MEMORIAL
...outra questão é a de saber se podemos permitir que o conhecimento se organize no e pelo indivíduo, em vez de ser organizado para o indivíduo.
Rogers, Tornar-se Pessoa, 1988
Vivi uma infância bastante feliz, com muitos irmãos para brincar, primos e tios. Nasci em Jundiaí, no ano de 1968 e até os 7 anos moramos com minha avó (mãe de meu pai), numa casa onde os 5 irmão se espremiam em um quarto bastante pequeno, mas que tinha um quintal enorme. Depois nos mudamos para nossa casa, com muito espaço para correr, brincar, pular, espiar e um quintal ainda maior do que o de minha avó. No quintal havia um balanço, pés de jabuticaba, romã, goiaba, louro, araçá, manga, pêra d’água, pêssego, mexerica, chuchu, maracujá e às vezes plantávamos milho e abóbora, pois tínhamos curiosidade e queríamos ver as plantas nascerem.
Estudamos sempre no período da manhã e a rotina diária era bastante simples, sem cursos ou muita televisão. Morávamos ha 6 quarteirões da escola e enquanto éramos pequenos mamãe nos acompanhava e ia nos buscar. Quando adolescentes, passávamos nas casas de colegas e íamos arrebanhando amigos até a porta da escola. Chegando em casa o almoço já estava pronto, almoçávamos e depois de minha mãe retirar os pratos e a comida da mesa da copa para que nos sentássemos ao redor para fazer o dever de casa. Enquanto cada filho se concentrava em sua atividade, minha mãe ficava desenhando em um bloco. Como eram bonitos seus desenhos! Após terminarmos o dever poderíamos brincar no quintal. E como brincávamos! Corda, bambolê, boneca, vai-e-vem, mas as brincadeiras que mais me marcaram eram as de quando nos transformávamos em atores e encenávamos partes do seriado Jornada nas Estrelas, quando construíamos casa de galho, folhas, pois matéria prima não faltava, quando resolvíamos invadir o porão e pesquisar as antiguidades que lá estavam escondidas ou quando fizemos uma foto novela. Minha mãe guardava um baú repleto de fantasias de carnaval, roupas antigas, perucas, óculos... e esse material se tornava figurino de nossa brincadeira.
Acredito que a postura de meu pai em propiciar espaço para que pudéssemos conviver e de minha mãe em conduzir nossa aprendizagem através das experiências diárias, de nossas brincadeiras influenciou, e muito, a visão que tenho de educação, de formação e de construção do conhecimento.
Minha história foi sempre marcada pela importância da educação, da formação ética e da inteligência na constituição de uma personalidade forte e feliz. E assim aprendi e vivi. Minha mãe viveu numa época em que ser professora era a única profissão digna para uma mulher. Teve uma educação de princesa, aprendeu balé, piano, sabia fazer tricô, bordar, latim, aprendeu regras de etiqueta... até que a Itália entrou 2ª grande guerra. Meu nono, pai de minha mãe, assim como minha nona, nasceram na Itália e foram impedidos de trabalhar, eles plantavam para comer. Mesmo assim, minha mãe, se formou no magistério no Instituto de Educação Jundiaí de Jundiaí e foi lecionar, aliás, já lecionava desde o 2º ano. Logo após seu casamento se mudou para São Paulo e parou de lecionar, retornando bem mais tarde, quando eu estava aproximadamente na 6ª série. Minhas tias, irmãs de minha mãe, também se formaram professoras e mais tarde fizeram curso superior. Foram essas 3 mulheres que me apresentaram ao magistério.
Meu pai era filho único e foi criado em um colégio interno na cidade de São Paulo, pois minha avó ficou viúva quando ele era pequeno. Engenheiro formado na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), numa época em que poucos tinham condições de estudar, era uma pessoa muito inteligente, tinha o raciocínio lógico bastante desenvolvido e sempre afirmou que a única coisa que ninguém poderia roubar de uma pessoa era o conhecimento que ela possuía, assim como que o maior bem que ele poderia nos deixar era a educação. Lembro-me da admiração que tinha pela sua letra bastante precisa, os números bem desenhados e das inúmeras vezes que tentou ensinar a mim e ao meu irmão mais novo a realizar a escrita dos números de forma clara (eu nunca consegui, mas meu irmão mantém os traços de nosso pai). Apesar de ter câncer, e os médicos terem diagnosticado 2 anos de vida para ele, só veio há falecer 5 anos após a 1ª operação, depois que todos os filhos estavam formados e trabalhando.
