Eu tentei a maior parte do tempo esquecer, apagar, até mesmo “maquiar” ou “enfeitar”, mas eu sei que eu fui uma criança “diferente”... Em grande medida, demasiado maduro cognitivamente para a minha idade, mas, paradoxalmente, tremendamente imaturo em relação à afetividade, inseguro emocionalmente.
Havia um forte cordão umbilical em relação à minha mãe que nunca se rompeu. Ela era ao mesmo tempo o meu espelho e o meu modelo, coisa que eu não compreendia muito bem naquele tempo.
Eu gostava de brincar de boneca, inclusive de papel (aquelas que vinham com tesoura e vestidinhos para recortar e brincar), também de brincadeiras tidas como “femininas”. Achava futebol muito chato e julgava tanto as brincadeiras quanto as roupas dos meninos “sem graça”, sem cor e pouco criativas.
Minha mãe, professora, não via problema algum em um filho pequeno gostar de brincar com bonecas. Já meu pai, engenheiro, homem das ciências exatas, enxergava a situação como potencialmente “perigosa” ou “delicada”.
Muitas vezes, tanto acordado quanto em sonhos (onde eu inclusive voava!) pensava que talvez eu fosse uma menina. Mas não era. Eu era um menino. Era apenas um menino “diferente”, fora do padrão esperado na época.
Ainda bem pequeno, conforme era costume naquele tempo (inclusive aconselhado pelos médicos e literatura para pais, sobre criação de filhos, que meus pais consumiam) eu tomava banho junto com o meu pai. Nestas ocasiões, longe de acontecer a “identificação” que os especialistas pretendiam que houvesse, eu ficava admirando o corpo dele, que eu achava lindo! Meu pai foi um homem muito bonito. Me lembro perfeitamente bem, até hoje, do seu corpo harmônico e bem torneado, todo molhado, e dos seus pêlos pretos se destacando do branco da espuma.
Jamais comentei isso com absolutamente ninguém. Até procurei esquecer. Mesmo bem pequeno, eu tinha vontade de tocar os genitais dele e verbalizei isso, lhe pedi. Hoje, após a escrita deste texto, catártico e terapêutico, finalmente consigo me lembrar perfeitamente de todo o contexto, ocorrido no banheiro da casa da minha avó, todo em branco e preto (azulejos e gabinete de fórmica brancos, louça e mármores da pia e de separação do box pretos), onde estávamos morando na época. Ele não apenas negou, sem ser rude, mas de maneira firme, que eu tocasse seus genitais, como também nunca mais tomamos banho juntos.
Estas são algumas das lembranças mais queridas e significativas da minha infância. Além do evidente cuidado, carinho e aconchego, de um pai dando banho no filho pequeno, marcam o florescimento, desenvolvimento ou a expressão da minha sexualidade, e inclusive explicam para mim mesmo o porquê do padrão físico de homem que eu busquei a vida toda: alto, moreno, de cabelos e olhos escuros, com pelos e físico definido naturalmente, sem ser “esculpido” por academia.
Na infância, costurar e fazer crochê não me era permitido, embora fossem atividades que minhas irmãs eram estimuladas a realizar.
Como não podia realizar às claras estas atividades, então, eu me escondia no porão e costurava secretamente bonecas de pano com lindos vestidos!
Me utilizava de umas peças de renda e antigas fantasias, que havíamos encontrado em um baú, que poderia também ser chamado de arca.
O detalhe é que, em geral, eu confeccionava vestidos de época, baseados nas novelas que eu assistia, como “A Escrava Isaura” (moda de meados do século XIX), ou “A Sucessora” (moda da década de 1920).
Outro detalhe: mesmo assistir novelas era considerado “pouco masculino” pelo meu pai, que chegou a me proibir de assisti-las.
Uma empregada, chamada Maria, que não tinha um único dente dentro da boca - razão pela qual eu e meus irmãos a chamávamos “Maria Banguela” - denunciou a minha prática à minha mãe, que falou para o meu pai… Juntei então as bonecas e os vestidos, as “provas do crime”, coloquei num saco plástico e enterrei no quintal, com medo de apanhar.
A “Maria Banguela” havia visto a terra revolta e, mais uma vez, denunciou-me. As bonecas foram então desenterradas e, por iniciativa da minha mãe, dadas de presente a uma de suas filhas. Meu pai queria simplesmente queimá-las.
A “coisa” era tão séria para o meu pai que a “Maria Banguela” acabou sendo demitida.
Por que a Maria Banguela foi demitida se, supostamente, ela teria “prestado um serviço” à família me denunciando?
Em primeiro lugar acredito que todos sabiam, e faziam vistas grossas, em relação à minha atividade de confeccionar bonecas. O problema foi quando uma pessoa, de certa forma “exterior” e em condição “inferior” ao núcleo familiar, uma serviçal, na ótica do meu pai, se apoderou da informação. Saber é poder!
Em segundo lugar, enquanto alguém que foi criado em um colégio interno, meu pai odiava “cagueta”, ou “x9”, como chamamos hoje. Sempre teve o mais profundo ódio e asco em relação a delatores de qualquer espécie. Isto ficou especialmente claro na época da Ditadura Militar e algum dia escreverei sobre as posturas que ele teve e manteve durante o regime.
