Prefácio:
Inicialmente explico que o título desta obra é “Portimão” pois foi originalmente preparada para um concurso literário promovido pela Câmara Municipal desta bela cidade portuguesa, do Distrito de Faro, região e sub-região do Algarve.
Iniciando a construção do texto, pela reunião de vários fragmentos avulsos, de crônicas e contos já escritos, mas ainda não publicados, e tentando articulá-los, de uma maneira que houvesse coerência no desencadear dos acontecimentos, faltava um título que expressasse o conjunto de todos eles.
O nome da cidade, que lembra um timão, ou seja, algo que comanda o leme, e por isso estabelece o rumo a ser percorrido pela nau, e ao mesmo tempo o porto, ponto de partida e de chegada, me pareceu sonoro e altamente significativo, ainda mais que um dos capítulos, exatamente o que expressa a fase mais confusa na vida do protagonista, já se chamava “Á deriva”.
Não existe nesta trama concentração de drama, de tragédia, de comédia, de relato de viagens, crítica literária ou artística, costumes ou de romance, mas sim o uso dosado de cada um destes gêneros, pois é uma história da vida real, e na nossa vida acabamos todos por vivenciarmos um pouco de cada um destes gêneros.
Esta é uma história diferente, que foge de alguns estereótipos e rompe alguns paradigmas porque, muito embora o protagonista seja homossexual, a tônica do enredo não reside apenas na sua sexualidade, entendida apenas como mais uma das múltiplas facetas que compõe o caleidoscópio da sua personalidade, não é a única ou a principal definidora. Ele é cidadão brasileiro, professor, artista plástico, escritor, filho, neto, irmão, tio, marido... Identidade é natural, ela liberta e amplia horizontes, não é camisa de força que oprime e restringe.
Não se trata de literatura cuja temática seja específica para qualquer segmento. Há uma grande dose de generalidade, que permite a identificação por parte de todo o público leitor.
Não esboçamos nenhuma tentativa de chocar, de fazer apologia, sequer de militância libertária. A obra apresenta pessoas reais e concretas, de carne e ossos, inseridas num mundo real, com famílias reais, até prosaicas, com as suas complexidades, a sua potência e as suas vulnerabilidades.
As histórias não são apenas possíveis, são factíveis e bastante vívidas.
Tratamos aqui de “gente como a gente”. São pessoas com as quais você convive, encontra nas ruas, nas lojas, nas igrejas... Você conversa com elas, convive com elas durante anos e, muitas vezes, não chega sequer a vislumbrar a “ponta do iceberg” das respectivas personalidades.
Convido o leitor a observar pelo buraco da fechadura e penetrar na intimidade destas personagens.
Uma lembrança da infância
Vamos começar esta história bem do início, logo das primeiras lembranças, relatando uma molecagem, uma brincadeira de criança do seu protagonista.
Ele tinha seis anos em 1972.
Havia uma prima bem gordinha, que fazia as suas festas de aniversário todos os anos em um orfanato. O motivo era proporcionar às crianças do orfanato que participassem da festa, comendo bolo e salgadinhos e brincando com as crianças do "mundo lá fora". Era uma prática comum naquele tempo.
Também comuns naquela época, aqui no Brasil, eram a Igreja de esquerda, a Teologia da Libertação e as freiras que não usavam mais hábito, apenas saia reta (azul, cinza ou marrom, dependendo da congregação a qual pertenciam) e blusa branca.
A "freira sem hábito" que cuidava das crianças, visivelmente usava peruca. Neste dia, em que as tias o levaram com as irmãs e o irmão, logo cedo para a festa e a freira ainda não havia descido, ele resolveu "fazer arte"...
Subiu até o quarto que a freira dividia com as meninas e, uma vez constatado que ela estava no banheiro e que a peruca estava no "peruqueiro", correu até a peruca, a encheu de talco, chacoalhou no ar e depois a entregou a um ruidoso cachorrinho pequinês que lá havia...
- Totó, Totó...Vem cá Totó ...
Chamou o cachorrinho e chacoalhou a peruca para ele como se fosse um bichinho...Pronto! O Totó pegou a peruca, começou a mordê-la e arrastá-la no chão.
Desceu para festa, como se nada tivesse acontecido e, cinicamente, fez de conta que não sabia o porquê da comoção que se instalou no estabelecimento.
Passaram-se as semanas, os meses, os anos, as décadas...
Ele já era um adulto jovem e lecionava na mesma escola onde havia estudado, os irmãos, bem como a "nona", e onde a mãe e algumas irmãs também lecionaram. A tia era então sua diretora e ele, lembrando da história, resolveu contar...
- Tia, tenho algo para contar...Lembra da história da peruca da freira?
- Lembro... Foi você, não foi?
Ficou surpreso...
- Você já sabia? Como?
Ficou mais surpreso ainda logo a seguir, porque a tia também contou uma história.
Ela, bem como as irmãs, brincavam com as meninas do Educandário, na quadra seguinte à casa onde elas cresceram e onde era o açougue do "nono". Ela inclusive frequentava a missa na capela do Educandário, onde a freira controlava o ritmo do passo das meninas batendo com seu anel de pedra, de forma compassada no banco.
Na época da tia, dezesseis anos mais velha do que ele apenas, as freiras usavam hábito pesado e aquela espécie de "casquete" na cabeça.
Certo domingo, quando a tia tinha uns 12 anos, ela resolveu que iria provar a todos que a freira (a qual havia sido colega de escola da avó paterna dele) era careca.
No momento da comunhão, enquanto a freira batia com a anel no banco, a tia se posicionou na fila atrás das meninas do Educandário e "tchum" arrancou a casquete da cabeça da freira!
De fato, ela era careca!
Rememorando a infância, interessante falar aqui sobre suas duas avós, de personalidades absolutamente antagônicas, embora nem sempre conflitantes, e do papel preponderante que tiveram em sua formação, prolongando-se os efeitos de sua atuação ao longo de toda a vida.
“Era uma vez duas avós...” Este é o título de um livro infantil escrito por Naumim Aizen com ilustrações da Patricia Gwinner, publicado pela primeira vez em 1980.
Ele fala sobre as duas avós do autor, muito diferentes entre si, Lucy e Gertrudes, que era conhecida por Alice.
Desde a primeira vez em que ele entrou em contato com o texto, não pode deixar de perceber a sincronia que existia em relação às suas próprias avós, a começar pela questão dos nomes, já que a avó materna era conhecida pelo seu próprio nome, mas não a avó paterna!
Tal como a vovó Alice, a avó materna tinha uma personalidade melancólica. Pouco ria, apesar de sorrir muito. Quando ria, porém, era de uma maneira contida, baixinho, mas não deixava de iluminar seu rosto.
Ela era extremamente educada, polida. Era uma senhora distinta.
A avó paterna era alegre e extrovertida. Tinha muitos amigos, ria o tempo todo. Aliás, ela não ria, ela gargalhava!
Como não tinha medida, mas tinha recebido uma boa educação formal, poderíamos classificá-la como bem educada, mas não era polida. Falava alto, comia muito, gostava de piadas picantes, bebia whisky diariamente, por “prescrição médica”, como dizia, e amava o carteado... Principalmente jogo de buraco, mas também tranca, vinte e um, truco e até poker à dinheiro, quando várias amigas acabavam devendo quantias consideráveis!
A justa medida, o meio do caminho, entre as duas personalidades talvez fosse o fiel da balança. Ele, como bom capricorniano que é, saiu à avó paterna.
Ambas tiveram dificuldades na vida, de natureza muito diferente. A maneira como cada uma superou estas dificuldades também foi muito diversa.
A avó materna ajudou o marido com o açougue, cuidou da casa e criou os sete filhos. A avó paterna, uma vez viúva, foi empreendedora: teve uma pequena confecção no porão de sua casa, onde fabricava lingeries (nos anos 30!), construiu vilas de casinhas, aplicou na bolsa, comprou e vendeu dólares... No final das contas, casou com um homem muito rico que lhe proporcionou a vida que ela sempre quis.
Talvez seja por isso que seu filho, o pai dele, sempre dizia que “a pessoa tem duas chances na vida, quando nasce e quando casa!”
A avó materna nasceu e morreu em Jundiaí. Nasceu na Rua Quinze de Novembro, esquina com Rua São Bento, quando se casou morou algum tempo na Rua Prudente de Moraes, viveu a maior parte da sua vida e morreu morando na Rua Marechal Deodoro, também esquina com Rua São Bento, ou seja, os 74 anos da sua vida transcorreram em um quadrilátero de não mais do que 200 ou no máximo 300 metros de lado.
A avó paterna nasceu em Jundiaí, na então rua principal, a Barão de Jundiaí. Mudou-se com a família para São Paulo onde estudou, se casou com o primeiro marido, um contador do Conde Matarazzo, e teve o único filho. Mudou-se do Braz para a Vila Mariana. Com o segundo casamento passou a morar entre o sítio e o centro de Jundiaí, casa na Vila Mariana em São Paulo e apartamento beira-mar em Santos... Depois de velha, sossegou e se fixou definitivamente no centro de Jundiaí. Ou seja, mudou-se muito ao longo dos seus 94 anos!
A avó materna teve um único namorado, um único marido, oito filhos, dos quais criou sete, pois o primeiro morreu ainda bebê. Uma senhora que estudou com ela no Grupo Escolar Conde do Parnaíba, e foi diretora de um Parque Infantil da Prefeitura que ele frequentava quando criança, lhe disse que ela jamais superou a perda deste primeiro filho.
A avó paterna teve vários namorados. Três de uma vez, nos “loucos anos 20”. Casou-se relativamente tarde, para a época, só teve um filho e dois maridos! Viúva duas vezes, tendo criado o filho praticamente sozinha, tendo de enterrá-lo depois de já idosa, poucas vezes foi vista triste, bem poucas mesmo.
No quesito religião nenhuma das duas era fanática. Tinham uma postura bem “ecumênica”, tanto a avó materna - com o seu catolicismo adocicado, onde cabiam muito bem os benzimentos, que ela fazia com azeite, alho, arruda do seu quintal, enquanto pronunciava orações, com o terço na outra mão - quanto a avó paterna - com o seu Espiritismo Kardecista, onde cabia um terreiro de Umbanda de vez em quando - deram o belo exemplo da tolerância e da boa convivência com a religiosidade e as crenças do nosso povo!
Ambas eram cozinheiras maravilhosas, cada uma com as suas especialidades.
A avó materna era mestra nos pratos do dia a dia. Quando temperava o feijão com alho, cebola, um maço de cheiro verde e outro de coentro, que ela fritava a parte em uma frigideira, o aroma único se espalhava por todo o quarteirão, e todos os vizinhos ficavam com vontade de experimentar! Em ocasiões especiais as suas especialidades eram o nhoque de pão – tradição do Tirol, região de onde era originária sua família, e que a mãe do protagonista também preparava com maestria – o cuscuz de forno e o manjar branco, feito com leite de coco, com calda de ameixa preta.
A avó paterna preparava todos os domingos pratos sofisticados, sempre em número de sete, em geral originários da ilha de Íschia, no Golfo de Nápoles, de onde viera sua família. Eram lulas refogadas ou no alho ou então recheadas, peixe assado recheado com camarões, escarolas recheadas com aliche, polpetones com uvas passas, vários tipos de massas, de legumes em escabeche e doces diferentes, como os que confeccionava especialmente para o Natal, vários deles embebidos em mel.
Com a avó materna ele aprendeu que “primeiro a obrigação, depois a diversão”. Tudo na casa dela tinha hora e lugar. Havia medida para todas as coisas. Até porque, como ela criaria sete filhos se não houvesse regras e medidas?
Em resumo, com a avó materna aprendeu a ser organizado e a ter a disciplina que é necessária para alcançar os seus objetivos a médio e a longo prazo.
Com a avó paterna aprendeu o “laissez faire”, o “bem viver”. Na casa dela não havia medida nenhuma, em nada. Tudo era farto e abundante. Ela se achava no direito e na obrigação de mimar os netos. Os pais que dessem educação!
Também com a avó paterna aprendeu a pintura à óleo sobre tela, que ela havia lecionado, quando solteira, no mesmo colégio de moças em que estudara em São Paulo, e o crochê.
Seus exemplos sempre lhe demonstraram como “se soltar” e aproveitar os bons momentos, que são únicos, pois, como dizia Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos de todos os tempos, “a vida é um sopro”.
O Casarão Assombrado
Era um dia de sol. Outono de 1974.
Ele sempre dizia à sua mãe que alguns dias eram “lindos como um sonho”: claros, cheios de sol, cores nítidas, mas com um vento fresco, que deixava tudo com um ar surreal.
Ele e a mãe eram extremamente ligados.
