
[Palimage, 2007]
O mundo é um grandecíssimo cadáver com moscas de vaivém para abrilhantar.
José Cardoso Pires in Balada da Praia dos Cães
I – O CÓRTEX

Cuspir a carne por ser nauseabundo o seu odor bloco a bloco encaixado já limbo sonoro onde se acama OUTRÉM-GRITO a roer a casca e encontrando branco o subterfúgio disfarçado dizer subterrâneo pois maldita e insurrecta a garganta engravida de viscos e soberbas testamentárias EU-QUEM a abocanhar o êxodo à cauda da laranja morta ainda amamentando a cobra que desliza verde entre os gomos
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De romper cadências da chuva – a testa fulminante arabesco a sonhar demónios de saias
o útero da chaminé abre-se com fugazes melodias de insectos despromovidos em cada clareira um mural em cada haste em L vertendo céus de demasia líquida e instaura-se o centro da maternidade do cacto de maternidade arbórea a luzir em qualquer sonho sem que morra a ânsia de acordar
e na cabine homem e mulher olham a estrada olham-na engolem-na no limite visual sob o alcatrão flashes contínuos da contínua improbabilidade da viagem
para lá do vidro algo espreita acima das cabeças alcatrão volátil incolor acima das cabeças – a latência eminente dum beijo de morte
homem e mulher impávidos agrestes beijam esquinas mantêm a expressão inicial do rosto em acrílico tempo de menos a menos vivido e largam cinzas do embrião sonhado voam queimam-se na névoa do alcatrão volátil
homem e mulher na cabine olham desovam tristeza esparramada na chapa crua cruel inabitável do alcatrão espasmado
– duas árvores secas
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Ele vê-se a decifrar o arrojo sanguíneo – pensar emergência do vermelho como turbulência cerebral por fantasma estéril
e ele fala aos cães gemendo com um em si adentro feroz cão negro
a esses que não teme fala de silêncio roedor brusco inicia um retiro discursivo pinga solidão intuitiva verte violência muda ginga entre balaústres do passado aponta à esfera ladrares compulsivos
desce falando aos cães que o temem gemendo sempre fugindo do cão negro ainda em si dentro
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Ignição: um carro rumo às barbas do céu sufocado pelo arco-íris que um aceno subscreveu – cinto é com tapetes diurnos a suplantar escadas e ele bem apertado extravasando cor em bolhas queimadas
o condutor sujeito à cruz enevoada de curva próxima a amolecer-lhe o peito e rasga ele a estrada pleno de apetite atraído pelo pó que as nuvens mascam a convite da mulher sorridente
um pé-de-feijão arrastando borda fora o carro gripa e não, ele não se chama joão
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Rumo à linha onde precipício me engulo pulsam vértices orgânicos de tossir picadas e alinhá-las segundo a estirpe
figuro comida num ágil apodrecimento orbitam mazelas que encaixam húmus peso abominável ao mapa de grelhas
uma carcaça à terra se liberta
entro neste lento naufrágio a pele derrete e amo degraus de cera nos quais me ajoelho para rezar à lâmina que as esponjas limpam
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De beber o lençol julga-se morto exposto num túmulo tenro do alto à cegueira nega as pálpebras descidas cume onde come bolor negro
debita suor abafando animais com as costas cúpula do estábulo onde focinhos comentam como se escavassem o sono colchão abaixo
o sonho é a gazela aos pinotes no prado onde as flores sorriem decotes
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Ouvi vivo no ar duros selos e neles brindei em relevo ao gume que talha venoso os dados a ditarem novo vestuário
segue-os atrás aquele nadar-de-orelhas de rapina outro voar ainda ar denso já outro corpo noutro agreste enquanto entre eles cai uma porta com dobradiças ósseas
vi e vim eu abrir vivo e sei: um pôs o pé na sombra que se fez poça aspirante a espelho onde outro mergulhará tintas expurgadas a esquissos ambulantes em roda-morta junto ao calvário
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Olharam o dente como se abocanhassem a orla dalgum cabo principesco com a pressa de pentearem sonhos que no pestanejo se escangalham ao redor desse defunto castrador à distância fóssil duma nova ilha intocável
entrassem elas docemente pela raiz esbatida na onda doutro sangue já envelhecido doando curvas a um bolbo maior entre os eleitos sonhos de morder almofada ou viajar fundo em sono cru
vissem elas o poder das naus nesse mesmo dente o grande caldo calcário onde se lavam as estepes com direito à marcha fúnebre de bonecos pomposos quando na ladeira esmaltada não se roça o linguado saído da torneira a pingar-lhes nas cabeças e soubessem elas que os pingos são soldados mortos por tecelagem burocrática e que em selada idade irão sacudir os brincos em fúria com ambas as mãos no peito
