[Palimage, 2005]
PRELÚDIO QUARESMAL
OU MONÓLOGO DO CORDEIRO MORTO PELA LANÇA VOCABULAR ó de mim... tanta culpa na constelação dos membros. a lâmina dos beijos decepa, em órbita, figurações espontâneas que amaria eternizar. olhai para mim... eu sou o cordeiro abençoado que abre o peito diante de vós, o excelso exemplo de quem realmente despe músculo a músculo a razão monumental do encharcamento pulmonar. preparai-vos... prometidos estão os meus restos para a vossa ceia festiva, orgulho preliminar antes do mergulho da coroa a ensanguentar, o azul na devassidão das vossas vísceras compulsivamente arredadas do antro luzente por um bocejar matinal. depois do sono a amnésia... visitar a fábrica dos horrores suavizados, apreciar os rostos estampados nos rótulos do produto moralizador empacotado, estudar a genealogia dos monstros de lodo artificial que habitarão o futuro. concentrai-vos na rotação dos meus olhos inchados de sangue... vereis três éguas a parir ferrugem no fogo emudecido. aposto os meus intestinos que na vossa endiabrada cabeça, vive somente o emparcelado mundo da probabilidade dedutiva; sei que ocorrem constantes mutações no vosso crânio e que a cada rotação da máscara cárnea surge um novo padrão colorido que mais não é do que um elementar truque de ilusionismo óptico... eu à vossa imagem ou melhor, o meu rosto de cordeiro mal morto reflectido na mesa das apostas. projectai a minha súmula genética na vossa indisposição; apraz-me até, relembram-me velhos tempos... eram doze a comer-me e eu gostava... ainda gosto. e os textos? queimai-os, assim como o sonho da erva que apesar de fresca era amarga, e enterrai vivo o calendário das lendas na pele caramelizada ainda a soletrar o deserto. conto-vos que o urso imperador deu ordens queimando a pele rochosa ao vento do norte. jangadas de cinza descem a garganta, cravando na carne o gosto repelente pela irmandade dos arbustos que se reúne todas as noites na planície enfeitada com cestos de fruta podre brotados da terra – o pequeno-almoço do monstro da nova manhã. confesso, há muito que o beijo dos triângulos incendiou a trilogia dos espíritos, e o fumo será o perfume dos que condenam as leis da ampola do tempo. qual sacrilégio em cada degrau... o monstro da nova manhã sozinho canta e brinca com o seu rouco eco. de vez em quando, torna-se necessário ler o rebanho das gotas de água no vidro baço da melancolia, puzzle de trevos verdes para todo o sempre pisado – aqui tens a tua terra! todo o meu interior exposto às moscas e aos homens... mas a minha dor deve-se ao nojo inócuo das palavras, ao tédio corrosivo do discurso que desliza entre os mosaicos de saliva perpetuados nas saias do tempo. assim morro com esta lança cravada no peito... e da ferida apenas escorre a seiva de detritos que desisti compreender, vurmo baptismal indiciador da condensação do pecado e não da sua suposta absolvição. em verdade vos digo, no próximo mundo o crocodilo será vegetariano. nesta mesa onde vos espero me confesso... aqui me acuso e me calo. ●
[a rapariga verde]
sabes-te, olhas ensonado a rapariga verde que pisa descalça os intestinos caramelizados da máquina de escrever há muito explodida num dos cantos do quarto. aranhas húmidas saem das brechas imperceptíveis do tecto, atacam-te enquanto observas as formigas negras a funcionarem como agrafos no ventre da rapariga verde. um suspiro a soar como tardio alvorecer e é então que percebes porque azedam os sonhos. abre a janela a porta o peito os pulsos... reclama a legítima herança da claridade – o país de papel onde deslizam as lagartas. ●
[electrocensura]
porque curva a ideia sem que lhe caiba o cansaço? comer? sim, ridículo trauma a emborcar gaiolas de pau preto. a realidade privativa enriquece a primitiva alcunha a servir de lantejoula – quente pensamento afagando o áspero pêlo do jumento. zoológica natividade do prête a porter... e ninguém explica a função gráfica do surro quotidiano, nem o virtuosismo sintético do seu significado. aspas que porta? acento circunflexo que telhado? ponto de exclamação que chaminé? quem dobra a esquina do estéril ermo? mal dúbio sem perito de reforço – doidice das farpas que as fadas costuram feias, enquanto rotina do desencanto. escrever um nome no fundo basilar do estômago e instalar-lhe um eléctrodo: ladainha das sete escadarias controversas. espero o meu par no epicentro do gira-discos que acaba de ter alta das urgências hospitalares. agulha grossa na fenda germinativa das cabeças unidas – romântico extorquir de senhas da revolução interior. ● [o bicho-da-modéstia]
