Texto originalmente apresentado (submissão) e recusado, com todas as "honras" (e "esculhambação" dos dois pareceristas), pela Revista Diadorim, da UFRJ .
RESUMO:
Em 1950 a então jovem doutoranda da USP, Gilda de Mello e Souza causou polêmica ao defender uma tese sobre moda, A moda no século XIX. Naquela época a tese foi tratada como uma espécie de desvio e que só foi aceito graças ao empenho do professor Roger Bastide, orientador de Gilda.
Ainda hoje, passados 74 anos da defesa da tese de Gilda de Mello e Souza, o universo da moda é tido por muitos como algo volátil; o culto ao supérfluo e a hipervalorização do fútil e do transitório.
Acreditamos que há uma outra abordagem possível, que trata a moda como espelho da sociedade que a produz, logo, interferindo e interagindo diretamente em relação à literatura. A este respeito, foi Proust quem disse que “desejava a sua obra talhada ao mesmo tempo como uma obra e uma catedral.”[1]
Nosso desafio será demonstrar esta associação entre moda e literatura em uma obra específica, analisando O segredo de Brokeback Mountain [2], de Annie Proulx. Utilizaremos o instrumental teórico adquirido enquanto historiador dedicado ao estudo da história regional e da micro história, a qual mantém vínculos com a “história das mentalidades”.
Além de Gilda de Mello e Souza, pretendemos nos inspirar também em Nicolau Sevcenko, especificamente a obra Literatura como missão [3], onde o autor elege Euclides da Cunha e Lima Barreto como referência para traçar um panorama dos cruzamentos entre história, ciência e cultura no Brasil da passagem do século XIX ao XX.
“Nicolau Sevcenko em sua obra Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República, apresenta com objetividade um painel nossa belle époque, especialmente no campo das ideias, centrando a sua análise crítica em duas figuras aparentemente marginalizadas tanto política como intelectualmente, apesar do êxito incontestável alcançado pelas obras que publicavam: Euclides da Cunha e Lima Barreto.”[4]
É o próprio Sevcenko quem nos explica claramente a relação entre história e literatura:
“Nem reflexo, nem determinação, nem autonomia: estabelece-se entre os dois campos [história e literatura] uma relação tensa de intercâmbio, mas também de confrontação. A partir dessa perspectiva, a criação literária revela todo o seu potencial como documento, não apenas pela análise das referências esporádicas a episódios históricos ou do estudo profundo dos seus processos de construção formal, mas como uma instância complexa, repleta das mais variadas significações e que incorpora a história em todos os seus aspectos, específicos ou gerais, formais ou temáticos, reprodutivos ou criativos, de consumo ou de produção. Nesse contexto globalizante, a literatura aparece como uma instituição, não no sentido acadêmico ou oficial, mas no sentido em que a própria sociedade é uma instituição, na medida em que implica uma comunidade envolvida por relações de produção e consumo, uma espontaneidade de ação e transformação e um conjunto mais ou menos estável de códigos formais que orientam e definem o espaço da ação comum.”[5]
Partindo de protagonistas de certa forma “marginais”, pois expoentes de grupo minoritário (LGBTQIA+), Ennis Del Mar e Jack Twist, a exemplo de Sevcenko, neste nosso breve estudo tentaremos demonstrar a função desempenhada pelas suas roupas no conto O segredo de Brokeback Mountain [6], da autora estadunidense Annie Proulx, ganhadora do Prêmio Pulitzer, de um National Book Award, do International Fiction Prize do IrishTimes, de dois prêmios O. Henry e um PEN/Faulkner.
Escolhemos esta obra porque nos conta a história do amor de dois cowboys, logo, personagens que usam indumentária bastante característica e de forte apelo erótico, até mesmo fetichista. Neste caso em particular, as roupas chegam a representar o papel de personagens coadjuvantes no enredo, auxiliando a guiar o leitor durante a narrativa, como iremos demonstrar.