Tanto ele não gostava e não estimulava a delação que, durante a infância, o filho que denunciava um irmão para se livrar de algum castigo apanhava mais que os outros.
Aqui farei uma concessão ao leitor e vou realizar uma explicação que eu não necessitaria fazer para mim mesmo, por já estar demasiadamente acostumado com a questão.
Meu pai estudou no Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana. Um colégio interno tradicional, só para meninos da elite paulistana.
Todos nós, hoje em dia, estamos bastante familiarizados (até em função das inúmeras obras literárias e cinematográficas a respeito) em relação aos vários tipos de relacionamentos que se estabeleciam entre os rapazes nestes colégios.
Havia desde amizades casuais, amizades profundas para a vida toda, relacionamentos românticos platônicos que se transformavam em amizade ou, relacionamentos semelhantes aos dos espartanos, onde a solidariedade e a cumplicidade eram solidificadas através de relacionamentos físicos.
Diante da perspectiva de que era um internato, meu pai certamente deve ter presenciado, ao longo da infância e adolescência, vários de seus colegas envolverem-se emocionalmente ou mesmo fisicamente uns com os outros, ele também teve amigos - sendo que alguns deles para toda a vida - e isto o tornou tolerante. Todas as experiências que vivenciamos, ou os fenômenos que presenciamos, são aprendizados que nos enriquecem e nos aperfeiçoam como seres humanos.
Nas poucas vezes em que meu pai conversou comigo sobre a homossexualidade, muito especialmente quando eu estava com meu primeiro namorado, ele jamais demonstrou estranhamento ou foi homofobico. Pelo contrário, o teor das conversas me levaram a crer que ele sabia muito bem sobre o que estava falando, que conhecia o fenômeno, e que sua única restrição, se é que podemos chamar assim, era em relação ao estigma social que eu poderia sofrer, ou seja, os problemas que eu teria de enfrentar.
Falei da faceta compreensiva e inclusiva do meu pai cedo demais. Esta faceta (que é a que mais me deixou saudades) eu só conheci quando já estava com meus 20 anos. Vamos voltar ao pai extremamente severo, castrador e rigoroso, que eu cheguei praticamente a odiar, com o qual eu convivia no final da infância e início da adolescência.
E por que eu praticamente o odiava no final da infância e início da adolescência?
Exatamente porque ele era conhecedor, pela própria observação enquanto criança e adolescente num internato para meninos, do “amor grego”, ele acreditava que talvez houvesse “cura”, “remédio” ou alguma maneira de “consertar a situação”.
Me mantinha constantemente ocupado com “tarefas masculinas” que iam desde reparos mais simples (conserto em torneiras, canos, fios, eletrodomésticos) até mais complexos como arrebentar paredes e misturar argamassa, procurava não ser muito carinhoso comigo, manter uma postura dura, autoritária…
Como ressaltou, muitos anos depois, minha irmã Ana Luiza, minhas irmãs também aprenderam absolutamente tudo o que ele me ensinou. Ele era acima de tudo um homem prático que julgava que saber nunca era demais e que os conhecimentos práticos da vida diária serviriam para todos os seus cinco filhos, independentemente do gênero.
O que aconteceu que aparentemente a postura dele mudou radicalmente quando eu tinha 20 anos?
Eu lhe apresentei o Carlos, meu namorado.
A homossexualidade deixou de ser presumida e passou a ser assumida. Era já um fato consumado e ele percebeu então que mais nada poderia ser feito a respeito, além de aceitar. E ele aceitou!
Voltando à infância e adolescência, ele não conseguia ser duro e autoritário todo o tempo, logo, por um pouco de tempo, a pintura foi não apenas permitida, mas até estimulada e, portanto, passou a ser um hobby onde eu pude desenvolver minha criatividade e minhas habilidades.
Aos poucos, porém, mesmo a pintura foi encontrando restrições, porque “me distraía do estudo das matérias sérias”. Tudo ficou muito chato e eu não achava graça nas coisas que “ele” queria que eu fizesse, nas matérias que “ele” queria que eu estudasse… Eu gostava de História e Arte e ele só queria que eu estudasse matemática, física e química! Então, sem alternativas, comecei a procurar prazer na comida. Engordei muito!
Foi numa consulta a um endocrinologista que minha mãe disse ao médico: “Ele diz que preferia ser uma menina…”
Deixando claro que, naquele momento específico, a questão do gênero me remetia muito mais a um abrandamento das punições (surras, inclusive com o chicote chamado “rabo de tatu”, ou a cinta) e um incremento nas atividades que me seriam permitidas (como a costura e o crochê por exemplo) do que à sexualidade propriamente dita.
Como eu já disse, meu pai permitia que minhas irmãs executassem todas as atividades então tidas como “masculinas”, pescava com elas, as ensinava a consertar coisas… Achava lindo mulher médica e mulher advogada! Era um homem bastante “feminista” para a época. Paradoxalmente, porém, lhe causava asco eu querer executar atividades tidas como “femininas”.
