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- Um Museu de História Marítima em Lagos


Comunicação Apresentada ao Congresso do Algarve em 1987

 

por  José Tello Queiróz

 

 

INTRODUÇÃO

 

Explicação Necessária

Pode parecer estranho que um trabalho escrito em 1982 para o 2º Congresso do Algarve, só agora, quase quinze anos depois surge, para ser apresentado neste Congresso. Mas "est modus in rebus" - como diziam os antigos, tudo tem a sua explicação e é desta explicação que se trata ao fazer esta Introdução.

Foi este trabalho escrito ao tempo em que se inaugurou a exposição na "Casa dos Bicos" sobre o Renascimento e os Descobrimentos Portugueses, razão por que entre outros assuntos, com os mesmos relacionados, se discutia, então, o local da instalação dum Museu dos Descobrimentos que a maioria desejava que ficasse instalado em Sagres, para o que seria necessário demolir a magnífica obra projectada pelo arquitecto Cassiano Branco, construída por volta dos anos sessenta e confiada à Mocidade Portuguesa, como aliás todos os Castelos de Portugal. Houve então uma reunião em Vilamoura, presidida pelo presidente da Comissão Nacional dos Descobrimentos – para a qual fui convidado e estive presente, juntamente com outros membros da Comissão Municipal de Lagos, onde se discutiu o mesmo problema, defendendo o signatário, a localização em Lagos, pelas razões apresentadas no texto desta comunicação.

Foi vencida a minha proposta com argumentos vários e, finalmente, uma razão de que era difícil atender ao conhecimento que os estrangeiros têm do nosso país e que no Canadá, por exemplo, muita gente conhecia Sagres e muito pouco haveria que conhecesse Lagos. Perante isto, desisti e meti na gaveta este trabalho que agora se apresenta, na convicção de que, embora tarde o Museu de História Marítima de Lagos um dia chegasse a sua hora.

 

 

I – A Cultura como factor de consciencialização do Homem perante o Mundo e a Comunidade.

 

Discursando em Arganil (1), a propósito do Bimilenário do Virgílio(2), no passado mês de Novembro de 1981, Sua Ex.ª o Ministro da Cultura e Coordenação Científica disse: - "A Cultura não é um luxo mas um investimento, porventura dos mais rendíveis". Estamos absolutamente, de acordo com Sua Ex.ª, dizemos nós, do fundo da nossa modéstia.

Na verdade, qualquer que seja o sentido em que se tome a palavra, Cultura, não é um luxo no sentido de coisa supérflua ou desnecessária, mas antes uma actividade necessária à valorização do Homem e da sociedade, em que este se insere numa determinada época.

Seria oportuno dar aqui um conceito de "Cultura" mas não o faremos, pelo menos de uma maneira formal. Antes de mais, porque todas as definições são perigosas e ainda porque este é um dos conceitos mais controversos, e há até quem pretenda apropriar-se dele, como de um Baluarte para, aí, se instalar e, daí, explorar o equívoco da sua ambiguidade.

Quer se tome, porém, o termo no sentido absoluto, no plano da vida intelectual e do pensamento crítico e reflexivo, referido a um indivíduo, a uma época ou nacionalidade, no sentido a que se convencionou chamar Filosófico ou Pedagógico – quer se tome no sentido – Antropológico ou Etnográfico – designando um conjunto de estilos, de métodos, de valores materiais e morais que caracteriza um Povo ou uma sociedade – é inegável a importância que a Cultura tem para a consciencialização do Homem e da compreensão da sua posição no Mundo e na Comunidade em que está inserido.

Entendido nesta última acepção – sentido Antropológico ou Etnográfico – e, "fazendo Comunidade igual a Pátria", ajudá-lo-á a compreender as suas origens e a considerar o que nelas há de mais válido e merecedor de respeito "Mal vai o povo que esquece as suas raízes e a sua História..."

Considerado no primeiro sentido – Filosófico ou Pedagógico - , ensiná-lo-á a ver a relatividade das coisas, a compreender os homens e os factos – "sub espécies ad eternitatis" – levá-lo-á a ser tolerante, compreensivo e humano, moderando, até certo ponto, as tendências mórbidas ou o fanatismo resultante dum nacionalismo exacerbado que a "Kultur" possa fazer nascer ou tornar demasiado agressivo, mentalizando-o para lhe permitir procurar a justa medida, o ponto de equilíbrio entre os dois grandes pólos de atracção à volta dos quais gravita o pensamento do Homem Moderno, auxiliando-o a encontrar as grandes linhas de rumo que devem orientar, em dado momento, a sua consciência de "Homem Livre", bem como a estabelecer as "balizas" que limitam o campo da sua actuação.