“A moda é um todo harmonioso e mais ou menos indissolúvel. Serve à estrutura social, acentuando a divisão em classe; reconcilia o conflito entre o impulso individualizador de cada um de nós (necessidade de afirmação como pessoa) e o socializador (necessidade de afirmação como membro do grupo); exprime ideias e sentimentos, pois é uma linguagem que se traduz em termos artísticos.”[7]
Temos clareza de que, mesmo a “moda cowboy” está sujeita a variações que se dão em função da época, pois, como colocou Gilda de Mello e Souza, moda pode ser definida como “sequência de variações constantes, de caráter coercitivo (...), que abrange as transformações periódicas efetuadas nos diversos setores da atividade social, na política, na religião, na ciência, na estética (...) onde o fenômeno ocorre não só nas ideias mas na vida afetiva, pois se a sociedade fixa os nossos sentimentos não o faz de modo permanente mas através de sucessivas flutuações.”[8]
Segundo a mesma autora, porém, podemos enxergar os cowboys, com sua vestimenta típica, como representantes do costume, que se contrapõe à moda propriamente dita. “Os costumes cultuam o passado, ligando-se assim à tradição, e a moda cultua o presente, adotando sempre a novidade. (...) os costumes são tipos de comportamento social relativamente mais permanentes e, posto que mudem, acarretam uma participação menos ativa e consciente do indivíduo.”[9]
Estas definições ajudam a compor o caráter dos personagens, a explicar a sua psicologia, especialmente Ennis, preso aos preconceitos herdados do pai.
Quanto ao enredo propriamente dito, o livro apresenta a história de dois jovens que se conhecem no verão de 1963, numa montanha isolada, na região das montanhas Big Horn, Wyoming, estado rural e conservador do oeste dos EUA. Eles trabalham para Joe Aguirre, cuidando de um rebanho de ovelhas.
Ennis Del Mar é extremamente tímido e introvertido. Depois que seus pais morreram, em decorrência de um acidente de carro, ele foi criado pelos irmãos mais velhos. No início da história, ele tem como objetivo ganhar dinheiro com seu trabalho nas montanhas, para depois voltar para sua cidade natal e poder casar-se com sua noiva, Alma.
Jack Twist, por sua vez, é um rapaz extrovertido e sorridente. Ele trabalha habitualmente no circuito de rodeios, no Texas. Durante o verão, tem este outro emprego temporário, cuidando das ovelhas de Joe Aguirre.
Os dois, vivendo isolados por semanas, se tornam cada vez mais amigos, cresce a confiança mútua e a intimidade entre eles, de maneira que ficam cada vez mais próximos. Numa noite fria, com pouco cobertor, eles resolvem dormir juntos na barraca, depois de beber muito uísque para se aquecerem.
Na barraca, sob o efeito do álcool, a autocensura vai embora e eles acabam tendo seu primeiro intercurso amoroso.
A história narrada no livro, ao longo dos vinte anos seguintes, em que os encontros entre ambos são esporádicos e com intervalos irregulares, é a de um amor verdadeiro e profundo, mas que, como já foi dito, é “ O amor que não ousa dizer seu nome”.[10]
Ennis não tem condições sequer de assumir para si mesmo o que sente por Jack, uma vez que, quando criança, o pai o levou para ver o que havia acontecido com um idoso, que vivia com seu companheiro. O casal de cowboys homossexuais havia desconsiderado o tabu, o preconceito então reinante, e ousado viver seu sentimento.
Richard Miskolci nos coloca: “Ennis relata que na infância sabia de um casal de homens que, apesar de sérios e trabalhadores, eram motivo de piada em sua comunidade. Um dia, seu pai o levou para o ver o cadáver de um deles, o qual fora assassinado e jogado no canal de irrigação. Segundo Ennis, provavelmente seu pai fizera o serviço. Assim, pondera que dois homens não podem viver juntos e só lhes resta se conformarem a encontros esporádicos na montanha.”[11]
Os dois idosos se chamavam Earl e Rich.
Earl foi o que encontraram morto numa vala, quando Ennis tinha nove anos de idade. O acertaram com uma chave de roda (informação que será importante ao final da história) e o arrastaram pelo pênis.
Ennis, então apenas uma criança, ficou muito assustado. Certamente podemos falar em stress pós-traumático experimentado por ele. Pelo resto da vida, viveu em pânico, aterrorizado pela hipótese que alguém desconfiasse dele. Isto é o que explica o seu silêncio.