Essa raiz educacional influenciou grande parte de minha família. Somos cinco irmãos, dois homens e três mulheres, nascidos entre dezembro/1965 e outubro/1969, ou seja, em menos de 4 anos minha mãe teve 5 filhos, sendo que os meninos são os das pontas. Meu irmão mais velho se formou em história na Unicamp, e desde antes de se formar começou a lecionar em escolas estaduais, particulares e mais tarde efetivou-se na Prefeitura de Campinas, trabalhando também em faculdades. Minhas irmãs gêmeas, Ana Cristina e Ana Luiza são um ano, um mês e um dia mais velhas do que eu; Ana Cristina já foi professora da rede estadual e além de trabalhar em uma empresa na área de RH, constantemente é convidada para leciona em cursos técnicos e faculdades, Ana Luiza é professora da rede estadual de SP, apenas meu irmão mais novo, não está, de alguma forma, inserido na área educacional. Além dos meus irmãos, tenho primas e primos que se dedicam ao magistério.
Quando cheguei à época de decidir que curso gostaria de seguir, pois meu pai não aceitava que os estudos parassem após a conclusão do colegial (atual ensino médio), fui orientada por minhas tias que poderia fazer qualquer coisa, menos ser professora, pois era uma profissão ingrata, onde se dedicava muito e ganhava-se pouco. O sonho de meu pai era que eu me formasse médica, mas em nenhum momento se opôs a minha decisão.
Mais tarde pude entender a colocação de minhas tias. A partir da década de 80 iniciou um processo de grandes transformações no sistema educacional, acompanhando as mudanças nas relações de trabalho que se refletiram no espaço escolar.
Em 1986 iniciei o curso de psicologia na PUC Campinas. Sempre fui bastante sonhadora e idealista. Meus pais me ensinaram muitas coisas, mas muito pouco sobre como ser prática . Também não se lembraram de ensinar que do trabalho deveriam vir meus proventos. Portanto tive a oportunidade de escolher livremente a faculdade que gostaria de cursar. Tinha o sonho de trabalhar com grupos de pessoas carentes, em projetos comunitários, ajudando no fortalecimento, através da reflexão de suas condições/ações a tomarem consciência da situação e buscarem o fortalecimento que necessitavam. No quarto ano me dediquei à psicologia escolar e no quinto ano optei por cursar uma disciplina sobre abordagem centrada na pessoa, constituída pelos princípios de Carl Rogers. Não deixei de acompanhar as demais disciplinas, mas tinha um carinho especial pelas que mostravam caminhos de trabalho com grupos de pessoas. Gosto e acredito que a reflexão, o compartilhamento das informações propicia o amadurecimento tirando-nos da posição egocêntrica e enxergando que Eu só tem sentido quando existe o ELE (o outro).
O prazer deve existir dentro de nossas escolas. Sempre que planejamos uma atividade devemos pensar em dar ao aluno condições de acesso ao conhecimento formal, escolhendo e priorizando os saberes que são indispensáveis e buscando primordialmente a aprendizagem, que constantemente é fruto de uma atividade marcante, significativa. Muitas vezes o profissional planeja uma ação em sala de aula tendo como inspiração a sua vivência e isto, em alguns casos, leva a frustração ao professor e a apatia ao aluno. Ele planeja uma aula “bárbara”, mas quando as atividades são realizadas não mobilizam o aluno. O objetivo não é atingido e a proposta não é realizada. Por isso é necessária a construção coletiva do conhecimento, a realização coletiva do planejamento. Devemos ter em mente ainda que diante dos imprevistos ele possa ser revisto e alterado, num ir e vir, ou seja, um diálogo constante entre as partes envolvidas. Atualmente percebo que muitas vezes tentamos realizar um trabalho coletivo, mas não estamos prontos para ouvir e receber críticas, abrir mão de nosso ponto de vista e de muitas certezas já estabelecidas para formar a visão do grupo, para se estabelecer o processo de construção coletiva da escola.
