Michele Aniello Di Costanzo (Miguel Agnelo Di Costanzo, 1864-1955) e Maria Monti Di Costanzo (1862-1935) tiveram cinco filhos sendo que em relação a dois deles, uma filha e um filho, Angélica Margarida (1903-1936) e Raphael (1900 - 1947) quase não temos informações.
Muito embora saibamos muito pouco sobre Angélica Margarida, temos alguns registros de sua existência, inclusive na imprensa. Ela estudou no Grupo Escolar do Brás, se casou com Joaquim Pinto, morreu provavelmente de um tumor no cérebro (difícil de ser operado ou tratado na época) que inclusive a havia deixado cega no final da vida, e foi enterrada no Cemitério São Paulo, onde já estava sua mãe, no túmulo 99, quadra 11.
Além disso, muito parecida com a irmã “Natina” (1898-1976), apenas um pouco mais morena, ela aparece em inúmeras fotografias nos antigos álbuns de nossa avó, sendo facilmente identificada.
E Raphael? Ele certamente figura em algumas fotografias antigas, especialmente as anteriores a 1920, mas, o “ocultamento” e o “silêncio” em relação a ele foi de tal magnitude que jamais nos foi apontado nas mesmas, de maneira que hoje não temos mais como identificá-lo.
Embora uma identificação precisa seja quase impossível, temos razões para suspeitar que ele seja o rapaz que aparece nas imagens abaixo
E quais seriam estas razões?
Época das fotografias, anteriores a 1920, idade do rapaz, menos de 20 anos, o comentário de nossa avó de que ele era “mais bonito que o tio Vicente” e, principalmente, estar no colo da mãe, na primeira fotografia. Além disso, é evidente que ele tem o nariz característico dos Di Costanzo.
Estar usando roupas femininas, do Antigo Regime, para o carnaval, na segunda fotografia, nos revelaria o caráter originalmente alegre e expansivo de Raphael, antes da manifestação da doença que o acometeu.
Graças ao seu Registro de Batismo (datado de 29/10/1900) sabemos que ele nasceu em 01/07/1900. Sabemos também, graças a uma consulta direta e resposta via e-mail, que foi internado no Hospital Psiquiátrico do Juquery em 15/11/1920 e que a última avaliação médica deu-se em 1923.
Há então um hiato, um salto no tempo, e a próxima notícia que temos dele é um artigo na primeira página do CORREIO PAULISTANO, da quarta feira, 29 de janeiro de 1936, narrando que ele se encontrava então em cárcere privado, no porão da casa da Rua Piratininga nº 114, de onde foi retirado pela polícia.
Embora seja um artigo sensacionalista e curto, encontramos ali indícios de qual seria afinal a misteriosa doença mental de Raphael, a causa de sua internação precoce, quando tinha apenas 20 anos de idade.
O artigo diz que “além de louco, o pobre homem é quase paralítico”(sic.).
Como sabemos, e temos comentado em outros artigos, o pai, Miguel Di Costanzo, era pouco afeito à “moral e aos bons costumes”. Ele gostava de jogar, de frequentar bailes, cassinos, casas de jogos e de mulheres.
Levando em conta que Raphael era a “grande aposta” da família, tanto que seus padrinhos de batismo vieram de Campinas especialmente para o acontecimento e foram o famoso empreendedor italiano Roque de Marco e sua esposa, não seria descabido imaginar que, uma vez que se tornou rapaz, acompanhasse o pai em suas “atividades noturnas”.
Diante do contexto existente na época, incluindo o fato de que a iniciação sexual dos jovens de classe média, tanto baixa quanto alta, dava-se nos bordéis, com profissionais do sexo, podemos formular a hipótese que ele teria tido sífilis e que, em não tendo sido tratada a tempo ou adequadamente (lembrando que ainda não existiam antibióticos na época) evoluiu para sífilis terciária, afetando o cérebro, na forma da neurossífilis.
“A neurossífilis é uma infecção que afeta o sistema nervoso central, por isso a maioria dos seus sintomas está relacionada a falhas do sistema nervoso. A neurossífilis pode ter várias formas, como a neurossífilis meningovascular, a neurossífilis parenquimatosa e o tabes dorsalis.” (1)
Os sintomas incluem problemas psiquiátricos (irritabilidade, mudanças de humor), distúrbios cognitivos, dores de cabeça, problemas motores, distúrbios visuais, problemas sensoriais, comprometimento do sistema nervoso autônomo e demência.
