longe negaste o berço imóvel no nevoeiro que te abrigava bradaste ao infinito lancinante? no fim saberás que do calar macambúzio houve um outro fim e nada te cairá nas mãos confia no braço magoado do polvo e crava as unhas na pele grossa dum animal do câmbrico – não verás lágrimas fosforescentes na vegetação densa por detrás do espelho arde a fuligem duma melodia há um casulo carmim na denúncia resguardada uiva aos testículos do medo pois ele veio para ficar quanta terra ficou sem proprietário? elos dementes sobressaem há demasiada pressão na palavra pranteada saqueia o suor dos injustos pois dele beberás para subsistires ●
a lápis a soberania de fortuitos mosquitos ESSÊNCIAque arregaçados intimidam a complacência atroz dos beijos raquíticos num mesmo zumbir irado como paisagem de morder nos ávidos minutos elegante esta denúncia ensanguentada por anfíbios da razão bíblica testemunhada por um deus desempregado acima de qualquer moldura castigada nas reentrâncias imagísticas o café das horas mortas em oposição ao alimento vital vagas azuis masturbadas sob desígnios ambíguos dum ser que se diz maior exibindo arrogante a sua mediocridade quem és tu que vês a tua vida como alegoria a bailar num papel incendiado dia após dia? ●
posterior avulso entre cabeças a mãe chora e tu caída no regaço de antigas fábulas sobre o cerco da lua olho ferido vertendo o mar decantado em póstuma tristeza da convocação ríspida de arcanjos que frágeis balouçam nos cavalos molestados híbridas lágrimas de Antígona murmúrios secos despojados aquando a leviandade do sal polvilhado nos versos húmidos até quando? até quando o suspiro o suspiro impuro entre os outros que a pouco e pouco o tornam puro? derramado o suco vital da mortandade legítima os pigmentos afloram secundários sob o flácido jugo sem jogos florais e tudo o mais é o nada a menos a pérfida monotonia da sangria objectal prendida ao olhar múltiplo rendilhado – do coral colorido rouba o mineral saber ●
arranco o som de frestas cancerosas estilhaçando mosaicos desgastos bebo de rajada o cálice de adrenalina e despojo-me do ridículo encenado – castelos de mucosas em ruínas – sussurrando alcunhas alvejadas na vespertina tarde o impávido réptil patrulha cioso o lodo macilento de estrias da mão que maneja o compasso rente ao abdómen a simetria lograda de recomeços falaciosos de unguentos do degredo de coimas empedernidas no avassalar cambaleante como desprezo o sorriso atiçando a cal desabrida a perpendicularidade insalubre da valsa pungente a limpidez vingativa de lâminas cegas a supremacia errónea de arcos córneos e provando o vurmo indelével de feridas construo uma cabana com os ossos traídos ●
Golias morto na terra estrumada a quente suores frios na cama a desolação arde no cerne do peito solene visita do irmão morto que todas as noites altera a posição nostálgica dos castiçais de prata o pedúnculo de carne definha como qualquer coleóptero pálido sobre a corola dum malmequer leito de morte a salgar extremos e o sonho forma a ponte mas as margens continuam líquidas o pesadelo paira na atmosfera de cobre os objectos escumam por sentimento algum castigos às avessas em cena pudor em fúrias incorridas e alguns farrapos de carne a instigarem o assunto ao passear na praia dos agoniados irrisórios planos convexos – arrevessados para um plano maior que por si só é desprezível – coalham como universos concretos os pássaros planam sobre o borrão da paisagem alumiada por amantes fosfóricos seduzidos pelo ópio acalentado da sodomia de animais sinceros cumpridores do ciclo a grafite deste papel um outro a celulose intacta para o sentido ou estilha inflamável de tudo o arder e a morte de nada serve a faca e a existência animada a discorrer no pesadelo de alguém que quer a sorte ácida do gume para ninguém próprio mas que irrompe pela madrugada cinzenta de mais um dia contrafeito o demo paira sobre as cabeças as línguas de fogo foram contaminadas e atrofiam secas e morrem na planície árida do monólogo articulado por quem se julga inocente ouvir não do tu que é outro na mesma imagem é como comer a terra que compõe o fruto inarrável mas tamanha baixeza esgueira-se por ser pobre de algo que se vê podre mas que se aglutina intocável e prolifera para a prosperidade a ritmo de infecção ●
apaziguei no regaço da estrela apagada – desenho acrílico ao abandono – atordoado conto as manchas negras no corpo sacudo o pó desavindo do capote pardo e agitando o cabelo neva cinza hodierna apresento-me encenando o cavalgar espectral do vulto sonâmbulo que rouba castiçais e à luz de círios baptizo espermas inflamáveis da lua herdo a limpidez e exibo-a no rosto blasfemado até ao enegrecimento dos frutos nomeados das searas dançantes herdo o sorriso lacónico repleto de amido alegórico e a cravagem-do-centeio para mastigar sofrendo apresento-me vigilante sorvendo a seiva elaborada do monólogo exasperante e contraindo os músculos afundo-me hirsuto na devassidão agonizante da noite |
