[Universitária Editora, 2004]
ANOTAÇÕES DO EXORCISTA DESEMPREGADO
“Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam”
António Maria Lisboa o luar sangra copioso enquanto uma ninfa dá à luz pudibunda. a pele derrete num sopro desfocado coleccionando fungos enjoados da acrílica sede. encostado ao parapeito aprecio a fúlgida maresia de elementos. embebo um casulo no álcool e coloco-o no crisol em chama para reforçar a sombra da alvorada de cordel. estrangeiro em casa, a ruína repetida em cada palavra – de que matéria são as nódoas na túnica luminosa? sumo de tulipas negras ou sangue pisado? o problema é despertar a sombra morta do que já é morto.
saboreio o doce verso da terra em cada circuito oval circunscrito, no álamo em que sobeja a dor póstuma dos gestos. saboreio o que de sabor fede – a injusta verdade dos gomos insubmissos – arranco o eco aprisionado e do soluço de cristal a voz retrai para que no êxtase sincrónico dual, um outro ser puro e imaterial surja. perante a abscôndita sinceridade carbonizada rompi com o diabo das miudezas vis e espumei clorofórmio ensandecendo. vivo a loucura febril das tardes de escrutínio – as sarças ardem solenemente. o vidro ameaça a veia cardeal e cabeças negam propósitos. deste terreno apenas se herda o húmus e a névoa inevitável do supérfluo. este novo antro este apetite elíptico ou estrada relançada ou abismo ressentido inspira expira e morre ciclicamente – recicla a terapia da fala mergulho no mar marmóreo onde ressurge a fisionomia. o lodo verde apodera-se da pele. bebo as cores dos olhos que fugidios embatem nos meus. espremo um limão verde na fechadura do acaso. como expressar o desprezo encurralado em cada cópula? lento visco a escorrer entre rostos que num tempo a tempo tocam-se solitários – a espera reanima o falso vagar dos corpos. teias de seda cegam e o murmúrio aquoso silencia os gestos. os ecos afunilam-se. recebi notícias da outra margem pelo mensageiro negro e agora despeço-me atirando asfódelos até ajaezar o ínvio nado-morto... adeus. este novo ser esta estátua de lama viva ou agitação obscura ou decalque mordido inspira expira e exibe-se doente – vomita o bolor que o persegue à noite irrompem apotegmas do algodão translúcido que limpa graciosamente o coração de vidro. preparo a mortalha para o almoço. para a entrada indigestas reflexões metafísicas abrem o apetite. o pulso frágil repousa na mesa onde o pão desabrocha para as bocas intimamente rosadas. súbita fome verbal – mastiga-se o pão, mastiga-se a opinião – à mesa curam-se feridas corrigem-se posturas num vislumbre ósseo. as frases desirmanadas do suco medular são a confissão nas entrelinhas e os choros em argola, encadeados nas lacunas do diálogo arquitectado sílaba a sílaba, recriam uma memória colectiva. não repouso nessa neblina acoruchada. consumo poeiras obscuras dum silêncio reduzido à orla imediata e, se da mão envelhecida se celebrar a deiscência dos esporos com o fúnebre desalento da memória alegre das coisas, sairei ileso ao desabar o solo carcomido. abro os olhos e entro na tertúlia imagística da sala vazia. os naipes arrevessados ao chão depois da notícia, o cego jejum da solicitude mesquinha – longe, neste lugar, procuro repouso. uma vez mais a formiga verteu ácido sobre as pétalas manchando com luz negra tudo à sua volta a pronúncia secular da cinza retrai o que próximo se acende quando denotada a alígera fecundidade da boca que, morta de desespero, cala-se enclausurando segredos dum calcário ardente. uma vez mais outra pomba morreu em pleno voo quando um poeta cardíaco selou o poema caindo sobre ele não digo do palácio de cristal renegado no sonho enquanto sopro diário. não digo dos fungos que sós assombram qualquer regresso nos pedaços de jornais velhos. digo dos dedos arqueados, digo do vibrante arco metálico que regressa do exílio. abro os braços à agitação dos ventos do sul. persigo os pássaros que outrora desenhei nas noites em que a insónia me ensinou a dormir de olhos abertos.