O fato de minha mãe ter revelado o meu “segredo” ao médico “quebrou” algo dentro de mim. Na minha cabeça, ela havia exposto algo que eu havia dito a ela confiando que ficaria entre nós ou, pelo menos, apenas em família…
Fiquei muito envergonhado e, por muitos anos, a minha suposta disforia de gênero foi oculta sob uma densa camada de gordura!
Quando pré adolescente , obeso, disforme e cheio de traumas, eu tive um grande amigo, parceiro, confidente, companheiro… Ele me ajudou a me sentir mais “humano”, mais “normal”, porque me aceitou exatamente do jeito que eu era. Não me discriminou e nem colocou apelidos.
Eu gostava de ir à casa dele, de comer com a família dele, até dormi ali algumas vezes. Conheci sua avó, suas tias, seus primos…
Íamos à pé até o bairro do Castanho, ao sítio de um tio dele. Nadavamos nos lagos e nas nascentes, fazíamos grandes passeios a pé. Conversávamos sobre absolutamente tudo!
Eu com certeza, por volta dos 12 ou 13 anos, sentia atração sexual por ele, mas, como eu já sabia que não era correspondido, ou seja, que ele não sentia atração sexual por meninos, só por meninas, continuávamos a ser “apenas” os melhores amigos um do outro.
Meus pais - em especial minha mãe, superprotetora em relação ao seu primogênito, como ela sempre me denominou - interpretaram mal algumas informações e sinalizações e acharam que ele era meu namorado… Não era! Nunca foi!
Ela, minha mãe, com certeza absoluta, dada a completa empatia que sempre existiu entre nós, havia percebido que eu sentia atração física por ele, o meu amigo, e como ela me adorava - a ponto de muitas pessoas dizerem que eu fui tratado, a maior parte da minha vida, como se fosse filho único - certamente não poderia admitir que eu não estava sendo correspondido. Eis o que se passou na cabeça da mamãe!
Sem que eu soubesse, certamente por iniciativa da minha mãe, houve uma reunião na escola, com professores e os pais do meu amigo. Tudo muito sigiloso. Tão sigiloso que nem mesmo eu, o maior interessado, fiquei sabendo! Descobri por uma colega de classe, para quem meu amigo confidenciou o que havia acontecido. Ela só me contou muitos anos depois, quando já éramos todos adultos!
Até imagino a cena. Minha mãe certamente foi de tailleur e saltos altos, toda elegante. Com toda certeza, em algum momento, terá dito pausadamente seu nome por extenso… Ela sempre faz isso, até hoje, quando quer se empoderar. Meu pai, por sua vez, polido e distante, com certeza absoluta, mais ouviu e refletiu do que falou. Os pais do meu amigo, gente boa, simples, trabalhadora e acolhedora, estavam certamente envergonhados… Fico muito triste e sinto a mais profunda “vergonha alheia” em imaginar hoje esta situação.
Em grande medida foi este ar de “grande dama” da minha mãe, a recordação dela pronunciando devagar e com ênfase o seu nome por extenso, que me fez procurar ser cada vez mais humilde, seguindo pela vida preferindo sempre a amizade e a convivência das pessoas mais simples.
A postura do meu pai veio com o nascimento e, por isso mesmo, exatamente como no caso da mãe dele, minha avó, era natural e discreta, sem ostentação ou afetação. Nasceram ricos. Já minha mãe, que adquiriu status social através do casamento, até hoje faz questão absoluta de explicitar a sua “qualidade”, mesmo diante da cuidadora que lhe provê as necessidades mais básicas, como por exemplo realizar sua higiene íntima.
Não me lembro jamais de minha avó precisar dizer a alguém que a servia: “Esta é a minha casa, você é a minha empregada! Sou eu quem mando aqui!”
Várias vezes ao longo da vida, inclusive até bem recentemente, já muito idosa e com Alzheimer, presenciei minha mãe utilizar exatamente esta frase.
Como eu tinha explicado antes, minha avó já nasceu rica. Havia algo na sua postura que demonstrava, de forma muito suave e absolutamente natural, sem precisar jamais ser dito, que ela era a patroa. Sua autoridade ninguém discutia. Ela era inclusive carinhosa com as empregadas.
Sou sincero em colocar hoje, do fundo da minha insignificância, que esta necessidade de autoafirmação da minha mãe, afetada e artificial, em relação a quem a serve, sempre me envergonha profundamente. Mas é algo que se tornou tão natural para ela que é quase como se fosse uma segunda pele… Especialmente agora, próxima aos 90 anos e com diagnóstico de Alzheimer há 11 anos, não dá mais para discutir, conversar sobre isso ou tentar modificar este comportamento. Cabe só aceitação e resignação.
Da mesma maneira que ela havia sido um modelo e um espelho no qual eu me enxergava, na minha infância, foi também uma imagem da qual eu gradativamente fui me distanciando cada vez mais na vida adulta.
Minha mãe pode até ter sido um ponto de partida, mas eu fiz questão absoluta de garantir que não seria jamais um ponto de chegada.
Voltando à fatídica reunião, lá no início da década de 1980, os adultos decidiram por mim, no intuito de “me proteger” (do que? de quem?), que eu e o meu amigo não teríamos mais contato. Não nos falaríamos nunca mais e, inclusive, nem iríamos estudar mais na mesma sala! Ele mudou até de período.