Em relação às roupas, elas aparecem logo no início da história, no primeiro parágrafo:
“(...)As camisas dependuradas num prego tremem um pouco na corrente de ar. Ele se levanta, coçando a área cinzenta de barriga e pelos pubianos, vai arrastando os pés até o fogareiro a gás, passa o café velho para uma panela de esmalte lascada que o azul da chama envolve. Abre a torneira e urina na pia, veste a camisa e o jeans, calça as botas surradas, batendo o salto no chão para calçá-las até o fim.”[12]
As duas camisas, “dependuradas num prego”, que são quase personagens do enredo, fazem aqui sua primeira aparição. O leitor ainda não sabe o que elas significam, mas elas são apontadas no mesmo momento em que é descrita a maneira como Ennis del Mar se veste (jeans e botas justas) e em que ele é caracterizado como homem rude, rústico e viril, que coça os pelos púbicos e urina na pia. A erotização é evidente.
É Gilda de Mello e Souza quem coloca que “quando a curiosidade sexual se contém sob o puritanismo dos costumes de uma sociedade burguesa, a moda descobrirá meios de, sem ofender a moral reinante, satisfazer um impulso reprimido.”[13]
Roupa e costume, como vemos, estão juntas e nos ajudam a visualizar a cena que está sendo pintada. Escrever uma obra literária é mais ou menos como pintar um quadro ou bordar uma tapeçaria, já que cada elemento colocado acrescenta detalhes e nuances ao campo de visão do leitor ou observador.
Já ao descrever Jack Twist, ficam evidentes estes detalhes: “Era apaixonado pela vida de rodeio e apertava o cinto com uma fivela pequena com um boiadeiro em cima de um touro, mas suas botas eram surradas demais, tão furadas que não tinham mais conserto, e ele estava louco para se ver em qualquer lugar que não fosse Lightning Flat.”[14]
Tanto a descrição de suas roupas, quanto da ausência de parte delas, denotam o caráter de ambos e ajudam a compor o panorama da sedução, do encantamento gerado entre eles, como observamos no trecho, que descreve o banho de Ennis no acampamento da montanha, transcrito a seguir:
“- Bem, vou lavar tudo o que der para eu alcançar – disse tirando as botas e o jeans (nada de cuecas, nada de meias, Jack reparou), espirrando a água do esfregão para todo lado, até o fogo chiar.”[15]
O inevitável acontece. Ennis e Jack acabam se envolvendo sexualmente e a cena é descrita pela autora com riqueza de detalhes.
“O slogan "O amor é uma força da natureza" soma-se à crua primeira cena de sexo (reproduzida do conto) de forma a essencializar o amor entre os jovens. É como se longe da civilização aflorassem sentimentos mais naturais e, portanto, mais puros. Tais associações fazem parte do vocabulário imagético ocidental ao menos desde Rousseau, mas mal encobrem o fato de que, distantes de tudo e de todos, as normas sociais são suspensas e isso é o que permite o envolvimento amoroso dos rapazes.”[16]
Eles acabam repetindo o feito inúmeras vezes. A sua distração em relação ao trabalho, somada ao crescente interesse de um pelo outro acaba acarretando, por exemplo, que várias ovelhas tenham sido perdidas ou dispersadas, obrigando-os a fazer negócios com um chileno, para repor parte do rebanho.
A maneira como o envolvimento puramente sexual se converte em amoroso/afetivo, é descrita por MISKOLCI: “O trabalho duro, a alimentação ruim e a solidão na montanha aproximam o introvertido Ennis do mais expansivo Jack, até que, após uma noite de embriaguez, fazem sexo. No dia seguinte, Ennis afirma que aquilo terminava ali. Jack observa: "Isto não interessa a mais ninguém além de nós". Ennis diz que "ain't no queer", ou seja, não era nenhum anormal ou bicha. O outro também diz que não. Na mesma noite, Ennis procura Jack na cabana, pede desculpas e, dessa vez, eles fazem amor. Assim, passam do encontro físico para o amoroso e iniciam a relação que marcará suas vidas.”[17]
O contratante, que os observara todo o tempo utilizando-se de um binóculo [18], ordena que desmontem o acampamento um mês antes do combinado e retornem. Ennis culpabiliza Jack e eles acabam tendo uma briga onde ambos ficam feridos.