Ele tinha um sonho recorrente que o assombrava: no sonho, ele era bem pequeno e estava andando pelas ruas com a mãe, de mãos dadas. Ele olhava para cima e ela sorria. Em certo ponto do caminho, estavam subindo as escadas de uma galeria (que ligava duas ruas do centro da cidade) e havia um obstáculo, que ele não conseguiu transpor, em um dos degraus. A mãe soltou sua mãozinha, seguiu seu caminho, e o deixou sozinho.
Naquele dia “lindo como um sonho”, entraram todos no velho DKW cinza escuro, que o pai teimava em dizer que era “marrom café”, e foram ver mais uma casa.
Nem a esposa e nem nenhum dos cinco filhos nutria ainda esperanças reais de saírem um dia da casa da avó paterna, onde todos eles se amontoavam em um quarto tão pequeno que o único que tinha cama era ele mesmo, o mais velho. Todos os demais dormiam ainda em seus berços, embora já tivessem mais de cinco anos de idade.
Pouco tempo antes, o pai havia comprado e, quase imediatamente, vendido uma bela casa antiga de esquina. Ninguém entendeu muito bem por quê.
Quando chegaram a esta casa foi uma mistura de encantamento e hipnose coletiva. Se a primeira casa, aquela de esquina, era grande, esta era imensa! Ia quase de uma quadra à outra e estava toda mobiliada com lindos móveis, muito elegantes, de várias épocas do século XX.
Sobretudo, o que causou encanto nas crianças foram os porões! Vários deles, imensos e repletos de objetos, móveis e até baús com roupas antigas, para explorarem e brincarem. Havia vários objetos do século XIX.
Em mais de vinte anos em posse da casa, ninguém nunca parou para contar quantos cômodos de fato ela tinha. Sabiam apenas que eram 3 dormitórios na parte de cima, uma sala principal com mais de 60 m², salas de almoço e jantar, cozinha, dois banheiros na parte superior e um no quintal. A parte de baixo é até hoje um mistério, já que havia passagens que, depois descobriram, foram fechadas e portas foram emparedadas, ficando cômodos inteiros ocultos.
Ninguém entendeu muito bem a reticência do proprietário - um senhor muito idoso, que mesmo naquela época ainda usava chapéu e terno cinza - nem tampouco porque, na última hora, ele diminuiu tanto o preço que havia sido combinado inicialmente. O certo é que, finalmente, foi possível a compra.
Nos primeiros tempos o encantamento continuou. As crianças brincavam, despreocupadas, no quintal, dias e dias. Traziam coleguinhas de escola para brincarem e nas férias recebiam as primas de São Paulo.
Brincavam de “cidade”, onde uma mangueira fazia o papel de ônibus, uma pequena escadinha de madeira de 2 andares e um banco faziam o papel de casa. Subiam e desciam das várias árvores frutíferas e tomavam banho de esguicho.
Também brincavam nos porões onde, em um baú haviam descoberto corpetes do início do século, fantasias de carnaval, peças de renda inteiras e dezenas de anáguas de renda e de filó, das que haviam sido usadas, muito tempo antes, para armar as saias.
Eram muito unidos nesta época. Não havia segredos entre eles. Apenas segredos em relação aos adultos, como por exemplo os locais em que enterravam e desenterravam os seus bichinhos, gatos e passarinhos. Vida e morte tinham então muito interesse para eles.
O interessante é que os mesmos lugares que encantavam, divertiam e distraiam durante todo o dia, causavam pavor à noite. É como se “algo” fosse lentamente tomando conta do quintal e dos porões sombrios, com o cair da noite.
Havia uma porta dupla, reforçada e com tranca, que separava o primeiro porão dos demais. Metaforicamente, ela demarcava o lugar até onde podiam ir após o cair da noite.
Com a passagem do tempo, as crianças foram crescendo e a sua percepção em relação à casa foi mudando. Percebiam agora que não era um “castelo encantado” e sim um “casarão assombrado”, com mais de 100 anos e muito mal reformado na década de 1950. Já notavam as paredes descascadas, o forro mofado de alguns cômodos e o aspecto arcaico dos banheiros e da cozinha, com azulejos brancos até a metade da parede, louças antigas e uma velha banheira.
O velho assoalho de tábuas corridas rangia sob os pés - a despeito das vigas de madeira e até da coluna de ferro que o pai colocara no porão para dar sustentação - e os lindos lustres de cristal tilintavam, cada vez que a casa toda trepidava, quando um ônibus passava na rua. Eram já os anos 80, a “década perdida” e, em geral, não havia dinheiro nem para uma pintura.
A despeito de tudo, porém, para os seus ocupantes, até mesmo o aspecto decadente e arruinado, com os corredores escuros e os porões que eram como calabouços, cheios de objetos dos antigos proprietários, fantasmas e segredos, aumentavam o seu encanto, já que havia a similaridade com os castelos ou os casarões de fazendas sulistas, destruídos pela guerra civil dos EUA, nos filmes que todos eles assistiam.
Sobre os fantasmas, convém notar que durante uma obra que o pai realizou em um dos porões, descobriu-se uma parede de taipa. Este fato aliado às correntes em outro porão e à porta com grades, moedor de café e terreiro tijolado no quintal, os faziam pensar em uma senzala, na primeira formatação da casa, bem anterior à que eles conheceram.
A menos de uma quadra, em uma pequena praça, no final dos anos 1970 ou início dos anos 1980, descobriram-se ossadas humanas. Com uma pesquisa criteriosa, historiadores locais puderam informar que se tratava de um “Cemitério de Cativos”, ou seja, um Cemitério de Escravizados. Como em várias cidades brasileiras, não havia monumentos funerários e, com a passagem do tempo, o lugar simplesmente foi esquecido.
Além dos prováveis espíritos de cativos, a casa presenciara um crime e um trágico acidente.
Uma das filhas do antigo proprietário fora acusada de matar o próprio marido, tendo dado à luz na cadeia.
Já a esposa, por sua vez, caíra de uma escada quando colocava uma cortina, ainda jovem, e tornara-se paraplégica, passando o resto da vida numa cadeira de rodas. A grande porta de vidro, de correr, colocada na entrada da casa, em combinação com o muro baixo – que o pai das crianças substituiu por outro, muito alto, nos anos 1980 - era para que ela pudesse observar a rua, sentada na sua cadeira de rodas.
Uma das irmãs, já na adolescência, teve diversas crises de sonambulismo durante as quais se sentava no sofá e parecia conversar com alguém, provavelmente a senhora da casa, em sua cadeira de rodas.
Os espíritos do andar de cima eram bondosos, seres de luz. Já aqueles do andar de baixo, os quais, sem querer e sem entender muito bem, no final da infância e início da adolescência os filhos libertaram, certamente eram obsessores.
O comportamento de todos os que entravam em contato com estas entidades, quer seja indo aos porões ou ao quintal à noite, ou mesmo procurando comunicar-se com eles (sessões espíritas estavam na moda, e metade da família era Espírita Kardecista) mudava drasticamente.
Várias vezes organizaram “Sessões Espíritas” com os coleguinhas da escola, nos porões ou no quintal. Não sabiam com o que estavam mexendo.
Duas das irmãs, até então tímidas e quietas, as típicas “meninas boazinhas”, da noite para o dia se transformaram de tal forma, que para ele parecia possessão demoníaca!
A confusão do comportamento delas se refletia na desorganização do seu quarto, das suas roupas, do seu material escolar... Passaram a tentar se tatuar com gilete e caneta, fugiam de casa, pulando o muro do fundo do quintal durante a noite...
De repente os cinco irmãos, que foram tão próximos na infância, brincando dias inteiros naquele quintal, tornaram-se estranhos uns para os outros. Dividiram-se em pares: as duas mais velhas, os dois mais novos (que continuaram sempre a ser “bonzinhos”), e ele ficou sozinho. Cada vez mais ligado à mãe.
Por volta dos treze anos ele também estava mudando, embora ainda não entendesse como e nem por quê.
Nesta época houve um rapaz que foi contratado para trocar as calhas e colocar lã de vidro sobre as novas, para tentar conter as inúmeras goteiras – problema crônico, que nunca chegou a ser resolvido – e ele se interessou muito.
Em relação ao rapaz, ao qual faltava um dedo em uma das mãos, a inexperiência dele fez com que nada acontecesse, já que ele deu todas as dicas, tendo inclusive se trocado e ficado completamente nu em sua presença. Tinha um corpo escultural.
Ele passou a costurar escondido no porão, a fazer lindas bonecas, com roupas de época e a brincar com elas, no que era bastante reprimido pelo pai, e até castigado, sempre que este descobria.
O pai tratou de ocupá-lo constantemente com atividades de manutenção e reparos na casa. Desde serviço mais “grosseiros” de pedreiro, eletricista e encanador, até serviços mais “finos” como tapeceiro (consertando as dezenas de estofados que havia ali e que os irmãos constantemente danificavam).
O sentido destes serviços era uma confluência de fatores.
Em primeiro lugar, não havia dinheiro para contratar profissionais para executar estes serviços. A casa era imensa e não havia como consertar tudo o tempo todo.
Em segundo lugar, o pai certamente sentia que estava cumprindo a “sua função”, mantendo o filho ocupado todo o tempo, o tempo todo, com “atividades masculinas”, não lhe dando tempo para as suas costuras, as suas pinturas (muito estimuladas pela avó, que inclusive o presenteou com uma caixa de pintura, que foi o encanto maior da sua adolescência) e as suas bonecas.
Finalmente, em terceiro lugar, o pai já o havia vaticinado um futuro de relativa pobreza, sem recursos ele mesmo para contratar profissionais para estes reparos, já que, ao contrário do filho caçula, ele “era burro”, não conseguia aprender matemática.
Houve mesmo uma grande surra, na época da quinta série. Foi no “quarto de estudos”, o primeiro dos porões, que havia sido reformado para esta finalidade, onde cada filho tinha sua própria escrivaninha.
Após tentativas infrutíferas de ensinar a extrair raiz quadrada, que se estenderam até as 2h00 da manhã, o pai perdeu a paciência, o jogou no chão e o surrou com a cinta. Após aquele dia, desistiu de lhe ensinar matemática, dedicando-se apenas a instruir o filho mais novo neste quesito. O mais velho “era burro”, apesar de habilidoso. Ia ser pobre e teria de aprender serviços manuais. O mais novo, que era “inteligente”, pois sabia matemática, ia ser rico!
Para animar e tornar a vida um pouco mais suportável, houve o primeiro namoradinho. Eles iam juntos a toda parte, dormiam um na casa do outro, conversavam com as respectivas famílias e principalmente as respectivas avós. Nada mais. Nenhum dos dois pensava em sexo ainda.
Ainda assim, houve um funesto escândalo e o namorico foi abortado pelas duas famílias. Apenas a avó paterna nunca censurou e nem tampouco parecia dar importância à orientação sexual do neto. Pelo contrário, gostava de vê-lo brincar com suas perucas e roupas antigas, sempre que o pai não estava perto.
Verificando as fotografias antigas, em seus grandes álbuns de capa de couro de crocodilo, o que vemos é que ela mesma vestia o filho (o pai das crianças) com roupas de menina quando bebê. Já em idade escolar, o vemos com sapatinho branco, “de boneca”, e um grande laço no pescoço.
Às vezes ele recorda o final da adolescência e pensa que vivia num filme de Almodóvar ou então num romance de realismo fantástico latino-americano, dada a quantidade de pessoas "peculiares" e de acontecimentos "inusitados".
Bem, lembrando da "fauna Almodovariana" que povoava a sua casa e a casa da avó: havia uma senhora argentina de Buenos Aires, que cismou de vender à avó uma fábrica de rolhas ! Isso mesmo, fábrica de rolhas em plena década de 1980, quando já quase não se usavam rolhas! Pois bem, "desapareceu" depois da avó ter lhe emprestado uma boa quantia e quando, depois de alguns anos, ele a viu em São Paulo, na varanda do Hotel Hilton, próximo à Praça da República, com seu indisfarçável "cabelo panetone" - que era um cabelo armado à laquê, que havia sido a coqueluche dos anos 60 e nos anos 80 apenas ela ainda usava - fez de conta que não o viu, ou não o reconheceu, e correu para dentro do Hotel!
Havia uma senhora espanhola, casada com um senhor também espanhol. Muito amiga da avó. Um dia que fazia muito frio ele estava andando pela Rua Rangel Pestana e escutou a indisfarçável buzina do corcel da avó. Lá vinha ela, dirigindo em 2ª marcha, como sempre fazia, com a bolsa pendurada no afogador do carro. A espanhola estava sentada ao lado, no banco do passageiro, e o frio era tanto que a avó havia amarrado um chale cinza ao redor da cabeça e colocado a peruca por cima, como se fosse um chapéu ou um gorro!
Havia uma amiga já idosa, que brigou com o marido por se recusar a fazer sexo e, por conta disso, juntou umas travessas, alguns panos de prato e foi morar com a avó, no quarto de hóspedes, onde viveu alguns anos.