Formei-me e juntamente com outras duas psicólogas abri a Allesco - Assessoria em Psicologia Escolar, onde realizávamos atendimentos clínicos, treinamentos a pajens de creches, funcionários de escolas particulares e cursos para professores.
Neste mesmo ano, uma de minhas tias, que era diretora de escola, convidou-me para lecionar, pois uma professora havia desistido das aulas de psicologia e não havia outro profissional para exercer sua função. Fiquei bastante insegura, mas decidi enfrentar esse desafio. Lembro-me como se fosse ontem daqueles alunos que tinham um pouco menos que minha idade. Era um primeiro ano do noturno e eu, que nunca havia repetido, acabara de me formar com 22 anos. Sei que os alunos dessa sala adoravam as aulas e eu, todas às vezes ao entrar na sala, sentia meu coração bater mais forte, recompensada pelo simples fato de estar lá, poder ajudá-los e contribuir com a sua formação. Preparava as aulas com afinco, me preocupava em rever o que não havia sido funcional e dar “feedback” a todos, trabalhava com avaliações diversificadas, inclusive a auto-avaliação. Com certeza naquele ano o planejamento foi construído dia após dia, aula após aula. Vejo que com o tempo tendemos a executar determinadas atividades de forma automática e embasadas em conceitos pré-estabelecidos, nem sempre condizentes com a realidade daquele momento. A reflexão, para a ação é imprescindível. No entanto, a experiência me deu condições de acompanhar as transformações nas políticas educacionais de uma forma não tão ingênua e diminuir minha ansiedade em relação à imagem que o aluno fazia de minha pessoa. A oportunidade de participar de um curso onde posso refletir sobre minha postura e atitudes diante do cotidiano escolar fortalece a idéia de que escola é um lugar de encontros, de convivência e de que o planejamento é um instrumento de produção coletiva do conhecimento que não deve se tornar um planejamento burocrático (realizado apenas em um determinado período sem acompanhamento contínuo).
Com o surgimento da escola padrão, no governo Fleury, tive o prazer de ser coordenadora do centro de informação e criação (CIC). Na escola que lecionava não havia uma biblioteca organizada e funcional e tive que estruturá-la, juntamente com alunos e alguns professores, desenvolvendo posteriormente trabalhos voltados para o uso da biblioteca como espaço educacional e extra-aulas. Programava os eventos e apoiava os profissionais com materiais na execução da proposta pedagógica, principalmente os coordenadores de área que muito solicitavam meu auxilio. A Escola Padrão possibilitou o aumento na qualidade de ensino das escolas que faziam parte desse projeto; recebíamos materiais, havia coordenadores por área para trabalhar com os professores e recebíamos uma gratificação pelo regime de dedicação plena e exclusiva, o que era um grande estímulo para todos os profissionais da escola. É importante salientar que apenas a gratificação não teria efeito tão positivo se não houvesse a dedicação exclusiva a uma instituição de ensino, o que possibilitava a todos os profissionais da escola participar da construção coletiva da proposta pedagógica, já que formávamos uma equipe. Tínhamos espaço temporal para realizar reuniões e discutir efetivamente sobre metodologias de ensino e o processo ensino aprendizagem.
Em 1995, após o nascimento de meu filho, tive a oportunidade de observar a educação por outro ângulo. Observar, pois foi um período que tive um relacionamento mais burocrático com a escola, distante da sala de aula e em que pouco pude contribuir para o acesso do aluno ao conhecimento. Trabalhei na Diretoria de Ensino com o setor de patrimônio escolar, visitando escolas e orientando-as sobre os procedimentos com materiais inservíveis, auxiliando em compras de materiais pela DE para as escolas. Conheci muitos diretores nessa época, um pouco os bastidores da educação e algumas de suas peculiaridades. Foi no final desse ano que houve a reorganização do ensino e o fim da escola padrão, realizado pelo governo Mario Covas e Rose Neubauer na Secretaria de Educação.
No ano seguinte retornei como professora efetiva de psicologia. A escola passava por algumas transformações em termos de descentralização do poder, dando uma autonomia relativa com o repasse das verbas para as UEs, tendo sido mantido da escola padrão o professor coordenador pedagógico, não mais por área e escolhido por seus pares, e os HTPCs.
