II - RITOS DE UMBANDA
14 – COMPORTAMENTO DAS ENTIDADES DE UMBANDA
Como salientei em outras oportunidades, não existe uma codificação na Umbanda, logo, também o comportamento das entidades variam de acordo com a cultura do grupo e com a ritualística desenvolvida; entretanto, existem algumas características comportamentais que são comuns na maioria das casas e nos permitem identificar algumas entidades; como exemplo temos:
14.1 - CABOCLOS
São altivos e demonstram força e agilidade; caçadores das florestas; ao incorporarem, assumem várias características ameríndias; tanto dos índios brasileiros, sul-americanos ou norte-americanos; fazem o papel de conselheiros, desobsessores e até curandeiros, ensinando aos adeptos o uso desta ou daquela erva, para este ou aquele fim.
Muitas vezes incorporam de joelhos, mantendo um dos pés a frente, simulando atirar flechas. Assobiam e emitem brados prolongados: Quiooo !
É muito comum adotarem práticas próprias do Xamanismo; tal como o uso do tabaco (como na pajelança) e o uso de Marácas (sons que quebram os miasmas) durante o passe.
14.2 – PRETOS VELHOS
Uma das características interessantes desta entidade é a sua apresentação como velhos de origem africana, ex-escravos, pertencentes as muitas tribos ou nações que vieram para o Brasil, dai encontrarmos muitos deles com nomes tais como: Pai Joaquim Do Congo, D'Angola, Vovó Cambinda e Tia Maria Conga (do Congo); encontramos também, com muita frequência, denominações tais como: Tia Chica D'Aruanda, Vovó Luíza da Bahia e Pai Tome do Cruzeiro.
Essa entidade caracteriza-se pela bondade e resignação com que tratam os adeptos que os procuram para uma consulta; como que fazendo jus ao seu nome (Pretos Velhos); incorporam curvados aparentando pessoas de idade avançada. Falam bastante, a maioria das vezes engrolado; são excelentes conselheiros.
Assentam-se nos tocos de madeira, banquinhos ou no chão; fumam cachimbos ou cigarros de palha; utilizam-se de terços ou guias confeccionados com contas “lágrimas de Nossa Senhora”.
São benevolentes e tratam a todos com amor e carinho, procurando sempre um lenitivo para as aflições dos que os procuram.
14.3 - BAIANOS
Sua origem já está indicada no próprio nome; embora nem todos esses espíritos sejam propriamente baianos, assumem sempre caraterísticas de pessoas alegres e nada comedidas em suas palavras; são ótimos nos trabalhos de desobsessão, de cura e de justiça.
Em algumas casas, principalmente no Estado do Rio de Janeiro, essa linha é chamada de “MALANDROS”; talvez pelo fato da entidade chamada “Ze Pelintra” pertencer a essa linha.
Costumam fumar cigarros de palha e, ao atender a assistência, falam alto, sem qualquer preocupação com a privacidade.
14.4 - BOIADEIROS
Em algumas casas essa linha é confundida com a de Baianos, pela semelhança de seus comportamentos; em outras é confundida com Caboclos, onde são chamados de Caboclos Boiadeiros.
Caracterizam-se por atitudes e gestos ligados aos sertanejos do nordeste brasileiro; estas entidades são uma expressão puramente brasileira, pois não se encontram "boiadeiros" estrangeiros nesta Falange, como no caso dos Caboclos de Penas.
Incorporam quase sempre de pé, simulando laçar e tocar boiadas. São muito alegres, gostando de toques rápidos nos atabaques. Emitem um brado prolongado semelhante a um aboio.
14.5 – IBEJIS OU CRIANÇAS
Suas características estão evidenciadas pelo próprio nome; seu comportamento é sempre infantil; porém trata-se de uma entidade que atua em situações sérias e merecem todo o nosso respeito.
Sua presença é marcada pela distribuição de doces, balas, refrigerantes e brinquedos.