tento emitir a argola envolvente perante a prontidão canora do vampiro enraizado no sangue que teme a volúpia exasperante das cartas a escrever. reconheço a lua na noite aquática, rezo ajoelhado perante a ulva macia de prata e sigo com o olhar um peixe que foge a trote; os dedos negros de paixão, unidos em oração, pedindo a anulação de imagens no espelho universal. enganado pela viuvez da imagem, assisto cabisbaixo ao simulacro da vulva póstuma. neste antro nocturno, aproxima-se de mim o tosco anão verde que tosse agoniado por ter folhas secas caídas do castanheiro senil entranhadas nas cavidades respiratórias, e, jocoso e sério, segreda-me ao ouvido: «engole o botão de rosa». a parábola repousa na corola da flor que madruga adoçando o ódio não mais do que isto: a zaragatoa aperta, o inóspito campo é povoado por flores-de-lis, a ronda precoce entoa os caprichos e a madeixa de cabelo é moeda entre inimigos. não mais do que isto. rodo a maçaneta e já não nego o tesouro mas a sua forma. ninguém dissimula a logística entranhada e os glóbulos jamais apagarão as éclogas consolidadas no ínfimo recolher de espasmos coniventes até à estância libidinosa que o coração engrandecido pressente a todo o momento. que memória devo guardar dos dias sem semântica? a parábola como punhal exposto no regaço inquieto – crianças adormecem no quarto que fumega a relíquia sob a plena colina, o áspero colar indemne no colo, o labor floral nos braços... remexendo os sais me devolvo. o desenlace do argumento forjado a um passo do fulgurado abraço entre iluminados e dançando à chuva o sabre do inócuo ressentir golpeia o grito náutico – eis o espaço mínimo entre flocos para blocos que contrariam os focos. daquela tarde lembro-me da caruma morena do verão, do cheiro a hortelã que benze os lábios. nesta tarde resta-me a sede... o unicórnio abandonou o vale dos espelhos e, agora, corre a morte no rio. de novo a corda ensebada, o visco arrasta-se nas artérias do afecto. a distância contida no aperto propicia a revolta da saliva metafórica que faz com que as bocas soletrem mágoas e esqueçam o beijo, magno artifício do prazer. abro a janela e emerge uma linha curva no repentino solo. escavo derrapando no escárnio e vislumbro a raiz no brusco clarão que incide na aguarela. voo picado sono moroso – drena-se o paulatino veneno os lábios não estão completos ao dizerem a palavra, mas o simples ruir das margens completam o sentido infectado do corpo. três versos três facas ainda não morreste? – alguém será teu provisório inferno ●
“As nuvens explodem. Estamos no Signo da
Cascata. Porque as mães sabem tudo. Aguardam sentadas o vinho dos mortos.” Fernando Grade “Mãe: quem me dera dormir tanto que voltasse a nascer...” Jorge Fragoso neutrões assumem o comando da matéria
cabeças vazias clamam o nihil perdidas cabeças na pele farrapo de células os apelidos da infância humilham aqueles que deram braçadas no mar de saturno facas estelares atravessam os pulmões que beberam o ar e a geografia abissal a repetir uma e outra vez nos pesadelos inicia-se a combustão os átomos dançam em torno do fogo entra e sai da câmara o que és? soletra «frio» o sono longe e certa a faca do dia sintoniza a cara de luz na avalanche mental ouve o grito da imagem esfaqueia a sombra do que se diz frágil mas intocável esfregam-se mãos na parede pintada com o sangue dos vermes intermitentes desenhos a lápis fino nos olhos apontados ao sol a sujidade do mundo é vertiginosa a beleza é subjugada pela raiva ó mundo dos acidentes hormonais bombardeado com motorizadas cadentes vindas da cordilheira de meteoros apartai de mim o jarro de porcelana que parti e colei peça a peça com a cola dos lábios que trinquei nas absurdas noites da paixão adolescente
¿como esquecer as roupas sujas de lama e verdume de giestas? o fim em cada luar areia mastigada com desdém e antipatia egocêntrica [o mundo selvagem] cai a música o açúcar da doença rapta o sorriso hipócrita entre pensamentos planetários os dedos já navalhas ferem as faces do rosto mãe a orquídea está cansada do orgulho que lhe corre na seiva mãe expurga-me o veneno
a obsessão visionária é negritude discursiva
¿como esquecer o coração da viagem? e se fosse possível prever a órbita das auréolas voadoras? e se depositássemos as veias no antro estomacal do mundo? e se largássemos as mágoas que causam anemia? e se já não houvessem os espelhos da alegoria social? e se prevalecesse a intercepção desmesurada dos olhos onzeneiros que sedentos esperam o desabamento do tecto? e se a negra cor do pano alimentada de medo deixasse de ser a cor do sono comum? mãe vi Cassandra desolada subindo a rua com a túnica rasgada os pulsos rodando brancos os dedos tacteando francos o ar que já não respira os olhos repetindo o poço de sangue que vira o rosto esculpido pelo ódio dedicado à besta que subiu ao pódio – Cassandra arrasta seus pés seguindo o trilho do sol pela última vez mãe vi Orestes procurando