– o dente – perguntei-lhes porque veneram de manhã as gemas de sal e elas responderam-me que o sal todo é da manhã
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A vespa vem matar
asas nupciais às cócegas quase me lancetam a garganta
sou pelas lâmpadas doidas da negra água brotam poldras teclas húmidas a serem esculpidas por trutas fluorescentes
ninhos ardem à conta do gás venenoso suspiro da mãe-hematoma neste dia feliz
chega de encobrir pevides em vítrea lamela da colossal gravidez que é a língua
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Contar extinção por contágio ascensão hormonal à escadaria do homo sapiens recolocado no distrito (i)mundo lavando as mãos no ranho que as cristaliza criminosas para nos comparsas dar palmadinhas nas costas e lhes almoçar timos fígados e baços regados de adrenalina sim, este é o souvenir de cristal: multiplicam-se ridículos os infectados e o vírus engorda dentro deles esticando-lhes o sorriso
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Às costas minha banheira trémula carapaça às avessas explica-a certo fumo encarnado que algum fungo verteu eu no aconchego da água quente feto em volta da barbatana que por sórdido umbilical lhe bebo grossa gelatina para bom crossing-over
minha trémula banheira ao deus-dará raso arranha-céus fumegante no qual alforrecas se armadilham muito janotas
pelo som coso velocidades a objectos enquanto caracol brincando à boca dum canhão de sal e lá longe junto ao bidé jaz uma tartaruga duas vezes morta exibindo na sua podre carapaça o rosto redimensionado de tristan tzara
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Bêbado o profeta escoa salivas as alucina por algemas barbudas no habitat do verme – tricota o hábito das algemas desfiando seda descendo a outro salivar que alcoólico se insinua a mucos perfeitos
profeta enquanto ossos equilibrados no sopé do precipício e espera, fica à espera e tampouco desespera espera o parto da manhã de aço lendo o leite emulsionado no espaço – gotas de luz grafismos de sémen sílabas rasantes à vista
venera a soberba mancha lenta da abóbada pressupõe que alguém será a voz da sarça num minuto assim estranho como exacto ao redor duma cratera ensanguentada
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O escuro. inseguro ventila cartilagens irós já não lhe mordem. rói unhas noite-azia. horário fracturado espreita o guarda-roupa de lucífer. e assobia agora verme. tremem-lhe anéis intestinais de abraçar o frio espera recompensa. cubos jogo-de-pés. sentidos em borrão na face pânico diluído por mirones. um pano digere os clones. ribalta metamórfica em sintonia com os faróis. iró-de-prumo conta 11. entra hidráulico no autocarro
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Rasgar garagem num sabugo por ouvir nervoso meia dúzia de pinhas simpaticamente prenhas de choverem hélices traz-me fricção ó relâmpagos caruma mágica nas mãos arde amarga giesta quando se esborracham olhos errados na almofada outrora cerejas frescas no topo da plasticina
trampolim este sabugo fundo algures dentro de mim a encorajar janelas em fieitos de segredar à pele daquele pequeno corpo a arrancar membros às árvores espadas depois desembainhadas à claridade da manhã vê-lo saltar dono e senhor de animais bolindo nos micronichos dum oásis mudo e o sol aprisionado em volta pela cortina de pinheiros
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É o rumor ósseo que lhes leva o leite à boca crescem do tronco expandido da mãe a acalentá-los em sobressalto e bem lhe serve o deserdado xaile esse acordeão de renda onde se somarão enganos doces
os pulmões enrodilham-lhe os filhos ela sabe-os perdidos contudo enrijesse-lhes os ossos
num estremecido fôlego fortes foles filiam-se aveludados no colo
são as bodas dum voo maior
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Um aproximar surdo resvala gaseificado enjoo neste terço minguante permanecerão tábuas do enleio submarino esboroada geografia humedecida na vertical
ouço-lhe estalos pulmonares sei o esforço que as mós pleurais fazem para não esmigalharem bolhas no contrabalanço líquido
quero dormir no incêndio do crepúsculo ferido a vinte e um metros de profundidade afogar os olhos e desmaiar nesse exercício de afundar cabelos
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Desço o limbo de isaac cruz da cavalgaria assassina disseram-me «o amor lava melhor que qualquer sabão em agonia» – estão mortos, mortos todos subtraídos às esquinas do globo