Antes de 1928, quando foi descoberto o primeiro antibiótico, a penicilina, durante 450 anos, o tratamento da sífilis era feito com o uso de mercúrio, banhos, longas dietas e exercícios. Os resultados eram tão incertos que, para termos uma ideia, foi apenas no início do século XX que se descobriu o agente que causava a doença. (2)
Como já dissemos em outro artigo, datado de fevereiro de 2022, a questão da doença mental era então um tabu. Muitas famílias de fato "ocultavam" os doentes mentais, como se fossem "aberrações", "castigo de Deus" ou uma "vergonha". (3)
Somemos a esta genérica “vergonha” e a este genérico “ocultamento”, em relação à doença mental em si, a agravante específica de que os problemas de Raphael podem ter tido origem em suas peripécias sexuais com profissionais do sexo. Se isto de fato ocorreu, entenderemos perfeitamente porque foi internado. Entenderemos principalmente também, porque uma vez egresso, foi mantido em cárcere privado no porão, longe das vistas e da convivência dos familiares e dos vizinhos.
Relendo inúmeras vezes o referido artigo do CORREIO PAULISTANO, ficamos cada vez mais intrigados sobre qual foi afinal o destino de Raphael, já que o artigo se encerra com a frase: “O demente foi removido para a 1ª Delegacia de Polícia, de onde deverá ter o destino conveniente.” (grifo nosso)
Mas, afinal, qual foi o “destino conveniente” que teve Raphael? Voltou para o Juquery? Morreu e foi enterrado lá? Foi “transferido” pela polícia para algum “asilo”, como se dizia na época? Foi enterrado no Cemitério São Paulo junto aos pais e irmã (Angélica Margarida)?
Foi buscando algumas destas respostas que retomamos a pesquisa, em novembro de 2024.
Graças à CORTEL, firma que hoje administra o Cemitério São Paulo, acabamos descobrindo que Raphael foi sepultado no jazigo que pertencia à sua família (túmulo número 99, da quadra 11) no dia 22 de julho de 1947, logo, com 47 anos de idade.
Quer tenha falecido em São Paulo ou em Franco da Rocha, dados os costumes da época em relação aos velórios, com toda certeza, o óbito ocorreu no dia anterior, 21 de julho de 1947.
Muito embora agora saibamos quando morreu e onde foi sepultado, estas novas informações nos remetem a um novo hiato, onze anos no tempo, entre 1936 (quando a polícia lhe garantiu um “destino conveniente”) e 1947, quando ele faleceu.
Já não temos ninguém vivo que tenha convivido com Raphael mas, no entanto, nos hoje distantes anos 80 do século passado, ainda cursando o que hoje chamamos de Ensino Fundamental II, a professora Maria Helena Degani Rocha nos propôs uma pesquisa de História da Família.
Naquela época, ambas as avós, e vários tios-avós e tias-avós ainda viviam e foram todos entrevistados, seus depoimentos compilados e transformados em versos, inicialmente manuscritos e, posteriormente, datilografados.
Esta obra, que foi o primeiro texto longo de nossa autoria, foi batizada de “Saga”.
O formato que hoje ainda existe, encadernado e com inúmeras fotografias originais encartadas, é parte datilografado e parte manuscrito.
“Este livro foi escrito em várias épocas diferentes e, por isso mesmo, é como se tivesse sido escrito por pessoas diferentes.
Começou a ser escrito por uma criança, cursando a 6ª ou 7ª série, de escola pública, mediante proposta da professora de História, Maria Helena Degani Rocha.
A professora propôs o resgate da História das famílias dos alunos e, desta maneira, a atividade teve, como subproduto, o resgate dos vínculos intergeracionais: filhos e pais, netos e avós, sobrinhos netos e tios avós...
(...)Num segundo tempo, anos depois, um adolescente do ensino médio começou a datilografar os seus manuscritos.
Num terceiro tempo, já em outra época, um jovem adulto, cursando a faculdade de História, tentou dar um pouco mais de veracidade aos escritos e acrescentou a eles algumas novas observações, frutos ainda de suas primeiras leituras, no primeiro ano do curso.
Nos anos seguintes, e por muitos outros, aproximadamente 3 décadas, o texto foi quase esquecido, sendo abandonado em caixas, guarda-roupas ou estantes.
Eis que, com a pandemia de COVID 19, um homem maduro de 55 anos, às vésperas da aposentadoria, decidiu “restaurar” um pouco o suporte físico destes textos e destas imagens/fotografias.”(4)
Em seus vários depoimentos (na realidade um conjunto de “contação de histórias”) nossa avó paterna, Gilda Sciamarelli (Hermenegilda Di Costanzo Sciamarelli), que era a irmã mais nova (nascida em 1904), colocava que ele era o mais bonito dos irmãos, “muito mais bonito que o tio Vicente”, dizia ela. Ela chegou inclusive a contar que a causa das desavenças entre eles era que ela, uma menina curiosa, o observava escondida quando ele ia se trocar em seu quarto e que, em virtude deste comportamento, acabou “vendo o que não devia”.