Havia também uma senhora francesa que já havia sido riquíssima, de nome aristocrático, e que acabou seus dias no mesmo predinho onde a mãe dele mora hoje. Segundo dizia a avó, lhe devendo uma quantia considerável, perdida no jogo. Isso mesmo, apesar da proibição, como já foi dito antes, elas jogavam à dinheiro!
Por falar na jogatina: na casa da avó havia uma espécie de edícula, após o orquidário, no quintal. Ela e todas as suas amigas passavam as tardes quentes só de combinação, jogando baralho. Se chegava uma visita de repente era um tal de xale para cá, peignoir para lá...
E havia, a mais exótica de todas, uma homossexual, cujo primeiro nome aludia a um título nobiliárquico da Grã-Bretanha, muito explícita e grandalhona, que ele não sabia por que ninguém comentava que era lésbica! Em plena década de 1980, ela fumava cigarros usando piteira.
Durante a juventude ela havia se dedicado à caça, pesca e acampamento com o irmão, que havia sido amigo do pai dele. Após a falência da família, ela e o irmão transformaram a casa em "casa de cômodos" (pensão) onde, segundo seu pai, alugavam quartos para "umas professoras". Já a sua mãe dizia que não se lembrava de nenhuma professora naquele local e, se elas ensinavam alguma coisa ali, era certamente algo muito específico!
Na maturidade, a “grandalhona” havia se tornado esteticista.
O dia que ele a conheceu havia chegado em casa e ela estava na sala de visitas, visivelmente entretida com a sua mãe, fumando com sua longa piteira...
Ela até que ia indo muito bem, lhes vendendo vários produtos, até que ele mesmo descobriu que havia leite em pó dentro de algumas cápsulas e que o gel redutor era descongestionante nasal em gel, bastante comum e a venda em qualquer farmácia!
Frequentou a casa durante alguns meses e, depois, da mesma maneira misteriosa e repentina que reapareceu, voltou a desaparecer.
Conforme cada um dos filhos foi seguindo o próprio rumo, e saindo do velho casarão, o encanto se quebrou. A malignidade deixou as suas vidas, e o seu comportamento afável e tranquilo, como na infância, foi voltando.
O mais velho, de fato, nunca foi rico, mas teve uma vida confortável e tranquila. As duas mais velhas tranquilizaram-se, e cada uma seguiu a própria vida. A irmã do meio não teve mais crises de sonambulismo e nem conversou mais com os espíritos. O mais novo, criado diretamente sob a tutela e proteção do pai, aparentemente nunca sofreu os efeitos ou foi afetado pela casa. Como vaticinou o pai, foi aquele economicamente mais bem-sucedido, afinal, ele sabe matemática!
O pai passou quase dezoito anos praticamente sem sair dos porões, razão pela qual ele sempre desconfiou que seu espírito tenha ficado preso à casa, mesmo depois da demolição, ocorrida no final dos anos 1990.
O pai amava música orquestrada e a sua favorita, que deve ter ouvido milhares de vezes, era o tema do filme “A Summer Place”, de 1959.
A trama deste filme lembra a ele um episódio.
Muitos anos depois, já maduro, a mãe – com princípio do mal de Alzheimer - lhe contou, durante um dos seus habituais jogos de buraco, algo que nunca havia contado.
Na festa de seu casamento, em 1960, apareceu uma moça estranha, que não estava entre os convidados. Ela era visivelmente paulistana, de classe superior e usava joias vistosas, incluindo um anel enorme. Se aproximou de seu marido (o pai das crianças) e o beijou na boca.
Ela ia questionar o marido, recém-casado, a respeito. Imediatamente, porém, a mãe dele, a avó paterna das crianças, se aproximou e disse a ela que “deixasse para lá” e que essa moça não era ninguém “que ela precisasse se preocupar”.
Quem seria a moça, elegante e misteriosa?
Será que foi com ela que o pai das crianças assistiu “A Summer Place”, um ano antes do seu casamento? Sim, porque a música do filme visivelmente o marcou para sempre, embora não tenha significado especial algum para a esposa, como verificou, muitos anos mais tarde, o filho mais velho.
Um segredo que morreu com ele. Ou então que ainda está junto com ele, num outro plano, ainda vagando, para todo sempre, pelos porões sombrios do seu Casarão Assombrado.
Angelical Conversation”
Era outubro do penúltimo ano em que ele vivia no Casarão Assombrado, embora ainda não soubesse disso.
As cada vez mais constantes brigas com o pai, o lento “desprender” em relação à mãe e o distanciamento cada vez maior em relação aos irmãos, além do fato de agora ele ter os seus próprios segredos, já prenunciavam que ele não ficaria mais muito tempo ali. Ele não queria e não podia mais ficar...
Ele era bem jovem, algo entre magro e bem definido e os cabelos estavam oxigenados. Estranhamente, até aquele momento, não havia tido experiência sexual completa com nenhum dos seus namoradinhos.
Pouco tempo antes, quase havia acontecido. O namoradinho da época, pensando que a mãe havia viajado, o convidou para sua casa. Quando estavam se beijando no sofá da sala, eis que surge a própria!
O resultado, muito comum naquela época, é que ele foi expulso da casa e teve de prometer nunca mais sair com o namoradinho, que era filho único de uma renomada modista da cidade.
Mediante o ocorrido, mais uma vez ficou só.
Convidou a mãe, que comemoraria 51 anos dali há poucos dias, para ir com ele à 11ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Queria assistir "Angelical Conversation", do cineasta Derek Jarman (1942-1994), expoente do neo realismo inglês, que estava em cartaz no famoso Cinearte 1, no Conjunto Nacional na Avenida Paulista. Ela não quis ir.
Não havia tempo para tomar banho, então, literalmente, tomou um banho de desodorante Rastro.
Foi de "Cometa" de Jundiaí até o Terminal Rodoviário do Tietê, onde pegou o metrô, descendo na estação Paraíso. Para não perder a hora do filme, ele correu todo o percurso da Paulista, do Paraíso até o Conjunto Nacional.
Ainda na fila da bilheteria avistou um rapaz lindo, com traços ao mesmo tempo ibéricos e indígenas, que estava com uma jaqueta jeans. Tinha cabelos pretos e lisos, caindo pesadamente numa franja sobre a metade esquerda do rosto, olhos amendoados e uma covinha no queixo. A pele era clara e a forma do tronco e dos ombros largos, denotavam a origem ibérica também.
Por instantes, os olhares se cruzaram.
Havia uma mistura de ansiedade, medo e euforia no ar.
Como seu francês, na época, era bastante razoável, tomou emprestada a vida de um dos seus professores da faculdade, que acabara de chegar de Aix-en-Provence. Aumentou a própria idade para 34 anos e criou rapidamente toda uma narrativa. Fez isto para se proteger e, ao mesmo tempo, para se tornar mais interessante, mais sofisticado.
Como ele havia vivido pouco, viajado pouco e conhecido pouco, precisava de experiências emprestadas de outra pessoa, para se tornar interessante. Treinou o sotaque francês já na bilheteria. Lhe caiu muito bem!
Afetou um ar superior, levantou o nariz e foi andando até a primeira fila do cinema. No seu íntimo pedia para que o rapaz da jaqueta jeans viesse atrás dele. E ele veio! Sentou-se ao seu lado.
Durante o filme havia um braço roçando no seu, que se transformou em uma mão sobre a sua. Tudo muito sutil e delicado.
O filme acabou e, compondo o personagem, ele não queria parecer uma pessoa “fácil”, logo, levantou-se e foi saindo. Mais uma vez, no seu íntimo pedia para que o rapaz da jaqueta jeans o seguisse. E ele o seguiu.
De repente havia uma mão sobre o seu ombro:
- Você não quer ir comigo num barzinho que tem aqui perto, tomar um chopp e conversar um pouco?
O nível de ansiedade foi ficando incontrolável. Ele quase pediria para dispensarem o chopp...
Uma vez mais, ele falou com sotaque francês e aceitou.
Trinta e tantos anos depois, ele não se lembra mais quantas mentiras contou ao pobre rapaz, sobre suas supostas viagens, sua experiência como professor universitário e seus planos para o futuro... Tudo “emprestado’! Ele só lembra que funcionou tudo muito bem e produziu o efeito desejado, que foi ser convidado para dormir no apartamento do rapaz da jaqueta jeans.
O plano original era ter finalmente sua primeira experiencia sexual completa e depois desaparecer. Nada de envolvimento.
Como o rapaz da jaqueta jeans disse que era dentista e o do cabelo oxigenado achou que estava mentindo, ficou à vontade. Não haveria problemas em mentir bastante, muito pelo contrário!
O que ele, no auge da “sabedoria” dos seus vinte e poucos anos, o cabelo oxigenado não tinha como prever é que poderia se apaixonar...
O “apartamento” era uma quitinete comprida, com paredes brancas, bem ao lado da Igreja de Santa Cecília. Tudo extremamente limpo, cheiroso e organizado.
Ao lado da porta de entrada estava a porta do pequeno banheiro e os apetrechos completos de cozinha: uma pequena mesa dobrável, destas de bar, com banquinhos, pia, fogão e geladeira.
Na parede da direita havia uma velha vitrola sobre duas caixas de som grandes e, sobre ela, pendurada na parede, uma esteira indígena, usada como painel de fotografias. Também havia uma televisão portátil sobre uma mesinha.
Na parede da esquerda havia a cama, também usada como sofá, com um colchão extra, que foi utilizado naquela noite.
Na parede do fundo estava a janela, da qual se avistava a cúpula da Igreja de Santa Cecília. Ouvia-se o sino a cada meia hora.
Uma vez no apartamento o rapaz da jaqueta jeans foi ao mesmo tempo bastante entusiasmado e quente, meigo e delicado.
Assim que ele se despiu o do cabelo oxigenado se lembrou do rapaz que seu pai contratara, anos antes, para consertar as calhas da casa.
Se vestido ele já era lindo, despido era deslumbrante! Um deus, um Tupã ou um Viracocha. Cheirava Sr. N da Natura e tinha uma consistência firme e musculosa, apesar da pele extremamente macia.
Era época dos discos de vinil. O rapaz da jaqueta jeans colocou Caetano Veloso em sua velha vitrola automática. Durante várias horas a “Vaca Profana” foi repetida dezenas de vezes... Esta música e o sino da igreja foram a trilha sonora da primeira relação sexual completa do jovem do cabelo oxigenado.
O deus indígena não percebeu a inexperiência do cabelo oxigenado, provavelmente por conta dos chopps que ambos haviam bebido.
Como o “serviço” havia sido completo, no dia seguinte o cabelo oxigenado estava todo marcado, com várias manchas ao redor do pescoço e mamilos.
Neste ínterim, algo havia acontecido e o cabelo oxigenado não queria mais fugir, não queria mais mentir. Queria ser ele mesmo. Queria namorar. Queria ser feliz! Mas já não podia, havia ido longe demais...
Para dar uma pequena chance ao destino, deixou um pequeno pedaço de papel com o seu número de telefone. Numa época em que ainda não existia celular, teria de contar com um pouco de sorte para atender o telefone, que ficava na sala de televisão. Não poderia falar à vontade.
Em retornando para casa, houve um diálogo com sua mãe, após ela observar as marcas:
- Filho, posso fazer uma pergunta?
- Claro que sim!
- Você pode me falar, por favor, se foi homem ou se foi mulher?
- Foi homem.
- Ah... Eu já sabia. Só queria mesmo que você me confirmasse.
Poucos dias depois o telefone tocou. Era hora do Jornal Nacional e tanto o pai quanto a mãe estavam na sala. Ainda assim, ele foi habilidoso e soube levar o telefone até a garagem.
A esta altura já não sabia o que fazer, ou seja, se mantinha o falso sotaque francês, para não quebrar o encanto em relação ao rapaz da jaqueta jeans, ou se procurava ser o mais natural possível, para não causar alarde em casa. Optou por um meio termo, em voz baixa.
Marcaram de se encontrar no sábado. O coração do rapaz do cabelo oxigenado batia tão rápido que parecia que ia sair pela boca. Era uma mistura de medo, em virtude das várias mentiras, ansiedade, pelo reencontro, e excitação, diante da possibilidade de haver sexo.
Foi a mais longa das semanas.
Em casa o ambiente estava cada vez mais pesado. Nem o aniversário da mãe na sexta feira aliviou. Pelo contrário, a presença dos parentes no casarão assombrado tornava o clima mais tenso. Havia um ar de censura em cada rosto e a impressão que ele tinha é que todos sabiam o que havia acontecido.
Ainda assim, tudo isso passou e chegou afinal o sábado.
