Crônica antiga
Me lembro de uma "arte" que eu fiz quando era bem criança, devia ter uns 6 anos...
Havia uma prima bem gordona (a história se passa lá por 1972, então posso dizer que a minha prima "M." era gordona, não preciso dizer "gordinha", "cheinha" nem nada disso, na época dizíamos gordona, sem aspas inclusive) que fazia as suas festas de aniversário todos os anos em um orfanato. O motivo era proporcionar que as crianças do orfanato participassem da festa, comendo bolo e salgadinhos e brincando com as crianças do "mundo lá fora". Era uma prática comum naquela época.
Também comuns naquela época eram a Igreja de esquerda, a Teologia da Libertação e as freiras que não usavam mais hábito, apenas saia reta (azul, cinza ou marrom, dependendo da congregação a qual pertenciam) e blusa branca.
A "freira sem hábito" que cuidava das crianças, a "irmã J." (envolvida em outras interfaces com a família, como verão a seguir), visivelmente usava peruca. Neste dia, em que minhas tias A. e L. nos levaram cedo para a festa e a freira ainda não havia descido, resolvi "fazer arte"...
Subi até o quarto que a freira dividia com as meninas e, uma vez constatado que ela estava no banheiro e que a peruca estava no "peruqueiro", corri até a peruca, a enchi de talco, chacoalhei no ar e depois a entreguei a um ruidoso cachorrinho pequinês que lá havia...
- Totó, Totó...Vem cá Totó ...
Chamei o cachorrinho e chacoalhei a peruca para ele como se fosse um bichinho...Pronto! O Totó pegou a peruca, começou a mordê-la e arrastá-la no chão.
Desci para festa, como se nada tivesse acontecido e, cinicamente, fiz de conta que não sabia o por que da comoção que se instalou no estabelecimento.
Passaram-se as semanas, os meses, os anos, as décadas...
Eu já era um adulto jovem e lecionava na mesma escola onde eu e meus irmãos havíamos estudado, bem como minha "nona" Ignez, e onde minha mãe e algumas irmãs também lecionaram. A tia A. era então minha diretora e eu, lembrando da história, resolvi contar...
- Tia A., tenho algo para contar...Lembra da história da peruca da irmã J.?
- Lembro... Foi você, não foi?
Fiquei surpreso...
- Você já sabia? Como?
Fiquei mais surpreso ainda logo a seguir, porque a tia A. também contou uma história.
Ela, bem como a tia L. e minha mãe, brincavam com as meninas do Educandário, na quadra seguinte à casa onde elas cresceram e onde era o açougue do meu "nono". Ela inclusive frequentava a missa na capela do Educandário, onde a irmã J. controlava o ritmo do passo das meninas batendo com seu anel de pedra, de forma compassada no banco.
Na época da tia A., dezesseis anos mais velha do que eu apenas, as freiras usavam hábito pesado e aquela espécie de "casquete" na cabeça.
Certo domingo, quando a tia A. tinha uns 12 anos, ela resolveu que iria provar a todos que a irmã J. (a qual havia sido colega de escola de minha avó paterna) era careca.
No momento da comunhão, enquanto a freira batia com a anel no banco, a tia A. se posicionou na fila atrás das meninas do Educandário e "tchum" arrancou a casquete da cabeça da freira!
De fato ela era careca!
CRÔNICA DO ÔNIBUS
Em pé no ponto de ônibus, hoje pela manhã, esperando o 2.49 (linha que tem muitos ônibus, muito pequenos, com um intervalo bem pequeno, todos extremamente cheios) ou o 2.11 (linha que, ao contrário, tem poucos ônibus, articulados, grandes, com um intervalo dilatadíssimo, e igualmente lotados) e me vem a ideia de escrever sobre a experiência inenarrável de andar diariamente nos ônibus de Campinas.
Inicialmente vou falar sobre os idosos, pois estou a caminho de me tornar um deles!
Sempre digo que assim que eu me aposentar, portanto com 60 anos - idade em que se pode usar transporte público sem pagar - vou ficar no ponto, dar sinal e perguntar ao motorista do primeiro ônibus que parar: “Passa na Prefeitura? ”
Há uns 25 anos mais ou menos, desde que eu morava na Vila Padre Manoel da Nóbrega, que eu vejo todo e qualquer idoso ou idosa que vai entrar num ônibus fazer esta pergunta...Detalhe: muitas vezes é exatamente o mesmo idoso e exatamente a mesma linha de ônibus, o mesmo motorista, no mesmo horário inclusive mas, ao invés de dizer “Bom dia” ou “Boa tarde”, quase como se fosse um cumprimento, o idoso ou idosa põe a cabeça dentro do ônibus e então lá vem a inevitável pergunta: “Passa na Prefeitura?”