Me lembro de, durante muitos anos, ficar andando à esmo pela cidade, procurando lembranças da nossa amizade, dos lugares que havíamos estado juntos. Não encontrei nada. Só silêncio.
Passaram-se muitos anos, entrei na UNICAMP e, por este simples fato, como que por encanto, muitos dos meus “problemas” simplesmente desapareceram por completo. Pela primeira vez na vida, meu pai teve orgulho de algo que eu fiz ou de algo que eu consegui. Isto me fez muito bem!
Como num passe de mágica, da noite para o dia, emagreci cerca de 36 kg, frequentei academia e fiquei muito bonito. Passei a ser notado e desejado, tanto por moças quanto por rapazes, que era o que realmente me interessava.
Me lembro perfeitamente do carnaval de 1986 quando me fantasiei de grego, com uma sainha bem curtinha.
Ao lado de onde morávamos havia a Escola Duque de Caxias, cujo proprietário, anos depois, acabou comprando e demolindo nossa casa para ampliar o seu negócio.
O filho do proprietário era um rapaz loiro, atlético e muito lindo. Tinha hipnóticos olhos verdes, corpo perfeito e bem torneado. Ele era jogador de futebol e desfilava pela cidade, sempre acompanhado de alguma garota que fosse bonita, modelo ou manequim, num Escort xr-3 conversível, o carro da moda.
Pois bem, no Clube Jundiaiense, no carnaval de 1986, pela primeira vez na vida, ele ficou um bom tempo conversando comigo, de igual para igual. Mesmo que ele não tenha demonstrado nenhum interesse físico em relação a minha pessoa, o tratamento igualitário empregado me fez sentir tão lindo quanto ele!
Foi só então que eu tive de verdade um namoradinho. Curiosamente, talvez porque ele era baixinho e bem feinho, desta vez minha mãe achou que era “só” meu amigo… Não era!
Não ocorreram grandes “peripécias sexuais” entre nós, mas havia grande intimidade.
E assim, entre “trocas de sinais”, como na matemática, positivo virando negativo e negativo virando positivo, fui amadurecendo e tentando me equilibrar neste jogo difícil que é a vida, uma equação que nunca fecha!
Quando me apaixonei de verdade, em outubro de 1987, foi de uma forma tão intensa e tão obsessiva que me tornei tóxico. O objeto da minha paixão teve de fugir de mim, inclusive mudando de cidade!
Nunca o esqueci. O seu cheiro, os seus cabelos, o seu corpo perfeito, os seus olhos amendoados, o seu sorriso! O beijo quente, o abraço forte, o sexo viril! Sim, enfim sexo! Sexo adulto, completo, consensual e prazeroso.
Passear de mãos dadas pelo centro de São Paulo, ficar abraçadinhos no metrô… Comer nhoque no Gato que Ri (Largo do Arouche) e, principalmente, andar pela cidade na garupa da moto!
Eu era, enfim, FELIZ e me sentia PLENO! Nada mais importava! Eu só queria estar com ele! Mais nada!
Repentinamente, o céu anuviou. Apenas um mês e meio depois, tudo acabou… O sonho virou pesadelo e ele demonstrou, de todas as formas que foram possíveis, que não queria mais nenhum tipo de contato comigo.
Anos depois, ponderei que o motivo pode ter sido uma conversa que ele teve a sós com o meu pai. O certo é que eu não deveria tê-lo levado em casa tão no início do namoro, mas, na época, como eu poderia saber?
Eu insisti tanto, implorei tanto, chorei tanto que ele, mais por piedade do que por qualquer outro motivo, manteve ainda por um ano, uma relativa e tênue “amizade”. Fomos juntos ao “Baile do Havaí” de 1988 e depois viajamos de carro ao Rio de Janeiro.
Um tempo depois, fui visitá-lo, quando já estava de volta à sua cidade de origem. Foi outro imenso erro que eu cometi. Foi depois desta visita que aconteceu a cisão definitiva.
Bateu o desespero, o desencanto, a vontade de morrer, de sumir da face da terra.
Da mesma maneira que até aquele momento tive fé deixei de ter e queimei na churrasqueira todo e qualquer ítem religioso que eu possuía: santa, oratório, livros de missa, santinhos, terço, crucifixo… Fiquei com raiva de Deus!
No entanto, antes da incineração, foi com tanto fervor, com tanto desespero e com tanta devoção que eu orei, que eu supliquei, que eu implorei para ficar com o “Carlos”, que 19 anos depois, de fato, eu fiquei! Só que na época eu pedia para ficar com o Carlos e, mais de duas décadas depois, me casei com o Carlos Eduardo!
Mas isso é avançar demais no tempo. Conheci o Carlos Eduardo apenas em 2006 e só pudemos oficializar o casamento em março de 2013. Voltemos para 1988.