A Cultura é isto tudo, e muito mais...E ousamos acreditar que foi de harmonia com estes conceitos que Sua Ex.ª empregou este termo "Cultura" quando afirmou: - "A Europa de hoje espera mais o milagre cultural do que o milagre económico, que esperava há algumas décadas".

 

 

II – O Museu como factor de Cultura.

 

1. Ora, se a Cultura é um dos investimentos mais rendíveis, também as instituições ao serviço da Cultura devem ser consideradas como tal. De entre elas, contam-se, sem dúvida, os Museus. Sejam estes de carácter geral, como os Museus de arte, ciência, etc. ou os Museus especializados, de carácter técnico, militar, industrial, etnográfico, todos devem ser considerados centros de desenvolvimento cultural, e desde logo, "dos investimentos mais rendíveis".

2. Para tanto, porém, necessário se torna que um Museu não seja um simples repositório de objectos, mais ou menos valioos, pela sua antiguidade e raridade ou como símbolos de uma época, do empo passado, sabiamente catalogados e expostos em vitrines - mas algo de vivo e actuante dotado de forte poder de comunicação que transmita ao visitante uma lição sobre os homens, os factos e, naturalmente, sobre os acontecimentos, as ideias e as instituições com eles relacionados numa determinada época.

3. Mas, um Museu, nestas condições, vivo e atraente, no caso presente, um "Museu de História Marítima" terá que obedecer a um programa com dupla finalidade: - Ser um documentário. – Ser portador de uma mensagem do Homem do Passado ao Homem do Presente e do Futuro. Mas, poderia perguntar-se: - Justificar-se-á um Museu de História Marítima em Lagos? É o que vamos tentar esclarecer.

 

 

III - Fundamentação Histórica e Cultural da Criação de um Museu de História Marítima em Lagos.

 

1. Foi o Mar a nossa razão de ser como Nação. Foi pela influência do Mar e das Póvoas marítimas dispersas ao longo da costa, que Portugal conquistou Unidade e Independência. Foi ainda o Mar que permitiu que este Povo realizasse a obra ingente dos Descobrimentos. Mas foram, sem dúvida, os Algarvios e, sobretudo, os moradores de Lagos "-homens honrosos que se trabalharam em ser em pelejas de mar" –

como diz o Cronista, que melhor souberam aproveitar a sua situação geográfica – o Mar, que tinham à frente, para bem do serviço de "Deus e do Rei" para bem da sua Terra e da Humanidade, à luz dos conceitos do tempo.

2. Enquanto os Portugueses, depois da conquista de Ceuta e das outras praças do Norte de África, seguravam a "Boca do Estreito", a Europa do Sul ensaiava, com a ajuda da Burguesia mercantil, os primeiros passos de uma sociedade capitalista, desenvolvia o Comércio Bancário, consolidando uma Economia próspera, criava, com os restos de herança Grego-Romana, um Humanismo de inspiração Cristã e universalista, génese dum Renascimento cujo clarão iria iluminar o Mundo culto durante os dois séculos seguintes.

3. Entretanto, Portugal lançava-se, ousadamente, na senda dos Descobrimentos. Os Portugueses descobrem as Ilhas Atlânticas, passam o Bojador, contonam a Costa Africana, dobram o Cabo das Tormentas, engolfam-se no Oceano Índico, chegam a terras do Novo Mundo, atingem o Japão, Timor e as costas do Continente Australiano. Pela sua acção se desloca o meridiano comercial do Mundo Ocidental que passa do Mediterrâneo para o Atlântico e se fixa em Lisboa.

4. E, é através desta cidade de "desvairadas gentes", no dizer do contemporâneo, que a Europa do Norte recebe o sopro vivificador de novos climas, o conhecimento de novas terras, novas gentes, novas fontes de riqueza, bem como novos estilos, novas artes e novas maneiras de viver. Pragmáticos, os Europeus do Norte, rapidamente, se apoderam desse rico Comércio oriental que irá enriquecer os mercadores das Praças de Londres, Amsterdam, e das cidades flamengas que, cada vez mais enriquecidas, serão novos alfobres de famosos pintores e novos Centros de Cultura e Arte...