Além do idoso que entra há a idosa que sai. Sim, sai pela porta da frente, por onde teoricamente só se entra no ônibus. Você está atrasado esperando, cercado por um enxame de outros tantos seres similares a você, que só querem ir para o trabalho, já fazendo fila na porta do ônibus e, enfim ela se abre e...Bem...Fosse a época em que não éramos obrigados ou formatados pelo politicamente correto e eu diria mais ou menos assim: “Sai cambaleante, quase dependurada, numa lerdeza infinita uma velha caída, acabada, mais prá lá do que prá cá.” Hoje, reino absoluto, quase ditadura, do politicamente correto, sou obrigado a dizer que “Uma idosa sai vagarosamente pela porta de entrada do ônibus”.
Quando por fim a velha, digo, a idosa sai, fazendo com que todos se afastem e desmanchando a fila, consigo mais ou menos entrar no ônibus, Digo mais ou menos porque dependendo da posição em que eu estiver na fila vou ficar dependurado nos degraus da porta de entrada, por uns 2 ou 3 pontos ainda, até que alguns, dentre a multidão que se acotovela após a roleta, decidam enfim descer. Claro que as minhas proporções avantajadas não ajudam, mas isto é uma outra história.
Passando aos tipos pitorescos que povoam os ônibus da nossa cidade há as “girafas”, que são mulheres geralmente loiras, geralmente magras, que entram nos ônibus usando saltos altos e calças agarradas e que esticam tanto os pescoços, para enxergarem por cima das cabeças de todos os demais, que se assemelham mesmo a girafas.
As “girafas” nos olham de cima para baixo, independentemente de qual seja o tamanho delas e qual seja o nosso, pois sentem-se e portam-se como superiores, mais ou menos querendo afirmar que não precisariam estar ali, que é mera casualidade ou convicção estarem se utilizando de transporte público.
Elas fazem questão que todos lhes deem passagem, independentemente do quão cheio o ônibus esteja, pois elas têm a crença mágica, quase religiosa, de que sempre há um banco vago para elas no fundo do ônibus.
Na contramão das “girafas”, extremante humildes, há as “pobres que sentem frio”. Não há como ser politicamente correto ou usar da hipocrisia social brasileira para falar sobre elas, já que a explicação para o frio que sentem não está no clima e sim na problemática social, na divisão da renda e a decorrente organização do espaço. Elas vivem em casas com telhas de zinco e pé direito baixo, construídas em geral com blocos de concreto e, portanto, acostumam-se desde cedo ao calor extremo, de maneira que quando a temperatura está agradável, ou sopra uma leve brisa, já ficam todas “encapotadas”, cruzam os braços, e querem fechar as janelas dos ônibus.
Além das “girafas” e das “pobres que sentem frio” há ainda as “espaçosas”, que são em geral mulheres, de dimensões generosas, que colocam a bolsa (grande) para a frente e a bunda (igualmente grande) para trás, ocupando, portanto, toda a largura do corredor do ônibus, “trancando” a passagem.
Elas não dão passagem e nem dão confiança. Os que pedem passagem podem ser senhoras idosas, crianças, rapazes.... Elas fazem de conta que não veem e não escutam, continuam placidamente no local em que escolheram para ficar.
Há as “manadas” que entram ou saem dos ônibus em pontos específicos, que fazem exatamente o mesmo barulho de cascos batendo nos pavimentos e geram um burburinho idêntico ao do deslocamento dos bovinos.
Fazemos amizades nos ônibus, puxamos conversa, criamos vínculos e, na contramão, paradoxalmente, há pessoas que encontramos quase diariamente, ano após ano, tornam-se para nós tão familiares quanto a paisagem e nós as naturalizamos.
Horas depois, chegamos ao nosso destino e, então, esquecemos completamente como foi a nossa viagem, até que chega a hora de voltar para casa e as coisas acontecem mais ou menos da mesma maneira e assim, todos os dias, temos um tempo, livre e absolutamente ocioso, para refletir e olhar para dentro de nós mesmos, enquanto observamos e refletimos a respeito das pessoas e da paisagem que nos rodeia!
Crônica do olho:
LUIZ CARLOS CAPPELLANO·TERÇA-FEIRA, 23 DE JANEIRO DE 2018
O olho! O olho! Purutaco...
Anos atrás, antes de ser interditada (portanto, antes de estar oficialmente louca) minha sogra operou a catarata do olho direito e ficou em casa se recuperando. Eu cuidei dela duas semanas!
Ela ficava deitada no quarto ou na sala, em frente à televisão e tomava banho sentada em um banquinho.
Foi extremamente bem cuidada e após duas semanas voltou para a própria casa em Mogi Mirim.
Tempos depois, sabe Deus por que, decidiu que precisava fazer laser.
Pagou dois mil reais - o que era uma quantia considerável naquela época - a um “curandeiro particular” e, por imperícia médica, acabou perdendo completamente a visão naquele olho. Foi o início do seu processo de demência...
Ficou obsessiva em relação ao olho...Só falava no olho...Só pensava no olho...
Foi nesta época que fiz a figura que apresento aqui, colocando-a como Santa Luzia, e a remedava como se ela fosse um papagaio: “O olho...O olho...Purutaco!”