Ainda segundo nossa avó, uma vez egresso do Juquery pela primeira vez, Raphael foi instalado no porão de sua casa, na Rua Piratininga nº 114, onde era cuidado pelo cunhado, nosso avô. Quando este faleceu, em 1935, houve uma sensível piora no quadro de Raphael, até porque, logo em seguida, sua mãe também morreu.
A situação teria ficado tão difícil que havia sido necessário contratar um enfermeiro para dar banho em Raphael, se utilizando de um esguicho, pois ele estava de tal forma animalizado que se lambuzava com as próprias fezes e as arremessava naqueles que porventura fossem ao porão, onde ele vivia.
A conclusão da história, ainda segundo nossa avó, foi uma segunda internação, no Hospital Psiquiátrico do Juquery, na ala particular, de onde ele só teria saído morto.
Lembrando que nosso pai, Walter, contava apenas dois anos e meio de idade quando o pai faleceu e ainda não havia completado 3 anos em janeiro de 1936, quando a polícia compareceu à Rua Piratininga nº 114, para “resgatar” Raphael.
Esta informação é muito importante porque ele, nosso pai, jamais citou a existência deste tio, muito embora já tivesse completado 14 anos (já que nasceu dia 10 de março de 1933) quando Raphael faleceu, em 21 de julho de 1947.
Ele falava muito sobre o avô, Miguel Di Costanzo, a tia Fortunata, a tia Natina… Chegava a citar falas dessas pessoas, que haviam convivido com ele por toda a infância e juventude. No entanto, nem uma menção, sequer o nome, de um tio que faleceu quando ele tinha 14 anos.
Esta “omissão”, voluntária ou não, reforça tanto o caráter de “vergonha” que a doença mental ainda carregava na época, quanto o verdadeiro “apartheid” que foi promovido em relação a Raphael, que teve a sua memória e a sua história completamente apagadas.
Em relação a este apagamento, temos a obrigação de complementar que 107 anos de História do Hospital Psiquiátrico do Juquery tiveram seus arquivos físicos destruídos, incluindo 136 mil prontuários de pacientes, por um incêndio no interior do prédio administrativo, na madrugada de sábado, dia 17 de dezembro de 2005.
“Seis horas de fogo transformaram em pó um acervo formado por milhares de relatórios médicos, 15 mil livros e os prontuários de todos os pacientes que passaram pela instituição em seus 107 anos de existência - um conjunto que demonstrava em detalhes a evolução no diagnóstico e tratamento de transtornos mentais no Brasil.” (5)
A documentação em relação à primeira internação (1920), ao que parece, milagrosamente se salvou. No entanto, não há mais como reivindicar qualquer informação em relação a uma possível e provável nova internação, que teria ocorrido após o episódio envolvendo a polícia, em janeiro de 1936.
Mediante tudo o que aqui foi exposto, ou seja, termos estabelecido com precisão as datas de nascimento, batismo, morte e primeira internação no Hospital Psiquiátrico do Juquery, bem como local e data de sepultamento, além de termos formulado hipóteses factíveis de diagnóstico e aparência física de Raphael, talvez seja o mais longe que consigamos chegar hoje, dado o apagamento absoluto e invisibilização que foi perpetrada em relação a ele.
Concluímos este artigo, que para alguns pode parecer “pesado”, por tocar tangencialmente num tema que ainda hoje é “tabu”, com um poema de Fernando Pessoa, escrito enquanto Raphael Di Costanzo ainda vivia, em 30 de março de 1931:
Fito-me frente a frente
E conheço quem sou.
Estou louco, é evidente,
Mas que louco é que estou?
É por ser mais poeta
Que gente que sou louco?
Ou é por ter completa
A noção de ser pouco?
Não sei, mas sinto morto
O ser vivo que tenho.
Nasci como um aborto,
Salvo a hora e o tamanho.
Fim?
NOTAS:
Redescobrindo a Família Di Costanzo, disponível em: https://diversidade100fronteiras.wordpress.com/2022/02/26/redescobrindo-a-familia-di-costanzo/
Trecho da Introdução da “SAGA” – obra mista, parte digitada e parte manuscrita, iniciada em 1980.
Vide: https://www.unisantos.br/pos/revistapatrimonio/painel8759.html?cod=601