Mais uma vez, como de costume, foi de “Cometa” para São Paulo. Tomou o metrô e logo chegou ao Largo Santa Cecília. Levava álbuns reais de fotografias, para mostrar quem de fato ele era e de onde vinha, uma bela toalha de linho com aplicações em renda, como presente, e as mais sinceras desculpas.
Já diz a sabedoria popular que “quando a esmola é demais, o santo desconfia” e foram tantas mentiras, e tão mirabolantes, que o rapaz da jaqueta jeans decidiu proteger-se um pouco e convidou um casal gay de amigos, com os quais ele havia morado em Perdizes para virem conhecer “o francês”.
Houve um momento inicial extremamente constrangedor, em que ninguém esteve muito à vontade, mas, graças ao vinho trazido pelo casal e à lata de “antipasti di mare”, providenciada pelo rapaz da jaqueta jeans, o clima ficou tolerável.
Desnecessário dizer que o rapaz da jaqueta jeans, com muita justiça, se sentiu traído e enganado. Tinha motivos para isso. Ainda assim, decidiu dar uma chance ao rapaz do cabelo oxigenado o qual teve, nas duas semanas seguintes, os melhores momentos da sua vida até então.
Foram juntos à boate gay mais antiga de São Paulo, o “Homo Sapiens”, mais conhecido por “H.S.”, comeram nhoque com frango no “Gato que ri”, no Largo do Arouche, andaram de mãos dadas pela Avenida Paulista e passearam, muito felizes, de moto pelo “Minhocão”, o cabelo oxigenado na garupa.
Nunca antes na sua vida ele havia se sentido tão confiante e tão pleno. Tão cheio de vida!
Levou o rapaz da jaqueta jeans para dormir na casa da avó, no quarto da frente, que ela reservava para seu uso e onde, como ela dizia, “os lençóis são sempre trocados”.
No dia seguinte, durante o café da manhã, o encantamento da avó pelo belo rapaz da jaqueta jeans foi tanto que ela insistiu que todos os seus amigos a chamavam pelo primeiro nome, para que ele abolisse o “dona” ou o “senhora’!
O sucesso obtido junto à avó gerou falsas expectativas no rapaz do cabelo oxigenado, que decidiu que era hora de apresentar o rapaz da jaqueta jeans aos seus pais.
O maior erro que o cabelo oxigenado cometeu foi levar o rapaz da jaqueta jeans ao casarão assombrado, principalmente aos porões sombrios.
Logo após a primeira visita, o comportamento do rapaz da jaqueta jeans mudou. O seu entusiasmo inicial desapareceu completamente. Foi como se ele houvesse recebido um balde de água fria sobre a cabeça.
O rapaz da jaqueta jeans não compareceu ao encontro combinado para o final de semana seguinte e foi deixando de telefonar e de atender telefonemas na Clínica Dentária. Mandava a Secretária atender e dizer que ele estava ocupado ou que havia saído.
Mediante esta atitude, ao invés de desanimar, o cabelo oxigenado desenvolveu uma paixão incontrolável e obsessiva.
Gastava todo o seu dinheiro em presentes, cartões, bombons, que enviava pelo correio. Escrevia cartas e cartas sem fim. Umas duas ou três, apenas, foram respondidas. Sempre com evasivas.
Cerca de um mês depois, o cabelo oxigenado criou coragem, vestiu as suas melhores roupas e foi até o apartamento em um sábado à noite. O da jaqueta jeans estava com um rapaz de bigode.
Durante aproximadamente nove meses o cabelo oxigenado e o jaqueta jeans mantiveram contatos pontuais. Foram juntos ao Baile do Havaí e viajaram juntos ao Rio de Janeiro. Nunca mais, porém, tiveram sexo.
Nova chuva de cartas, de presentes, de flores, de bombons, implorando atenção. O cabelo oxigenado sentiu-se psiquicamente doente, procurando ajuda junto a uma psicóloga.
Eram trocados sinais ambivalentes entre os dois pois, ao mesmo tempo que decidiu voltar para Campo Grande, para fugir do assédio, que ele considerava insuportável, o rapaz da jaqueta jeans convidou o cabelo oxigenado para visitá-lo e conhecer toda a sua família.
O resultado foi uma confusão de proporções Bíblicas, que acabou por envolver ambas as mães, ambas as famílias.
O cabelo oxigenado acabou inclusive desistindo de brigar com sua mãe, quando ela queimou todas as fotografias e lembranças que ele possuía do rapaz da jaqueta jeans, porque percebeu perfeitamente que esta queima fazia parte de um “acordo de paz” entre as duas famílias. Como ele mesmo havia gerado toda a confusão, resignou-se, aceitou e nunca mais soube nada do rapaz da jaqueta jeans.
A borboleta louca
Triste e completamente desiludido, dez meses depois do filme “Angelical Conversation”, o rapaz do cabelo oxigenado, falou para as irmãs que iria a uma boate em Campinas e que ficaria “com a primeira porcaria que olhasse para ele”.
Como a palavra tem poder, os anjos disseram amém.
Horas depois, na boate "Bub’s", centro de Campinas, tocava a música “Ilariê”, da Xuxa. Um tipo exótico, que tempos depois o pai do cabelo oxigenado chamaria de “Borboleta Louca” e suas irmãs de “Pica-Pau” (em alusão ao personagem de desenho animado, devido ao cabelo, tingido de acaju púrpura, misturado com vermelho intenso) dava voltas e voltas em frente a um espelho e praticamente o “comia com os olhos”.
Eram os anos 80 e era costume ir à boate com um grupinho de amigos, que ficavam dançando mais ou menos próximos. Faziam “evoluções” e dançavam “passinhos”, como Michael Jackson ou John Travolta, claro que numa “versão gay”. A “Borboleta louca” estava com dois amigos.
Como ele era quase monossilábico, e quando tentava falar as frases saiam desconexas, sem coerência nenhuma, o cabelo oxigenado resolveu que deveriam partir logo para a ação.
Havia um pequeno hotel, instalado em um antigo casarão, bem na esquina da boate. Acredito que era estrategicamente localizado, exatamente para facilitar os encontros furtivos.
O cabelo oxigenado desejava, mais do que tudo, uma “inspeção anatômica” na “borboleta louca”, a qual, para ele, não foi também completamente satisfatória, mas, de qualquer maneira, a interação entre os dois, ambos jovens, foi funcional.
Se faz necessária aqui uma correção. Haviam se passado dez meses e os cabelos haviam crescido, já não eram mais oxigenados, de maneira que vamos passar a chamar o “nosso rapaz” de “professor”, já que se formou logo após a sua história com o rapaz da jaqueta jeans.
Agora cursava o mestrado e tinha uma bolsa de estudos.
Como era então muito teimoso, e havia dito que ficaria com “a primeira porcaria que olhasse para ele”, lá estava ele, lá estava a “porcaria”, então...
Iniciou logo na segunda feira um “namoro” insólito, onde, como verificaria décadas depois, ele praticamente namorava sozinho, já que a “borboleta louca” não tinha condições intelectuais de manter um diálogo por mais de 10 minutos. Seus assuntos eram cabelo (sua obsessão), homem/sexo, faxina e comida. Tudo muito básico. Nada mais!
O professor ficou sabendo logo de início do “problema de cabeça”, que fizera a “Borboleta Louca” abandonar a escola logo na sexta série. Percebeu a relação de cumplicidade entre este a mãe, que sempre se sentiu culpada pelo tal “problema de cabeça”, já que havia tentado abortá-lo por ter ficado grávida um ou dois meses antes do casamento, que já estava marcado...
Histórias, histórias e mais histórias...
A família era excelente. As irmãs, ao contrário da “borboleta louca”, haviam estudado, sendo uma delas casada com um empresário – lindo de morrer, como se dizia na época – e a outra secretária em um colégio particular de renome. Os tios e tias eram instruídos e bem colocados, sendo um deles dentista e casado com uma advogada. Apenas a “borboleta louca” não tinha nem instrução, nem colocação, trabalhando no restaurante de uma firma. Ele desejava um companheiro que pudesse sustentá-lo, a verdade era esta...
Na casa da “Borboleta Louca” imperava a boa e velha hipocrisia brasileira. Os pais sabiam muito bem o filho que tinham em casa e, até aquele momento, haviam aceitado todos os seus namorados, desde que as coisas não ficassem demasiadamente claras.
Falavam em “amizades” que o filho havia tido. E que sempre haviam recebido em casa os “amigos” do filho.
Todo mundo ali sabia muito bem a conotação que a palavra “amigo” havia adquirido na linguagem coloquial brasileira e o professor se incomodou um pouco com isso, mas, era o que existia naquele momento. Para os padrões dos anos 80, os pais do “borboleta louca”, por serem de classe média, eram até bem tolerantes.
Um dos fatores que levou o professor a desejar a continuidade do relacionamento foi exatamente a família: primos, tios, tias, avó. Era uma gente muito boa, acessível e hospitaleira.
Obviamente que o professor levou a “borboleta louca” em casa.
Seus pais quase infartaram! Suas irmãs o acharam “exótico” e a avó se apaixonou por ele, acostumado que era em entreter a própria avó, que beirava um século de idade naquela época.
Foi um “efeito cascata”, ou “efeito dominó”: a avó influenciou o filho, pai do professor, que convenceu a esposa e assim por diante. Com o tempo, muito embora dissessem que era um erro, e que o “borboleta louca”, apesar de muito boa pessoa, “não era para ele”, a família imediata do professor acabou aceitando, até estimulando, enquanto um “mal menor” em tempos de epidemia de AIDS.
A AIDS além de não ter cura não tinha qualquer controle ou tratamento eficaz naquela época. Os infectados, até onde se acompanhava, morriam rapidamente, alguns em duas semanas. O professor mesmo perdeu alguns amigos e esta situação servia para afastar ou para aproximar pessoas, já que o discurso das famílias passou a ser: “pelo menos ele tem uma pessoa certa, não transa com qualquer um”.
A certa altura, a quase totalidade de ambas as famílias sabia e aceitava.
O problema foram as tias solteironas...
Vamos deixar de lado as tias!
Assim passou-se um ano!
O professor ia buscar a “Borboleta Louca” no trabalho durante a semana e de vez em quando iam a um motel. Os finais de semana passavam em Jundiaí.
O “Borboleta Louca” tinha uma tia idosa, muito graciosa, frequentadora de bailes da terceira idade e iniciativas benemerentes, que os dois passaram a levar consigo para Jundiaí e até para São Paulo, quando iam à casa do tio que era padrinho do professor.
Bem ou mal estabeleceu-se uma rotina e alguns vínculos.
Acabaram descobrindo que seus pais e mães tinham exatamente a mesma idade e que haviam se casado no mesmo ano e no mesmo mês! Os pais do professor na Catedral de Jundiaí em 7 de fevereiro de 1960 e os pais da “Borboleta Louca” na Basílica do Carmo, em Campinas, no dia 16.
Para a “Borboleta Louca” estava ótimo. Ele não tinha maiores expectativas.
O professor queria mais. Muito mais! Queria casar-se!
Acredito que um “namoro” assim tão assimétrico não teria ido muito longe se o “Borboleta Louca” não tivesse ficado desempregado.
Ficar desempregado e deixar de contribuir financeiramente em casa foi o fator que fez seus pais mudarem de postura. Foi aí que passaram a encarar e a receber o professor verdadeiramente enquanto genro.
Vários meses procurando e um problema crucial impedia que o professor alugasse um apartamento: o fiador! Na realidade, a ausência deste.
Entre idas e vindas, motéis e boates, o professor teve uma discussão mais acalorada com o pai, que disse que ele “não era nem capaz de alugar um apartamento em Campinas”... Por que ele falou isso? Por que...
Era ele mesmo quem ensinava ao filho que "muitas vezes um único pontapé na bunda leva muito mais longe do que vários tapinhas nas costas!"
O professor foi ao Serviço de Apoio ao Estudante da UNICAMP-Universidade Estadual de Campinas, onde permanecia matriculado no mestrado – apesar do quase nenhum empenho na época – e conseguiu uma carta de fiança, assinada por um professor da instituição. Imediatamente conseguiu alugar, sem ver, um pequeno “apartamento” num conjunto habitacional de baixo custo, da COHAB - Companhia de Habitação Popular.
Apartamento está entre aspas porque nos anos seguintes o professor iria se referir a ele como sendo “o cortiço”. Embora já tivesse uns 20 ou 30 anos na ocasião, estando todo o conjunto bem deteriorado, a unidade que o professor alugou estava ainda no contrapiso, com as paredes caiadas e as estranhas janelas que a COHAB havia entregado - 2 partes de vidro, que não se abriam, e uma parte de madeira que se abria - não haviam sido trocadas.
O aspecto geral era feio, pobre e sujo.