Como a Lei do Retorno é um fato da vida (“aqui se faz, aqui se paga”), anos depois, foi a minha vez de passar por uma desastrada cirurgia de catarata no olho direito, a qual acabou me ocasionando descolamento de retina, em apenas dois meses. Como tive o melhor e mais rápido atendimento, proporcionado pelo nosso plano de saúde, não perdi a visão do olho direito.
Hoje, enxergando pouco, já seria necessária uma cirurgia de catarata também no olho esquerdo, a qual não pode ser feita (ainda) porque há risco de descolamento da retina também neste olho!
Agora, sem nenhum pudor, é a minha vez: “O olho...O olho...Purutaco!”
Crônica da Buzina
LUIZ CARLOS CAPPELLANO·QUINTA-FEIRA, 13 DE OUTUBRO DE 2016
Dia 12 de outubro, feriado.
Saindo do condomínio escuto um “buzinaço”...
Um carro branco de rabo, um carro comprido.
Me aproximo e o vidro desce.
Há um casal lá dentro.
Reconheci a mulher, sentada no banco do passageiro, mas não o rapazinho de cavanhaque que dirigia o carro. Ela era uma amiga antiga, aliás, uma das várias amizades dentro da mesma família, a qual eu adotei como “minha família em Campinas”, sendo esta a única “não solteira” entre as irmãs (o que, aliás, me faz lembrar que preciso contar “um causo” - lembrem-me antes da crônica terminar).
Só que esta “não solteira” da “casa das irmãs”, até então, era casada com um senhor gordo, mais ou menos da minha idade e proporção, e não com um rapazinho de cavanhaque! Misericórdia! O que estaria acontecendo? Eu devia ser discreto e tentar fazer crer que não a havia reconhecido para depois, dependendo do desfecho do funesto evento, reconhecê-la ou não, se fosse o caso...
O rapazinho atraente perguntou se eu o havia reconhecido e eu disse que não.
A “não solteira” estranhou. A cara dela denotou que, pra variar, eu cometera alguma gafe. Preciso dizer que isto está longe de ser raro. Na realidade, é até habitual...Fazer o que, neh?
Bem, quando ele se apresentou não me contive!
Não apenas a moça era a “não solteira”, como também o rapazinho era seu marido!
Pois é! Ele se tornara um “upgrade de si mesmo”! Como seria isso possível?
Da última vez que eu o havia visto ele tinha mais ou menos a minha idade e dimensões e agora, visivelmente, aparentava ter a terça parte de ambos os quesitos!!!
Obviamente, depois do equívoco desfeito, pude conversar com naturalidade com o casal! Afh!!! Tem cada uma que são duas!!!
Por falar nisso... Voltando ao “causo” que eu ia contar, certa feita a “irmã”, uma das “não casadas” - que são três irmãs da “não solteira” - a qual sempre trabalhou comigo, foi tomar um taxi na pracinha próxima à Rodoviária.
Quando o motorista a viu deixou o politicamente correto e o cosmopolita de lado e assumiu o lado caipira e pitoresco da Vila Industrial:
- “Ah...A senhora não é uma das três solteironas que mora naquela casa lá embaixo?” E apontou na direção da casa...
Crônica “Almodovariana”
LUIZ CARLOS CAPPELLANO·SEGUNDA, 14 DE NOVEMBRO DE 20164 leituras
Às vezes me recordo do final da adolescência e penso que eu vivia num filme de Almodovar ou então num romance de realismo fantástico latinoamericano, dada a quantidade de pessoas "peculiares" e de acontecimentos "inusitados".
Bem, lembrando da "fauna Almodovariana" que povoava a nossa casa e a casa da minha avó: havia a Dona Magita, argentina de Buenos Aires, que cismou de vender a minha avó uma fábrica de rolhas ! Isso mesmo, fábrica de rolhas em plena década de 1980, quando já quase não se usavam rolhas! Pois bem, "desapareceu" depois da vovó ter lhe emprestado uma boa quantia e quando, depois de alguns anos, eu a vi em São Paulo na varanda do Hotel Hilton, próximo à Praça da República, com seu indisfarçável "cabelo panetone" - que era um cabelo armado à laquê, que havia sido a coqueluche dos anos 60 e nos anos 80 apenas ela ainda usava - fez de conta que não me viu ou não me reconheceu e correu para dentro do Hotel!
Por falar em Argentina, não sei por que, lembrei da Espanha... Havia a D. Vitória, espanhola, casada com o seu Paco. Muito amiga da vovó. Um dia que fazia muito frio eu estava andando pela Rua Rangel Pestana e escuto a indisfarçável buzina do corcel da vovó. Lá vinha ela, dirigindo em 2ª marcha, como sempre fazia, com a bolsa pendurada no afogador do carro. D. Vitória estava sentada ao lado, no banco do passageiro, e o frio era tanto que a vovó havia amarrado um chale cinza ao redor da cabeça e colocado a peruca em cima!!!