há festim no jardim dos reis comuns reis à procura da coroa atolados na copa fértil fundo víneo marulhando fólios ascendendo a animais vagabundos bebem-lhes a seiva encarnada que lhes chaga o rosto e o veneno trará boa ressaca narcísica
vénus calou a filha derramando-lhe ácido na língua tenramente rosada bem espremidas suas bolsas caídas maduras da constelação movente – festejemos a mortandade higiénica dos que nus pingam ranho no epicentro do templo com cor esfomeada de incenso
hoje vi voar minha sombra esbracejando diante dum espelho, não vou estar só e cuspirei nesse machado vindo a lume borbulhante na espiral virulenta dos olhos
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Gira o cordão umbilical no microondas futuro-tômbola para a plateia de estômagos
ao atolar-se um pé na passadeira toda a dicotomia evapora tracejante com contrafluxo das gentes em grosso tempero
quem arrisca estatelar-se branco quer beber petróleo no poço escuro do tímpano que não tem por poltrona e cisma de camaleão-intempérie a icebergue educado
passeia escorreito vento intentando fellatios num xadrês citadino: embalsamam-se peões por sonharem paralelepípedos contrariados
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À luz ressurgem os cornos da bicicleta e fico no que se camufla pois retumbam exageros de sangue numa camisa às riscas que a avó apertou ao peito e beijou
clareia-se-me a berma da estrada pelo choro estilhaçado que o ranger comove tal lasca do mundo ou folha granítica intermitente de irmão a irmão onde se desdobrou vida aos jorros aliada ao musgo e à terra
presente ainda essa camisa das nódoas só as dos beijos permanecem e martelam na minha cabeça
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É o vento que me convoca, é o vento que me provoca e a cadeira balouça: o velho estirado completo na sua demência obscura no seu passar igual dos anos com a maresia dum louco cérebro à solta
balouça digerindo música seu diminuendo da única alegria bebendo fluidos planam pássaros dolorosos cansaços vistos ao espelho todo o dia toda a noite e durante o sono masca aquele grão de loucura obstipado na glândula que à tarde amena se subtrai
ele repica passos, envolve-os em geleia crispada e há migalhas na mesa e há cadeiras fixas na memória desmaiadas no pensamento e há a ardência indolor dos olhos água que jamais ressuscitará
irá de novo lançar redes para embrulhar peixes e embalá-los num sono de alcofa nunca mais dirá o seu nome nem acariciará a fotografia e o álbum há muito que é uma sepultura há muito que alberga apenas traça na sua vida minúscula com vivência alegre da sua minúscula memória mas que vive vive mesmo que minúscula a sua alegria
o velho arderá na planície e nunca mais se ouvirá nele o eco da montanha que algum dia lhe haviam falado
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NOITEMÃE grito-te ó claustro fundente secam as horas brilham os minutos e num segundo fervo éguas brancas espasmos de vísceras salpicados neste pão branco que parto à mesa alumiando vultos que colhi na clareira estelar por desarmarem-me a pele ANTESONHO minha estação motriz cordilheira surda dos sete degelos canto-te ó neblina óssea que com incenso fecundo envolves beijos podres do sol a marinarem-se baços: bagas serôdias balas soporíferas ocupando as câmaras do revólver fálico que ferirá de luz a vulva lunar
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De esperanças o clarão descendente chama a criança ela pega na medula peganhosa do objecto pensante e confunde-se com o estímulo vermelho por mínimos circuitos convulsivos das fibras deslizantes não esquecida assume o músculo-betão ascendente por um núcleo renascida no inseguro desfile das imagens – pequeno soluço, arfa e curva os pés como se agora segurasse o chão remanescente dos edifícios; ouve falar por cima e sustém a respiração: sabe que lhe sujam os vidros
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Antes bem: uma última parcela de escuridão vertida pela porta a transumar-se em continente bem que respiro num sobrevoo do grito a refazer dúbio semblante do escultor que o perdeu
antes do carimbar de ouvido me vem esse pétreo interesse por um olho-búzio trazido pelo bruxo das boas-noites e explica-me agulhas num amarelo vibrante desculpa pesadelos mas
as pálpebras são corpulentas pesadas cosem atalhos nomeiam-me náufrago bolorento com livre trespasse do âmnio e assim reentro
II – OS VASOS Porque íris de passagem iria envolver paralisia e sombra em crasso porquê da imagem que à paragem do arco um estridente quê lhe ferisse os pés?