ao que vieste? mordeu-te o bicho-da-modéstia... ninguém te desata os nós do esófago e o trevo não funciona como senha na sala de tortura. ao que vieste? trazes escrito nas costas que foste traído por quem mais te elogiou – o touro branco só te ataca se o deixares à solta. foste mordido pelo bicho-da-modéstia... esfrega o inchaço com álcool e goza a ressaca, és parede de embate, sabes que estás vivo e acaricias os cornos que te trespassam friamente. ao que vieste? ris-te do mal que acaba por te atingir; descobres tarde que aquele que vês sofrer és tu afinal, um espécime doente, decerto canibal. ●
[alerta geral]
movimenta-se esfomeado farejando entre os arbustos, observa apaixonado os obstáculos em que tropeça – fujam, ele é humano... tem os olhos vermelhos dum ódio ilegível e garras afiadas a saírem-lhe da boca. ele vê os órgãos da presa a contraírem-se de temor – fujam, não subestimem a agilidade deste predador, ele é humano, fujam... conhece todas as tocas ou supõe conhecer, por isso é perigoso – fujam e afastem-se de todos os espelhos. ele é humano, o mano. ●
[a besta]
a besta sobre o tapete no lado de lá... roçando-se na cortina vermelha, floresce-lhe o nariz as faces os olhos escavados as mãos de veias grossas sobrelotadas – surge sem a noção de surgir. baba a cortina, rosna e insurge-se violenta numa pose a suster a gargalhada que ridiculariza o caldeirão de rostos fálicos subdivididos por um visco dourado. a besta do lado de quem a pressente a cada esquina mas que não a vê, nem lhe adivinha o ataque. porém, a besta gulosa humedece o alvo róseo a penetrar com a impensável falácia de potencial ensurdecedor. o monstro a monte no lado de lá, morando para lá do que ainda quente se transforma do lado de fora, asfixiado pelos raios acrílicos das vítimas: brancura cuspida – a traqueia picotada. correm mulheres dentro da besta, cardos no peito, vinagre na alma. e quando no prado medular da história a besta morre, resta a coroação. rumores... sabe-os todos o vento – para sempre viva a auréola de pólen que lha dá a natureza. ●
[desmame]
experimento como se pela primeira vez o voo uterino apalpando as mucosas, docilmente vacilando colado à imagem quase sem respirar – o halo. viagem à terra perdida da utopia, quimera do deleite desfolhado. vou nadar sobre a montanha despida como se voasse de facto e mamar no cume do pinheiro mais alto o precioso leite dos cones primaveris. vou denunciar as medalhas de plástico verde que bóiam concêntricas no rio douro – pressuposta película dum segredo tão profundo. pudera eu conhecer as vísceras do rio como as que sinto mover incomodadas cá dentro. ●
[nenúfar espacial]
nenúfar movediço... a casa. estar, os pés acesos... balouçar ter o medo a salgar os músculos intermitentes, buzinas em vez de ouvidos. a dança do ventre com archotes de lava volátil. vem beijar-me que eu mordo-te com a vontade dum javali de perna amputada... «ao que parece, ele veio das outras bandas... não lhe sei o nome, parece que não come nem bebe. de tarde, brinca com as flores silvestres que abafam os arredores da cabana» – vai, vês de certo, o gume do som libertado pela teimosia estática dos objectos, aquando os mínimos precipícios assazmente escrupulosos pela intersecção de vertigens, outrora ritmicamente paralelas. agora... saltar! manter o verbo sem comer o naco de insecto parado no código de barras do tempo. e ouvir de novo os passos... «vêm buscar-me!» embriagam-te o corpo nesta cúpula de gases turvos... deixa ecoar o grito da tua carne líquida, pois futuramente a sentirás disseminada na rochosa planície acrílica, como que limpa de todo o pecado amordaçado. os revólveres são grossos resíduos de carvão em erosão no terreno alisado da tertúlia masoquista. ó encruzilhadas de estradas onde pulgões drogados passeiam à mercê dos vírus vegetais pontiagudos. ai que a seiva mata... escreveste, portanto, inscreveste no dorso do cavalo selvagem de três patas. sentes pulsar a culpa... e detrás do cepo choras vinagre, és e serás assassino – a vigília dos nervos por traição, florido o nó resinento. pântano recauchutado do devir, pântano onde brincam os animáculos do cuspo mantidos a glicose... ó pântano masturbatório, viveiro de fantasmas enfeitiçados pelo pó de alecrim a ser queimado – brincamos nós? nenúfar espacial... movediço ainda – a casa. estar, os pés apagados. ●