Para me castigar, mais do que qualquer outra coisa, tive um “relacionamento” com um sujeito tão intelectualmente limitado que, em 11 anos de convivência, não consegui explicar a ele a diferença entre cidade, Estado e país! Continente então nem em sonhos…
Por falar em sonhos, a vida era um pesadelo! Solidão a dois muito mal disfarçada com almoços e jantares com amigos (principalmente amigas) e idas mais do que constantes à casa das respectivas famílias… Tentativa vã de preencher o vazio existencial com vozes, com sons, com cheiros, com gostos…
Quando o ajuste, o combinado entre nós, se tornou insustentável, ou seja, quando extrapolou o limite do viável, ele teve a brilhante ideia de “abrir a relação”. Como era incapaz de pensar em hipóteses de solução que envolvessem a mente, pensou nos corpos: diversificar os corpos, apimentar as práticas… Logo logo estávamos saindo juntos pelas madrugadas e contratando garotos de programa. Contratar cada dia um garoto de programa diferente, para explorar seu corpo, manipular seus genitais, conhecer seus segredos mais íntimos, dominá-lo e subjugá-lo, se tornou um vício. O sexo se tornou um vício e inclusive motivava “crise de abstinência”, já que nem dormíamos quando ficávamos muito tempo sem conhecer homens diferentes!
Aos poucos, aos garotos de programa, somaram-se o porteiro do Condomínio, um negro forte e sexy, vários rapazes da vizinhança e mesmo aqueles que encontrávamos na rua e oferecíamos carona…
Este foi um vício terrível, difícil de superar, que me acompanhou por muitos anos, mesmo depois que a “relação” finalmente acabou. Isto é, se é que um dia existiu alguma relação, além da sexual, entre nós…
O interessante é que o pesadelo acabou exatamente em função de “uma diversão”. Um rapaz de 19 anos que ele mesmo se encarregou de atrair, e que acabou desejando ficar somente comigo, descartando-o sumariamente.
Ele me denunciou à mãe, uma senhora distinta e com sabedoria de vida, que então me culpou pelas “barbaridades” que estavam acontecendo.
O que sucede é que ele só havia contado à mãe o final da história, ou seja, que eu o estava desprezando sexualmente para ficar com outra pessoa…
Fui obrigado a listar para a minha sogra pelo menos uma dezena de nomes, explicando a ela exatamente como cada um deles havia entrado em nossas vidas, ou seja, o papel que o filho dela havia desempenhado nessa pornochanchada.
A boa senhora, que até aquele momento exigia uma reparação, passou a solicitar, muito mansa e humilde, uma ajuda para o filho que, afinal de contas, estava há mais de 10 anos sem trabalho formal, sendo sustentado por mim. Até o curso de cabelereiro que ele concluiu fui eu quem financiei, para lhe prover o mínimo de profissionalização, já que ele, em virtude de suas evidentes limitações intelectuais, só havia cursado até a sexta série!
Vários homens depois, me apaixonei novamente.
Conhecido como “Cowboy”, ou então “Mexicano”, nos rodeios que aconteciam pelo interior do Estado, era um legítimo personagem retirado das páginas de “O segredo de Brokeback Mountain”.
Locutor de rodeios por profissão e garoto de programa nas horas vagas, ou vice-versa, era bissexual e extremamente eclético, completamente “flex”, como diríamos hoje.
Paranaense, usando sempre seu inseparável chapéu, botas de vaqueiro e calças justas, era extremamente belo e másculo. Tinha o corpo naturalmente musculoso e era bem dotado. Em resumo, o “Cowboy” era o “sonho de consumo” de qualquer um ou qualquer uma.
Toda esta masculinidade tóxica trouxe de volta um velho fantasma. Algo que havia ficado latente, adormecido desde a infância, a disforia de gênero!
Os tempos eram bem outros, estávamos já no século XXI. Eu morava sózinho no meu próprio apartamento e não havia mais a censura da mamãe e do papai…
Foi aí que, da confluência de longos cabelos e um corpo que estava mais em forma do que jamais estivera antes, que nasceu a Lu, a Drag Queen. Ela desfilava orgulhosa e elegante, em vestidos maravilhosos, que eu mesmo confeccionava, na “The Club”, a maior, mais luxuosa e mais icônica boate GLS (como se chamava na época) que já houve.
Não eram mais vestidos para bonecas, mas sim vestidos para a boneca, a diva! Mais do que isso, uma diva criada sob medida e produzida por mim, para mim e para o meu próprio desfrute!
Vestida ao estilo de Grace Kelly, atemporal e elegante, ela seduziu gogo boys, garotos de programa, másculos frequentadores de boate… Ela causou ciúmes, inclusive de senhoras da sociedade! Ela foi pivô de uma briga envolvendo até uma chave de roda e que quase foi parar na imprensa!
Como não me envaidecer da minha criação? Uma legítima Frankenstein, sem nada de assustador, muito pelo contrário!
Mas, como toda novela, por melhor que seja, termina e como toda personagem, por mais amada que seja, deixa de existir, após uma performance glamourosa de 2 anos - onde a Lu foi até para o palco da The Club, onde cantou/dublou em castellano, e desfilou na Avenida Paulista, em cima do carro de som da boate, ao lado da famosa e talentosa Dimmy Kier, na gigantesca parada de 2002 - eu resolvi que era hora dela morrer.
A Lu tinha de morrer quando acabou o affair com o cowboy simplesmente porque eu precisava viver! Era hora de retomar os meus reais sonhos e os meus reais anseios.