“Os amigos retornam para a planície. Aparentemente, aquela relação terminaria em meio às sanções sociais. Isso parece corroborado quando, após a contagem das ovelhas, os amigos se despedem sem trocar nem um aperto de mão. Pelo retrovisor de sua caminhonete velha, Jack observa Ennis seguindo pela estrada. O que não vê é a dor que se apodera do caminhante, uma verdadeira reação de corpo e alma que o leva a procurar um canto na estrada pensando que vai vomitar, mas termina por chorar escondido e esmurra a parede diante do sofrimento da separação.”[19]
Quatro anos se passam desde seu idílio na montanha Brokeback. Ennis está casado com Alma e tem duas meninas. Jack também se casou e tem um filho. O contato entre eles foi restabelecido por iniciativa de Jack, que primeiro escreve e depois vai visitar Ennis.
Mais uma vez, a roupa e o costume desempenham o papel de ajudar a construir não apenas o personagem, mas também compor a cena.
“Ennis, vestido com sua melhor camisa, branca com listras pretas largas, não sabia a que horas Jack chegaria (...).”[20]
Como vemos, a exemplo do que apontava Gilda de Mello e Souza, em 1967, mesmo para os cowboys, a moda havia sofrido uma ligeira mudança, saindo da tradicional camisa de flanela xadrez para o listrado. É a influência da moda. Um pouco mais adiante, quando se beijam furtivamente na escadaria da casa de Ennis, é revelado também que Jack deixara a barba crescer. É a influência do costume.
“Por outro lado, como as mudanças da moda ligam-se a transformações mais vastas e completas, do modo de ser, sentir e pensar de uma sociedade, o verdadeiro significado da sua franca adoção nos escapa.”[21]
A fivela de cowboy de Jack, igualmente influência do costume, é utilizada, no quarto de Motel onde ele e Ennis tem um intercurso amoroso, para que ele descreva a maneira como ganhou dinheiro em rodeios no Texas e como conheceu Lureen, sua esposa, mãe de seu filho.
Devido ao desgaste da relação, falta de sexo e desconfiança por parte de Alma em relação aos cada vez mais constantes e próximos encontros entre Ennis e Jack, ocorre o divórcio e ela se casa pela segunda vez, com Bill, um próspero comerciante.
Ennis é convidado para o almoço de Ação de Graças em casa de Alma e Bill. As suas filhas estão presentes. Após o almoço, na cozinha, estão apenas Ennis e Alma. Então, numa conversa minuciosamente descrita no livro, ela deixa bem claro que sabia perfeitamente da natureza do relacionamento entre Ennis e Jack.
Como era de se esperar, ele nega tudo e tem uma reação violenta.
O tempo passa para todos nós, até para os protagonistas de obras de literatura.
”Eles já não eram mais jovens com a vida inteira pela frente. Jack encorpara nos ombros e nas coxas. Ennis continuava magro como um varapau, andava de botas surradas, jeans e camisa fosse verão ou inverno, acrescentava um casaco de lona quando o tempo estava frio.(...)”[22]
A história segue até 1983, exatos 20 anos depois do seu início. Neste intervalo de tempo o sogro de Jack morreu, sua esposa Lureen herdou os negócios do pai e se revelou um gênio administrativo. Jack estava relegado ao papel de coadjuvante, com um vago cargo administrativo.
A moda mudou e Jack Twist, enriquecido, se rendeu a ela: “Um leve sotaque texano temperava suas frases. Mandou restaurar os dentes da frente, disse não ter sentido dor nenhuma, e, para terminar o serviço, deixou crescer um farto bigode.”[23]
Em maio de 1983 Ennis e Jack fazem uma viagem diferente, para uma série de laguinhos congelados. Neste bioma, que é bem diferente da Montanha Brokeback, eles tem uma longa conversa que será decisiva em suas vidas.
Jack não tolera mais esta situação indefinida, estes encontros sazonais. Ele deseja viver com Ennis, assumindo todas as consequências advindas de sua decisão. Já Ennis, como nos lembramos, não consegue sequer cogitar semelhante hipótese, temendo pela integridade física, ou mesmo pela vida de ambos.
Jack acaba revelando a Ennis que já esteve no México, o que o deixa extremamente enciumado.[24]
Em novembro, Ennis recebe de volta pelo correio um cartão postal que enviara a Jack com o carimbo “falecido”.
Ele se enche de coragem e telefona para a casa de Jack.