[nós nox noz]
a carne acesa a rodar o cálice – esqueces as fibras vegetais que te torneiam. dormente te insinuas; quem vês chegar para além da casca? sobras na tua solidão, sabes-te objecto muscular... a noz. o peito acelerado desapega-se da espinha que afiada corta os pulsos da lua a morrer pálida sobre a tua cabeça. ninguém quer ler a tua carne... aqueloutro quer antes mastigá-la para decifrar a sua própria carne, embebida em saliva morna que enche vagarosamente o cálice de latão. gravados estão os agouros pelas mãos da suprema ignorância. ●
[carrossel]
ah o carrossel, uma volta, senhores e senhoras, meninos e meninas: apresento-vos o fantástico carrossel de carne podre! fechem os olhos, apreciem o passeio turístico na cabine das sombras; oportunidade única de ver a cores buracos negros em vez de olhos inchados e o tão grande campo de espantalhos espetados a gesticularem indefesos. inspirem o fedor da renúncia, bebam o sangue do cacto órfão perfurando o coração do pão negro, apalpem o estigma espinhoso da flor tenra que amarela abre para dentro. ah o carrossel dos assentos com ventosas que sugam pútridas ideias e imagens do mundano torpor recíproco – o digno carrossel das fezes copiosas, reservatório grotesco de vurmo. bem-vindos! próxima paragem: o mesmo lugar. ●
[o manequim]
quem roubou os órgãos ao manequim? sanguessugas operam no corpo gessoso, condenado à posição infernal de serventia. faltam-lhe os cornos do ódio, o vermelho do choro a proclamar vingança; faltam-lhe as algas cinzentas como lâminas de machados em pé de guerra. nu, secamente nu, vítima de bruxedo, reduzido ao puro escárnio – roubaram-lhe a visceral expressão do rosto. talvez virá quem lhe faça justiça, quebrando-lhe a pseudocabeça e exibindo bem alto a caverna rugosa do rosto escavado para dentro. ●
[a refeição]
aberta a boca enorme [lábios frios sem almofadas] come o vício. COMÍCIO – o ovo estrelado arrasta-se pelo mundo, voo atrelado que se castra; surriada de ondas viscosas da clara mal cozinhada. a cara enfadonha discursa – o peixe nada sobre a planície irritável da fome no mundo cujo estômago ajusta a seu bel-prazer a coroa de espinhos. nuvem negra da peste sobre a frigideira; CARCINOMA – coágulo de sangue falso a vaguear lento. peixe cozido com ovo estrelado: meu lado sangra... ●
[fantoglobalização]
arcadas relembradas pelo som montanhoso até à foz do arvoredo. quem viu? porquê tanta acidez? assim se delineou o julgamento: «sou ser que se ergue como erva ontem pisada». garras ossificadas salvaguardam a estrutura anelar da memória – a cruz velha da face. guache nas caras muitas caras, gárgulas acrílicas sobrevoam o curral das bogas, lago onde o mensageiro negro sangrou estanho. crivo fermentos, aparentes sílabas mortas, com estas grades que atravessam-me a garganta. escadarias tubulares metálicas frequentadas por fantasmas que teimam em vestir calças de ganga azul e t-shirt branca. confuso mapa da sucata – mastigo as côdeas da ausência e saboreio a gelatina dos pequenos seres de geada. crise de soluços no centro da girândola ardente e depois tusso descobrindo solta a mágoa. a espinal não passa duma coluna de gelo... ●
[zero]
nunca tocarás em nenhum retalho da folha branca sobre a qual caminhas e desfolhas o teu bolbo – nem lhe sentirás o verdadeiro cheiro sequer. sentes as bifurcações dos vasos capilares, experimentas só a vertigem do salto, medida em cada um dos retábulos do movimento fluido das cores mais ocres em intersecção, atingindo o número real da tua monografia: o inigualável zero. zero, zero colossal, zero mirado da rua, próximo da devoção agiota. zero ínfimo mais do que tudo... mais do que a casa que guarda o sangue daqueles que penhoram o frágil órgão de explosão para perfumarem objectos com o sufragado óleo das paixões. ●
[o farol]
a manhã entreaberta – correria branca do sonho em curso. doce bafo do menino à passagem dos dedos maternos. os olhos ainda cerrados vêem tudo [TRANSLAÇÃO DAS PLACAS CÁRNEAS] o suor leitoso liberta um suave aroma. mão fechada, a predilecta mão fechada, ocultando carvão brilhante – uma mosca assassinada. o menino dorme... calada, a mãe zela com ternura a sossegada concha – a mão aperta mar dentro. ●
[de costas apostas?]