Ela foi uma criação minha, um sonho meu, exatamente como as minhas bonecas, um fetiche, uma fantasia! Ela não existiria no mundo real.
Conhecem a história do médico e do monstro? Um único corpo, habitado por duas pessoas diferentes. Ou eu a matava ou ela me mataria. Só poderia existir um de nós dois: ou eu ou ela. E eu ainda amava ser o Luiz, ser eu mesmo!
Era o momento de concluir os ensaios e cessar os experimentos. Não haveria mais tempo ou lugar para pantomimas ou jogos de cena, nada mais de brincadeiras. Era chegada a hora da vida real tomar conta.
O mundo e o Brasil tinham mudado tanto que, no início do século XXI, já era possível um homossexual pensar em se casar, em ter uma relação sólida e monogâmica, em constituir uma unidade familiar. Estes eram os meus planos, desde a época do Carlos, lá atrás, em 1987.
Antes do Carlos Eduardo, houve ainda o derradeiro namorado. Era um rapaz maravilhoso, com mestrado concluído. Mineiro de Belo Horizonte, muito bonito e muito fogoso, que alegrou os meus dias e incendiou as minhas noites em 2005, quando ele esteve em Campinas para um congresso na UNICAMP.
Ele havia chegado apenas para o Congresso onde apresentou seu trabalho. No dia seguinte, foi para a cidade de Extrema, divisa com Minas Gerais, visitar uma amiga.
Não aguentamos de saudades, um do outro, e então eu fui buscá-lo!
Ele ficou comigo entre uma semana e quinze dias, período no qual fomos a Piracicaba, comemos na Rua do Porto e ele experimentou a cachaça amarelinha.
Houve uma pequena intercorrência, mais cômica que trágica, quando fomos transar, no chão da sala, e ele me levou ao pronto socorro. Demonstrou ser muito paciente e carinhoso.
Fui com ele ao Livre Bar e ele conheceu todos os incontáveis amigos, colegas e conhecidos que eu tinha na época. Ele era adorado por todos.
Infelizmente para mim e felizmente para ele, foi aprovado em concurso público e se tornou professor titular em uma Universidade Federal. Devido a este “problema geográfico” o romance não teve continuidade, mas, como legado, ele me deixou a sua amizade, a sua lembrança e a sensação de que o amor existe, que é bem diferente da paixão, e que a pessoa certa chegaria na minha vida, como de fato aconteceu, apenas um ano depois.
Minha mãe passou as férias de janeiro comigo, no meu apartamento, em 2006. Na ocasião, disse que era bíblico, que o homem não deveria viver só... Que ela iria falar com Deus, que jamais deixou de ouvi-la e que o Senhor, na sua infinita bondade, mandaria “a pessoa certa”.
Disse ainda que pediria certa urgência, e que não renunciava a certos detalhes, a serem negociados com o todo Poderoso: tinha de ser alto, preferivelmente da mesma altura, e gordinho. O casal não poderia ser “descombinado”. Disse também que sempre gostou de homem de óculos, porque “tem cara de intelectual”.
Foi no site “disponível”, pouco tempo depois, que eu conheci o Carlos Eduardo. Conversamos pela internet durante mais ou menos um mês, período no qual eu já sabia que ele estava saindo de um relacionamento complicado e problemático com um médico que era usuário de drogas.
Em junho, combinamos de nos conhecer pessoalmente.
No dia 26 de junho, à tarde, na plataforma da antiga rodoviária de Campinas, ele saiu do ônibus como um bichinho assustado. Os grandes olhos estavam ainda mais abertos, e o professor enxergou dentro deles que, além de assustado, ele precisava muito de ajuda.
Ele é 15 anos mais jovem do que eu. Eu estava então com 40 anos, e ele com 25 anos.
De imediato soube que a avó que o havia criado, a qual, segundo ele próprio, havia sido a única referência positiva em sua vida, acabara de falecer e que, por causa disso, estava morando com a mãe abusadora, chamada de “monstro disfarçado” pela própria cunhada (que também é sua prima), com a qual praticamente perdera o vínculo desde muito cedo.
Se eu fosse uma pessoa que me deixasse levar pelas aparências, talvez o relacionamento não tivesse tido continuidade. O que acontece é que eu soube visualizar uma criança assustada, que se disfarçava de adulto autoritário para tentar se defender, para se proteger. A vovó acabara de deixá-lo entregue à própria sorte e, dali para a frente, sua única proteção seria esta “carapaça” de arrogância que ele mesmo criara, para afastar e se defender das pessoas.
Em quinze dias de breves idas e vindas entre Campinas e Mogi Mirim eu decidi que deveríamos morar juntos. Já havia percebido o quão desconfortável ele se sentia morando com a mãe, que era quase uma estranha, e de quem só tinha lembranças desagradáveis. Foi fácil convencê-lo, ainda mais que estava desempregado. Seria mais fácil conseguir emprego em Campinas.
No primeiro final de semana morando em Campinas ele conheceu minha irmã mais nova e meu sobrinho, então com 10 anos. Fomos todos almoçar na Rua do Porto em Piracicaba.