a víbora viperina e nem Pílades lhe esgueira a sina nem Ifigénia o reconhece agora cada facada em sua mãe é hora que passa recordando seu pai com estima cega – o coração trai o materno colo que de carne o adornou – por Hermíone Orestes Pirro matou e Cassandra soltou um sorriso maquiavélico – Orestes carrega nas veias o amor bélico o andarilho humanóide festeja ensonado a sumarenta denúncia chove e há quem se molhe por dentro parafusos de cobre enferrujam na carne mole do sentimento que veste os órgãos suados de existência chuva contrária chove e há quem arda por fora mãe o bicho-da-seda encontra-se rodeado de agulhas contorce-se de dores quer sair e sairá mãe tenho dores por todo o corpo monto o palco forro o cenário com a pele o mundo entra-me pelos poros declaro único o lugar [o cérebro da cidade dos homens] único é o primeiríssimo lugar – com todas as ossadas encaixadas – no qual assisto à dança dos mártires do novo tempo estar aqui mergulhado no muco lendo o vermelho da imagem o sangue sempre o sangue digo sangue escorre sangue e ele dentro anima o corpo explodindo nas veias o sangue estar aqui à espera que as vozes presas na minha cabeça se soltem desobrigadas para que possa escutar a mirabolante fábula e desenhar os esquemas nas paredes amarelecidas pelo líquido amniótico dentro quente me sinto as duas metades roçam-se com desejo dentro possesso articulo os selos ósseos da memória fora arde-me o umbigo a musa esbofeteia o ar acima da cabeça fora solta-se-me o cavalo de bronze que amarga a língua presa ao meio mãe
quero adormecer de novo no teu ventre ●
TOOLBOX
ESPELHO
da superfície plana a imagem plena
eu e outrém frente a frente paralelos ao vazio quedamos atentos SANGUE ângulos advertem perigos geométricos vermelho o sangue mata CORAÇÃO cofre de mágoas guardado por espinhos cofre de pólen guardado por ossos BOCA a caverna húmida ecoa – a boca – adúltera encarcera o segredo libertando-o MÃOS iluminam o que tocam movidas por escura razão – soldados nus dançam atrevidos PELE movimento limitado ao círculo delineado a tarde de horas vestida – a sombra mancha a pele CABELO lianas descem a colina sinuosa almejam envolver todo o corpo para que do casulo um novo ser nasça OLHOS janelas móveis para o mundo espelhos irredutíveis da realidade mutável esferas cristalinas incrustadas no altar do corpo OLFACTO o aroma chama – tão secreto seduzir – à porta do palácio polpudo é nosso dever sucumbir aos desígnios egrégios de tão humilde condição OSSOS articulam-se comedidos dobrando a carne a pele jamais roçam o perímetro frágil do afecto – o esqueleto insinua bifurcações da vacuidade ÓRGÃOS GENITAIS Profusamente Ébrio Navega Injecta Sémen Vulva Aberta Gritando Inspira Natividade Abjecta OUVIDO auscultando o movimento intrínseco ao vulto de terra no laboratório isolado de brancas paredes mortas o ouvido olvida a pulsação primordial que une as vísceras do ser às entranhas da crosta terrestre ROSTO ninguém adivinha o rosto com o olhar por mais profundo que seja ninguém o desenha de modo fidedigno com seu lápis mente ou deslumbramento sem que lhe imponha traços de outros rostos ninguém conhece o verdadeiro rosto e se alguém julgar conhecê-lo torna-se ninguém ●
FLORILÉGIO DO SILÊNCIO OBLÍQUO
RECINTO MORTUÁRIO
acelero a cor do pinho na alvorada que se incendeia escrevo como obsessão última arauto vibro penso e viro o leme no que é pleno mas inconcebível – a agulha sobrevoa a pele – defendo a farsa das terminações nervosas como preâmbulo declamado pelo gago a apedrejar enxergo a linfa no gume procurando o gato persa fictício e sacudindo a poeira de alucinações adopto o léxico do corvo sei que criaram a verdade a partir da rosa murcha e agora as bocas esfomeadas comungam-na em círculo – a lampreia não sabe o nome de cada um dos seus filhos – não me cabe corrigir o silêncio sabendo que o peixe foi criado para o dislate e que o agrilhoado decesso singra no encontro dissonante em que visto um rosto de prata a tarde torna-se crespa com o glutinoso silêncio
festejo a solidão comungando rochas brancas e amêndoas amargas enquanto a mulher de água doce caminha sobre o mar observo o meu corpo aliás estudo o corpo em uníssono – será o corpo a herança a profanar no pálido recinto mortuário? – o corpo fez-se a partir do silêncio que ainda orvalha na pele
tão triste a água que sobra quando a força do beijo ósseo se torna agreste quem morre numa boca em corpo se transforma vive-se mastigando o pão da culpa vive-se da lenta morte que aglutina grãos de pólen sortidos a gota de mel alastra-se pesarosa no copo de cristal e só é mancha quando esfregada na pele daquele que a repudia e enxovalha quando decalca o pudor salino que bebeu dos seios marmóreos das estátuas há muito esquecidas na ilha longínqua que se tornou ferida negra do oceano imenso CIO amancebam-se os bígamos pois é etéreo o caminho da paixão roxa – irá o corpo enlanguescer nas núpcias como logro? amante ou locatário?