5. Portugal dedica-se, então, à sua alta missão de evangelizar os povos das terras descobertas. Fixa-se na Índia, constrói o Brasil e, diga-se o que se disser, funda os alicerces de duas grandes: - Angola e Moçambique.

6. A Europa não esqueceu o esforço ingente e a obra gigantesca deste Grande Pequeno Povo e, embora, ultimamente, criticasse, "por razões óbvias", e por vezes com azedume, a nossa heróica teimosia em manter a Bandeira das Quinas erguida nos sertões de Angola e nas costas do Índico (teimosia, cuja razão de ser, hoje parece reconhecer), vem agora, fazer jus à acção dos Portugueses que, como os Gregos de outrora, foram os Grandes Construtores de Pátrias e propõe-se, sob os auspícios do Conselho da Europa realizar, em Portugal, a XVII Exposição de Ciência, arte e Cultura, que, exactamente, por isso se irá chamar: -"Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento".

7. Esta exposição deverá trazer ao nosso País muitos milhares de visitantes...Urge aproveitar a "maré" e trazê-los até ao Algarve, hoje, sem dúvida, o maior cartaz turístico de Portugal. – Mas se a Europa, finalmente, fez jus a Portugal, preciso é, que Portugal faça jus ao Algarve e que este o faça à "antiga villa de Lagos".

Na verdade, que outra Cidade ou Vila de Portugal têm mais pergaminhos que esta cidade de Lagos, mais direitos a receber e a apresentar dentro dos seus muros aquela "Exposição", senão em toda a sua amplitude e extensão, o que será impensável, pelo menos numa parte, para nós a mais importante e significativa, aquela cuja acção se refere aos acontecimentos que tiveram como cenário o Algarve, mormente o Barlavento Algarvio e, em especial, a zona que vai de Lagos a Sagres e com maior razão para Lagos que foi sede e o ponto de partida –"o motor de arranque" – digamos assim, da grande "Gesta dos Descobrimentos", reservando para Sagres o papel e a função que na realidade teve, que na realidade foi: - Residência temporária do Príncipe Navegador", ponto de apoio de partida e chegada dos Caravelistas do Infante que a Sagres iam receber as últimas instruções – o Regimento por que se haviam de reger no Alto Mar e nas terras a que chegavam e onde vinham trazer as novas da Descoberta, "pois era lugar ermo, afastado do tumulto das gentes", mais próprio do que Lagos, então terra onde havia muitos estrangeiros, sobretudo "Italianos" e, por isso, menos conveniente para aquele feito.

8. Lagos não foi só a base, o porto de partida dos Descobrimentos. Ali se armavam os navios, alguns dos quais à custa da fazenda dos ricos mercadores da Villa e, se constituiu a famosa "Companhia de Lagos" por iniciativa de dois Lacobrigenses ilustres – Soeiro da Costa e Lançarote de Freitas. Em Lagos se fundou a "Casa de Arguim", a "Casa da Guiné", futura "Casa da Índia", antecessora, esta, dos Ministérios da Marinha e do Ultramar dos nossos dias...

Por tudo isto, em Lagos deveria ser apresentada aquela Exposição, na parte que se refere ao Barlavento Algarvio e, nesse sentido enviamos daqui, destas "Cortes Gerais" do "reino do Algarve" com as nossas respeitosas saudações, um vigoroso apelo em nome do "Centro de Estudos Marítimos e Arqueológicos de Lagos – CEMAL" – a cuja Direcção temos a honra de pertencer, e da gente da nossa terra, para que V.ª Ex.as se dignem patrocinar com a vossa influência, esta nossa pretensão, cuja concretização não viria, unicamente, beneficiar Lagos mas todo o Algarve, criando, nesta Província, embora temporariamente, mais um polo de atracção no duplo ponto de vista turístico e cultural.

9. Mas uma Exposição temporária, por muito significativa que seja, por mais brilhante que possa ser na sua realização, e relevante no seu alcance político e cultural, não basta para o fim que nos propomos atingir. A nossa vontade seria construir algo com um "padrão" que marcasse a importância e participação que Lagos teve na realização do chamado –"Projecto Marítimo Português". Um padrão, por mais genial que seja na sua concepção, por mais belo e grandioso na sua realização, é um símbolo e nós queremos qualquer coisa que seja além de significativo, útil, vivo, funcional.