cruz credo... que desacato crer na cruz do medo, sintoma do grito caduco – o beato mede a pança do mole penedo, e farto do muco arrebanha as folhas douradas com suja sede [quasi maluco] folhas por vermes mastigadas. cruz credo... qual oração ou promessa a favor do vento, sintoma da carne plastificada – o vilão ou serpente agricultora rastejando no cimento da acusação, que cansada suicida-se santa com uma pérola no vértice da língua rasgada. onde morre o espectro, sopro que desditosa poeira levanta em nome da verde boca do ceptro? ●
[vénia]
vénia... membranas interdigitais ao vento. voa o xaile rendilhado por onde se vê a truta bailarina a fazer olhinhos mansos. o horror da notícia é motivo de vómito sob os arcos musculares dos membros sadios em contracção mórbida. esperar a garganta e delinear destinos na cinza com os quatro dentes do garfo encontrado à beira-rio; olhar de longe as penas defeituosas da leveza hostil sugerida pela frieza atmosférica do desejo. o anel trabalhado no esquecimento fecundo, desencontro fiel da dicotomia genealógica vista do macro ao micro infinito surdo – todos os nomes passeando na linha rarefeita da importância conjugal de nuvens importadas dum limiar baldio. vénia... que entardece; partiram-me falanges, estes queridos estranhos, em si perdidos, vagabundos procriados pela batuta da proveta. felinos acordes a banharem a praia do dia... acordar desenhando na tábua a aurora oral infecta com ouro de doloroso brilho alojado nas unhas. ●
[o coleccionador]
ó carcaça que te esquivas dos pingos de vitríolo... escuta-me andarilho sofredor, coleccionador fanático de cicatrizes. vira-te para mim, atenta meus lábios, lê as vibrações do que te digo... sangram-te os olhos? mostra-me o álbum das feridas – quero lamber o pranto rejubilado nessas páginas de lenho nervoso. crescem-te fungos verdes no cólon? cede-me esses farrapos de pele velha que já não usas para melhor forrar este casulo donde te espreito. despe-te cruamente que eu beijarei as chagas. ●
[inferno]
«isto é o inferno» – queimando a asa esquerda. encandeado, o rapaz emociona-se confuso, o mundo embaciado: vapor oriundo da fervura de pseudolágrimas. como que a virgem borboleta violácea se compadece, tanto que inicia a postura letal dos ovos no colo duma folha-mão verde, a flutuar serena na água cristalina dos olhos imóveis do jovem rapaz ainda palmilhando o braço da ganância... a náusea: súbito reflexo de perseguir a avermelhada presa de patas prateadas; cumpre-se a rima se o filho carregar a culpa de esgravatar a terra à procura dos bagos gordos enterrados pelo pai? a brisa de exsudação beija a terra visionária. «ousas decifrar a fórmula do rebentamento da erva lendária?» a súmula do vitupério – razão do império – a mulher plantada no cóccix do macho que dobra os sinos... e esvoaçam as cartas do sono, libertadas para o grandioso massacre... granizo aos soluços. há um rosto em orgasmo num dos halos abençoados pelo sol, e tal é a compenetração deste astro protector que não se dá conta da sodómica intenção de neptuno... gargalhada na via láctea! «perderam-te aqui» – semente morta, malogradamente oca, de velhos tegumentos. os ciganos amordaçaram a lua... todos mortos para a eternidade, nesta terra de ninguém. a ebriez dos sábios cabe na tristeza polvilhada nos lábios da terra... o filho abandonado. incerteza de meia-noite: quando virá a mãe destes gritos disparados contra a face lunar amarelecida nas pautas da ambição? resta-nos acampar junto ao portão do juízo final; os anjos aninharam-se na loca negra onde o lobo vive da carne que transpira veneno... senhores da terra de ninguém. onde vestir a capa do carrasco? vinde, apedrejai-me vós, maníaco-depressivos da verdade – verde cidade, cidade verde... que chovam gargalhadas! vós, excelentíssimos degoladores da flora explosiva em cada rasgo transversal do ser; vós, de constituição tatuada na pele... esquecei! e rir, gargalhar, e morrer a sós com a beleza. ●
[último arco-íris ou o reverso de medusa]