eis a dúvida da nova praia – a cama enluarada é o leito fúnebre de Platão o maganão de olhos esverdeados solta a fúria na espiral dum beijo lava-se no lago sagrado agitando as águas depois do banho reduz-se a um cadáver manchado de néon que conserva no peito um ninho de aves de sangue frio o edifício de açúcar erigido em tempos entre as árvores de betão foi demolido e resta agora o regozijo pesaroso aquando a despedida das aves migratórias – o cadáver acena com sua mão construída de musgo
e líquen – adeus aves perfumadas DUAS POMBAS VADIAS “Pero tú vendrás con la lengua quemada por la lluvia de sal.” Federico García Lorca vislumbro o suicídio ao longo das tuas pernas de te tocar falhei ao fingir falecer a silhueta púbere sobrevoa o que me ataca por detrás espera quero que saibas que não perco o rasto do que voa rente ao chão vem pousar nesta noite escura amanhã virá a mãe do que se move liberta-te desta casa os olhos agarram-se ao chão liberta-me também pois quero acordar no aquário teu acalma-te quebra a cabeça de água o outro mundo é apenas um outro dia que não chega a raiar ¿quantas vezes amarrados à cama resguardada do frio criador? não consigo ver nada lá fora a erguer-se calvo e serenamente cruel neste amontoado de lençóis impregnados de saliva éramos pequenos deuses rasgados devagar quando selvagens na cama para terminarmos mortos no chão a síndrome das algemas de vidro ataca de novo tenho-te nas veias num espaço de luz penetras em concentração entras radiante a vida como rocha o amor tão devasso e um fio de chuva corre nas palavras perdi-me ao perder-te em mim nas minhas coisas poucas amarguradas de forma tal que o singelo movimento é a propaganda horrenda na rua o lado agoirento emaranha as atrocidades duas pombas vadias apaziguadas pela enfadonha submissão às regras: sem lábios carnudos para beijar sem poder de escolha entre aberrações de algo que ainda não se conhece distanciados por um interstício dois corpos suados – a nossa juventude estreitava-se na conversação imaginária – tu dormias
e eu contemplava a sorumbática descida do milhafre ameaçando a sombra do barro feito homem o que de mim recolho pelo olhar retido é morgue absorta do abismo detido persistíamos na súplica de chegar a qualquer lado ajoelhámo-nos gritámos dissemos que um dia mataríamos a lua e afundávamo-nos cada vez mais na areia movediça aflige-me o cansaço de cansaço a maçã acidula torna-se azeda como denúncia poética dos que foram condenados à vida fim em cada qual exortação insatisfeita do animal foste-te embora sei que levaste lágrimas escondidas nos punhos cerrados aqui comigo ninguém dispo o nada visto o nada troco o nada acontecido pelo nada sentido mergulho no rio – uma urna flutua ao meu lado irregular esta navalha do céu oceânico ataca-me de novo um mar de vidro um anjo atravessa a nado as minhas costas a navalha foi cravada fundo FALSO FOGO chego tarde e trago falso fogo nos lábios falaram-me da maçã sem corpo e inocentemente esperei a mãe dos ovários de ouro para lhe dizer que já não é bem-vinda neste mundo refugio-me no umbigo da laranja que pousa para a luz residual dragões de fogo bailam silenciosos despertando subtilmente a dor – parte dum corpo a partir – dor que se arrasta dormente na carne ainda viva o silêncio que a doa é ruído e o ser a roer-se por dentro chega a temer o pior desejando incrédulo o esvaziado sentir da dor – parte dum corpo a partir
FILHOS DA AVE TRAÍDA não me lembro mas é como se me lembrasse um enorme chorão é o marco do subterfúgio lilás sento-me na escadaria e estalo os ossos dos dedos estabelecendo uma ordem de pequenos progressos
a anotar ao longo da insónia numa pauta desenhada no peito suado – a maresia lunar anima soluços