Havia a D. Luci, casada com o sr. Waldemar, que certa vez quis fazer sexo anal com ela e, por conta disso, ela juntou umas travessas, alguns panos de prato e foi morar com a minha avó, no quarto de hóspedes, onde viveu alguns anos.
Havia também a D. Jaqueline, francesa que já havia sido riquíssima e que acabou seus dias no mesmo predinho onde minha mãe mora hoje e, segundo dizia a vovó, lhe devendo uma quantia considerável, perdida no jogo (isso mesmo, apesar da proibição, elas jogavam a dinheiro!).
Por falar na jogatina: na casa da minha avó havia uma espécie de edícula, após o orquidário, no quintal. Ela e todas as suas amigas passavam as tardes quentes só de combinação, jogando baralho. Se chegava uma visita de repente era um tal de chale pra cá, pegnoir pra lá...
E havia, acima de todas a Lady Ionetta, uma lésbica grandalhona, que eu não sei por que ninguém comentava que era lésbica e que fumava usando piteira!
Durante a juventude ela havia se dedicado à caça, pesca e acampamento com o irmão, que havia sido amigo do meu pai e após a falência da família, ela e o irmão transformaram a casa em "casa de cômodos" (pensão) onde, segundo meu pai, alugavam quartos para "umas professoras". Já minha mãe dizia que não se lembrava de nenhuma professora e, se elas ensinavam alguma coisa ali, era certamente algo muito específico!
Na maturidade, Lady Ionetta havia se tornado esteticista.
O dia que a conheci cheguei em casa e ela estava na sala de visitas, visivelmente entretida com a minha mãe, fumando com sua longa piteira...
Ela até que ia indo muito bem nos vendendo vários produtos até que eu mesmo descobri que havia leite em pó dentro de algumas cápsulas e que o gel redutor era vicky vaporub!!!
Gente... Hoje em dia não é mais assim. Não há mais velhas "almodovarianas" como minha avó e suas amigas!
Fazem muita falta a este mundo, em meio a tanto conservadorismo e reacionarismo!!!
Crônica Política
LUIZ CARLOS CAPPELLANO·DOMINGO, 6 DE MAIO DE 2018
Carlos Valentino Valtingojer Vera Valtingojer Thais Valtingojer por causa de vocês e da nossa conversa acabei me lembrando deste episódio e, como disse a vocês, é uma boa história que precisava ser contada.
Anos atrás, numa das várias campanhas políticas que presenciei em Bragança Paulista, durante os quase vinte anos em que fui professor da FESB, a franca favorita ao Executivo Municipal era uma candidata da Igreja Renascer em Cristo.
Naquela época “showmício” ainda era permitido e, no último dia em que era possível a sua realização, a candidata preferida do eleitorado montou um mega evento do gênero onde estavam presentes as grandes celebridades gospel, em nível local e regional. Ao final das apresentações, a candidata realizou um discurso que bem caberia como “discurso da vitória” - a qual, até aquele momento era líquida e certa - e encerrou de forma apoteótica com o chavão: “Vamos entregar Bragança para Jesus!”
Nada mais coerente para uma Evangélica neo pentecostal temente a Deus, não fosse o fato de que o seu principal oponente, segundo colocado nas pesquisas, era Jesus Chedid.
As pessoas presentes ao mega “showmício”, pentecostais em sua esmagadora maioria, interpretaram que o Espírito Santo se manifestara através da candidata e a mensagem era extraordinariamente clara: eles deveriam votar em Jesus Chedid!
E assim foi.
Terra arrasada
Não me lembro quem foi que sabiamente afirmou que Napoleão Bonaparte, até então invicto no campo de batalha, não tendo jamais sido derrotado por ninguém, havia enfim capitulado ante ao “general inverno”.
Foi durante a desastrosa campanha russa, quando a corte do czar Alexandre abandonou Moscou e queimou plantações e víveres em todo o percurso desde a fronteira até a cidade. A tática, que ficou conhecida como “terra arrasada”, dizimou rapidamente o exército francês, que morreu de frio, de fome e de doença...
Por duas ou três vezes a orgulhosa “Princesa D’Oeste”, aquela que já foi conhecida como “Cidade das Andorinhas”, teve os seus dias de “terra arrasada”;
Na primeira vez, a cidade - que foi a última em território nacional a dar efetividade à Lei Aurea - ainda estava de luto pelo fim da escravidão e da monarquia com a qual mantinha vínculos estreitos, apesar de muitos republicanos serem campineiros.
Em 1889 uma violenta epidemia de febre amarela quase tirou Campinas do mapa: a maioria da população morreu, sendo sepultada em cova rasa sob os trilhos do trem e os que não morreram fugiram.
Os seus casarões principescos, como o Solar Itapura, fecharam as portas. Na sua imensa catedral, inaugurada apenas em 1883, os sinos silenciaram. Não houve mais bailes, serestas e nem saraus. Os bondes puxados a burro deixaram de circular e as ruas ficaram escuras à noite porque o gás também deixou de circular pelos canos dos lampiões.