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Disse-me o nome e eu o disse ao de leve pois que a sobra circunscreve a moda dum pronome ao telefone ébrio letreiro que incomoda a febre do cone cavalheiro
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A pseudomão empesta-me nódulos nutridos com o suco medular do caroço freático sangrante núcleo duro da viagem mas efervescente aonde transbordante se me assiste a velocidade
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Boca em flecha ou agulha abrindo ao insecto a janela do estame que entulha vida áspera quanto baste neste certame
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Dito homem assina sangue ardendo à flor perdendo rigor na pele pelo dito não consumado
de ver-se queimado descrê o vinho balbuciante no copo
– raspas de água à superfície –
prevê vulcão rosáceo de caprichosa lava-sangue a desmantelar palavras
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Derrubado escuta a lei do microscópico vento sob a lisura ensan-
de[s]cida do granito endospérmico e lê a bivalve cor a rasgar-se violenta sobre seu rosto de papiros apodrecidos
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Cómico isto de subir a haste duma deixa sem manchar a mínima renda na gotícula isto de roubar sonhos ao soar o orvalho e entre as palavras tão só e desprecavido a roubá-los de novo cómico isto de imolar uma boca
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De vê-las refaço-as mãos invaginadas na paisagem peristáltica
ramificam-se possessivas machucam vozes
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Um infinito cru aquece-lhes o prato que de olhar comove bem resguardadas as entranhas
mentem neve como pisam o rosto da farinha acusam oportuna cabeça faz-de-conta
assim o perdoar visto no borrão de seda o bicho
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Essoutro lugar retém ouro de bissectriz cicatrizada a diluir sob manhas de querer adoptar uma estrela
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Soa pé ao búzio carrancudo chupa placentas e nele suspira o mar
mulheres em palco mães suas mãos escoam bílis agreste e esfregam olhos em terreno cabeludo
curvam línguas botões carnais o baile sulcando nos braços timbre hipnótico
e cresce um veio roxo escurece-se cavilha dum coração comedor de sal
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Assim olho fibra a fibra desflorados os clarões
gotejo partituras e planam nelas naves auriculares antenas ao tacto hipersensíveis
meço intenções na força cromática a fixar aroma e textura no esqueleto da tela espontaneamente fluida
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O alvoroço lhe dá a fuga
adivinhando pegadas ali mesmo renasce
e desfia silvos por chutar penteados aos arbustos
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À barriga da árvore acorrem assombrados dentes e suplicam rangentes musicam doentes sempre crentes no rebento que ela há-de parir
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A galope invadem-me são víveres em metamorfose animais verdes a perderem pernas que ao rastejarem animam-me o corpo e eu danço: são víboras
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Esfolha-me
fole a fole
olhas-me
folhas e medo
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Um dia preso ao nojo de pedir azul estéril para o animal
por saber, a portentosa cláusula
a cabeça aberta e os dedos muito sujos
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Amadurecerá o crânio na bandeja
chorará a gota pelo chifre de luz
acorrerá enamorado o minotauro
[eixo a eixo os olhos repetem o mundo]