14.6 – MARINHEIROS
É uma linha que não se apresenta com frequência nos trabalhos de Umbanda; não é tida como uma linha de consultas; quando evocada tem a função de estabilizar as energias da casa; sua imagem está associada as atividades de navegadores marítimos ou fluviais; possui um vocabulário próprio; algumas vezes falam em línguas estrangeiras e geralmente aparentam estar embriagados, mas não confunda, esse comportamento é apenas um subterfúgio para atingirem seus objetivos; normalmente estão regidos por Iemanjá; após sua passagem se tem uma sensação de limpeza e tranquilidade no ambiente.
14.7 - CIGANOS
É o representante mais presente quando evocamos a Linha do Oriente; porém sua gira costuma ser exclusiva pois têm funções especificas e atuam nas causas ligadas aos bens materiais, à saúde e justiça. Os ciganos são alegres, festeiros, gostam de roupas bastante coloridas e adoram música; uma gira de ciganos é sempre uma inevitável festa onde parecem encontrar-se para uma confraternização; é comum encontrarmos ciganos falando línguas estrangeiras como o romeno ou espanhol; possuem uma presença marcante e seus trabalhos são marcados pela alta magia.
É uma entidade bastante culta que guarda uma história secular; são bastante objetivos nas suas preleções. Alguns costumam utilizar materiais como lenços, baralhos e borras de café para confirmar suas previsões; embora esses materiais sejam apenas coadjuvantes e seu emprego tenha apenas a função de conduzir o consulente para mesma faixa vibratória.
Quando falamos em linha do Oriente, a qual pertencem os ciganos, não podemos esquecer que nessa linha também atuam os árabes, orientais e as entidades médicas de cura.
Na Tenda de Umbanda Caboclo Calunga Beira-Mar era comum evocar a Linha do Oriente para “roda de cura”; as entidade incorporavam e sentavam-se ao chão formando um círculo em torno do guia-chefe e da pessoa que estava sendo tratada; era uma concentração energética poderosa e indescritível.
14.8 - SEREIAS
As sereias são representantes mais originais da Linha D'Água; é comum elas incorporarem apenas em mulheres e quando evocadas, os homens compartilham incorporando um caboclo também da Linha D'Água; as sereias também são identificadas como Ondinas, Iaras ou Janaínas.
Essas entidades, quando incorporadas não falam; em algumas oportunidades emitem um canto que na verdade é apenas a sonorização de um poderoso mantra aquático diluidor de energias, vibrações e formas pensamento que se acumulam dentro dos centros ou nos campos vibratórios dos médiuns e dos assistentes; aliás, essa é a razão para essa entidade ser evocada; assim como os marinheiros, deixam uma sensação de limpeza e tranquilidade no ambiente.
14.9 - ESQUERDA
Costumamos dividir a Umbanda em duas “bandas”: direita e esquerda; na direita cultuamos todas as linhas descritas até aqui; na esquerda costumamos cultuar nossos guardiões que são os Exus, Pomba Giras e Exus Mirins.
A necessidade da esquerda está ligada ao equilíbrio de forças e essas entidades têm suas funções bem definidas na casa de Umbanda; a principal função é a defesa de ataques energéticos de campos vibratórios de baixa frequência como entidades malignas e não evoluídas; além disso, essas entidade também atuam de forma pessoal, prestando a caridade e auxiliando na cura material e psicológica e em causas materiais, de justiça e demandas.
O comportamento dessa entidade varia de acordo com o seu grau evolutivo e com o ambiente onde incorpora; muitas vezes se apresenta de uma forma rude e utilizando-se de termos de baixo calão; outras vezes se apresentam de forma aristocrática, com vocabulário rebuscado e dialogo rico em conhecimento filosófico e científico; estejam certos de uma coisa, essa entidade funciona como um espelho e reflete nosso interior ou a energia que predomina no ambiente.
Devemos ter muito cuidado ao pedir algo a Exu pois poderemos ser atendidos; ao se prostrar aos pés de Exu, esvazie antes seu coração de todas as impurezas e sentimento maléficos para não ter o desprazer de ver refletida sua imagem.