de terra e há um volver astuto que resvala em toda a armação orgânica – ninguém cala a cálida brisa que ostenta a crise absurda das moléculas a sombra áspera é território a perder de vista onde se travam as mais ridículas batalhas como artifício de decoro a coroar o corpo nascido da furna humidamente quente não me lembro mas é como se me lembrasse junto a mim a segurança soturna de goivos encurralados na jarra de vidro baço os dias amassados no tabuleiro para fabrico de pão que provoca a amnésia parcial garantindo a sobrevivência num calculado mundo insalubre ¿terão frio as estátuas erguidas pelos filhos da ave traída que mastigam a neve e o gelo quando têm sede? – nenhuma sede é saciada ter-se sede de vida é ter-se sede de morte – e sempre que a fome ataca rasgam a carne uns aos outros carne de cor roubada a uma outra carne ¿de que nos queixamos afinal? palmilhando a estrada do silêncio a voz sobrevive atravessando a nebulosa – ouve-se um oco eco o comedido fonema – neste mundo tudo causa gangrena e há quem dê por dar o poema
BOCA DE ONTEM e no princípio era o nada que ainda hoje é
de tanto dividir o dia chego a ver mutilado o sonho sorvo a luz do estranho astro que povoa sonâmbulo o espaço que por não ser meu pertence-me e as pegadas lembram-me coalhos de lágrimas soros aflitos sobre as palavras precipitadas espelho: olhos olham o olhar de outros olhos eu feito tu sou eu sem o ser os ossos rasgam a seda dos dias e a boca de ontem exala um olor a morte LE DERNIER TRAIN
«La terre regarde la terre, tout le monde regarde tout le monde, personne n’y comprend rien.» Jacques Prévert
il pleut le sang pleure le plasma diminue ¿qui nous regarde? les étrangers de la nuit roulent la règle est simple: ne jamais se rendre à l’espace pétrifiant à la gare mes amis à la gare on mange les ossements des autres on ferme les yeux en parlant la folie est morte à la maison les enfants sont pâles ils ne connaissent pas la vraie chanson de ce monde ni le mot fatal à la gare mes amis à la gare on part à la recherche du foie noirci de la lune elles ne me disent rien
ces fleurs découvertes à la lumière étranglée elles ne me disent rien ces feuilles sèches de l’arbre brûlé ils ne me disent rien ces appendices démasqués des multiples insectes morts par le nectar d’or on n’aperçoit aucun vêtement de la mort qui danse autour de nous mais tout est dit: il n’y a rien à dire l´eau mortelle sur ce plastique ridicule ¿où être pour réussir à attraper l’étoile obscure? l’illusion à connaître sans effort le délicieux pain corrompu par syllabes de l’heureuse marionnette dansante à la gare mes amis à la gare ¿ne faut-il pas nous sauver? les fluides d’un cristal fragile qui souffre dans toute la constellation descendent en à notre rêve le plus grand rêve écho de la vie derrière des conflits fugaces qui troublent la dernière phrase avant la décadence organique du corps la soirée jaunie ressuscitera le père de la folie à l'égard du séjour que brille euphémiquement les images brûlent en passant des peaux ressemblent à l´argile frétillante desséchée sur le métal malade à la gare mes amis à la gare protégez vos têtes voici le poison atrocement inéluctable l’image définitivement déflorée avec la poussière de chaque jour seul sur la nuit nue métalliquement ouverte en pleurant la ville s’asphyxie l’aigre air ressemble à l’antique refoulement fermé dans le crâne solide par l’orgueil ¿qu’est-ce qu’on fait ici? à la gare mes amis à la gare allons-y allons-y A CIDADE DO ÓDIO tubarão entre tubarões no útero da mãe irmão entre irmãos o canibalismo uterino é a prova o vencedor mergulhará para fora e tudo se desenrola sem ódio explícito o ódio jamais habitou o útero habita a cidade autêntico baile de gadanhas o turbilhão em cada um e na multidão ninguém sai ileso deste chão estrepitoso cá fora perde-se o que veio de dentro outrora imaculado o silêncio da legítima ignorância uma outra morte mas que nada decepa pouco se sabe sobre o que realmente nos magoa EXÍLIO “A process in the eye forwarns The bones of blindness; and the womb Drives in a death as life leaks out.” Dylan Thomas a árvore falou com suas raízes de cheiro e no ano seguinte secou – eu sou onde estou nada a antever por agora um vento novo vagueia de hora em hora as mãos enterram-se no cabelo macio adormecem calejadas resguardadas do frio a noite é longa – viajo deitado perpassando o paralelepípedo enevoado – não durmo a noite é labareda de gelo ardo acumulando no interior o vurmo a água morta cinge o peixe morto por linhas direitas o desígnio torto 2 DE NOVEMBRO ergue-se uma nova multidão no cemitério amplo a terra cheia de rostos – que rosto limpo paira sobre as cabeças dos vivos? – não passa dum choro