Lureen atende o telefone e lhe conta, muito calmamente, que Jack estava enchendo um pneu do caminhão numa estrada secundária e o pneu explodiu. Com a força da explosão, o aro voou na sua cara e lhe quebrou o nariz e a mandíbula. Ele caiu, e morreu afogado no próprio sangue.
Embora nada na fala de Lureen indicasse isso, imediatamente Ennis se lembra do velho Earl e tem a convicção íntima de que o pegaram com a chave de roda.
Jack só tinha 39 anos e desejava ser cremado, sendo as cinzas espalhadas na Montanha Brokeback. Lureen disse que não sabia onde a montanha ficava, então, ficara com metade das cinzas e a outra metade enviara aos pais dele.
Tendo finalmente adquirido postura e ido visitar os pais de Jack, após a sua morte, Ennis percebe que o pai dele se parece com o seu próprio pai, em relação ao comportamento.
O velho deixa claro, pelas suas falas e atitudes, que entendia perfeitamente a natureza do relacionamento que ambos levavam. Ele inclusive reproduz falas de Jack em que ele dizia textualmente que traria Ennis para morar com ele e ambos tomariam conta da fazenda.
Como isso nunca aconteceu (e nós, leitores, sabemos da conversa de Ennis e Jack em maio), na primavera Jack conseguira um novo companheiro e colocara como meta ambos se separarem das respectivas mulheres e virem tomar conta da fazenda.
Neste momento, Ennis teve convicção de que acertara em relação à hipótese da chave de roda. A morte de Jack fora encomendada por Lureen, que não desejava o ônus de um divórcio.
A mãe de Jack, ao contrário do pai, se demonstra extremamente dócil. Coloca que o filho sempre vinha ajudá-los na fazenda e que, por isso, havia mantido o quarto dele exatamente como era. Oferece a Ennis a oportunidade de conhecer o quarto de Jack.
O livro narra como Ennis estabeleceu uma espécie de cumplicidade silenciosa com a mãe de Jack, o que é explicado por MISKOLCI: “Historicamente, as mulheres tornaram-se mais sensíveis a sinais não-verbais, aprenderam a identificar melhor uma emoção não representada verbalmente e decifrar o que está implícito em um diálogo.”[25]
Ennis vai ao quarto de Jack e vasculha seu armário.
“No lado norte do armário, um discreto desvio na parede criava um pequeno esconderijo, e ali, dura depois de muito tempo pendurada num prego, estava uma camisa. Ele tirou-a do prego. A velha camisa de Jack da época da Brokeback. O sangue seco na manga era seu próprio sangue, um sangramento nasal violento na última tarde na montanha quando Jack, naquele agarramento contorcionista deles, deu uma joelhada violenta no nariz de Ennis. Ele estancara o sangue, que já ensanguentava tudo em volta e cada um deles, com a manga da camisa (...).
A camisa parecia pesada até ele ver que havia outra dentro dela, as mangas cuidadosamente vestidas nas mangas das de Jack. Era a sua camisa xadrez, perdida, achava ele, muito tempo atrás em alguma lavanderia, o bolso rasgado, faltando botões, roubada por Jack e escondida ali dentro da outra, duas em uma (...).”[26]
As camisas guardadas juntas, escondidas num local secreto do armário, uma dentro da outra. O sangue nunca removido. O significado é bastante evidente: para Jack, estavam unidos para sempre, como se fossem laços de sangue.
Quase no final da história, a camisa de Jack reaparece, após Ennis ter encomendado um cartão postal da Montanha Brokeback, na loja de presentes de Linda Higgins.
“Quando o cartão chegou – trinta centavos -, ele o espetou no reboque com um percevejo de latão em cada canto. Embaixo, bateu um prego e, no prego, pendurou o cabide de madeira com as duas camisas velhas. Recuou e olhou o conjunto, algumas lágrimas lhe ardendo nos olhos.
- Jack, eu juro... – disse, embora Jack nunca lhe tivesse pedido juramento nenhum nem fosse do tipo que fazia juras.”[27]
Ao contrário do filme, que termina aqui, o conto original é infinitamente mais triste e sofrido para Ennis.