O banheiro e a cozinha eram pintados em tinta a óleo cinza escura até a metade da parede e caiados desta barra até o forro, e não tinham piso ou qualquer benfeitoria, a sala era grande (pois não havia sido feita a parede, que criaria um segundo quarto) mas estava bem suja, bem como o único quarto, que era minúsculo.
Não havia área de serviço sendo que na cobertura do prédio havia um tanque para cada apartamento, mas o tanque deste apartamento havia sido ocupado pelo vizinho.
Havia um corredor passando na frente de todos os apartamentos, de maneira que os passantes olhavam para dentro da cozinha, que tinha uma janela baixa, e passavam sob as janelas do banheiro e do quarto, que eram mais altas.
No apartamento 14 havia um jovem casal e uma porção de filhas, uma “escadinha” formada sequencialmente por 4 ou 5 meninas. Eles desejavam ter um filho e, como este não vinha, continuaram tentando...
A esposa passava “pomposa” e sem cumprimentar ninguém, com as filhas, em fila indiana, da maior para a menor, andando atrás dela. O marido, um lindo loiro de olhos claros, cumprimentava sempre com o olhar baixo. Ambos, tanto o professor quanto o “Borboleta Louca”, os julgavam “homofóbicos”, décadas antes desta palavra entrar em uso!
Bem, na época em que o professor já estava separado, começaram a rondar o apartamento do casal. Eram carros elegantes, não velhos como os dos moradores do “cortiço”, com homens ricos e visivelmente gays no seu interior...Eles buzinavam algumas vezes e outras vezes até gritavam o nome do rapaz.
O tempo passou, ele ficou muito doente e morreu no Hospital.
A vizinha do apartamento 13 - que na mocidade havia sido empregada doméstica em casa de famílias ricas, e por isso adotara os modos e os cacoetes das patroas grã-finas – disse, em tom baixo e pausado a doença da qual ela achava que o rapaz havia falecido, e que provavelmente a esposa também estaria infectada.
Rapidamente o apartamento foi vendido e ninguém mais viu a esposa e nem a coleção de meninas.
Anos e anos depois, já morando fora do cortiço, qual não a surpresa do professor ao encontrar a esposa, totalmente transformada. Trabalhava em uma loja dentro do hipermercado Enxuto. Ela não apenas tornara-se humilde, como também simpática e sorridente!
O apartamento 12 sempre esteve alugado e inclusive, certa época, uma família de “malacos” fizera um “gato” e usava a linha telefônica do professor!
Neste apartamento, em outros tempos, o mais engraçado foi a briga de um casal formado por uma paranaense loira de olhos azuis, professora de Educação Física, e o marido negro, de família ali do bairro mesmo.
A paranaense puxou a faca para o marido, esgotou todo o repertório de xingamentos racistas que se conhece (o prédio todo ouviu) e depois jogou o próprio filho, então com uns 3 anos, pela janela do banheiro. Saiu intempestivamente, fazendo muito barulho com o carro, e nunca mais voltou!
O apartamento 11 pertencia a um pai de santo bissexual, casado com uma argentina e que tinha uma mãe evangélica. Permaneceu a maior parte do tempo alugado.
No apartamento 24, para o qual o professor mudou-se em 1997, morou uma família do norte de Minas Gerais. O marido era lindo, mas eles não eram muito asseados, tanto que certa vez uma varejeira colocou um ovo na testa do bebezinho e foi a vizinha do 22 quem teve de tirar a larva, usando um pedaço de bacon.
O apartamento 23 e o 21 estiveram quase sempre alugados ou desocupados.
No apartamento 22 morou uma mineira que tinha os seios caídos na linha da cintura, sua mãe, a “avozinha” e seu filho, que foi aluno particular do professor. Com o tempo o professor acabou descobrindo que era desejo da mãe do rapaz que ele ensinasse muito mais do que os conteúdos escolares (uma espécie de versão do “Amar Verbo Intransitivo”, do Mário de Andrade), para “mantê-lo longe de problemas”, razão pela qual desentenderam-se.
Logo que esta família se mudou, veio para o 22 uma senhora que tinha uma porção de filhos, um mais bonito que o outro, que sempre a visitavam. Tornam-se grandes amigos e ela acompanhou a vida do professor por muitos anos.
No 31 só morou “gente boa”, se me entendem...
Primeiro a família do “baianinho”, que roubou do apartamento do professor o relógio do falecido sogro, na semana seguinte ao enterro, o que colocou o “Borboleta Louca” aos prantos, como de costume, obrigando o professor a “enquadrar” o moleque.
Depois veio ali residir a família de uma senhora “doidona”, que colocava a própria dentadura de molho em um copo com cloro, bem em frente à minha porta do professor, para “ficar branquinha”, como ela dizia. Perguntada por que ela fazia isso, ela respondia: “para pensarem que é sua, seu bobo!”
As duas filhas eram “alegres”, bastando contar que no mesmo dia em que se mudaram havia 3 ou 4 carros buzinando lá embaixo e a filha mais velha saiu na janela, com uma toalha em volta dos cabelos e disse: “hoje não atendo, estamos mudando!”
No 32 o professor e o “Borboleta Louca” viveram de 1989 a 1997.
No 33 morava uma senhora enfermeira, muito discreta, que era a “segunda esposa” de um senhor rico, que tinha a família principal na Vila Teixeira.
No 34 vivia uma senhora idosa, enfermeira aposentada que foi a primeira a se interessar por eles, emprestar telefone e até fornecer gelo, pois não possuíam geladeira, como foi dito.
Vivia com seu segundo marido e tinha vários filhos e filhas do primeiro casamento, que sempre a visitavam. Boa mulher. Mesmo décadas depois de separados, o primeiro marido morreu nos seus braços.
Ela teve um fim muito triste. Após um AVC tornou-se tetraplégica e acabou sendo “cuidada” por um filho drogadito.
O engraçado era que nos dias em que eles faziam compras, as vizinhas do 22 e do 34 disputavam a sua atenção. Se metiam ambas dentro do apartamento e ficavam andando, com sacos de arroz e de açúcar, pois cada uma delas dizia que estariam mais bem guardados em locais diferentes!
Disputavam a sua atenção diariamente e cada uma delas se gabava de ser melhor cozinheira do que a outra. Bom para eles, pois sempre havia um pratinho ou uma travessa com algo delicioso que havia sido preparado por uma das duas!
Não ocorre absolutamente nada sobre o apartamento 41, mas em contrapartida, no 42, bem sobre as suas cabeças, vivia uma acumuladora maluca, de português castiço e modos de madame. Ela retirara a janela da sala, depositara um monte de entulho e terra e ali plantava batatas, ajuntava talhas, filtros, móveis e objetos velhos...
Certa vez era já tarde da noite e ela bateu à porta:
- “Tenho visitas. Como não tenho condições de recebê-las na minha casa, recebê-las-ei aqui!”
De fato, qual não foi a surpresa quando não apenas entraram, mas também foram se sentando várias pessoas. O “Borboleta Louca” já estava até deitado.
Pouco tempo depois ela pediu:
- “Por favor...Você não vai fazer nem um café para eu oferecer às minhas visitas?”
Ela era tão abusada que acabaram brigando. A vingança dela não demorou: abriu todas as torneiras da casa e deixou encher. O apartamento do professor foi praticamente inundado - graças às inúmeras frestas que havia na laje - por água suja, cor de terra e cheiro de entulho.
O que ela não sabia é que, finalmente, após 5 anos pagando as prestações, o telefone havia sido ligado naquele dia e a primeira ligação foi exatamente para a polícia!
Ela não deixou que a polícia entrasse, alegando que eles não tinham mandato, mas ficou tão envergonhada que se mudou.
No apartamento 33 morava outra enfermeira aposentada, que foi quem diagnosticou a hipertensão do “Borboleta Louca”...
Certa vez, voltando de uma festinha de família em Jundiaí, ele começou a passar mal e ter “tremeliques”. Não havia telefone e nem plano de saúde ainda.
Pela reação, o professor julgou que a pressão dele estava baixa.
Deu sal, azeitonas e um gole de vinho...O “tremelique” piorou e ele não parava de tremer...
O professor subiu até o apartamento 33, pois sabia que a vizinha tinha aparelho de aferir a pressão e ela prontamente verificou que ele quase o matara, pois, a pressão estava altíssima! Ela mesma deu propranolol e no dia seguinte ele foi ao posto de saúde.
No apartamento 44 morava uma família “normal”, coisa rara!
Voltando ao primeiro dia no apartamento, o “borboleta louca”, acostumado com a bela casa de seus pais na Avenida Norte-Sul, quase chorou quando o viu. Sentou-se no chão e disse que precisava pensar se continuaria com o professor. Foi um momento muito tenso...
Na realidade, ele nem sequer cogitou mudar-se para este local e foi apenas a fala de uma das primas, que era muito próxima a ele, que o fez desistir de largar o professor.
Nesse ínterim, o professor comprou uma lata de 16 litros de tinta látex na cor areia, que era o “grito da moda” naquela época, pintou a sala e o quarto. A cozinha e o banheiro, inclusive forros, foram pintados com tinta esmalte camurça. Foi colocada forração na cor grafitti na sala e no quarto, o piso da entrada e da cozinha foram pintados com tinta apropriada para pisos na cor cinza e quanto ao banheiro, o próprio professor revestiu o piso, o melhor que pode, com uns caquinhos cerâmicos. O apartamento até que ficou bonito!
Os móveis foram sendo comprados por ordem de prioridade, começando pela cama, ao longo dos anos. Foram 2 anos para comprarem a primeira geladeira.
Quando finalmente a “borboleta louca” se mudou para lá, seus pais foram almoçar, para verificar se as acomodações estavam adequadas e ambos aprovaram.
Com a passagem dos anos, o professor tentou fazer com que a “borboleta louca” retomasse os estudos, sem sucesso. Foi então que decidiu fazê-lo aprender a dirigir e fazer um curso de cabelereiro no centro da cidade.
Ele jamais conseguiu aprender a dirigir muito bem, mas, de qualquer maneira, bem o suficiente para ir à casa dos pais e ao curso de cabelereiro.
O “borboleta louca” formou-se cabelereiro e passou a atender toda a vizinhança na sala do apartamento.
O professor – que a esta altura, já havia prestado concurso e se efetivado na rede municipal - não entendia naquela época porque apesar da “borboleta louca” se manter ocupado quase que o dia todo, ganhava tão pouco dinheiro e por que praticamente todos os rapazes jovens das redondezas passaram subitamente a frequentar o apartamento... Deixo ao leitor a conclusão óbvia.
Ambos os pais morreram e ambas as avós. A avó do “borboleta louca” chegou a comemorar 100 anos de vida, com uma grande festa à qual ambos compareceram, reconhecidos por todos enquanto casal.
O professor e a “borboleta louca” viveram juntos quase 11 anos, sendo que os últimos dos quais com uma gradativa flexibilização da relação.
O fim do relacionamento deu-se exatamente por obra de um dos belos rapazes que frequentavam o apartamento, no começo apenas para cortar cabelo.
Para encurtar a história, ou seja, para que este capítulo não se torne ele mesmo uma novela ou mesmo um romance, direi que, de maneira surpreendente, o rapaz de dezoito anos acabou se apaixonando não pelo “borboleta louca”, mas pelo professor e que o professor, de todas as maneiras que lhe foi possível, tentou fugir dele até que...
À deriva
Um belo dia, o professor estava indo para a escola, onde estava atuando como diretor substituto, quando aquele jovem fechou a Av. John Boyd Dunlop, próximo à Pirelli, parando a sua moto na transversal diante do carro.
O jovem então se ajoelhou no asfalto, chorou copiosamente e se declarou.
Na sequência, houve um final de semana na praia e a separação em relação ao “Borboleta Louca”, que foi morar com sua mãe, já viúva, em seu novo apartamento.
O professor passou algum tempo morando com a sua própria mãe em Jundiaí e alugou uma casinha de fundo, no caminho da escola onde trabalhava, para se encontrar com o rapaz da moto.
A diferença de idade era muito grande e, além disso, a mãe do professor o alertou que a fascinação do rapaz da moto em relação a ele era intelectual, não física e que, em sua opinião, qualquer homem bissexual, nem que fosse por pressão social, tenderia a ficar com mulher... Sabedoria de vida!
Pouco tempo depois, questão de meses, o relacionamento acabou e o professor voltou para “o cortiço”. Não mais para um apartamento alugado, porém, mas sim um que havia sido comprado pouco antes do final do casamento com o Borboleta Louca.
De volta ao seu próprio ambiente, o professor se liberou completamente, deu-se ao desfrute e foi jovem pela segunda vez!
Enturmou-se, começou a frequentar boates, entrou em sites de relacionamento e acabou, de fato, conhecendo muitas pessoas e se relacionando com várias delas.
Digno de nota? Apenas um.