a mais pequena flor orvalha sem o sorriso dos que já viveram – o gelo atacou – outrora houve um coração arrancado a ferros da fornalha
não era um coração era um búzio de carne que quando soprado entoava a música do fraco ouro que a geração dos assassinos perpetuou – os mortos ainda gritam
os sinos pararam de tocar – quem está vivo é já morto se não ouvir o seu próprio coração a terra sabe a amargura de corpos que deixaram de respirar – a terra é sangue – as flores nascem as árvores irrompem do solo crescem engrossam pela força da terra que digere os corpos ¿quando descerá a palma dourada que concentra toda a energia que outrora animou esses corpos agora húmus? à luz da lua fluorescente o cálice de prata colocado no centro da mesa do jardim arrecada gotas de chuva para que na nova manhã dissolvam as lágrimas esféricas solidificadas de espanto nos rostos cadavéricos e eis que nasce o dia em que se celebram os mortos o sol desponta imponente – abre-se a janela para se ver a montanha a arfar com nova cor hoje não se bebe o orvalho de todos os dias hoje e só hoje bebe-se o cálice de lágrimas ORQUESTRA SEM MAESTRO os tambores apelam à secura flagrante do crepúsculo a cítara hipnotiza renunciando ao verso que cheira a terra molhada guitarras eléctricas galgam a montanha e a descer violinos choram irritando a pele a harmónica hostiliza o espaço pisado cautelosamente saxofones esfaqueiam na escuridão – cegos vingam-se robustos o metal refina o sangue extorquindo a ferrugem acumulada na jornada – os gemidos são dissimulados
pelo contrabaixo de voz grave e paternal
por fim o descanso o piano ensina a ordem de todas as coisas e depois o isolamento parcial para auscultar a música do corpo desapegado da fala LÁGRIMAS DE SANGUE transfiguro o rosto com lágrimas de sal tatuadas na mão aperto com força o gargalo de vidro baço um queixo de luz esvai-se acima dum outro rosto reflectido com lágrimas de sangue vivo a escorrer pelas faces abaixo suculentas borboletas planam no espaço livre do sótão ao canto um baú de castanho por abrir desmaiado sob o olhar da roda secular saio fechando a porta e sei que as borboletas se despenharão inanimadas transformando todo o espaço num cemitério de pedaços de cartolina recortados em forma de borboleta e minúsculas peças de madeira há uma continuidade entre o corpo animado de vida e o vácuo doentio que nos transcende tudo se reduz a um sopro limpo uma aragem filosofal que transforma em vida tudo o que toca da realidade frugal uma outra realidade abscôndita o caos recomeça no ponto cardeal minúsculo da afinidade conjugal de todos os corpos adormecidos na paisagem interior do sonho
tornado carne focada de modo abstraído o diafragma invisível trabalha rodeado por músculos que formam o pericarpo dum fruto que incha fuliginoso a luz gera-se no interior e é conduzida por um canal estreito até ao ostíolo – porta selectiva – de lábios morbidamente encarnados quando fechados
mas que abrem diáfanos deixando transparecer o sangue vivo em apoteose quando algo emerge da paisagem externa e navega subtilmente através do fruto transformando-se em nova paisagem interior outra luz a terra dissipa o vapor enamorado pela força dos astros montanhosos a música das esferas anima esculturas vulcânicas e a orquídea respira com dificuldade tem sucessivos ataques de asma perante plantas demoníacas e ervas guerreiras que banidas do reino floral colorido respiram arquejantes e dominadoras as pétalas do lado negro vivem manchadas pelo orvalho contrafeito as pétalas do lado imaculado vivem manchadas por lágrimas de sangue vivo que escorrem lentamente para a terra habitando-a definitivamente o hálito da terra é acre assim como o paladar do sangue na boca que pulsa ainda vivo pelo remorso PÓLEN “Estalaram os botões dos salgueiros. Um bafo húmido-lilás turba e perturba.