pulsa o coração daquela mulher à escuta dos últimos espasmos vitais espelhados pelos olhos daquele pássaro fatalmente ferido. o epitáfio inundado – alvor cénico de tensão amnésica, consumando-se a recondução da esfera impermeável com os seus espinhos dançantes – a seara negra. súbita bifurcação e, justifica-se a subversão da justiça térrea, ornamentada com espectros fluidos de crianças pálidas com a pele descosida ou o crânio quebrado – é daí, desse portal entre a escuridão e a luz cabalmente aberto, que se experimenta o livre arbítrio da furtiva e solta contaminação: o suco híbrido de sangue e linfa de mágoa não resolvida – escala o ar como serpente; propagam-se ondas oscilatórias do invisível ódio, esse suco amargo desse passado revivido em cada hora pelo exilado na morte, que alimenta paradoxos aromáticos cuja origem é fidedignamente descrita pela ablação do idioma. aquela mulher explode se desviar o olhar; o pássaro morre se a dita mulher fechar os olhos. a morte daquele animal dita em voz alta o manual da regressão apática daquela mulher, que o desenha no desnudo painel de neurónios coligados pelo vagar da matriz afectiva em toda e qualquer reflexão por compaixão de si própria. sofre, aquela mulher, no seu perímetro de angústia e tédio à espera... fecha os olhos; aquele pássaro morre escondido em cima duma fraga. ●
[aviso aos violadores de plantas]
abres à força o botão pomposo da planta, desmantelando-lhe a fechadura vegetal para roubares o saboroso coração verde. assumes-te como tarado torcionário? como confessas este crime, abominável culto? como vives nesta primavera de escombros fetais? melhor é começares a eliminar as provas... limpa bem o pólen da roupa e dos sapatos; o império das plantas homicidas há-de chegar – morrerás de alergia! ●
[sermão aos gafanhotos]
cambaleia trôpego o orador de cabeça levantada [uma agulha de prata espetada no nariz] meneia a túnica de carmim aguado até ao púlpito. «caríssimos irmãos: colonizai este planeta pela desordem, perpetuai a entropia com os frenéticos músculos que aperfeiçoais dia após dia, guinchai até à exaustão... está na altura de impormos a nossa ecléctica música de ranho e voo... meus excelsos irmãos, contemplai com os vossos olhos esbugalhados a cabra da nona estrela, nossa rainha das noites de glória!» limpa emocionado o suor do rosto e triunfante finaliza: «eis que é chegada a nossa hora... ide e venerai sempre a fissura renal da cassiopeia, pois dela vem a nossa luz!» ●
[a mosca]
nevoeiro na banheira, o branco fede. pequena mancha negra em movimento – a mosca. a linha de água convida à rasura dos aspectos. microvisão: ondas médias, a boca do vazio – por enquanto fechada – a mosca aflita... o abdómen mole, a horrível sensação de decomposição a frio, os olhos dúbios perdidos no vapor, a inquietação das asas que a pouco e pouco vão perdendo cinética e sucumbem à moleza da humidade. a mão mergulha verticalmente e ao curvar, provoca um tsunami que aproxima a mosca à margem. ela desperta esperançada, esfrega as patas e prepara-se para escalar a lisa parede branca... mas o desespero calcário aliado à força já diminuta, impedem-na de escalar o obstáculo escorregadio. sete minutos, sete horas – as asas encharcadas, a vida por um fio. entra em cena, de novo, a mão: a maca da salvação. repousa agora a mosca em chão firme, num dos azulejos vermelhos... à medida que se enxuga desenfreia as articulações, olhando aliviada a janela aberta. um pé... mosca enfim morta – já se pode tomar banho. ●
[subsistência]
almas há que padecem de diarreia... assim nos alimentamos. errantes grânulos suspensos, os restos de outrém tão nossos. dancemos submersos no tanque... palavras abafadas na erupção de bolhas de dióxido de carbono, enquanto se faz a digestão do plâncton áureo amealhado pelo filtro de roxa fibra em alto nível de irritabilidade. brilham as pérolas de saliva, lá longe onde vive o sonho em torno dos olhos mortos da catedral. os livros abandonam as bibliotecas, cospem o mofo amargo dos pulmões de celulose... passeiam cegos pelas antigas ruas sob a ditadura do dicionário dos pecados. ●
[a tempestade]
o palco manchado de talco, esperma em pó de fantasmas. mandíbulas gigantes secamente arroxeadas exasperam palpitando como se morrendo à deriva – pesarosa boca sobrelotada de relâmpagos com cores psicadélicas sortidas. «eu nasci nas geladas montanhas, onde as árvores andam sempre prenhas e os animais dançam todos juntos à meia-noite durante cinco minutos na clareira azul, doce calvície esponjosa do globo.» trabalham os dentes atormentando a LÍNGUA-CARAVELA; exalta-se a SALIVA-MAR enchente; reactivados pela mastigação os relâmpagos propagam-se a estalejar e condensam-se numa rendilhada placenta luminosa, formando um esterno cárneo no palato. a tempestade de halogéneos singra em orgia com piruetas e cambalhotas. ●
