- A Ribeira e o Sino da Lota

Desse local, poucos, certamente, se recordarão. Onde estava o Sino, o salva-vidas, a taberna do Joaquim Polícia, as fábricas do Santana, do Frederico Delory, do Paolo Cocco e a de São Gerardo, e a taberna da tia Páscoa.

Quando o Sueste apertava e o sino tocava para a lota, e o peixe não podia ser vendido no cais por os barcos não poderem atracar, recorria-se então a outro local. Era num pequeno abrigo que existia junto ao Forte do Pau da Bandeira, em frente à taberna do Joaquim Polícia.

Alguns anos antes, tinha sido iniciada a construção de um cais que nunca foi concluído denominado Cais dos Pescadores, no mesmo local onde se encontra hoje o paredão que protege a doca de recreio. Este pequeno abrigo, à falta de melhor servia, bastando, para as várias necessidades dessa zona ribeirinha.

Este local de contacto e intercâmbio com o mar possuía os seus encantos e atractivos e a riqueza que lhe conferiam os dois magníficos momentos proporcionados pela Natureza, a Baixa-mar e a Preia-mar. Fenómenos que subjugam a nossa imaginação e que emprestavam um encanto especial a esse lugar, alternadamente, tão longe primeiro e tão perto depois.

A taberna do Joaquim Rocha, sobejamente conhecido pelo Joaquim Polícia tinha muitos pássaros engaiolados e, logo pela manhã, apareciam outros "passarões" que ali iam "molhar o bico" nuns copitos de aguardente. Era o "mata-bicho". Desafiavam, depois, os canários assobiando perto das gaiolas mas, o sopro "aguardentado" tinha efeitos perversos para as aves canoras que, rapidamente, fugiam mudos para o poleiro mais afastado. Se os queriam ouvir ao desafio, o melhor era esfregar uma rolha de cortiça humedecida numa garrafa de vidro e o som assim, bonito, agradava e estimulava a passarada.

Para muitos, recordar os tempos idos não passa de um exercício fastidioso, todavia, a História e a Ciência têm a sua origem no passado e a ele tudo devem. A esse somatório de acontecimentos que se vão acrescentando chamamos evolução, e à sua rentabilização e aproveitamento pelos homens chamamos Progresso. Considerava-se, nesses tempos, que Lagos era uma terra desde sempre abandonada pelos poderes públicos, e isso foi uma verdade incontestável.

Várias estruturas de importância capital foram iniciadas para logo, em seguida, caírem no marasmo e no abandono sem conhecerem a sua conclusão: o tal Cais dos Pescadores; o Porto de Abrigo (interior), cuja primeira pedra foi lançada pelo rei D. Carlos I (por não haver mais nenhum com esse nome antes dele); e o projectado grande porto, da autoria do Eng. Abecassis.

Todas as obras concluídas foram feitas por força de circunstâncias e interesses de nível exterior à cidade de Lagos:

- O Cais Novo, pela vergonha de um rei ter desembarcado numa zorra, por não existir local de embarque e desembarque apropriado, assunto que mereceu glosa satírica de Salazar Moscoso: "Terra onde o Rei desembarca numa zorra. Terra de merda, terra de porra"

- A Avenida dos Descobrimentos, por força das Comemorações Henriquinas, concluída apressadamente, teve de ser complementada, mais tarde, com outra obra, do outro lado, dado que o mar a podia destruir. Pois em dias de tempestade e de grandes marés a água invadia a parte baixa da cidade. Com a Avenida da Guiné, construída nos anos da Segunda Guerra Mundial, depois desaparecida, tinha acontecido o mesmo. Mas a lição não serviu de emenda (anos de 1931 a 1942).

Outro projecto houve, para a Avenida dos Descobrimentos, que foi posto de parte por não passar junto à cidade e por pedido ou imposição do comércio lacobrigense, que dizia colidir com os seus interesses. Esse projecto, dizia-se, respeitava a relação milenar da cidade com o mar, não a descaracterizando portanto.

Ainda um outro projecto, esse sim, feito com pés e cabeça e ensaiado no LNEC, posicionava o verdadeiro porto no outro lado do rio. No local, segundo se dizia, da antiga barra. Zona profunda, sem rocha, de fácil dragagem como se viria a verificar com a actual Doca Pesca. No entanto, Salazar rejeitou o projecto por o considerar muito dispendioso, quando afinal, a avenida foi muito mais dispendiosa.

Não confundamos porto com avenida, esta é uma rodovia. A avenida, panorâmicamente agradável é uma zona razoável de lazer, embora, com alguma frequência, sujeita à nortada. Em dias de Levante e noites calmas é um lugar aprazível.

A construção da doca de pesca deve-se ao novo ambiente político proporcionado pela Revolução de 1974, assim como o refundamento do canal de acesso que, necessariamente, tinha de ser executado. Lamentavelmente essa obra não foi alargada ao exterior dos molhes, evitando-se assim o encapelamento das vagas à entrada do canal.

A Marina de Lagos é uma obra particular que contou, no entanto, com participação de capitais públicos destinados a fomentar o Turismo, hoje indústria básica e pilar da economia do Algarve.

A "Ribeira" tem um significado muito próprio e constitui um importante referencial ao dinamismo e ligação à grande actividade marítima. E isso é válido, quer em Lisboa quer no Porto, quer em Lagos, contribuindo em larga medida para o engrandecimento destas cidades.