A primavera toca mais fundo na loucura, revolve
os vivos e os mortos.
– Todos deitam flor.”
Herberto Helder
não adianta renunciar à dádiva comum
dos anos alinhados pelo espaço húmido que nos dilacera – boca do mundo – a nascente de saliva caldeia as enigmáticas esculturas aprisionadas ¿será o jardim a súmula da fantasia empoeirada? o contrapeso das jornadas manchadas de sangue e suor? visão alucinante quando se espreita a primavera estação na qual plantas desossadas florescem rendidas ao bailado dos insectos que zoam em coro e o jardim é ele próprio um oceano as ondas foram substituídas por corolas que abrem sincronizadas durante o dia uma tarde sob uma outra os olhos comprometem a terra cintilam tremores nas pétalas das açucenas as peónias abafam a papoula solitária mas eis que a hera rasteja cautelosamente serpente vegetal enrolando-se nas peónias sacudindo-as até cuspirem as ninfas envergonhadas para o chão que se mancha dum pó dourado nesta tarde as lágrimas têm cheiro Apolo chora ainda chora desprezando o atento girassol que cresce opulento no solo empanturrado de melancólicos desgostos e sussurra repetidamente o nome duma ninfa da água Apolo chora com um jacinto cor de sangue a roçar-se-lhe no peito – as dedaleiras dançam sarcásticas e acusam Zéfiro uivando com suas inúmeras bocas todas as flores têm tatuadas nas suas pétalas um rosto divino ou humano e cada uma tem o seu sangue em que o plasma é composto pelas lágrimas derramadas de quem ficou e viu partir quem amava tudo é construído pela dor escorregadia (o navio de cristal cavalga na alucinação breve emaranhado de sombras indescritíveis) denunciar o rebento que a todo o instante se altera torna-se manobra da paixão quebradiça a falecer nesta enseada doentia e que ao apagar-se na sombra da mulher que vestiu as pétalas das flores murchas o navio de cristal esquecido entre a relva embacia esse mesmo navio que limpo amplia a flor que repousa no chão flor cruelmente decepada que ainda não partiu deste mundo quando o dia se reduz ao crepúsculo o sol não é mais do que uma ciranda de brasa que anuncia o fim de tudo ENIGMA saia o último clarão do vidro fusco para que vingue a tarântula sensual morta no ventre da página os cômoros são falsos assim como o olhar húmido do estrangeiro em nossa casa de fluídos e cartilagens de parte em parte a dívida pelo comum não há palavra com o equânime valor do gesto mas a semântica dos afectos não acorda os mortos um mastro de cristal condena os espectros ondulam anjos de sal na intempérie pardacenta adoeço à chuva procurando o lírio que outrora cresceu com o meu choro sofrido entro no portal de vapor e de súbito a opção como ameaça: o texto ou o fruto o fruto do texto ou o texto do fruto e depois o enigma: as sílabas dos frutos eleitos cruzadas ao acaso – escapam fantasmas
pelos meatos – ainda não eclodiu o cisne das nuvens AMANHÃ concluída a criogénese gigantescas crianças de gelo apressam-se pelo corredor armadilhado: géiseres
vulcões em erupção chuva ininterrupta de bólides pungentes o corredor é estreito como lâmina do presente com inúmeras portas de mármore róseo trancadas escondidos nas esquinas de marfim os esqueletos de animais extintos surpreendem as crianças e elas gritam e esquivam-se à luz dos olhos de quartzo das estátuas plúmbeas encostadas às paredes do corredor que humedecem
com o sangue das crianças
e estas derretem progressivamente diminuindo de tamanho até se evaporarem por completo outras crianças abrem seus gélidos pulmões à aragem de morte devolvida por sucção da outra margem – negro e trémulo círculo ao fundo do corredor IMPÉRIO DE CAL