Conhecido como “Cowboy”, ou então “Mexicano”, nos rodeios que aconteciam pelo interior do Estado, era um legítimo personagem retirado das páginas de “O segredo de Brokeback Mountain”.
Locutor de rodeios por profissão e garoto de programa nas horas vagas, ou vice-versa, era bissexual e extremamente eclético, completamente “flex”, como diríamos hoje.
Paranaense, usando sempre seu inseparável chapéu, botas de vaqueiro e calças justas, era extremamente belo e másculo. Tinha o corpo naturalmente musculoso e era bem dotado. Em resumo, o “Cowboy” era o “sonho de consumo” de qualquer um ou qualquer uma.
Desde o início, a história foi bastante “diferente” e “interessante”, digamos assim, já que o “Cowboy” soube “apimentar” a relação mantendo, ao mesmo tempo e concomitantemente, o relacionamento com o professor e com uma japonesa, senhora de sociedade, bem mais velha, e sócia do próprio marido em uma conhecida academia da cidade!
Insaciável, dividia seus dias e suas noites entre o apartamento do professor, a “garçonniere” que a japonesa havia montado para ele na Rua Culto à Ciência e as casas e apartamentos de seus vários namorados e das suas várias namoradas, por todo o interior do Estado!
Como o professor sabia?
Além de já ser relativamente experiente nesta época, acabou fazendo “amizade” com a japonesa durante uma das viagens do “Cowboy”. Chegou mesmo a convidá-la para almoçar.
Certa ocasião, tarde da noite, a japonesa telefonou:
- Foi você quem fez aquele risoto que ele trouxe em casa hoje?
- Não. Desta vez não fui eu não...
- Eu sabia! O tempero é diferente. Além disso, não reconheci o “tuperware”! Precisamos os dois ficar de olhos bem abertos! Tem mais alguém na jogada!
Foram três ou quatro anos de uma gostosa “brincadeira” que, ao contrário do que muitos possam pensar, ou julgar, não foi perigosa e não saiu absolutamente cara ao professor, pois, como sabiamente disse Tim Maia: “Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita.”
Seguindo esta “lógica brasileira”, sim, o “Cowboy” se apaixonou. Pior que isso, ele se apaixonou duas vezes, ou se apaixonou duplamente, já que se apaixonou tanto pelo professor quanto pela personagem teatral “drag queen” que ambos criaram e que era “performatizada” pelo professor aos finais de semana, na maior boate que já existiu em Campinas, talvez no Estado de São Paulo.
Na época, com as proporções certas, longos cabelos naturais e a idade certa, tudo isto aliado à roupagem teatral e maquiagem correta, garantiam o resultado final, que era extremamente harmonioso e fazia sucesso, especialmente com bissexuais.
Brincadeira agradabilíssima e que permitiu ao professor, pela primeira e única vez na sua vida, sentir-se e visualizar-se enquanto vivendo um romance heterossexual, já que, aparentemente, eram eles dois personagens icônicos, desfilando de mãos dadas pela boate e representando bem os seus papéis: o Cowboy e a Diva!
Lembram-se das tias solteironas? Aquelas que foram deixadas de lado? Elas reaparecem na história e, desta vez, não há como não falar sobre elas.
O “Cowboy” adorava uma delas – exatamente aquela que havia sido diretora na escola onde o professor trabalhara, e que havia arrancado a peruca da freira aos doze anos de idade - e se davam muito bem. Ela morava então em um sítio e ele tinha origem rural. Acabaram ficando amigos de verdade. Se falavam ao telefone, conversavam, interagiam...
Até um dia fatídico em que ela ligou na casa do professor, chorando, e falou que não era mais para levá-lo ao seu sítio, nunca mais!
O “Cowboy” percebeu que ele era o assunto.
Na época havia telefone fixo no apartamento, com uma extensão no escritório.
O “Cowboy” pegou a extensão e ouviu tudo...
Que uma cunhada dissera que os filhos da mãe do professor podiam “cagar na cabeça dela que ela não ligava”. Que “onde já se viu ficar levando alguém como ele em festa de família”, que “se fosse os filhos dela não teriam perdão”...
Disse também que “ele falava com ela como se fosse colega da idade dele”...
E, enquanto falava ao telefone, chorava e soluçava...
O professor não falou absolutamente nada. Emudeceu. Desligou o telefone.
O professor olhou para a cara do “Cowboy” e o “Cowboy” olhou para a cara do professor. Estavam ambos muito magoados. Em estado de choque.
O “Cowboy” viu a mágoa profunda do professor e ficou com raiva da tia.
O professor viu o ódio no rosto dele, em relação a ela, e a piedade em relação a ele. Havia sido desnecessariamente humilhado.
Isso foi exatamente uma semana antes do que aconteceu...
Até onde se sabe, três estranhos invadiram o sítio. Assaltaram a casa da tia, a balearam várias vezes e ainda pisaram sobre ela. Ela ficou inconsciente, até que, no final da madrugada, conseguiu se arrastar para fora e gritar por socorro.
Ela foi desenganada pelos médicos, mas sobreviveu.
Sobreviveu para ter uma vida terrível e limitadíssima. Ficou paraplégica, devido aos tiros na coluna, e com problemas de fala causados por um AVC, que teve durante a estada na UTI.
Ela só morreu dez anos depois.
Na noite em que tudo aconteceu, o ”Cowboy” não dormiu na casa do professor. Isso não era incomum. Tinha o apartamento dele, a “garçonniere” montada pela japonesa, na rua Culto à Ciência...
Incomum foi a reação dele quando o professor contou o que havia acontecido com a tia: nada. Nenhuma reação. Nem espanto. Nenhuma pergunta.
Na mesma hora veio a desconfiança. O professor o mandou embora.
Por mais que o “Cowboy” o procurasse e implorasse para falar com ele nos anos seguintes, o professor nunca mais quis vê-lo ou ouvi-lo.
O professor jamais vai esquecer. O telefone cor de vinho. A tia chorando e soluçando... Talvez estivesse bêbada...
O “Cowboy” vai para o escritório e pega a extensão...
Cada detalhe!
O interessante é que vocês sabem como o “Cowboy” morreu? Um tiro! Metido em confusão envolvendo o namorado da época. No Satélite Iris, relativamente perto da casa do professor.
Ninguém reclamou o corpo e ele foi enterrado numa cova pública do Cemitério dos Amarais.
Tanta gente brigando por ele em vida e ninguém para enterrar seu corpo depois de morto!
Desnecessário dizer que, com o fim da “brincadeira” com o Cowboy e o que aconteceu com a tia, o professor decidiu “endireitar”...
Os cabelos foram cortados bem curtos, a personagem teatral dos finais de semana morreu, as suas roupas, sapatos, maquiagens, joias e acessórios foram doados e nunca mais ela foi vista ou ouvida.
Passaram-se dois anos, tempo de penitência.
Tudo mudou. Aos 40 anos, o professor envelheceu, engordou e decidiu que estava a caminho de se tornar um “velho sábio”, logo, não havia mais tempo e nem espaço para “brincadeiras”.
Em janeiro de 2006, sua mãe passava uns dias com ele em Campinas e teve uma conversa bem séria. Disse que era bíblico, que o homem não deveria viver só... Que ela iria falar com Deus, que jamais deixou de ouvi-la e que o Senhor, na sua infinita bondade, mandaria “a pessoa certa”. Disse mais, que pediria certa urgência, e que não renunciava a certos detalhes, a serem negociados com o todo Poderoso: tinha de ser alto, preferivelmente da mesma altura, e gordinho. O casal não poderia ser “descombinado”. Disse também que sempre gostou de homem de óculos, porque “tem cara de intelectual”.
O professor voltou aos sites de relacionamento e, tal como “encomendado” por sua mãe, a “pessoa certa” apareceu!
A criança grande:
Ele saiu do ônibus como um bichinho assustado. Os grandes olhos estavam ainda mais abertos, e o professor enxergou dentro deles que, além de assustado, ele precisava muito de ajuda.
Haviam conversado pela internet durante mais ou menos um mês, período no qual o professor já sabia que ele estava saindo de um relacionamento complicado e problemático com um médico que era usuário de drogas.
Soube também que a avó que o havia criado e que, segundo ele próprio, havia sido a única referência positiva em sua vida, acabara de falecer e que, por causa disso, estava morando com a mãe abusadora, com a qual praticamente perdera o vínculo desde muito cedo.
Deixando de lado toda a questão da vulnerabilidade, o rapaz era exatamente a descrição de toda a “encomenda” que sua mãe realizara junto ao Todo Poderoso: alto, da exata altura do professor, bonito, gordinho, cabelos pretos e usava óculos!
Ele era quinze anos mais novo que o professor, só tinha 25 anos e, para se empoderar e tentar demonstrar que a diferença de idade não faria diferença no relacionamento, procurou desde o início se afirmar, usando termos complicados/complexos todo o tempo e até adotando uma postura mais circunspecta ainda do que a sua habitual.
Anos mais tarde, o professor refletiu que ele de fato não precisava de alguém da sua própria idade, que certamente lhe faria cobranças que ele não tinha condições então de corresponder. Ele precisava de alguém mais velho, que o aceitasse, compreendesse e protegesse!
Se o professor fosse uma pessoa que se deixasse levar pelas aparências, talvez o relacionamento não tivesse tido continuidade. O que acontece é que ele soube visualizar uma criança assustada, que se disfarçava de adulto autoritário para tentar se defender, para se proteger. A vovó acabara de deixá-lo entregue à própria sorte e, dali para a frente, sua única proteção seria esta “carapaça” de arrogância que ele mesmo criara, para afastar e se defender das pessoas.
Em quinze dias de breves idas e vindas entre Campinas e Mogi Mirim o professor decidiu que deveriam morar juntos. Já percebera o quão desconfortável o rapaz estava morando com a mãe, que para ele era quase uma estranha, e de quem só tinha lembranças desagradáveis. Foi fácil convencê-lo, ainda mais que estava desempregado. Seria mais fácil conseguir emprego em Campinas.
No primeiro final de semana morando em Campinas o rapaz conheceu a irmã mais nova do professor e seu sobrinho, então com 10 anos. Foram todos almoçar na Rua do Porto em Piracicaba, um passeio que era muito habitual tanto para o professor, que costumava levar a mãe, quanto para a sua irmã, que quando bem jovem tivera um namorado que estudava na famosa Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, pertencente à USP - Universidade de São Paulo.
Piracicaba quer dizer “lugar onde os peixes param”. Local de onde partiram várias Bandeiras, Entradas e monções, após as suas corredeiras e leves quedas, o rio do mesmo nome, afluente do Tietê, torna-se navegável e avança para o interior do Estado.
Logo na sequência o rapaz foi levado para conhecer a sogra, a qual se arrumou como uma executiva, de tailleur e salto alto, para recebê-lo. Ela tinha já a firme convicção de que “a sua encomenda”, feita com tanta fé, esperança e amor ao Todo poderoso, estava lhe sendo apresentada!
O rapaz originalmente se apresentava como sendo agnóstico. Ao longo dos anos foi firmando posição e passou a se assumir enquanto ateu. Isto não foi obstáculo para o afeto e respeito que se formou instantaneamente entre ele e a sogra, extremadamente religiosa, membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Catedral de Jundiaí, e então atuando como catequista.
Na realidade, tanto os olhos quanto as posições, sempre a lembraram seu falecido marido, que viveu quase a vida toda enquanto agnóstico, fugindo de padres e de igrejas, e abominando a hipocrisia dos que “fedem à religião”, mas que ela, as irmãs dela e alguns dos filhos “cristianizaram” depois de morto.
Estava difícil o rapaz conseguir emprego, embora pudesse atuar tanto em Administração quanto como Professor de Espanhol, então ele já ensaiava outros voos. O professor descobriu o quanto gostava de passeios e viagens e então foram passar alguns dias em Santos, nas férias de julho. O passeio foi importante para ir aproximando-os em situações e locais diferentes e, aos poucos, ir mostrando todos os interesses que partilhavam em comum.
Extremamente estudioso desde sempre, o rapaz amava História e Geografia, gostava de conhecer lugares, pessoas e culturas diferentes...
Ao invés de irem às praias, foram aos Museus, fizeram o circuito do bande turístico, que apresenta ao turista o belo centro requalificado de Santos, que tem prédios belíssimos, desde o século XVI e aos locais históricos como o Forte de Bertioga... Afinidade temática completa!
O rapaz era um professor de Espanhol tão eficiente que, apenas com três apostilas que produziu, e algumas aulas, preparou o professor para irem a Assunção, em dezembro, conhecer o Paraguai!
Nas “terras guaranis”, tão próximas territorialmente ao Brasil e, paradoxalmente, culturalmente tão distantes, o professor passou os melhores quinze dias da sua vida até então.