[o papa-letras]
impressões sobre o papa-letras, espécie em risco de extinção: INVERTEBRADO dissecação não necessária, perigo de contágio indutor de mutação genética; TROMBA-ASPIRADOR nutre-se de ditongos, frases e até textos inteiros, vomita a última refeição quando importunado e engasga-se com excertos textuais por causa das espinhas axiomáticas e gorduras semânticas – estranho bibliófago; VENTOSAS NAS EXTREMIDADES DOS DEDOS prende-se facilmente às páginas, gesticula imponente como técnica de defesa. últimas impressões: i. perfuma-se com o mijo da filosofia; ii. ataca com setas verbais envenenadas; iii. asmático quando exposto à gíria. ●
[era dos clones]
venho de ver os órgãos duplicados das vacas na era do plástico consumível... ainda latejam. brancas árvores medicadas servem de suporte aos clones que se enxugam, trabalhando as unhas contra o prurido ocasionado por crostas caramelizadas pelo líquido amniótico. sei-me no ecrã a substituir o ventre da água carmim. ainda se ouve o choro do míssil nas vísceras das casas. morreram as pombas na praça sentimental da cidade – avião cerebral, vista panorâmica: quotidiano longínquo montado a partir de ossos esculpidos com um estilhaço de vidro parido pelo ânus. a náusea, vício dos vícios, pão ázimo de cada dia, rodopio cíclico instintivo, o zumbido da retórica deveras característico – gritam os automóveis estrada fora. viaja o símio refastelado na câmara de ressonância. desunham-se os macacos à espera. ●
[o beijo da febre]
rufos de tambores nas entranhas. feira dos calafrios – a folha de zinco vibra, geme... o fantovelocípede ensaia a pose das tormentas. desidratado sofre o humano-tâmara-d’ouro, imobilizado pelo caruncho da deserção afectiva. visco ósseo a correr doido na veia, graciosa subida tricotando o mudo som das vísceras. e depois desce o ser brumoso em contínua apneia, suor axadrezado coroando o sangue ausente no momento desflorado a pique – a invasão das circunvoluções do cérebro em hiper-desenvolvimento de expansão vértebra a vértebra, até formar o casulo do egotismo. sanguíneos pássaros esbranquiçados picotam a cortina esverdeada do nojo claustrofóbico da imagem trabalhada em plástico. no dia seguinte desabrocham os lábios [flores de pus] e todos os campos férteis da pele. ●
[tardiamente]
tarde saberás que o vento emprenha e amachuca;
a mudez consome o espanto, reduz-se a fermento. não dás conta, és estaca muscular girando irregular, jorrando indefesa. os vendilhões ressonam nas tuas células... tu eunuco, macadamizado ao passar o desfile dos dragões degenerados vestidos de luto. mede a temperatura do soro luminoso com os dedos; quando conseguires fintar os espigões da auto-estrada vendo as costas do avesso, tapa os olhos e espera... alguém cairá! tão próprio o pensar dos mortos friamente espraiado àquele que tosse... e este guarda os ovos de tal melindrosa casca com o muco de paladar deveras intenso que reduz o faiscar das papilas a um desalinhamento geral dos lençóis transparentes, periféricos aos músculos rasos, secretos constituintes dos maxilares róseos, brotando contíguos a todas as regiões do corpo. assinala o lodo iludindo a pulsação... tarde triunfarás para além da pele, e nunca o saberás. ●
[auto da cobrição dos faunos]
e entrando no bosque onde crescem os falos luminosos, arrisca-se a não se perceber a metafísica da própria luz que envolve o sexo, os sexos. o frenesim dos faunos florescidos pelos gestos, ao colher a pérola de orvalho em cada falo curvado, com radiação rubra propagada em direcção ao foco inatingível. o movimento da prosternação imaculada como festejo da agnosia – estranha agonia a banhar a solidão entrecortada das vísceras. e entrando no bosque onde o pólen explode, explicando a primavera das trevas a encenar repetidamente em cada caverna de carne, renasce a fome dos úteros cronometrados. desejar a luz? hesitar em tocá-la? fugir num espaço estrito entre colunas de fotões? a cópula fazendo uso do corno da amargura... dissipa-se a energia no espelho tridimensional e os faunos amam-se até ao limite, até lhes surgirem húmus entre os dedos. ●
[poemorragia]
ancoro estrebuchando com asma assintomática...
