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- Novos vestígios à volta de Currais da Granja


Novos Vestígios à Volta de Currais da Granja

 

- Vila do Bispo -

 

por João Velhinho

 

 

 

Apesar da História de Vila do Bispo continuar condicionada a uma má interpretação dos escritos de João B. da Silva Lopes, na « Corografia (1)», continuam a surgir novos vestígios que deitam por terra tudo o que se tem escrito sobre o assunto.

Em Junho de 1999 (2) escrevemos uma pequena notícia sobre as variadas inscrições nos menires à volta de Currais da Granja/ Granja/Vila do Bispo. Afirmávamos então, sobre a possibilidade duma investigação mais aturada revelar novas inscrições. De facto informaram-nos, recentemente, acerca da descoberta de uma nova inscrição nas proximidades da ponte da Granja, localizada no cerro mais elevado da "ilha" de terreno formada pela antiga Estrada EN 125 e o seu novo traçado. Onde, num afloramento calcário, aparecem esculpidos 5 círculos em relevo, inscritos num pentágono(3), semelhantes aos que podem ser encontrados no menir do Cerro do Camacho.

Mais precisamente, a inscrição está localizada a 37º03´28´´N, e 08º55´24´´W. Cada círculo tem de diâmetro 6cm e a inscrição, na totalidade, 20cm de comprimento por 22 cm de altura.

Estas inscrições, de carácter religioso, que podem ser encontradas à volta de Granja, apontam claramente para a existência na região, de um importante centro religioso, em tempos recuados.

Diz a tradição que na origem deste centro religioso estão cristãos Valencianos fugidos no séc. VIII às perseguições de Abderramão I.

Para proteger as relíquias de S. Vicente rumaram para Ocidente, pelo Mediterrâneo , afim de alcançar refúgio nos reinos Cristãos do Norte da Península.

 

Quando da passagem pela, hoje, costa de Sagres terão, certamente, encontrado as mesmas dificuldades em dobrar o "Cabo", que a navegação experimentava à época do Infante (4). À espera de ventos favoráveis para seguir viagem é muito provável que, a bordo, as provisões tenham escasseado. Em terra , à busca de água e alimentos, encontraram uma povoação (Cerro dos Mouros/Granja) com uma igreja Cristã – do tempo dos Rum(5), segundo o geógrafo Al Edrisi – e aí acabam por se estabelecer.

Esta será, certamente, a origem da Igreja do Corvo, a Kanisat al Gurab dos cronistas árabes.

A igreja do Corvo atraiu peregrinos de toda a Hispania. Possuía tesouros muito consideráveis e rendas copiosas das doações em todo o Gharb. Estava situada a 7 milhas (10km) do Cabo do Ocidente (S. Vicente) e tinha como obrigação servir uma refeição aos peregrinos tanto Cristãos como Muçulmanos que a visitavam a caminho da Mesquita (Mesquita/Sagres (6)) onde, acreditavam, que as preces a Alá eram mais facilmente atendidas.

Em 1099 (7), berberes Almorávidas, vindos do norte de África, destruiram a igreja num acto de fanatismo religioso. Mais tarde, D. Afonso Henriques tem conhecimento da existência das relíquias sagradas a Sul, através de cristãos (moçárabes) cativos na batalha de Ourique. Ordena duas expedições (a primeira falha) e, em 1173, as relíquias de S.Vicente são trasladadas para Lisboa.

Em 1189, e durante um breve período, a região de "Vila do Bispo" é conquistada aos Mouros por D. Sancho I. É provável que, neste período, o culto a S. Vicente se tenha reacendido. De concreto, sabe-se que foi um cristão (moçárabe), Garcia Rodrigues (8), quem, algumas décadas mais tarde auxiliou os homens de D. Paio Peres Correia no esforço da Reconquista.

Após 1249 a Igreja do Corvo, ou o que resta dela em Currais da Granja, toma a invocação de Santa Maria (do Cabo) e é constituída como freguesia(9).

Em 1515 D. Manuel doou o lugar e Igreja de Santa Maria do Cabo ao Bispo D. Fernando Coutinho que era já senhor de Aldeia do Bispo, passando o lugar de Santa Maria do Cabo (Currais da Granja/Granja), depois de integrado na Aldeia do Bispo , a ser conhecido também por Aldeia do Bispo.

A inscrição agora descoberta testemunha um marco de propriedade, pertença de monges Franciscanos, quando no século XV , fundaram na região uma Casa com Hospital .

O tempo, os cataclismos naturais, a pirataria e a ambição dos homens encarregaram-se de tornar o Cerro dos Mouros/Granja num descampado que, hoje, encerra páginas desconhecidas da História de Vila do Bispo.

 

1- Contrariamente ao que é vulgarmente afirmado, não é em 1515 que surge a Aldeia do Bispo. As primeiras referências conhecidas à Aldeia do Bispo provêm de cartas régias de D. Afonso IV datadas de 27 Março 1329 e 3 de Agosto de 1353.

2- Inscrições à volta de Currais da Granja/Vila do Bispo – Jornal Maré Alta, Junho 99

3- Pode-se entender o pentágono como símbolo de uma Irmandade/Ordem Religiosa

4-"...Reflectindo como ao Cabo de Sagres vinham e vêm muitas carracas, naus, galés e outros navios pousar, por não acharem tempo de viagem onde acontecia estarem por muitos dias sem acharem nenhuma consolação de mantimentos ...mandei fazer uma vila....". Carta do Infante D. Henrique, 19 Set.1460

5- Possivelmente de origem Tardo-Romana ou Visigótica. Em Currais da Granja são visíveis vestígios de cerâmicas Romanas à superfície do terreno . Estácio da Veiga aponta para o local " povoação extinta ou arrasada " Romana.

6- Nas proximidades a jazida arqueológica de uma extensa alcaria – Catalão.

7- Adeline Rucquoi – História Medieval da Península Ibérica – Editorial Estampa

8- Existem indícios que levam a considerar Garcia Rodrigues como possível habitante da região de "Vila do Bispo" à época do domínio muçulmano.

9- Desta freguesia – Santa Maria (do Cabo) - separou-se em 1464 a Igreja da Bordeira. Cf . Pinheiro e Rosa – Boletim Cultural nº 2 CM de Aljezur. Em 1519 D. Manuel criou o priorado de Sagres, apartando da : -"... Igreja de Santa Maria...donde te ora eram fregueses..." Carta régia de D. Manuel 13 Nov.1519 "

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