Logo na sequência, eu o levei para conhecer a sogra, a qual se arrumou como uma executiva, de tailleur e salto alto, para recebê-lo. Ela tinha já a firme convicção de que “a sua encomenda”, feita com tanta fé, esperança e amor ao Todo poderoso, estava lhe sendo apresentada!
O Carlos originalmente se apresentava como sendo agnóstico. Ao longo dos anos, porém, foi firmando posição e passou a se assumir enquanto ateu. Isto não foi obstáculo para o afeto e respeito que se formou instantaneamente entre ele e a sogra, extremamente religiosa, membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de Jundiaí, e então atuando como catequista.
Na realidade, tanto os olhos quanto as posições, sempre a lembraram seu falecido marido, que viveu quase a vida toda enquanto agnóstico, fugindo de padres e de igrejas, e abominando a hipocrisia dos que “fedem à religião”, mas que ela, as irmãs dela e alguns dos filhos “cristianizaram” depois de morto.
Naquele ano fomos passar alguns dias em Santos, nas férias de julho. O passeio foi importante para ir nos aproximando em situações e locais diferentes e, aos poucos, ir mostrando todos os interesses que partilhamos em comum.
Extremamente estudioso desde sempre, percebi que o Carlos amava História e Geografia, gostava de conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes...
Ao invés de irmos às praias, fomos aos Museus, fizemos o circuito do bonde turístico, que apresenta ao turista o belo centro requalificado de Santos, que tem prédios belíssimos, desde o século XVI e aos locais históricos como o Forte de Bertioga... Demonstramos então uma afinidade temática completa!
Carlos Eduardo foi um professor de Espanhol tão eficiente que, apenas com três apostilas que produziu, e algumas aulas, preparou-me para irmos a Assunção, em dezembro, conhecer o Paraguai.
Nas “terras guaranis”, tão próximas territorialmente ao Brasil e, paradoxalmente, culturalmente tão distantes, eu passei os melhores quinze dias da minha vida até então.
Aos poucos, descobri que o espanhol, que com tanta facilidade o Carlos me ensinara, e eu com tanto prazer havia aprendido, não servia para falar com a maioria das pessoas que estavam pelas ruas e pelas praças, pois - país bilingue que é - a maioria do povo paraguaio, no dia a dia, fala guarani! Um artifício muito utilizado pelos paraguaios, quando querem que os brasileiros não entendam o que estão dizendo, ou quando querem nos ludibriar no comércio.
Ali pudemos experimentar uma cultura muito mais simples, mais pura e ingênua do que a nossa. Até hoje tenho saudades desta viagem e da simplicidade daquele tempo!
Ao contrário da Cidade do Leste, fronteira com Foz do Iguaçu, conhecida pelo comércio de produtos “piratas”, e bastante inserida no mundo globalizado, Assunção nos pareceu uma cidade parada no tempo, com suas ruas “empedradas” (que no Brasil chamaríamos de “calçamento pé-de-moleque”, como o que existe nas cidades históricas de Minas Gerais), suas caixas registradoras antigas e potes de vidro cheios de dinheiro, para dar o troco, nas padarias e restaurantes!
Um povo simples e acolhedor e uma cidade segura, apesar de ser a capital.
Nos arredores, conhecemos Caacupé, cujo nome quer dizer “achada atrás da árvore”, em alusão à padroeira do Paraguai, que ali é venerada num suntuoso santuário, em estilo bizantino.
Como bom ateu, Carlos comprou de lembrança, para si mesmo e para a minha mãe e as minhas tias, imagens em cerâmica indígena, feitas em caulim, representando a Virgem de Caacupé.
Também fomos a Paraguari, onde conhecemos antiga igreja Jesuítica do local. Foi nesta ocasião, nesta região de colinas arborizadas, que experimentamos pela primeira vez na vida temperaturas superiores a cinquenta graus, o que fez com que sentíssemos a temperatura de Assunção naquele dia, de 42 graus, como sendo comparativamente “amena”.
De volta da viagem, embora ele tivesse conseguido empregar-se, decidi investir em sua carreira. Ele tinha um potencial imenso, que estava sendo desperdiçado. Com as suas aptidões e o gosto pelas viagens, conhecimento dos povos e dos espaços, será que ele não gostaria de ser geógrafo?
Quando houve a sugestão, os seus lindos olhos “de jabuticaba” ficaram brilhantes! Desde que a vovó morrera ninguém mais havia acreditado no seu potencial e nem investido nele. Fora a boa velhinha quem lhe proporcionara instrução e vários cursos profissionalizantes ao longo da vida.
Novamente havia alguém se preocupando e acreditando nele!
Passou muito bem em todos os vestibulares que prestou. Quinto colocado na PUCC-Pontifícia Universidade Católica de Campinas, mas, mesmo assim, decidiu estudar em São Paulo.
Trabalhou todos os dias em Campinas e estudou todas as noites em São Paulo, indo e voltando de ônibus, o que o obrigava a acordar às cinco horas e ir dormir depois da meia noite. Não foi fácil.
Três anos depois, ao invés da mãe, levou a sogra para acompanhá-lo à formatura, no Memorial da América Latina, icônico prédio modernista de São Paulo. Posar com ele nas fotografias e conhecer todos os seus colegas e professores a deixou exultante e orgulhosa!