madrugará uma canção
III – A MEDULA
A primeira imagem é o bebé ver desaparecido o brinquedo debaixo do tapete para desconhecida dimensão do universo
depois surgem esboço a esboço as paredes comem área cada vez mais paredes fortificam-se pelo tempo mais baças do que verdes
ainda presas aos pés as raízes de todas as plantas ainda viva a sabedoria das árvores no espírito ainda intacto o contorcionismo das heras e madressilvas nos músculos
os reinos beijam-se a herança dissimula-se profunda e invisível prevalece até que o homem cansado e velho abraçado à rocha e dela já parente confesse o berço vegetal nos primeiros nós da carne
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Humanidade – o passeio por tantas asneiras cheira sempre a sangue em todas as palavras fora e dentro do corpo e na valeta
humanidade – duas pernas ao lado um lado nunca cicatrizado para neste branco lugar olhar de longe um gato – cresce gato preto pelos teus olhos de pantera que eu me fico a tocar o tórax a ponto de julgá-lo fruta e justificar ar em falta com arranhada tosse grisalho e lento fosse o líquen enrodilhado no coração
humanidade – pintar o pão para morrer espumando tinta jamais desabrochar noutros ouvidos ouvir antes quebrarem-se pétalas ou vidros
humanidade – repensá-la como quem se maquilha há sempre guerra e tudo é mato – morrer e oferecer à morte um queijo azul muito velho
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Se casco o pericarpo ao som racho a pele em invasão dissecante
penso se li na lagoa espiga o remoinho dos trompetes a rodarem dedos suados digo respigo aliás perdido no se sopram tempo como miam metal derretido e eu embalado a doar órgãos ao vácuo feminino
então ver-se luz é regar enxertos
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Que dizer da folia dum aguilhão aguçado se me doem enxames no pescoço?
antes vê-lo executar viúvas de cera com a fome de muitos lobos um sem número de halos radiais duma fria sensaboria tentacular tê-lo mesmo como condão nidificador coberto de plumas pairando sobre velhos livros acossados pelo pó manejá-lo aquecido no perímetro da voz estimada catapulta contra o vasilhame venerá-lo mastreá-lo aguçá-lo
talvez me desunhe à bica da flama ou crave o aguilhão no céu da boca
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Aproveitando na boda o jardim de espelhos para o ensino da arte singular que é engolir retoquemos a cobertura tóxica do bolo no centro contráctil à música que varre as mesas e sejamos feitos do brilho sujo da dança da pobreza pura de relâmpagos faiscando contrastes fragmentos de vídeo nesse sumo nauseado demais o quanto sabemos que o é esta carne mutante desmedida sempre e tanta saliva o comprova sejamos par meu amor neste salão monstruoso entre os que quebraram a flauta sentindo ratos-bisturi galgarem-nos coluna acima para apodrecerem nos lábios digna pergunta: beber-se-á na arena destilado suor como chuva cozinhada na atmosfera? dancemos apenas e a sós dancemos como se jamais tropeçássemos na variz purulenta pela qual medram os sapatos em cada lance rítmico e substitui o miocárdio deste salão pleno de carícias urticantes que lubrificam a janela por onde entrará o rinoceronte de luz farejando-nos os ossos
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«Dar água às grades»
mote corrente quando se aprisiona uma nascente astral de antedito pó a tragar-se amargo ao redor do holograma
cambaleio mordiscando o púbis à nau do dia descem panos curvos com nervos rubros a alisarem o olho perfurante que ainda desenha a bigorna
de ungir se esmaga e beijar esgota que vida se esvai se estaca a boca?