Na sequência, ele passa a sonhar com Jack, tal como ele era quando se conheceram em 1963. É relatado que às vezes ele acordava triste, às vezes com a antiga sensação de alegria e alívio; às vezes o travesseiro molhado, outras vezes o lençol (ou seja, alternando lágrimas e polução noturna).
Convém encerrar aqui, exatamente como o conto se encerra. Então, transcrevemos o último parágrafo:
“Havia um espaço aberto entre aquilo que ele sabia e aquilo em que tentava acreditar, mas nada se podia fazer a respeito, e, se não dá para consertar, a gente tem que aguentar.”[28]
NOTAS:
[1] Citação de Alexandre Eulálio, na introdução de SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas. São Paulo: Cia. das Letras , 1987, p. 9
[2] PROULX, Annie. O Segredo de Brokeback Mountain. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2006.
[3] SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
[4] FERREIRA, A. Maccari. A relevância da literatura como missão histórica. http://jararaca.ufsm.br/websites/rila/download/RILA-6/Resenha6_2.pdf, acesso 23/02/2014, 21h47.
[5] SEVCENKO, Nicolau. Op. Cit., p. 299.
[6] PROULX, Annie. Op. Cit.
[7] SOUZA, Gilda de Mello e. Op. Cit., p. 29.
[8] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 19.
[9] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 20.
[10] O amor que não ousa dizer seu nome ("The love that dare not speak its name", no original em língua inglesa) é uma frase da linha final do poema "Two Loves" ("Dois Amantes") de Lorde Aldfred Douglas, escrita em setembro de 1892 e publicada na revista de Oxford The Chameleon em dezembro de 1894. Tornou-se uma expressão notável ao ser mencionada por Oscar Wilde como eufemismo ou metáfora para homossexualidade no processo em que foi condenado por atos homossexuais envolvendo sua relação com Douglas. The meaning and origin of the expression: The love that dare not speak its name. phrases.org.uk. Consultado em 23/03/2021.
[11] MISKOLCI, Richard. O segredo de Brokeback Mountain ou o amor que ainda não diz seu nome. https://www.scielo.br/j/ref/a/VqMPV3NPmrFGfcJBjs3VK8z/, acesso em 24/02/2024, 00h21.
[12] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 5
[13] SOUZA, Gilda de Mello e. Op. Cit., p. 25.
[14] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 11.
[15] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 15.
[16] MISKOLCI, Richard. Op. Cit.
[17] MISKOLCI, Richard. Op. Cit.
[18] “O idílio na montanha é ameaçado com a descoberta de sua relação pelo contratante que os observa pelo binóculo. Assim, o isolamento e a distância deles no acampamento se revelam ao espectador uma ilusão de proteção sem a qual talvez não tivessem se envolvido. A ordem para que desmontem o acampamento e tragam o rebanho de volta para a planície um mês antes do combinado é mal recebida por Ennis, cujo mau humor o leva a iniciar uma briga em que ambos saem feridos e com as camisas manchadas de sangue.” - MISKOLCI, Richard. Op. Cit.
[19] MISKOLCI, Richard. Op. Cit.
[20] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 26
[21] SOUZA, Gilda de Mello e. Op. Cit., p. 23.
[22] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 43
[23] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 44
[24] É pressuposto entre eles que no México se consegue facilmente um garoto de programa. No livro isso fica bem claro.
[25] MISKOLCI, Richard. Op. Cit.
[26] PROULX, Annie. Op. Cit., pp. 62-63.
[27] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 66
[28] PROULX, Annie. Op. Cit., p. 67
BIBLIOGRAFIA:
CAPPELLANO, L. C. “Vamos falar de Moda?” in: FESB Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista. Bragança Paulista. Revista Gabarito, ano I, Edição 1, abril de 2005, pp 31-34.
FERREIRA, A. Maccari. A relevância da literatura como missão histórica. http://jararaca.ufsm.br/websites/rila/download/RILA-6/Resenha6_2.pdf, acesso 23/02/2014, 21h47.
MISKOLCI, Richard. O segredo de Brokeback Mountain ou o amor que ainda não diz seu nome. https://www.scielo.br/j/ref/a/VqMPV3NPmrFGfcJBjs3VK8z/, acesso em 24/02/2024, 00h21.
PROULX, Annie. O Segredo de Brokeback Mountain. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro, Ed. Intrínseca, 2006.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas. São Paulo: Cia. das Letras , 1987.