Decerto, que desejamos que nos seja dada a oportunidade para que essa Exposição possa ser apresentada em Lagos, mas uma vez encerrada e levantada ficará um vazio difícil de preencher, se não for substituído por algo de fixo e duradoiro.

É por isso que queremos um Museu. Somente um Museu de História Marítima poderá preencher essa lacuna. Desejamos, portanto, que nesta terra de homens do mar, cheia de tradições históricas, seja criado um Museu, mas um museu aberto e vivo, uma lição de História e de Cultura para o visitante, dada a forma sugestiva, atraente e elucidativa em que as espécies expostas se apresentam com um sentido cronológico e didáctico.

10. Porém, um Museu aberto, por definição não é uma sala ou um conjunto de salas, é um espaço livre em que os objectos expostos ganham vida pelo ambiente natural em que estão enquadrados. Assim é, por exemplo, o Museu da Pré-História (Idade do Ferro) existente na Dinamarca, em Lejre, a 20 km a Oeste de Roskid, onde num espaço de cerca de 10 ha , "homens da Idade do Ferro" praticam ao vivo diversas actividades como lavrar, fazer armas e utensílios e mesmo os rituais religiosos de então. Uma bela reconstituição do passado que atraia muitos visitantes e, sobretudo, os alunos de diferentes graus de ensino. No mesmo género e no mesmo País existem outros exemplos frisantes tais como o "Museu aberto de Skansen" nos arredores da Capital, onde se constituiu uma aldeia típica e os seus habitantes trabalham à vista do público, fazendo belas peças de artesanato pelos processos tradicionais dos seus antepassados.

11. Assim, e dentro do mesmo espírito, o "Museu de História Marítima de Lagos" poderia ser um Museu vivo e aberto constituído por embarcações em tamanho natural, feitas quanto possível à maneira de antanho apresentadas no seu ambiente natural – o Mar – ancoradas dentro de uma pequena doca, (já existente e que seria fechada para o efeito), que fica junto à Ribeira de Lagos, donde outrora partiram Gil Eanes, Baldaia, Lançarote de Freitas e outros capitães de caravelas armadas para a descoberta, às ordens do Senhor Infante. Poder-se-ia começar pela barca de Gil Eanes que era uma pequena embarcação, no género das que iam à pesca costeira e por uma caravela henriquina, pois o Museu de Lagos não pretenderia documentar a fundo, mais do que o ciclo henriquino dos Descobrimentos.

12. Um Museu, nesta condições, implica acção, trabalho ou algo que o possa sugerir. Por isso preconizamos que na praia anexa se estabelecesse um estaleiro onde se pudesse apresentar uma caravela mais pequena (caravela de pesca), ainda em construção, com o cavername à vista para dar aos visitantes a ideia de como estes barcos eram construídos e a técnica empregue. Perto, numa zona protegida, poderiam ficar as ferramentas do ofício onde um guarda cicerone (por exemplo um calafate reformado) poderia dar ao público as explicações necessárias. Mas não se poderia limitar, simplesmente, a estes aspectos exteriores, o Museu de História Marítima que desejamos para a nossa terra.

13. Deveria apresentar vasta documentação. Ela existe, o que é preciso é reuni-la em edifício com salas adequadas, onde a mesma possa ser apresentada ao público, exposta tanto quanto possível, numa ordem cronológica para tornar facilmente inteligíveis as relações entre os documentos e os factos a que se referem, para que o visitante possa situar "no tempo e no espaço" o que vai vendo. Esse edifício existe ali, a dois passos da Muralha da Ribeira, junto à Capela de Santa Bárbara, fundada por D. João I, o Rei da Boa Memória que salvou Portugal em Aljubarrota. É o velho "Trem de Artilharia" que já vem do século XVIII. Neste antigo e nobre edifício poder-se-iam instalar os serviços técnicos e administrativos, oficinas de modelismo naval e outras actividades afins, a secção de documentação referente aos Descobrimentos, biblioteca especializada, sala de cartografia, gabinete de consulta e, apresentar ainda maquetes, diagramas, vídeos, documentação relacionada com a pesca, desde a captura da baleia na Praia da Luz (alvará concedido por D. Dinis a mareantes italianos), até à criação da "Companhia das Pescas Reais do Algarve" pelo Marquês de Pombal, na segunda metade do séc. XVIII e renovada nos fins do século passado (1881), não esquecendo a devida referência à chamada Feitoria de Lagos onde "se feitorizava todo o atum que morria nos mares do Algarve" (sic) e o "Regimento das Almadravas" pelo que se regia toda a actividade relacionada com a pesca, a salga e a exportação do atum que em "botas" (barris), era enviado para os portos do Levante e até aos Portos da Europa do Norte.