Em agosto de 1997 apresentei uma proposta de trabalho e fui escolhida para exercer a função de professor coordenador do período diurno. Era uma nova etapa, um novo desafio e eu não tinha a noção de que era uma das funções mais importantes dentro da escola. Pode parecer um pouco leviano apresentar uma proposta de trabalho apesar de não ter noção das reais atribuições, mas o desafio e a vontade de contribuir sempre me impulsionaram. Sabia que teria muito que aprender, que deveria estudar bastante, mas tinha consciência de minha capacidade e do empenho e dedicação com que realizo minhas obrigações. Ao professor coordenador cabia assessorar direção, subsidiar professores, garantir o trabalho coletivo, articulando e integrando a equipe escolar, em relação ao currículo e proposta pedagógica. Muito se falava de proposta pedagógica e de avaliação, mas pouco tempo tínhamos para estudar, refletir, discutir e implementar tais mudanças. Aliás, a falta de tempo sempre foi uma constante no ambiente escolar onde trabalhamos com muitas situações em que as soluções não podem ser adiadas, em todas as instâncias da escola. O profissional tem que ter muita clareza do seu papel para tomar a decisão correta sob pressão, à intencionalidade e a intervenção proposta deve ser evidente. Percebo que necessitamos refletir sobre as prioridades da escola, para que possa haver interação entre necessidade e tempo.
A LDB apesar de nessa época já estar aprovada, ainda não era aplicada. Os anos de 1997 e 1998 foram de muitas imposições e transformações na política educacional. O surgimento da recuperação de verão, a reclassificação e posteriormente a progressão continuada, a retenção parcial e a promoção parcial, a elaboração do regimento escolar por cada escola... O achatamento dos salários através do reenquadramento e outras formas de poder justificadas pela intenção de melhorar a qualidade do ensino, espalharam confusão entre profissionais da educação, pais e alunos. A forma como os programas públicos foram criados causou descontentamento e revolta entre os profissionais do magistério. Aos trancos e barrancos tentava desempenhar minha função, principalmente a de elevar a estima dos professores, o que considerava essencial para que pudéssemos desenvolver um bom trabalho. Era bastante difícil falar e implementar a progressão continuada quando não havia sustentabilidade de conceitos e procedimentos que embasavam essa política, como a avaliação formativa. Fomos nos acomodando a todas essas situações, mas não estava satisfeita. Por fim me exonerei do cargo de professora e assumi como diretora efetiva em 2001. Sinto muita falta das possibilidades que a função de coordenador pedagógico possibilita, mas entendo que atualmente a direção e a coordenação tendem a se aproximar.
Tive a sorte de ter trabalhado com pessoas abertas, que dividiam suas experiências e cooperavam durante as necessidades. O trabalho coletivo sempre esteve presente no relacionamento com direção, professores e funcionários. A família como foco e solução para muitos problemas de aprendizagem. Em alguns momentos, tenho a impressão que a família deixou de se preocupar com a educação dos filhos, cobrando da escola a tolerância e atenção que ela não tem condições de oferecer. Prefiro pensar que como em todo processo de crescimento, essa é uma das etapas que deve ser vivenciada, para transpô-la, e atingir a maioridade. A construção da identidade comunitária é complexa, e por mais que tentemos conceituá-la, constantemente ela estará se reestruturando, num ir e vir, na convivência, no diálogo.
Durante este curso o que mais me marcou foi o esclarecimento - como que um “insight” - sobre a construção contínua da proposta pedagógica, do planejar e replanejar, dando vida à escola e situando-a dentro de um contexto social e histórico, coisa que não seria possível, caso o planejamento fosse finalizado antes de suas ações, em determinado momento, sem enxergar o resultado e reprogramá-lo.
Nestes quatro anos em que atuo como diretora de escola percebo que a burocracia e os problemas emergentes ocupam mais meu tempo do que deveriam, que a falta de funcionários e de materiais para trabalhar desviam a atenção do que deveria ser primordial: a aprendizagem de nossos alunos. No entanto a perspectiva que a gestão democrática articulada às novas formas de conhecimento deve abordar a burocracia como uma formação social e não somente como um sistema de organização formal leva-me a tentar abordar esses problemas sobre outras perspectivas.
Ana Flávia Cappellano