No outrora majestoso Teatro São Carlos, inaugurado em 1850, então o maior do interior paulista, o único espetáculo passou a ser o da morte, da degradação e do abandono.
De uma urbe gigantesca, bem maior do que São Paulo na época, Campinas passou a “cidade fantasma”.
Esta foi a primeira vez que se viu a “terra arrasada”.
Já ouvi que no século XX, na época da Revolução Constitucionalista, teria havido uma segunda “terra arrasada”, em um domingo, dia 18 de setembro de 1932, quando inclusive a cidade teria sido bombardeada¹. Esta seria a razão do apito, ou sirene, que toca todos os dias no centro da cidade, às 8h00 e às 18h00.
A terceira “terra arrasada” eu mesmo acabo de presenciar e vivenciar, entre os dias 28 e 30 de maio de 2018.
Dois anos após o Golpe Parlamentar e Judiciário que colocou fim aos 31 anos de Democracia em nosso país e (re)instalou o arbítrio, as ruas novamente ficaram praticamente desertas e muitas pessoas, temendo por sua segurança, não deixaram suas casas.
No dia 28, teimosamente as escolas funcionaram, para dar uma aparência de “normalidade” aos munícipes. O efeito foi exatamente o contrário.
Na escola onde eu atuo houve até mesmo balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, trazendo pânico a toda comunidade escolar, já que os pais que moram perto da unidade passaram a temer pela segurança dos filhos, aos seus olhos, “presos” dentro da escola invadida.
Na sequência, as aulas foram suspensas, na imensa maioria das instituições de ensino. Nestes dias, devido à greve dos caminhoneiros, muitos ficaram sem combustível, sendo que até mesmo os ônibus circularam em horário especial. Houve barricadas e incêndios em vários pontos da cidade.
Foi vista uma pequena e melancólica comitiva, comportando moto e alguns caminhões, a qual, enquanto exibia bandeiras e tocava o hino nacional, suplicava por uma “intervenção militar”.
A incerteza do tempo presente, que leva ao temor do tempo futuro, faz com que muitos busquem refúgio num tempo passado, moldado muito mais pela nostalgia da memória do que pela análise da história. Um passado idealizado, retocado, embelezado, não um passado lembrado, vivido.
E assim os “tristes trópicos” (Claude Lévi-Strauss) seguem na sua eterna sina de, como o caranguejo, darem um passo para a frente e dois para trás...
1. Vide: https://ihggcampinas.org/2017/09/26/o-bombardeio-de-campinas-na-guerrapaulista/
Caduquice Precoce (escrita em 11 de fevereiro de 2019)
O Executivo das três esferas se conjumina ao Legislativo para aprovar a nefasta “Reforma da Previdência” a qual, dependendo de como vier, lançará uma pá de cal em minhas pretensões de aposentadoria.
Após 33 anos ininterruptos de atuação profissional, aguardava eu ingenuamente os 55 anos de idade para poder me aposentar. Neste ínterim, entra em pauta a idade mínima de 65 anos (60 anos para professores)!
Como é possível conceber um profissional da Educação, que atua no Ensino Fundamental e EJA (desde crianças de 10 ou 11 anos até idosos!) lecionando com 60 anos de idade? Apenas quem nunca esteve numa escola pública pode pensar que isto seja possível.
Ainda hoje tive provas suficientes de que já estou “caduco” ... Imaginem daqui há 8 anos!
Acordei um pouco mais tarde do que de costume e, ao consultar o grupo de whatsapp da escola, me dei conta de que havia uma nova versão do horário. Necessário se faz mencionar que o horário do período matutino tem tido versões quase diárias, tornando difícil que nos mantenhamos atualizados.
Tanto pelo horário “antigo” (de 2 dias atrás) quanto pelo “atual” (de hoje de manhã) eu entraria na quarta aula.
Acontece que “quarta aula”, para quem sempre entrou na primeira, é um conceito meio abstrato, meio genérico, nada de concreto. O que seria a quarta aula? Começa às 9h45, após o intervalo dos sextos e sétimos anos, ou às 10h35, após o intervalo dos oitavos e nonos anos?
Optei pela segunda alternativa e me dei mal.
Uma amiga, que conversava comigo no whatsapp, estranhou que eu ainda estivesse em casa. Eu, muito bobo, ainda respondi que entraria apenas na quarta aula.
Para piorar as coisas, parecia que eu iria chegar tarde demais, ainda que fosse para o segundo horário: ônibus atrasados, transito pesado, um caminhão de bebidas “trancando” a rua na entrada do Parque Oziel... Todas as dificuldades do mundo, possíveis e imaginárias.
Ainda assim, cheguei “à tempo”. Em cima da hora, para a aula errada!
Subi correndo as escadas, desenhei 3 piramides e uma esfinge na lousa. Pedi aos alunos que reproduzissem os desenhos no caderno e depois escrevessem pelo menos 5 linhas sobre eles.