«gradear as águas»
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Ela sorriu às avessas e despiu a cidade dizimou formigueiros soprando auréolas de fumo – veio ridiculenraizar o amor
viaja num vagão azul com a cadência solta das vértebras encharcadas de quotidiano massaja barro traduzindo assobios de flores e estrangula lírios depois de os amamentar
perco-a em tantas faces e ela nas escadas das nuvens de tão meu céu confidente tão meu refúgio quão ecrã mutilador
sigo-lhe o arabesco mágico do cheiro a pique num amor fatiado mordo-me por doar açúcar mercantil
ao mínimo malabarismo com ovários aquele sorriso apodrece e explodem-lhe vilosidades numa cartolina enfeitiçada igreja dos gnomos de barro
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Escrevo a cear-te os átomos por saudade curva doem-me as mãos de procurar granadas mínimas
a língua viaja pelo mármore azedo – amêndoa … desejo-a nos dedos
ouço turbinas no arcabouço veloz ao lamber mucosas e leio fundo nos tendões o verbo frígido a engrandecer esse coito salivante das canoas febris sob o artifício nascente de casulos luminosos
refazer-me-te praia daquela tarde garças garganteiam-te o umbigo eruptivo onde se aninha o precipitado coágulo violáceo das marés inconfessas
abre-me válvulas reata-me pérolas forradas a carne
e pensar que o coração é uma noz um pedaço de mar aberto à boca da cama
flutuante se me soluça o corpo ao colher sementes na rouquidão nocturna localizar-te nesse instante em que a maré alta se confunde com o pólen roubado à infância
os peixes beijarão a guilhotina e não morderás a culpa que me veste de mar nem tresloucarás a sede dos olhos que trespassam o coração do cardume
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Químico sol a tempo de arquear o caule erguido a nós quebrado em dois um beijo no orvalho crescente entre narizes que a luz adensa e inebria pela estéril doçura a trilhar no dorso
ouves eu dentro a consertar raízes ampliando a vegetação colhendo frutos sonoros numa nave de âmbar engordando o caule com barriga televisiva
renasceremos mudos no tráfico de sementes
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Tilinta o arco e a noite mera campânula estrelas sobram atrás dos guindastes sob o braço polar murcham lábios como sujas palavras de sapatearem dentes
afio a agulha no pêndulo e costuro a casa à febre estridente da última vinheta alumiando ressonância indomável tecto vulcânico à velocidade dum fósforo
e quando cintilam palpites a pulso entrevejo-me inteiro redobrado abrindo um bilhar de amoras
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Uma colmeia gorda por candeeiro estirando opacos seios gorgolejantes do capim crescido nos nós dos dedos
hei-de acender favos líquidos quando o cavalo de néon se quebrar no entroncamento da frase a mim entupida
recém-chegado da tigela feia às voltas com estranha alcateia de alcachofras cor-de-rosa a segredarem-me morse por mil capas aos beiços
que redondos e curvos os seios enchem de mel os favos e estes adoçam o leite pela paixão em ângulo bem debaixo da lua
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Abranda hesita pára: a caveira perfumada ir no ir que alcança o chão e em frente o vidro não perdoa paredes por transparência ir à procura do til à demão da língua esconder a couraça num galanteio de mentol até ao mil se apedreja com rebuçados quem surfa ondas do etanol desparasitado
que o amor vem dos bolsos aprendeu a mais ter o poder de tocar e correr o fecho éclair do peito às vezes movediço outras pista de dança delas no corropio a não esticar para não romper os bolsos tornar-se invertebrado pregado aos mamilos numa interrupção voluntária de lucidez
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Muito rocha apetrechada de amar folhas decalques sim: feijões proeminentes de quem me ata cotilédones dependurado muito qualquer coisa última num toque de lianas e escorre um milímetro de arrozal sobram amidos na confusão das bocas muito papoila andante de malas feitas um dia luzindo morte à escaravelho cedo comparando mordeduras de alface muito trinado compulsivo a abrir corolas ao quadro estriado sobre retinas cansa-me a guerrilha vegetal no pulso muito tesoura dançarina numa paleta e amputa sexo à tinta chorando óleo
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Aí. só: ela no wc por medicamentos no coldre me engane com a capa onde prega fivelas cromáticas da descabelada noite e eu me dobre fintando-lhe o trote donos dum chão a florir côncavo abraçados para bocejar trevos aos azulejos transpirados junto aos alicerces das louças donde face contra face sóbrio borbotar da copa nos irá acordar
