II - RITOS DE UMBANDA
5 – ABERTURA E ENCERRAMENTO DOS TRABALHOS DE UMBANDA
Os procedimentos litúrgicos à seguir estão baseados na minha experiência e na tradição da Tenda de Umbanda Caboclo Calunga Beira-Mar.
5.1 - ABERTURA DOS TRABALHOS
A abertura dos trabalhos é sempre precedida da ativação das firmezas e dos assentamentos que, na verdade, é uma abertura dos portais de forças que atuam na casa; isso consiste em:
Firmar a esquerda: na maioria das casas de Umbanda existe o padê de Exu que significa cantar pontos para Exu e em seguida levar uma oferenda (ebó) até a cangira, que é o assentamento dos Guardiões da casa e fica do lado de fora do terreiro; na prática, este ritual é um pedido para que Exu cuide da porteira e evite assim intromissões de espíritos menos evoluídos no trabalho; na minha herança ritualística não existe a oferenda mas sim o ritual de invocar a esquerda para essa tarefa de guardar a porteira; por isso é feita a ativação do ponto de força de Exu (Casa de Exu ou Cangira) onde são acendidas velas que podem ser brancas, pretas, vermelhas ou pretas e vermelhas;
Firmar as almas: Ativação do ponto de forma das Almas/Omulu (Casa das Almas ou Cruzeiro), onde são acendidas velas brancas.
Ativação dos pontos de força: consiste em firmar os locais que representam a presença de alguma força como os locais de assentamentos (Orixás) e locais de firmeza dos guias (Caboclos, Pretos Velhos, Baianos e etc.);
Bater Cabeça: trata-se de uma reverência a todos os pontos de força firmados no Congá (todos os Orixás e Guias); as esteiras são estendidas no chão e cada médium deita-se de bruços, tocando a cabeça levemente no chão, protegido pela toalha de cabeça;
Pontos de Abertura e defumação: Inicia-se então a puxada dos Pontos, com o pedido de licença a Zambi para abertura da Jurema; em seguida iniciam-se os pontos de defumação que acompanham tal procedimento. A defumação é feita pelo dirigente ou pelo Pai Pequeno e consiste na queima de ervas (arruda, guiné, benjoim, alecrim e etc.) preparadas para essa finalidade que são colocadas no braseiro previamente aceso; o processo inicia-se com a defumação do congá, depois da curimba e em seguida dos filhos da gira, depois da trata-se de uma reverência a todos os pontos de força firmados no Congá (todos os Orixás e Guias); assistência; até chegar à entrada do terreiro onde o braseiro com a defumação é depositado. Terminada a defumação, iniciam-se os pontos de invocação a Oxalá e a “prece de caritas”; na sequência, pontos a Oxalá, saudação a abertura da gira, saudação aos quatro cantos da casa e reverência a todos os Orixás que vibram naquele momento (o ogã que tem o alabê ou o dirigente da casa saberão por intuição quais as forças que estarão regendo os trabalhos naquele dia); a partir desse momento os trabalhos estão iniciados.
Chamada dos guias: O Ogã que tem alabê ou os dirigentes (Pai de Santo ou Pai Pequeno) passam a puxar pontos com a finalidade de atrair determinadas forças (Guias ou Orixás) ou afastá-las (Kiumbas ou outras presenças indesejáveis); os primeiros Guias a serem chamados em terra são dos dirigentes; em seguida dos médiuns das pontas; depois dos demais médiuns da corrente; terminada a chamada dos Guias, aqueles que ainda não são preparados para o atendimento dão a subida e inicia-se o processo de atendimento da assistência; os Guias dos médiuns já desenvolvidos costumam utilizar a pemba para riscar seus pontos no chão; além de ter motivos magisticos, esses pontos significam a identificação da entidade e determinam sob qual influência está naquele momento.
Atendimento a assistência: os guias devem sempre ser assistidos por um cambone que irá oferecer os materiais necessários ao trabalho e interpretar algumas situações auxiliando o atendimento do assistido; é comum durante o atendimento, o Guia efetuar puxadas no assistente que, muitas vezes incorpora; durante esse processo é muito importante que o cambone acompanhe, de forma que o processo seja conduzido com tranquilidade.
Transportes ou descarrêgos: durante o atendimento é possível ocorrer situações em que o Guia necessite fazer o transporte da entidade que acompanha o assistido ou mesmo descarregar Kiumbas que o perseguem; para isso é requisitado um médium de transporte que ira oferecer a oportunidade dessa entidade manifestar-se em seu corpo e dar a mensagem para o assistido ou ser afastado do mesmo. O transporte ou descarrego é sempre precedido de pontos que canalizam essa energia para o médium de transporte. Em algumas situações o Guia que está trabalhando pode ceder o corpo do médium para essa finalidade, sem requisitar a presença de outro médium de transporte.
Passagem de outras forças e desenvolvimento: Depois do atendimento, costuma-se chamar as demais forças que estiveram presentes durante os trabalhos; é comum que nos dias em que uma Linha trabalhou, outra esteve presente dando suporte e fazendo contraponto; nesse momento ocorre a chamada da Linha que deu suporte e os Guias manifestam-se incorporando e auxiliando os médiuns em desenvolvimento. Durante o desenvolvimento são cantados pontos de puxadas dos Guias que manifestam em tais médiuns.
5.2 – ENCERRAMENTO DOS TRABALHOS
O encerramento dos trabalhos consiste no fechamento dos portais que foram abertos durante os trabalhos; bem como uma saudação e agradecimento a todas as forças que atuaram em prol do desenvolvimento e da assistência aos que procuraram o Terreiro.
São cantados pontos de fechamento e, de acordo com a orientação dada pelos guias, serão levantados ou não os pontos riscados no chão.
Todo o processo, da abertura ao encerramento dos trabalhos são marcados pelos pontos cantados na cadência dos atabaques.