Eu me virava para a classe, depois para a lousa, e para a classe de novo. Via os alunos todos meio vermelhinhos, segurando o riso...Não sabia o que estava acontecendo...
Foi então que uma menina muito doce chegou perto de mim, pediu para eu abaixar e cochichou no meu ouvido:
- Professor, estão todos com vontade de dar risada porque o senhor colocou a camiseta ao contrário... Está no avesso.
E eu, discreto como sempre, falei bem alto:
-A minha camiseta está no avesso?
Todos caíram na gargalhada. Riram copiosamente.
De fato eu vestira a camiseta chique, que eu ganhei do meu irmão engenheiro, ao contrário! Estava no avesso!
Atravessei a cidade, dois pontos de ônibus e dois ônibus diferentes com a camiseta no avesso!
Fui até o corredor bem rapidinho, tirei a camiseta e a coloquei do lado certo.
Neste momento chega a professora readaptada, que atua como inspetora de alunos, com o horário na mão e, meio sem jeito, me comunica que a aula é de outra professora e que a minha única aula nesta manha, pela atual versão do horário (de há poucas horas apenas) já havia sido a anterior...Por sorte, a colega foi compreensiva e foi possível desenvolvermos a dupla docência.
Isso tudo hoje, aos 53 anos.
Como eu disse no início: Imaginem só daqui há 8 anos!
O Chafariz:
Escrita em 20/02/2019
Ontem à tarde cochilei e sonhei...
Eu vagava sem rumo pelas ruas e praças da minha infância e juventude. Via e revia lugares, inclusive alguns que nem existem mais, como aqueles chafarizes, que originalmente se destinavam a prover água aos cavalos.
A certa altura, revejo um morador de rua que sempre me assustava quando eu era pequeno. Ele era "leproso", como dizíamos naquele tempo (tinha hanseníase) e andava sempre com a mãe, muito idosa e na mesma condição.
No sonho, ele estava sozinho. A mesma fisionomia, desfigurada pela doença e parcialmente enfaixada, que ele tinha na vida real. Embora eu fugisse dele, foi ele quem me disse:
- Sua casa não existe mais. A casa da sua avó não existe mais. Você não tem mais para onde voltar, no mundo dos sonhos. Por isso, como eu, fica vagando...
Acordei.
Agora eu sei porque são apenas ruas e espaços abertos, quando sonho com o passado.
Caduquice Precoce – parte 2 (escrita em 28 de setembro de 2019)
Vocês devem estar lembrados que há pouco tempo eu lhes contei como atravessei a cidade toda e tomei 2 ônibus com a camiseta no lado avesso e, como se não bastasse isso, entrei na sala errada e na hora errada!
Pois bem, aquela foi a primeira vez, o primeiro dia em que eu me cientifiquei, de fato e de direito, que estou mesmo ficando caduco.
Hoje foi o segundo.
Fui para a escola ainda mais cedo do que o costume (entro às 19h00 às sextas feiras mas, em geral, chego à escola às 17h00, para não pegar ônibus muito cheios) e, algo entre feliz e orgulhoso, atravessei a rua e fui à loja de bolos. Meu objetivo era encomendar o bolo de aniversário do Carlos Eduardo Valim Rocha e da Maria Zanato. Os dois fazem aniversário no mesmo dia e já seria a segunda vez que comemorariam juntos, com um almoço em casa.
A loja pertence à família de um ex-aluno o qual, rapidamente, foi anotando a minha encomenda: um bolo de abacaxi com morango (na minha modesta opinião, o melhor que eles confeccionam) para o próximo sábado, daqui há uma semana. Eu deveria retirar às 11h30 e a obra prima em forma de bolo custaria apenas 44 reais.
Ainda feliz e orgulhoso atravessei a rua e entrei na escola. Contactei o Carlos no Messenger e comuniquei que havia encomendado o bolo.
Foi então que fui surpreendido por uma bofetada de realidade: o aniversário do Carlos e da Zanato é apenas daqui há 40 dias!
Senhor! Já não estava nem feliz e nem orgulhoso. Estava perplexo!
Na realidade, a caduquice é tanta, que nem por um momento eu deixei de saber ou me equivoquei em relação à data do aniversário: 6 de novembro. O problema foi que eu esqueci completamente que existia todo o mês de outubro, entre o dia de hoje e esta comemoração.
Isto é que é vontade que este ano terrível acabe!
Inteligência x Habilidade
Escrita em 4 de outubro de 2019
Hoje, aos 53, quase 54 anos, assumo tranquilamente que nunca fui exatamente "inteligente" (especialmente para os padrões da época em que fui criança e adolescente), tanto que jamais consegui aprender matemática, por mais que meu pai tentasse me ensinar, em longas "aulas particulares", que iam até às 2h00 da manhã, e algumas vezes acabaram até em surras.
Não. Eu não era e não sou "inteligente". Eu era e eu sou extremamente "habilidoso", como muito bem me classificaram minhas tias e minha avó.
A questão toda é que, dependendo quais são suas ambições e os seus objetivos, é muito melhor ser "habilidoso" do que "inteligente".