Ele era uma criança grande, muito feliz com a “sua” mamãe!
A realização de um contrato e registro em Cartório foi tudo o que foi possível ser feito em 2008. Posteriormente, houve a oficialização da União Estável em 2011, possibilidade que foi sendo aberta pela Justiça brasileira, através do Supremo Tribunal Federal.
Para o Carlos começar a falar verdadeiramente de si, ou seja, quem ele realmente era, o que realmente pensava e o que realmente sentia – e não o que era, pensava e sentia o personagem que ele criara para o site de relacionamentos, maduro e seguro – foi necessário que se passassem seis anos e ele quase viesse a falecer, em 2012.
Eu e a mamãe o levamos ao Hospital da PUCC e, apesar do seu ateísmo, oramos muito, com muita fé e intensidade por ele. Tivemos mesmo que nos posicionar com firmeza diante do médico responsável pelas internações, que se recusava a interná-lo, alegando não haver capacidade física, mesmo diante do laudo de um especialista que explicava encontra-se ele em “pré-óbito”... Já não conversava, não reconhecia ninguém. Teria morrido passivamente.
Foi apenas mediante ameaça de Boletim de Ocorrência na polícia, por negligência e imperícia, segurando o crachá do médico na mão direita e pronunciando seu nome em voz alta, dizendo que a idosa ali presente seria testemunha, que a internação finalmente foi realizada.
Eu tive de abandonar um dos meus empregos, ao qual eu era particularmente apegado. Uma faculdade em Bragança Paulista, onde eu lecionava há vinte anos, havia sido Coordenador de curso e no momento era Coordenador Pedagógico. Prioridades são prioridades. Eu tinha de me dedicar o máximo possível ao Carlos naquele momento e não dava mais para ficar indo e voltando de Bragança Paulista 3 ou 4 vezes na semana.
Foram várias internações hospitalares, medicamentos escalonados durante todo o dia, sessões e mais sessões de fisioterapia. A recuperação plena se deu lenta e gradualmente durante mais de quatro anos.
A dor e o sofrimento foram tão intensos que, assim que eu senti que o Carlos estava um pouco melhor, que já não estava mais em risco de vida, meu coração não aguentou. Tive um problema cardíaco e necessitei de uma pequena intervenção.
Foi a vez do Carlos demonstrar que eu também não precisava ter dúvidas nem em relação ao seu amor e nem muito menos em relação à sua dedicação, pois recebi de volta todo o zelo que eu lhe havia devotado.
Neste intervalo, em 2013, graças agora ao Supremo Tribunal de Justiça, presidido pelo grande Joaquim Barbosa, pudemos converter nossa União Estável em Casamento Civil. A partir deste momento, mediante o reconhecimento do Estado Brasileiro, deixamos de nos sentir párias. Não seríamos mais “cidadãos de segunda classe” e, portanto, vivendo um “amor de segunda classe”, que é menor ou inferior ao dos outros.
Os relacionamentos duradouros são aqueles construídos em bases comuns. Princípios, interesses, gostos e posturas semelhantes ou compatíveis, que se mantém, e até se solidificam, com a passagem do tempo.
Hoje mamãe está com mal de Alzheimer, em estágio inicial, embora tenha diagnóstico desde 2014. Ela passa todos os finais de semana com os filhos, que se revezam para cuidar dela. Tem uma boa velhice, assistida, cuidada e amada. Em grande medida, a vida está devolvendo a ela tudo o que ela sempre investiu.
Minha sogra, na exata proporção, com demência senil, segue sendo cuidada por uma tutora.
Nunca fui de comemorar aniversário, até porque a data, 29 de dezembro, não favorece. Entre o Natal e Ano Novo. Sempre foi difícil mobilizar pessoas, mesmo que fossem familiares, para uma comemoração em um dia em que estão todos atarefados, pensando no Réveillon, preparando as férias de verão, ou então já estão empanturrados de tantas comidas de festas.
Desta vez, porém, trata-se de uma comemoração grandemente simbólica, um marco: estou me tornando, oficialmente e legalmente idoso, ao comemorar 60 anos de vida. É uma transição importante na vida de uma pessoa e marca um diferencial, ou seja, que consegui superar a infância, a adolescência, a juventude e a idade adulta! Finalmente, estou ingressando plenamente na maturidade.
Ao contrário, portanto, da quase totalidade dos meus aniversários até agora, a data não poderia “passar batido”, ou seja, “em brancas nuvens”, como dizemos.
Não tenho perfil para grandes festas ou comemorações. Estes eventos mais me cansam e me aborrecem do que me divertem. Detesto as roupas “de ocasião” (que mais parecem fantasias, ou roupas de cena, que as pessoas usam para interpretar personagens), as conversas fúteis, rasas como poças d’água, que não levam a lugar algum, as poses ensaiadas, os sorrisos fingidos e os cumprimentos nem sempre sinceros.
Desta forma, para demonstrar inclusive que houve algum crescimento, alguma evolução espiritual ou amadurecimento, e não apenas a passagem do tempo, resolvi fazer algo que, modéstia à parte, eu sei que faço bem. Resolvi escrever.