Aos poucos, descobriu que o espanhol, que com tanta facilidade o rapaz lhe ensinara e ele, com tanto prazer havia aprendido, não servia para falar com a maioria das pessoas que estavam pelas ruas e pelas praças, pois - país bilingue que é - a maioria do povo paraguaio, no dia a dia, fala guarani! Um artifício muito utilizado pelos paraguaios, quando querem que os brasileiros não entendam o que estão dizendo, ou quando querem nos ludibriar no comércio.
Ali puderam experimentar uma cultura muito mais simples, mais pura e ingênua do que a sua.
Ao contrário da Cidade do Leste, fronteira com Foz do Iguaçu, conhecida pelo comércio de produtos “piratas”, e bastante inserida no mundo globalizado, Assunção lhes pareceu uma cidade parada no tempo, com suas ruas “empedradas” (que no Brasil chamaríamos de “calçamento pé-de-moleque”, como o que existe nas cidades históricas de Minas Gerais), suas caixas registradoras antigas e potes de vidro cheios de dinheiro, para dar o troco, nas padarias e restaurantes!
Um povo simples e acolhedor e uma cidade segura, apesar de ser a capital.
Nos arredores, conheceram Caacupé, cujo nome quer dizer “achada atrás da árvore”, em alusão à padroeira do Paraguai, que ali é venerada num suntuoso santuário em estilo bizantino.
Como bom ateu, o rapaz comprou de lembrança, para si mesmo e para a mãe e as tias do professor, imagens em cerâmica indígena, feitas em caulim, representando a Virgem de Caacupé.
Também foram a Paraguari, onde conheceram antiga igreja Jesuítica do local. Foi nesta ocasião, nesta região de colinas arborizadas, que experimentaram pela primeira vez na vida temperaturas superiores a cinquenta graus, o que fez com que sentissem a temperatura de Assunção naquele dia, de 42 graus, como senso comparativamente “amena”.
De volta da viagem, embora o rapaz tivesse conseguido empregar-se, o professor decidiu investir em sua carreira. Ele tinha um potencial imenso, que estava sendo desperdiçado. Com as suas aptidões e o gosto pelas viagens, conhecimento dos povoa e dos espaços, será que ele não gostaria de ser geógrafo?
Quando houve a sugestão os lindos olhos do rapaz ficaram brilhantes! Desde que a vovó morrera ninguém mais havia acreditado no seu potencial e nem investido nele. Fora a boa velhinha quem lhe proporcionara instrução e vários cursos profissionalizantes ao longo da vida.
Novamente havia alguém se preocupando e acreditando nele!
Passou muito bem em todos os vestibulares que prestou. Quinto colocado na PUCC-Pontifícia Universidade Católica de Campinas, mas, mesmo assim, decidiu estudar em São Paulo.
Trabalhou todos os dias em Campinas e estudou todas as noites em São Paulo, indo e voltando de ônibus, o que o obrigava a acordar às cinco horas e ir dormir depois da meia noite. Não foi fácil.
Três anos depois, ao invés da mãe, levou a sogra para acompanhá-lo à formatura, no Memorial da América Latina, icônico prédio modernista de São Paulo. Posar com ele nas fotografias e conhecer todos os seus colegas e professores a deixou exultante e orgulhosa!
Ele era uma criança grande, muito feliz com a “sua” mamãe!
Quase finais e novos recomeços:
O “bichinho assustado” levou anos para ser “domesticado”, ou seja, para passar a confiar inteiramente no professor e, desta maneira, remover algumas das suas barreiras de segurança.
Durante os primeiros seis anos várias vezes ele ensaiou ou encenou “ir embora”, sendo que em uma das vezes o professor só foi recuperá-lo quando, já em frente à Rodoviária, ia atravessar a rua com sua mala de rodinhas!
Como, dado não ter tido segurança com os pais na infância, não tinha ainda certeza que era amado e aceito integralmente, tinha de testar os limites da relação, ou seja, fazer de conta que iria embora, para ver até onde o professor iria para ficar com ele.
A realização de um contrato e registro em Cartório foi tudo o que foi possível ser feito em 2008. Posteriormente, houve a oficialização da União Estável em 2011, possibilidade que foi sendo aberta pela Justiça brasileira, através do Supremo Tribunal Federal.
Para o rapaz começar a falar verdadeiramente de si, ou seja, quem ele realmente era, o que realmente pensava e o que realmente sentia – e não o que era, pensava e sentia o personagem que ele criara para o site de relacionamentos, maduro e seguro – foi necessário que se passassem estes seis anos e ele quase viesse a falecer, em 2012.
O professor e sua mãe o levaram ao Hospital e, apesar do seu ateísmo, oraram muito, com muita fé e intensidade por ele. Tiveram mesmo que se posicionar com firmeza diante do médico responsável pelas internações, que se recusava a interná-lo, alegando não haver capacidade física, mesmo diante do laudo de um especialista que explicava encontra-se ele em “pré-óbito”... Já não conversava, não reconhecia ninguém. Teria morrido passivamente.
Foi apenas mediante ameaça de Boletim de Ocorrência na polícia, por negligência e imperícia, segurando o crachá do médico na mão direita e pronunciando seu nome em voz alta, dizendo que a idosa ali presente seria testemunha, que a internação finalmente foi realizada.
O professor teve de abandonar um dos seus empregos, ao qual ele era particularmente apegado. Uma faculdade em Bragança Paulista, onde ele lecionava há vinte anos, havia sido Coordenador de curso e no momento era Coordenador Pedagógico. Prioridades são prioridades. Ele tinha de se dedicar o máximo possível ao rapaz naquele momento e não dava mais para ficar indo e voltando de Bragança Paulista 3 ou 4 vezes na semana.
Foram várias internações hospitalares, medicamentos escalonados durante todo o dia, sessões e mais sessões de fisioterapia. A recuperação plena se deu lenta e gradualmente durante quatro anos.
A dor e o sofrimento foram tão intensos que, assim que o professor sentiu que o rapaz estava um pouco melhor, que já não estava mais em risco de vida, seu coração não aguentou. Teve um problema cardíaco e necessitou uma pequena intervenção.
Foi a vez do rapaz demonstrar que o professor também não precisava ter dúvidas nem em relação ao seu amor e nem muito menos em relação à sua dedicação, pois recebeu de volta todo o zelo que lhe havia devotado.
Neste intervalo, em 2013, graças agora ao Supremo Tribunal de Justiça, presidido pelo grande Joaquim Barbosa, puderam converter sua União Estável em Casamento Civil. A partir deste momento, mediante o reconhecimento do Estado Brasileiro, deixaram de sentir-se párias. Não seria mais “cidadãos de segunda classe” e que, portanto, vivem um “amor de segunda classe”, que é menor ou inferior ao dos outros.
O timão e o porto...Viajando!
Após quase quinze anos juntos.
A mãe do professor hoje está com mal de Alzheimer, em estágio inicial. Ela passa todos os finais de semana com os filhos, que se revezam para cuidar dela. Tem uma boa velhice, assistida, cuidada e amada. Em grande medida, a vida está devolvendo a ela tudo o que ela sempre investiu.
A mãe do rapaz, na exata proporção, com demência senil, segue sendo cuidada por uma tutora.
Ambos seguem sendo professores, um atuando na Rede Pública Municipal de Campinas há mais de trinta anos, e o outro atuando na Rede Pública Estadual de São Paulo, há dez anos. São respeitáveis e respeitados, tanto nos respectivos empregos quanto na cidade em que vivem, que conta com um dos maiores IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, sendo a única das metrópoles brasileiras (cidades com mais de um milhão de habitantes) a ter capacidade para tratar 100% do esgoto que produz.
Cumpre destacar que o professor foi homenageado duas vezes pela Câmara Municipal ao receber o “Diploma do Mérito Educacional Darcy Ribeiro”, em 2006, e o “Título de Cidadão Campineiro”, maior honraria concedida por esta casa legislativa, em 2016, pelos relevantes serviços prestados à Educação no Município.
Os dois viajaram juntos pelo sul, sudeste, nordeste e centro-oeste do Brasil, e boa parte da América do Sul. De todos os locais visitados, não há como deixar de cotejar alguns destaques, até para que o leitor, que deseje um dia conhecer alguns deles, possua alguns subsídios.
Em 2007 realizaram uma viagem de automóvel à Província de Misiones, originalmente parte do Paraguai, perdida para a Argentina em virtude da “Guerra do Paraguai”, como é chamada no Brasil, ou “Guerra da Tríplice Aliança”, como a chamam os paraguaios. Este conflito, em que se opuseram de um lado o Paraguai e do outro Brasil, Argentina e Uruguai, se estendeu de 1864 a 1870 e redesenhou o mapa e a geopolítica da região.
Também a bela Província de Formosa, que conheceram em 2006, quando em viajando a Assunção, era originalmente paraguaia e foi perdida na mesma contenda.
A Província de Misiones é riquíssima em história e cultura, contando com inúmeras ruinas, dos séculos XVII e XVIII, que contam a saga das famosas “reduções jesuíticas”, onde os missionários organizaram os guaranis e os protegeram da captura, por parte dos brancos caçadores de escravos.
Para visitar a província de Misiones com automóvel – podendo, portanto, controlar o tempo de cada parada - o mais fácil é ir até Foz do Iguaçu, ainda no Brasil – podendo aproveitar para conhecer as famosas cataratas, que são belas tanto do lado brasileiro quanto do lado argentino, onde há um belo parque com outras atrações, como um trenzinho - depois atravessar para Puerto Iguaçu, Argentina. Desta cidade se vai descendo pela única rodovia e conhecendo Capiovi, Loreto, San Ignacio de Las Misiones, Sant'Anna e, por último a capital da Província, Posadas. Se houver interesse, pode-se atravessar uma ponte e conhecer Encarnación, uma cidade paraguaia muito bonita e muito diferente do resto do país, já que tem sua arquitetura predominantemente influenciada pelos italianos. A catedral é neorromânica.
Buenos Aires, chamada merecidamente a “Paris das Américas”, mais bela e mais bem estruturada capital da América do Sul, com suas avenidas largas, que lembram bulevares parisienses, suas praças limpíssimas, enceradas todas as manhãs e seu metrô inaugurado em 1913, é o local onde estiveram cinco ou seis vezes.
É a capital com o maior número de livrarias e de Teatros do Continente Sul-Americano. Destaque para aquela que é considerada a livraria mais bela do mundo, “El Ateneo, Grand Splendid”, um antigo teatro da “belle époque”, muito bem adaptado ao seu novo uso.
De arquitetura predominantemente francesa, do início do século XX, Buenos Aires tem palácios, como o Palácio Paz, de propriedade hoje do Círculo Militar, e o Museu de Arte Decorativa, que em nada ficam a dever aos maiores e mais belos palácios europeus do mesmo período.
A lembrança de Evita Perón (1919-1952), eternizada mundialmente pela ópera rock “Evita”, reina soberana não apenas nesta capital, mas em toda a Argentina, onde mesmo a menor e mais humilde das cidades conta com pelo menos uma rua, uma estátua ou um busto em sua homenagem.
Aos seus admiradores é recomendada a visita ao “Museo Evita”, que conta em seu acervo com inúmeras roupas originais e objetos de uso pessoal, bem como documentos e referências várias à “Fundação Eva Perón”, que funcionava originalmente neste edifício.
Outra figura que está ganhando cada vez mais destaque é o Papa Francisco o qual, como sabemos, foi Cardeal Arcebispo de Buenos Aires.
Em 2019 o casal finalmente conheceu a Basílica de San Jose de Flores, igreja em que, em um dos confessionários, Jorge Bergoglio descobriu sua vocação religiosa.
Sobre esta visita o rapaz escreveu:
“Pisar na "Basílica de San José de Flores", em Buenos Aires, foi uma GRANDE HONRA para mim!
Afinal, foi nela que Jorge Mario Bergoglio (o Papa Francisco) passou toda sua infância e juventude. Foi lá também, que ele descobriu sua vocação para o sacerdócio.
Mal sabia ele que, além de padre e Arcebispo de Buenos Aires, ele seria conduzido à Santa Sé, como Papa Francisco, considerado por muitos especialistas, o líder religioso e político mais progressista do Ocidente!
Vale ressaltar que o Papa Francisco, além de ser o líder máximo da Igreja Católica Romana, também é considerado um Chefe de Estado, já que o Vaticano é o menor país do mundo. Francisco é considerado por muitos intelectuais o MAIOR ESTADISTA DA ATUALIDADE!”
Houve um outro motivo para o deslumbramento deles nesta visita, já que a Catedral Metropolitana de Campinas – que eles conhecem tão bem - e a Basílica de San Jose de Flores são duas imensas e belas construções, muito semelhantes, inauguradas exatamente no mesmo ano: 1883.
As fachadas são virtualmente idênticas, e tentam combinar a fachada da Basílica de São Pedro no Vaticano com o desenho de uma única e grande torre central, a torre do relógio, sobre o frontão.