Meu pai era uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci. Raciocínio lógico-dedutivo ágil, capacidade de síntese e analogia agudas... Ele foi a primeira pessoa a me chamar de "burro" porque, a despeito de todos os seus múltiplos esforços, não aprendi até hoje a extrair a raiz quadrada. Ele não foi feliz e nem realizado. Teria todas as condições para ter sido, mas não foi. Era algo entre o ácido e o azedo e morreu de câncer, após 5 anos de pioras e melhoras, idas e vindas, aos 59 anos.
A mãe dele, pelo contrário, que era muito parecida comigo (ou eu com ela, o que é mais lógico), era plena de habilidade social, de vida e de arte. Pintou, modelou, costurou, fez muito crochê bonito, cozinhou e decorou... Contou histórias deliciosas de se ouvir e piadas "cabeludas". Cultivava amigos e flores com facilidade, jogava baralho e gostava de viajar. Vivia rindo, e até mesmo gargalhando. Morreu de morte natural, de forma absolutamente tranquila e repentina, aos 94 anos.
Criatividade é tão importante quanto o raciocínio e pode ajudar a resolver problemas.
Habilidade linguística e literária permitem acesso à cultura e, desta forma, suprem muitas vezes, e com vantagens, a falta de "inteligência".
Hoje decidiram rebatizar a boa e velha habilidade com outros nomes, como "inteligência emocional", por exemplo. A essência, porém, continua a mesma.
As duas avós
Escrita dia 26/07/2020, dia das avós
Era uma vez duas avós.... Este é o título de um livro infantil escrito por Naumim Aizen com ilustrações da Patricia Gwinner, publicado pela primeira vez em 1980.
Ele fala sobre suas duas avós, muito diferentes entre si, Lucy e Gertrudes, que era conhecida por Alice.
Desde a primeira vez em que entrei em contato com o texto, não pude deixar de perceber a sincronia que existia em relação às minhas próprias avós, a começar pela questão dos nomes, já que a noninha Ignez se chamava Ignez mesmo, mas a vovó Gilda se chamava Hermenegilda!
Tal como a vovó Alice, a minha noninha Ignez tinha uma personalidade melancólica. Pouco ria, apesar de sorrir muito. Quando ria, porém, era de uma maneira contida, baixinho, mas não deixava de iluminar seu rosto.
Ela era extremamente educada, polida. Era uma senhora distinta.
Vovó Gilda era alegre e extrovertida. Tinha muitos amigos, ria o tempo todo. Aliás, ela não ria, ela gargalhava!
Como não tinha medida, mas tinha recebido uma boa educação formal, poderíamos classificá-la como bem educada, mas não era polida. Falava alto, comia muito, gostava de piadas picantes e jogo de baralho...
A justa medida, o meio do caminho, entre as duas personalidades talvez fosse o fiel da balança. Eu, como bom capricorniano que sou, saí à vovó Gilda.
Ambas tiveram dificuldades na vida, de natureza muito diferente. A maneira como cada uma superou estas dificuldades também foi muito diversa.
A noninha Ignez ajudou o nono Hugo com o açougue, cuidou da casa e criou os sete filhos. A vovó Gilda, uma vez viúva, foi empreendedora: teve uma pequena confecção no porão de sua casa, onde fabricava lingeries (nos anos 30!), construiu vilas de casinhas, aplicou na bolsa, comprou e vendeu dólares... No final das contas, casou com um homem muito rico que lhe proporcionou a vida que ela sempre quis.
Talvez seja por isso que meu pai sempre dizia que “a pessoa tem duas chances na vida, quando nasce e quando casa!”
A noninha Ignez nasceu e morreu em Jundiaí. Nasceu na Rua Quinze de Novembro, esquina com Rua São Bento, quando se casou morou algum tempo na Rua Prudente de Moraes, viveu a maior parte da sua vida e morreu morando na Rua Marechal Deodoro, também esquina com Rua São Bento, ou seja, os 74 anos da sua existência transcorreram em um quadrilátero de não mais do que 200 ou no máximo 300 metros de lado.
A vovó Gilda nasceu em Jundiaí, na rua Barão de Jundiaí. Mudou-se com a família para São Paulo onde estudou, se casou com o primeiro marido e teve o único filho. Mudou-se do Braz para a Vila Mariana. Com o segundo casamento passou a morar entre o sítio, o centro de Jundiaí, São Paulo e Santos... Depois de velha sossegou no centro de Jundiaí. Ou seja, mudou-se muito ao longo dos seus 94 anos!
A noninha Ignez teve um único namorado, um único marido, oito filhos, dos quais criou sete, pois o primeiro, Pedro, morreu ainda bebê. Dona Judite, que estudou com ela no Grupo Escolar Conde do Parnaíba, e foi diretora de um Parque Infantil da Prefeitura que eu frequentava quando criança, me disse que ela jamais superou a perda deste primeiro filho.