14. Impõe-se a sequência destas secções para não quebrar a ordem cronológica, pois a pesca precedeu os Descobrimentos e, ainda para indicar a relação existente entre estas duas actividades, porque então, como hoje, em todos os Países, foi a Marinha de pesca e de comércio, o grande viveiro da Marinha Nacional.

Ainda neste Museu, embora noutra ala do edifício, deveria haver uma Sala sobre a Indústria de Conservas de Peixe que se desenvolveu a partir de meados do século passado, com a vinda dos fabricantes italianos que, aqui, como em outros pontos do Algarve, estabeleceram as sua fábricas – Sala que poderia ser o núcleo inicial do grande Museu das Conservas de Peixe que o Algarve não tem, e cuja criação foi proposta no Encontro das Associações do Património, em Santarém, no ano de 1980.

15. Não ficaria assim completo o programa deste museu, pois Lagos, mesmo depois do falecimento do Infante D. Henrique, em 1460, continuou a ser a grande base de apoio para a defesa do Norte de África, pelo que deveria haver uma secção onde fosse dado o devido relevo à importância estratégica do Porto de Lagos.

16. Igualmente, os "Fastos" da "Baía de Lagos" deveriam merecer uma secção própria. De facto, a Baía e as águas que banham a costa desta zona do extremo Barlavento do Algarve, de Lagos a Sagres, foram teatro de várias batalhas navais, algumas das quais se podem considerar decisivas para a evolução da Europa e do Mundo.

Tal é o caso da que teve lugar em 1693 entre uma frota inglesa e outra holandesa, combinadas, vindas de Smirna com um rico carregamento de produtos orientais, que foram interceptadas e aniquiladas por uma divisão francesa do comando do Almirante Tourville (3).

Também aí se deu a chamada "Batalha de Lagos" entre uma Divisão francesa sob o comando do Almirante La Clue e a esquadra inglesa do Almirante Boscawen que, não respeitando a neutralidade portuguesa, perseguiu os navios franceses que procuravam protecção na nossa Bandeira, afundando alguns na Salema, e outros à vista da própria cidade para onde se dirigiam para desembarcar os feridos. Esta acção militar que se desenrolou durante a "Guerra dos Sete Anos", tinha por fim forçar Portugal a entrar na guerra ao lado da Inglaterra, mereceu um veemente protesto do Marquês de Pombal que levou os ingleses a apresentar-lhe desculpas pela violação das águas territoriais portuguesas.

A Sul do Cabo S. Vicente teve lugar, ainda, uma grande batalha entre uma formação espanhola que se dirigia para Toulon para fazer a conjunção com a esquadra francesa que deveria participar no grande plano de ataque à Inglaterra, concebido por Napoleão, e a esquadra inglesa que tinha como missão evitar a execução deste plano.

Nesta batalha distinguiu-se o futuro Almirante Nelson que, embora não fosse o comandante em chefe da esquadra, pois era Lord Jervis, que mais tarde foi Conde de S. Vicente, desprezando as ordens recebidas e os princípios tácticos até aí seguidos, iniciou a batalha que rapidamente venceu e que lhe valeu a promoção.

Será, ainda, de referir a chamada "Batalha do Cabo de S. Vicente", entre uma divisão Miguelista e outra Liberal, esta sob o comendo de Napier que acabou por sair vencedor. Vitória que contribuiu grandemente para a decisão das operações em curso e para o triunfo da causa de D. Pedro IV.

 

 

Conclusão

 

Pelo exposto, não falta material, nem razões para a criação de um Museu de História Marítima em Lagos. Por outro lado o edifício existe e está em bom estado e será fácil obtê-lo para o fim em vista desde que se evite a sua transformação em residência castrense, como o pretende a entidade que, ilegalmente, o continua a ocupar.