vivo nas arestas do desejo corpóreo, procuro o discreto sulco de prata na pele do pescoço feminino, a minúscula nascente do suor perfumado que quando bebido eleva todos os sentidos. delineio no busto da noite as pétalas metálicas vibráteis as escamas da branca alma do réptil com um inextinguível cometa ao invés da cauda vulgar. sussuram-me criaturas mágicas sem rosto que habitam o vale das glândulas embruxadas... contam-me peripécias mirabolantes em contraponto dão-me a conhecer o itinerário da rosa magoada. peregrino do corpo no corpo, beijo as flores de sais... lábios do ócio a implodirem no reverso do relógio enferrujado que envelhece incrustado no pináculo biológico... sangro mordendo oxigénio encurralado entre os muros de carne. ●
[moeda]
vives na cara ou na coroa? mentes? o que compras? sentes? divides a broa? esticas a língua? sabe-te a níquel o alimento? donde sobrevém esse bebedouro que te envenena o pensamento? qual rico, és besouro... reluzes sorrindo teu escudo; mas pra que espada? vale a pena protegeres o couro? trinta moedas, não vales nada! ●
[os expatriados]
aproximas-te tensa, com o vestido a arder lentamente... tens uma pequena fénix tatuada no peito. a dor que espelhas nos dedos fragiliza-me os olhos, rebenta-me o açude da infância num sobressalto. sei que escondeste as algemas no coração da montanha maquilhada com violetas-de-cheiro. entretanto, vejo-te azul no espaço adocicado pela mesma dor que amamentas com remorso. choram os golfinhos no mar cristalizado que nos aparta. planas no ar que respiro mais limpo... apareces-me transparente, um aquário onde abundam algas cinzentas e girinos de metal. declinas o rosto e com os lábios roxos arrancas-me os músculos do outono mágico que chama «mãe» à chuva. socorre-me destas águas corrosivas... ajuda-me a construir uma ponte de ossos perfumados. quero beber o vapor dos teus seios em soluço, vendar-te os olhos celulares da pele dos teus dedos ainda a contorcerem-se de dor... ser cúmplice do assassinato dos habitantes de tal pranto, colorir o novo tempo do aquário, ver florir a água. somos estrangeiros no país do amor. ●
[autópsia]
entregaram a carta às hienas e elas brincaram... cheiraram-lhes a tinta e depois de bocarra em bocarra arrancaram-lhe a vida, rasgaram o sentimento humano e espalharam os fragmentos, parágrafos interrompidos pela savana fora, soltando gargalhadas cínicas. «... preciso de te ouvir respirar para controlar a minha pulsação...» – um elefante pisou. «... o pão sabe-me ao teu silêncio, o vinho à morte, a água à esperança de tragar de novo a tua saliva...» – na boca dum antílope. «... sempre que entro em casa e bato a porta, tenho a sensação de ouvir a tua voz. abro-a de novo...» – sobre as fezes duma zebra. «... eternamente tua...» – em movimento helicoidal, rumo ao céu: e ter na mente... ●
[condiCão]
sopra só o doido na vala de aparato escabroso, para onde são atirados os cães mortos pelo frio... maneja o fole dos milhentos efeitos de surdina. sopra a razão este doido a dois perdido; faz tempo que o clã se desagregou – pandeiretas por toda a parte. rafeiro imponente pois impotente se manifesta, porém criativo mas demarcado pela banda electromagnética... fareja a rua aos ziguezagues. digno de desvanecer este sopro... e calar-se de uma vez por todas dentro da caixa de argamassa esbranquiçada, inumada na multidão de vírus que anseiam linfa calcária e enxofre ácido ainda no curso desajeitado das vénulas arroxeadas. sopra doido o rafeiro errante... os pulmões são a sua casa e o mundo a sua sanita. ●
[a casa do diabo]