Que o Rei desembarcou numa zorra, ninguém o pode negar, pois existe um registo fotográfico que o documenta. Aí, é identificável um indivíduo, que empurrava a zorra, cujo apelido era Fonseca. Conta-se, a este propósito, que o Rei ao desembarcar de tão singular veículo, desequilibrou-se e o Fonseca prontamente segurando o Rei, evitou a queda, dizendo: -"Vossa Real Majestade está nas mãos do Fonseca de Lagos". Este dito andou largos anos em voga sendo reproduzido quando alguém amparava ou evitava a queda a outrém.

A "Ribeira" simboliza perfeitamente uma vida inconfundível, quase uma "universidade" da vida. Até teve reitor: Qual o lente capaz de calcular quantos milheiros de peixe tem um barco de sardinha grande, média, ou pequena; que douta cabeça teria capacidade para dar o "chui" na altura própria, em linguagem adequada, durante o decrescente do preço do vendedor, à velocidade de um bólide?

A "Ribeira" foi uma escola de virtudes, de manhas, de sobrevivência, de coragem ante o perigo e também, a grande fonte de receita do Estado, esse eterno explorador da grande classe laboriosa dos pescadores.

Desde tempos remotos, quando o Algarve era uma colónia do reino de Portugal, a partilha do pescado reverteu, sempre, com uma parte de leão para o monarca da altura (a ponto do próprio clero chamar, para isso, as atenções régias).

A importância da "Ribeira" reflecte-se, também, na arquitectura e na definição estratégica dos espaços urbanos. A imponência da sua porta, a "Porta da Ribeira", hoje Arco de S. Gonçalo, tão forte, tão bem guardada, não tem paralelo noutra porta da cidade. Pudera, era por ali que entrava e saía o alimento, o peixe real, o atum salgado para as longas viagens dos Descobrimentos. É sagrado!

O que és e o que foste!

A "Porta da Ribeira" indica-nos onde se realizava a primitiva lota e todo o movimento do desembarque do peixe.

Com o passar dos tempos e o desenvolvimento das estradas, e afastado o perigo dos assaltos à cidade, as construções de apoio à pesca foram-se encostando ao exterior da muralha. Em que época(s) se terão desenvolvido estas implantações é ainda um assunto a investigar.

Havia na "Ribeira" uma casa isolada que nas grandes marés (marés vivas), ficava cercada pelo mar. A casa, de dois pisos, tinha no piso térreo várias aberturas para o exterior e tinha no seu interior um banco de pedra, corrido, encostado à parede, bem como a respectiva escada de acesso ao piso superior, também em pedra. No terraço (açoteia), o seu proprietário procedia à seca de polvos. Dizia-se que essa casa fora pertença do Infante D. Henrique. Efectivamente deverá ter pertencido a alguém importante. A sua arquitectura evidenciava-a das outras construções adjacentes pois mantinha ainda a traça primitiva. A implantação desta casa no local era, para muita gente, algo bizarra, e nunca foi esclarecida a sua origem (possivelmente era onde o peixe ia à praça?).

A memória colectiva, da imagem do Infante D. Henrique, entre as gentes modestas da cidade de Lagos nunca se apagou e muitos afirmavam que a dita casa foi do senhor Infante. Facto singular vincado no espírito dessas gentes que, curiosamente, nem o passar dos séculos apagou.

Com o desafogo do local, exigência da construção da nova avenida, a casa teria que ser demolida como todas as outras, no entanto, esta memória da sua ligação ao ilustre personagem da epopeia dos descobrimentos criou grandes indefinições acerca da sua demolição. Esta, porém, veio a efectuar-se não obstante a enorme resistência que a sua estrutura ofereceu ao camartelo, como se as próprias paredes estivessem imbuídas pela pertinácia do Infante.

O Sino da Lota nunca recebeu, nas poucas citações ou descrições de que foi alvo, o merecido destaque, foi, ao invés, sempre tratado como coisa acessória e sem importância. Temos pois, em abono da verdade, que contrariar essa tendência e evidenciar a importância da sua função ao longo dos tempos.

Segundo reza a História, a introdução dos sinos nas igrejas remonta ao séc. VII da nossa era e deve-se tal facto ao Papa Sabiniano. A finalidade era chamar os fiéis para a oração.

O Sino da Lota servia para dar o sinal de chamada do comprador que assim avisava acerca da "teca" de peixe para venda na lota. Contudo a sua missão ia mais longe. Era, nalguns casos, arauto de tragédia. O som rápido, como a dizer "venham, venham depressa...depressa!" causava arrepios. Estávamos perante uma tragédia, um naufrágio, alguém pedia socorro. Na calada da noite, o som a rebate era horrível, acordava as pessoas que, apavoradas, vinham à rua atónitas, esperando sempre o pior. Os passos apressados ecoavam pelas ruas mal iluminadas. As botas grossas batiam fortemente na calçada, aumentando o pavor. As vozes desencontravam-se mas, no fundo, os comentários eram sempre os mesmos: -"Não temos porto de abrigo ... e o salva-vidas onde está?". Efectivamente, a carreira para o bota-abaixo do salva-vidas havia há muito apodrecido, e a embarcação jazia como um morto no seu sarcófago, no Forte do Pau da Bandeira.

No período de 1920 até 1943 o tema mais debatido era igual ao que sempre fora e haveria de ser no futuro, o Porto de Abrigo.

"...A noite estava escura como luto de viúva. O sino da lota tocara a rebate. Alguém ouvira o grito do aflito e pelo sino dera o alarme pedindo auxílio. O marulhar da forte vaga de Sueste abafava a voz do náufrago, e os olhos que queriam ver eram impotentes para penetrar no negrume da noite. A tragédia estava consumada. Esperar o nascer do dia era a única solução...

As pessoas que regressavam da Ribeira vinham a passos lentos, em silêncio, como que acompanhando uma marcha fúnebre. Mais um pescador lá ficara nas ondas do nosso mar..."

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