Vovó Gilda teve vários namorados. Três de uma vez. Casou-se relativamente tarde, para a época, só teve um filho e dois maridos! Viúva duas vezes, tendo criado um filho praticamente sozinha, para ter de enterrá-lo depois de já idosa, poucas vezes a vi triste, bem poucas mesmo.
No quesito religião nenhuma das duas era fanática. Tinham uma postura bem “ecumênica”. Tanto a noninha Ignez - com o seu catolicismo adocicado, onde cabiam muito bem os benzimentos, que ela fazia com azeite, alho, arruda do seu quintal, enquanto pronunciava orações, com o terço na outra mão - quanto a vovó Gilda - com o seu Espiritismo Kardecista, onde cabia um terreiro de Umbanda de vez em quando - nos deram o belo exemplo da tolerância e da boa convivência com a religiosidade e as crenças do nosso povo!
Ambas eram cozinheiras maravilhosas, cada uma com as suas especialidades.
A noninha Ignez era mestra nos pratos do dia a dia. Quando temperava o feijão com alho, cebola, um maço de cheiro verde e outro de coentro, que ela fritava a parte em uma frigideira, o aroma único se espalhava por todo o quarteirão, e todos os vizinhos ficavam com vontade de experimentar! Em ocasiões especiais as suas especialidades eram o nhoque de pão – tradição do Tirol, região de onde era originária sua família, e que a mamãe também preparava com maestria – o cuscuz de forno e o manjar branco, feito com leite de coco, com calda de ameixa preta, além do inesquecível bolo de fubá!
A vovó Gilda preparava todos os domingos pratos sofisticados, sempre em número de sete, em geral originários da ilha de Íschia, no Golfo de Nápoles, de onde viera sua família. Eram lulas refogadas no alho ou então recheadas, peixe assado recheado com camarões, escarolas recheadas com aliche, polpetones com uvas passas, vários tipos de massas, de legumes em escabeche e doces diferentes, como os que confeccionava especialmente para o Natal, vários deles embebidos em mel.
Com a noninha Ignez aprendi que “primeiro a obrigação, depois a diversão”. Tudo na casa dela tinha hora e lugar. Havia medida para todas as coisas. Até porque, como ela criaria sete filhos se não houvesse regras e medidas?
Com a vovó Gilda aprendi o “laissez faire”. Na casa dela não havia medida nenhuma, em nada. Tudo era farto e abundante. Ela se achava no direito e na obrigação de mimar os netos. Os pais que dessem educação!
Na justa medida entre as duas orientações, ou a orientação e a falta dela, está a medida do bem viver! Não dá para ser excessivamente rigoroso, mas também não se pode viver sem regras! É necessário que sejamos disciplinados para atingir nossos objetivos.
A “Cachorro”:
Conheço uma pessoa que pode ser chamada de “quase honesta”, ou “quase criminosa” ... Explicando um pouco melhor, digo que ela apenas rouba ou aplica golpes em parentes, nunca em estranhos!
Até onde eu sei a avó materna foi sua primeira vítima.
A idosa possuía duas casas, bem próximas. Residia em uma e alugava a outra.
Por meio de subterfúgios, a “Cachorro” acabou levando a boa avozinha a transferir para ela, em cartório, a casa que alugava, a deixando sem esta renda extra. Pouco tempo depois, tendo a velhinha falecido, foi ao banco receber a aposentadoria dela:
- “Dona R., tem alguma coisa errada aqui. Preciso ir lá dentro consultar meus superiores.” Disse a caixa do banco.
- “Ah tah... Preciso tomar um copo d’água!” Disse a “Cachorro”.
Foi embora e nunca mais voltou naquele banco.
Questões imobiliárias sempre foram a sua especialidade e predileção, como demonstra aquela vez que ela deixou de enviar a parte devida do aluguel ao irmão, pretextando que havia sido assaltada por uma cigana, na saída do banco!
Há quem diga, até hoje, que ela tinha uma saia comprida vermelha, bem rodada, com correntes e moedas penduradas na frente!
Em épocas mais recentes, ainda na área imobiliária, digamos assim, ela conseguiu vender a chácara que seu pai possuía, fez também um empréstimo consignado em nome da mãe, e comprou um veículo caro para presentear o namorado!
Mandou cobranças na casa do irmão, fez compras utilizando o CPF do mesmo, mas, entretanto, tentou enganar uma advogada que tratava do inventário do pai, dizendo que o endereço dele era desconhecido e que a sua mãe estava morta!
Sempre os parentes, nunca estranhos! Esta “virtude” ela tem, ninguém pode negar.
A esta altura você leitor já deve estar se perguntando por que ela é chamada “Cachorro”.
Bem, ela tinha um cachorro que tingia de preto com sobra de tinta, toda vez que coloria os próprios cabelos. Arrancou os dentes do pobrezinho, utilizando um alicate, para que ficasse banguela em solidariedade à dona. Todas as vezes em que ela era questionada ou pega em contradição, ou quando não sabia responder alguma pergunta ela simplesmente dizia: “Cachorro”.