estás sentado – lês – uma tulipa nasce-te entre os dedos do pé esquerdo magoada acende-se roxa para ti continuas a ler para não confessares ter visto ergues o império de cal no cérebro desprezando-a e a tulipa explode sabes-te culpado soltas uma pequena gargalhada cruel que engoles ávido sem transparecer qualquer sentimento de culpa ninguém te olha mas é como se estivesses entre a multidão que te julga a cada suspiro não lhe tocaste nem tão pouco a viste sentiste-a entre os dedos do pé esquerdo agora entras na cave dos excessos onde escondes o que mais de visível apresentas na tua conduta experimentas um silêncio corrosivo e tal silêncio é dor morrente sentes fome e só te lembras dum pólen que não provaste tentas adivinhar-lhe o sabor mas nenhuma boca adivinha o paladar do sémen duma flor nessa tua cave tens um frasco onde em menino colocavas as corolas arrancadas às flores com inocência eversiva mas como foste gastando o que angariaste nesses teus verdes anos o frasco encontra-se agora vazio já não regas os teus dias com o pólen da tolerância unânime e vives amedrontado rodeado por paredes de vidro SONOLÊNCIA “Não somos nós quem dorme
não somos nós quem morre
quando as pálpebras pesam
é o sono que morre
é a morte que dorme
quando dormimos nela”
Gastão Cruz
o alvoroço infernal governa a planície do medo e seus herdeiros não degeneram cumprem o ciclo cada um por si neste jardim de espelhos corroídos pelo ácido solto entre breves olhares disparados em ofensiva bípedes esbracejam ritualmente neste salão pavimentado de azulejos negros em que a medida do vazio é a medida do frio enquanto decalque sobre o nada os bípedes dançam orbitam aturdidos em elipse o que os segura é o medo esse líquido que corre nas artérias da ignorância
a viagem
a derradeira viagem inesperada rasga a noite descansar é substituir angústias conquistar velhos castelos em ruínas abandonados na infância o fôlego é maior na solidão a moldura gira em torno das mãos e verte-se o líquido azul sobre a pele – essa manta gelatinosa que se veste à justa – sussurrando a última palavra da frase ossificada à beira dos lábios ¿que afecto o sono prende? fungos guerreiros do sono assemelham-se a constelações e o escárnio cru de seres irreconhecíveis compõe a partitura que acompanha o desmoronamento do corpo até restar apenas lodo que lento se move e respira dissonante sob a égide das quatro paredes do quarto escuro trancado abrindo as mãos o corpo entorpece como paga do que se apaga nos olhos cansados e depois um leve sopro coincide com a brusca queda do tampo ¿que confissão o sono prende? TERRA A TERRA as mãos nuas carregam o trigo dourado e o rosto não é acaso é essência figurada – ardem as vestes mas a feição é implacável e crua o coração soluça na terra vivo sol a sol sobre a cinza respiro e morro em cada suspiro as mãos ardem por dentro mesmo antes de serem mergulhadas no fogo olho a terra sinto o sangue sorvo o elixir de tão invisível condição soletro a palavra «terra» T-E-R-R-A Temendo Esconjuros Ressuscito Raízes Antigas grato labor nos dá o labirinto a colheita negra é nosso orgulho deste chão ergueremos nossa face uma voz sussurra: «recebe o cordeiro de ouro em tua casa cinge-o com a luz da lamparina acesa e quando sentires que é carne à tua imagem carrega-o nos braços até ao altar» um muro branco se adivinha ao se medir metro a metro a estampa do que se vive pisando e quando às mãos descem o pão o vinho mastiga-se solenemente a renúncia à seara à vinha meço com as mãos os frutos do sol caio a queda em flor do que digo sobra-me a tesoura os dedos circundam o umbigo é o tempo é a hora terno é o mando embora ilusório
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PERIGOS GEOMÉTRICOS
OBRA
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CASA
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MEDO
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.........o......n......d.......u.......l.......a CICATRIZ
.........................não .se .ouve .o .coração
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ÁRVORE DOS SOLUÇOS
“If the lost word is lost, if the spent word is spent
If the unheard, unspoken Word is unspoken, unheard; Still is the unspoken word, the Word unheard, The Word without a word, the Word within The world and for the world; And the light shone in darkness and Against the Word the unstilled world still whirled About the centre of the silent Word.” T. S. Eliot “olha em redor dos bosques as veredas destruídas pela explosão devastadora das minas e ouve as vozes límpidas morrerem no poema” Al Berto
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