roda-viva nos subúrbios da cama em cena: como maestro a cavalgar no abdómen da partitura, sorri o diabo de três narinas... os malmequeres tingiram os lençóis, é manhã... sai sorrateiro cheirando o vinho queimado, ouvindo os pássaros a engolirem o enjoo do sol que ensonado reafirma a muralha do verão. desfila o grão de pólen, gira espinhoso e sangra no último pesadelo do portador das chagas. três gerações de carneiros selvagens, enigma triangular inchando no mudo monólogo da refeição nocturna. curvilínea corte... deslizar por entre os poros; amar as vestes por beijarem o corpo contornando as estrelas; convocar a poeira dos ossos para alimentar a canção nascida do desespero dum grito diurno que coroa o heroísmo crucificando o coração azul da vila taciturna... queimar o vinho já negro, pois a cólera do mal a parir reconforta os amantes e destrói as térmites que pouco a pouco esburacam as estrelas. a rampa de pele a subir, tentando adivinhar o peso dos insectos que desfolham as páginas do vapor mordente de água quente, água solar para beber enquanto se remói a angústia lunar... regressa velho o mestre assexuado, expira de arrogância e o coração azul ilumina as mãos calejadas que encurralam o anémico grão de pólen sagrado. amar o que de bom se contorce perdendo o tom; queimar uma vez mais a partitura de pele... dura amnésia ao beber na nascente que une os corpos – a casa do diabo é a lagoa onde morrem as estrelas. ●
[a dança do pó]
desta vez comerás a erva amarga do deserto e beberás areia em vez de água. segue o povo que de novo suga a vida do ovo... esfomeado povo que liberta a gigantesca aranha: mãos sobre mãos entre mãos soltas mãos balançantes – a taça de lenho róseo que recebe a incandescente bolsa de lágrimas em geleia. como abrir os ouvidos de tal caótica assembleia de guizos em cega festa? explicar a placenta bifurcada do exílio? as vértebras do discurso encontram-se dispersas no vácuo aquoso da infância mal dormida... tarde, ter como escasso o tempo de amaciar as palavras móveis sob a nebulosa de cálcio faiscante. este é o dia, a mentira grande, o sábado... idade de comer sabão e desenhar ausências – sombras tatuadas no pátio. corrói-te à tarde – ler o sorriso do velho enjaulado, preso aos seus rebentos de carne. ●
[já cá o chá do chão]
chá de laranja: brincar às fogueiras... gripe clandestina espelhada na estrada molhada. hipótese fendida nos lábios da chávena, os brônquios dinamitados. trânsito lento de micróbios no fumo, tédio bebido na companhia dos espectros caramelizados. expectoração – o linho materno manchado, esterno comburente, centelha central do peito vulcanizado. golo a golo... o fundo orgânico resguardado aqui da chuva, na corda bamba do amarelo ocre – antevisão do regresso ao morder vocal; blocos de ar azul flutuando ainda no gás. incêndio às cinco – a conta, por favor. ●
[álbum]
de sorte mentindo se arranca a folhagem do favo. mel iluminado no úbere onde coágulos de leite suprimem a oralidade do herói que se anula de fotografia em fotografia. engasgo trôpego... uma bala de osso deflagra no esófago de vez em vez metálico: túnel onde passeia pesado o músculo inerte do falsificador – fala e fica, fala sempre ficando, falsificando a dor. assim é escutada a sequência volátil das pegadas transcritas a seco, seguindo com os olhos tresloucados a viatura que se vê derretida por ondas de sucção musical em escala endiabrada. assim sangrando, quedo e ileso; o menino feminino no balouço farpado. ●
[ir mãos]
mãos incansáveis mãos... mãos mesmo mãos. ó mãos cor-de-rosa dai testemunhos do delírio, pois daí partirão almas fogosas a corromperem-se silenciosas. um lírio plantado no queixo... ajudas? a Judas não não deixo mãos soltas por indomável comichão; triste canção da chuva negra táctil regra – a ira a irem mãos... irmãos? ó mãos de Caim podre jasmim, falsa confissão – jamais partiria e as mãos voando longe do coração. por grata bizarria não deixo mãos soltas não deixo não. ●
[saída] saída – linearmente a semente desabrocha sempre corroendo, tornando-se cúmplice da hera de mista maldade. «eis a duradoura geração da altiva corola de cor caminhante» – serve-se frio o clarão do que murcha, honra-se o túnel de conjugação entre as bocas. livres soluços celebram a celulose atípica... espiral turbulenta: o corredor giratório [ambiente com gás a dilatar todas as formas] morada do anjo de metal que benze o artefacto ao se dar conta do quão perto do vértice estão os cavalos das trevas que galopam o estame – a lágrima virginal pende esperando o afago do sol. e no ângulo obtuso grãos de pólen indicam a saída. |