As obras de adaptação seriam fáceis e a utilização de divisórias móveis permitiria utilizá-las, simultaneamente, como suporte para fixação dos mais variados itens. As colecções de modelos seriam fáceis de obter, pensamos nós, a título de exposição temporária, mediante entendimento com o Museu da Marinha, desde que houvesse uma entidade responsável, que poderia ser o CEMAL, autorizado e apoiado pela Câmara Municipal, para cuja protecção e bons ofícios se faz, aqui, o devido apelo. Documentação cartográfica e bibliográfica seria conseguida desde que as entidades atrás apontadas, juntamente com a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e outros Museus Municipais que quisessem facilitar, autorizando a obtenção de cópias dos documentos existentes nos seus arquivos.

A grande dificuldade – a aquisição das embarcações em tamanho natural... Sobre este assunto não nos podemos pronunciar por agora, aguardamos o orçamento.

Vamos terminar... Antes, porém, desejaria apresentar a V.ª Ex.ª(s) as minhas desculpas pela ousadia de vir aqui, com esta comunicação que pode parecer um sonho demasiado ambicioso de alguém que não tem outro merecimento que o recomende, senão o amor à sua terra e o interesse pela sua História, cuja investigação tem dedicado o melhor do seu tempo. Mas, como diz Camões – "não é prémio vil ser conhecido por um pregão do ninho meu paterno".

 

NOTAS:

(1) Arganil - segundo a tradição local teria sido uma povoação Lusitana e mais tarde uma cidade romana. O que há de positivo é que nas vizinhanças existem vestígios de um acampamento romano.

(2) Virgílio - poeta romano, que viveu no tempo do Imperador Augusto, que o libertou da condição de escravo. Autor do poema épico "A Eneida", que dedicou ao seu protector e cujo bimilenário se comemorou em Portugal em 1981, com a presença do então Ministro da Cultura, Dr. Lucas Pires.

(3) Enquanto os chamados povos Ibéricos - Portugal e Espanha - como hoje se convencionou chamar, povoavam e evangelizavam, cultivavam e exploravam as riquezas das terras das suas últimas conquistas, num novo mundo, lançando os caboucos de novas nações, no caso de Portugal, o Brazil, e a Espanha construía as nações Sul-Americanas, a Inglaterra e a Holanda lançavam-se na navegação comercial entre os seus portos principais e o importante entreposto de Smirna, onde afluíam valiosos produtos orientais, cujo comércio viria enriquecer as praças de Londres e Amsterdam, contribuindo assim para a deslocação do Meridiano Comercial, que outrora, na Idade Média, passava por Veneza e depois da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia se tinha mudado para Lisboa e agora, se deslocava para o Norte da Europa. A França, porém, não podia ficar indiferente a esta iniciativa e, à sombra da situação criada pela guerra da Sucessão de Espanha, desenvolve uma "acção de corso" contra a carreira Comercial Anglo-Holandesa, que ficou conhecida por "guerra naval e industrial", conforme lhe chama o Redactor Colaborador especializado nesta matéria. (Enciclopédia Larousse, Vol. 6ª Edição de 1973, pg. 3376).

É a um episódio desta guerra que nos referimos no texto, cujo herói foi o Almirante Tourville, nomeado já nesta altura Marechal de França e foi esta a sua última batalha, vindo a falecer em Paris no ano de 1667. Os efectivos envolvidos nesta operação militar eram constituídos por 71 navios de guerra comandados pelo Almirante Tourville, enquanto que a frota Inglesa e Holandesa combinada, era composta por 400 embarcações reunidas sob o comando do Almirante Rook. O êxito de Tourville deve-se ao facto da sua esquadra ser formada por navios ligeiros e muito rápidos. Cumpre esclarecer que, enquanto J. Paulo Rocha, na sua "Monografia de Lagos" (Edição Porto, 1909), afirma categoricamente que esta batalha teve lugar em frente da Baía de Lagos e, daí o seu nome, e a frota aliada vinha de Smirna para o Norte da Europa, outros há, que dizem o contrário, se bem que a Enciclopédia Larousse (ob. cit.) não refira este "pormenor". Consultada a Enciclopédia Britanica, não afirma uma coisa nem outra, limitando-se a dizer simplesmente que o Almirante Tourville causou graves prejuízos à Marinha Inglesa (off Gibraltar).

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