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Eu nos circuitos empapado com mangas como se esperasse um esguicho para celebrar o agonizante amarelo neste tapete binário onde electrificado me sorteio com a pressa de selar cáries e cálculos de enxofre para rir-me como um tolo abraçado de bêbado aos meus gigantescos rins e apontar-lhes ranho olhando de soslaio a homeostasia de bonecos com críticos órgãos amontoados nas lisas cabeças unidas em cone quasi religioso à procura do polímero-mor no foco ensandecido dum palhaço a desejar melhoras espirrando laçarotes
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Lembrar ânimo de sucção na cervical e um arrepio leva a cor em frente
acorrem estilhaços junto à fava coronária formigo enraivecido estranhando o balouço e traz memórias dentadas a dois na pele extensível a um quarto conservado pela saliva numa súplica do capitel à vertebra fracturada mas longínqua luz dura sustém o dente-de-leão com tensões de explodir carruagens num súbito big bang fraudulento
a mão assina a data no beiral cicatrizado lambo-lhe o suor que intumesce os espinhos há um turbilhão quente a envolver surdez dum sangue descorado à força doente
à janela dói a grande superfície
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Uma lágrima quente sem que a náusea ao de leve me arrebate por incompleto me seja eu mesmo com vírgula aborrecida e contando tê-la como alimento à entrada dum matadouro
porque difícil é adivinhar dissonância nasal espatifado em esponjosa contrição mamária nunca sabendo se lâminas labiais irão trabalhar com grossos riachos a sucumbirem ao clorídrico suor dada a serventia acrilírica de corpos submersos no carvão nocturno – assim avivasse ele mais negro destoantes pregas na cama seguindo carícias dos anéis no parágrafo madalénico da cobra empalada já num receptáculo arbóreo deste dia mau
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Enoja-me o verdete entusiasmado das notícias mais o cheiro a bâton cruzado com o do grave charuto amarelado verbete me pareça alérgico sim ao tumor-champanhe do beberete porque minha casa envelhece ela é de esferovite enegrece ao tom eufórico do jornal viveiro onde o vírus se replica como se masturbasse nas barbas da célula cutânea muito embora fechado nela porém colossal quando prensado por colunas esguias que lhe trazem a peçonha fechado sim mas alongando pus por excitação e os espigos musicais esburacam uma cozinha julgada útero num sussurro digital
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Venho atrás do lanho violeta que me dá o alfabeto ideia curva de deuses anões esperando a trombeta para verterem os bagos maduros do céu
porque se pintam podres as estrelas telecomandadas numa atrapalhação pagã das mãos?
desfeitas as roupas em melaço experimento a ousadia de provar chuva com o seu travo a ferrugem sanguinolenta e o prazer de afiar os dedos na trovoada
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O fruto morreu há meia hora portanto são horas de demolhar o calendário
acusar solstícios imprevisíveis nos músculos numa intermitência de cores secundárias
não adianta sufragar a escorrência da polpa nem tanto rever ópticas de leitura genética em subcamadas do olho germinativo
é do dedo fixo o lugar envolvente resta só chegar por precisão a um derrame
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As plantas são os mais belos mamíferos que um dia abmorto conheci. intriga-me se é desordem o desorvalhar das folhas creio que sobredesenvolvimento mamário ao micronível dos estomas; fundamento é a própria gota que progressivo mamilo na queda se goteja e aleija o tempo como espelha leites por aguar num antebranco dominical. isto sem falar da extravagância sexual e púbicos consentimentos pois verde a tocar-se verde refulge toda a matéria e os olhos são dois alvéolos do anormal pulmão do mundo
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Bendiga-se verde a folha nova com os cegos cloroplastos da fortuna
olhai-a encurvar ampla planície trazendo sossego do caule que o sopro minoritário estende a domínio duplo duas cores: uma clara-marialva por ressalva a outra escura-grávida de grave sanguinidade
todo o pedúnculo refaz a voz do rio e ouve-se o rebolar miudinho dos ovos no cálice mas cá fora um barco estridente rasga águas à procura de novo amanhecer
que lagarta beijará ao contrário o amor espelhado nos alicerces do casulo? |