A planta em cruz latina, com uma cúpula coroando o transepto, é também a mesma solução.
A maior diferença está no interior barroco/rococó, todo em talha, a maioria do mestre baiano Vitoriano dos Anjos (1765-1871), adotado em Campinas.
Bem próximo a Buenos Aires está a cidade de Tigre, localizada no Delta do rio de mesmo nome. Ali há o “Museu de Arte Moderna”, uma vigorosa construção em estilo francês, datada de 1912, mesmo ano e mesmo acabamento primoroso do famoso transatlântico Titanic.
O mais pitoresco para ir a Tigre é utilizando o trem, que sai também do Terminal Ferroviário Retiro, em estilo Vitoriano, em frente ao qual está uma belíssima torre inglesa, de 1916.
Também se podem visitar de trem La Plata, cidade universitária e capital da Província de Buenos Aires e Luján, centro espiritual da nação.
La Plata é uma belíssima cidade, completamente planejada no final do século XIX, e que tem uma imponente e imensa catedral neogótica, em estilo inglês. A catedral conta com passeios ao alto de uma das torres e um museu subterrâneo.
Já Luján, é uma cidadezinha bastante acanhada cuja única grande atração é a Praça onde se encontram o complexo do Cabildo (“Casa do povo”, equivalente às Câmaras Municipais luso-brasileiras do período colonial), hoje convertido em Museu, e a Catedral neogótica, do final do século XIX, em estilo puramente francês, que abriga a padroeira da Argentina, Nossa Senhora de Luján, imagem trazida do Brasil em 1630, pelo português Antonio Farias de Sá. Como vemos, curiosamente, a padroeira da Argentina é uma santa brasileira, levada para aquele país por um português!
Por falar nestas peculiaridades históricas, nada melhor do que comentar sobre o pequeno Uruguai, pedaço da Europa encravado na América do Sul, com índices de desenvolvimento econômico, IDH e composição da população (porcentagem de idosos) semelhante à Suíça.
Conquistado por D. João VI, o Uruguai, de 1821 a 1828 foi parte do Brasil, com o nome de Província Cisplatina. Por este motivo, até hoje as escolas naquele país são bilingues, e praticamente todos os uruguaios falam bem o português.
Esta foi a primeira decepção do casal em 2014, pois sempre que viajam aos países vizinhos desejam praticar o espanhol, que ambos apreciam. Quando os uruguaios percebiam que eram brasileiros só se dirigiam a eles em português!
A segunda decepção foi o quão pacato é todo o país, o que levou o professor a afirmar que “no Uruguai só se morre de tédio” e a ter desespero em regressar ao Brasil, apenas uma semana depois da chegada.
Até mesmo na capital, Montevidéu, cidade grande, basicamente do mesmo tamanho de Campinas, o comércio todo fecha e a circulação de veículos diminui drasticamente logo após o almoço, pois ainda existe o costume da “siesta”, ou seja, todos se fecham em suas casas e dormem após o almoço!
Mais de uma centena de lindas fotos das praças monumentos e construções, semelhantes às de Buenos Aires (apenas que de dimensões mais modestas e mais mal conservadas) mostram a cidade praticamente deserta. A sensação era como estar em algum daqueles filmes estadunidenses que mostram como seria o mundo após uma virtual eliminação do ser humano.
As cidades do interior do país, à exceção de Punta del Este e Colônia, esta última um primor de cidade colonial luso-brasileira, onde se pode alugar carrinhos de golfe para percorrer a zona central, são muito semelhantes e monótonas: uma “Plaza de Armas” central, com a igreja principal de um lado e o “Cabildo” de outro, um Teatro, um restaurante...
O fato da população do país ser pequena e com uma porcentagem tão grande de idosos talvez explique tanto a absoluta sensação de segurança quanto a monotonia...
Falando nas conquistas de D. João VI, poucos comentam hoje que a Guiana Francesa também foi, durante algum tempo, parte do Brasil. Mandada conquistar logo em 1808, quando da chegada da família real, em represália à tomada de Lisboa pelas tropas do General Junot, em novembro de 1807, o território teve de ser devolvido à França após o Congresso de Viena, de 1815.
Das capitais brasileiras, sem sombra de dúvidas, a que julgam mais bonita e mais bem organizada é Curitiba, capital do Estado do Paraná. Já estiveram na cidade dezenas de vezes e conhecem bem os seus cantos e recantos.
Deixando de lado as atrações turísticas mais óbvias, como o Jardim Botânico e o parque Tanguá, ambos em estilo Versalhes, um dos locais mais pitorescos que conheceram foi o “Memorial Ucraniano”. O rapaz escreveu:
“Foram construídas no local algumas réplicas de edificações que mostram o estilo típico da arquitetura dos imigrantes.
A principal atração é uma réplica da mais antiga igreja ucraniana do Brasil, a de São Miguel Arcanjo, da Serra do Tigre, situada na cidade de Mallet, no interior do Paraná.”
Ainda fugindo do lugar comum, há o “Bosque do Papa”, que homenageia a imigração polonesa. Novamente é o mais jovem quem escreve:
“Bosque do Papa "João Paulo II" (em homenagem aos poloneses católicos que imigraram para Curitiba em meados do século XIX). Casas típicas da Polônia antiga e um bistrô na saída do parque onde vende sucos deliciosos... Já os salgados não são tão bons assim. Quatro salgados e dois sucos: R$ 94,00. Caríssimos!
No centro do Bosque há sete casas originais que ilustram a arquitetura dos imigrantes poloneses de Curitiba, feitas de madeira encaixada. A principal delas, construída em 1883, guarda uma gravura da Nossa Senhora de Czestochowa, a santa padroeira da Polônia.
As outras casas reproduzem o modo de viver dos imigrantes poloneses.”
Sobre o famoso Museu Oscar Niemeyer, projetado pelo próprio arquiteto, e também conhecido como “O Olho”, ele escreveu:
“O complexo de dois prédios, instalado em uma área de trinta e cinco mil metros quadrados (dos quais dezenove mil dedicados à área de exposições), é um verdadeiro exemplo da Arquitetura aliada à Arte.”
Um passeio maravilhoso é sair de automóvel e ir até a Rodovia da Graciosa, uma rodovia construída pelos escravos, ainda na época monárquica (1808-1889), toda ajardinada com hortênsias, em ambas as margens, repleta de paradas para lanche e locais de comidas pitorescas e ainda com o calçamento original na maior parte do percurso. Pela Graciosa chega-se primeiro a Morretes, que conta com belos prédios do início do século XX, e depois a Paranaguá, cidade bastante deteriorada, onde se encontra o maior porto do Paraná.
Ainda no Paraná, deixando de lado atrações turísticas como o Parque de Arenito de Vila Velha, de formação no Período Carbonífero (há aproximadamente 340 milhões de anos), destacariam eles a histórica e pitoresca cidadezinha da Lapa:
“Durante a Revolução Federalista em 1894, a Lapa tornou-se arena de um sangrento confronto entre as tropas republicanas, os chamados Pica-paus e os Maragatos contrários a República.”
Em Santa Catarina deixando de lado a capital, a belíssima Florianópolis, e o famoso Balneário Camboriú, onde muitos paraguaios e argentinos vem passear todos os verões, há São Francisco do Sul, considerada a terceira cidade mais antiga do Brasil, fundada em 1553 e colonizada pelos açorianos. Centro Histórico muito bem conservado!
Em relação àquela que já foi chamada de “Cidade Maravilhosa”, o Rio de Janeiro, digno de nota foram as visitas ao finado “Museu Nacional”, que ardeu em chamas em 2018.
Antigo “Paço Imperial de São Cristóvão”, remontava aos tempos de D. João VI, rei do Brasil, de Portugal e Algarves, e tinha basicamente a mesma planta e a mesma fachada do “Palácio Nacional da Ajuda”, em Lisboa, com o detalhe de que, por ser muito mais antigo, estava completamente terminado e não inconcluso, como o que se encontra em Portugal.
Destaques seriam a esplêndida Sala do trono, de onde D. Pedro II, o “Imperador Cidadão”, como o chamou Roderick Barman, governou o país de 1840 a 1889, e a coleção de múmias, tanto egípcias quanto pré-colombianas, que era considerada uma das maiores do mundo e que foi perdida no incêndio.
Vitória, capital do Espírito Santo, é basicamente semelhante a Florianópolis, também localizada parte em uma ilha e parte no continente. Não há grandes atrações, a não ser o mosteiro da Penha, da época lusitana, localizado na vizinha Vila Velha.
Minas Gerais, onde existe a melhor culinária de todo o território brasileiro, é um Estado digno de nota, quer seja pelo tamanho (equivalente à França), pela diversidade de biomas, de tipos humanos e de culturas.
No sul do Estado está a belíssima Poços de Caldas, um dos municípios em maior altitude do Brasil, no alto da Serra da Mantiqueira (que divide São Paulo e Minas Gerais). Clima agradabilíssimo e fontes termais fizeram a glória do local, que conta com suntuosas construções “art-nouveau” e “art-decó”, um famoso teleférico que leva ao pico do Cristo Redentor, vários parques públicos e cascatas.
A região central do estado compreende as “cidades-históricas”, que bordejam a Serra do espinhaço, local das antigas Minas de Ouro, que fizeram a glória de Portugal e financiaram a Revolução Industrial da Inglaterra.
É um pedaço de Portugal, parado eternamente no século XVIII, bem no centro do Brasil.
Cada cidade tem seus detalhes pitorescos, seus cantos e seus antros...
Ouro Branco tem uma bela Matriz, decorada por Mestre Ataíde (1762-1830) e, por não possuir tantas atrações quanto as cidades circundantes, se impõe como opção muito mais barata de estadia. Pode-se perfeitamente se hospedar nesta cidade e, a partir dela, se deslocar para Ouro Preto e Mariana.
Mariana foi a primeira capital da Província de Minas Gerais, assim que desmembrada da Província de São Paulo. Há uma Câmara Municipal intactas, com mobiliário em estilo D. João V, e duas belas igrejas, logo em frente, na Praça do pelourinho, a do Carmo, em boas condições e a de São Francisco, infelizmente em risco de vir a ruir, não podendo mais ser visitada. Mais abaixo, descendo a colina, encontra-se a catedral, com um órgão de tubos com afinação barroca, trazido da Europa no século XVIII.
Ouro Preto, antiga Vila Rica, a “rainha do Espinhaço”, foi a segunda capital da Província. Bastante semelhante às cidades portuguesas da mesma época, está intacta, com todas as principais construções em excelente estado de conservação.
Destaques para a catedral do Pilar, que tem planta ogival, como algumas igrejas barrocas e rococós italianas e alemãs, e a de São Francisco, idealizada e realizada inteiramente pelo Aleijadinho, Antonio Francisco Lisboa (1730-1814).
Também muito interessante a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, também com planta ogival e uma “loggia” em estilo italiano, como de costume, inteiramente construída pelos negros, que eram impedidos de frequentar as mesmas igrejas que os brancos frequentavam.
O Museu da Inconfidência está num belíssimo palácio construído no século XVIII, que já foi sede tanto da Municipalidade quanto do governo do Estado, com a cantaria toda em granito duro.
A casa da moeda não é menos interessante. Ali podemos inclusive observar o curioso sistema de eliminação de dejetos, criado para a latrina, ainda no século XVIII, que fica no segundo piso.
Pode-se visitar as antigas Minas, tanto no centro quanto nos arredores da cidade.
Em 2017, em uma das visitas à cidade, o professor (o mais velho) escreveu:
“E a bela Vila Rica pediu ao deus do tempo que fizesse com que ele passasse bem devagar para que o progresso não a desfigurasse. Em troca ela abriria mão do seu ouro, das suas riquezas, de ser capital e até do seu nome! O senhor do tempo, contemplando a sua incomensurável beleza, se apiedou e concedeu o seu desejo. Por ironia, porém, a fez chamar Ouro Preto, em memória das negras mãos que trouxeram a sua riqueza de dentro das minas, que ergueram e pintaram suas paredes e fizeram seus entalhes...”
Próximo a Ouro Preto está Congonhas do Campo, onde estão as principais obras do Aleijadinho, no período final da sua produção.
Em frente ao rico santuário barroco de Bom Jesus do Matosinhos, há escadarias que lembram outras bem semelhantes, que existem em Portugal, e que foram ornamentadas com as estátuas dos doze apóstolos, em tamanho natural e com o rosto dos Inconfidentes de 1789!
Descendo a colina, em capelas simétricas de ambos os lados, estão os passos da cruz, ou seja, as figuras também em tamanho natural, todas em madeira ricamente policromada da Via Sacra. As capelas só são abertas na Semana Santa.
Um pouco distante, mas próximas entre si, estão Tiradentes e São João Del Rei.
Tiradentes, cidade inteiramente preservada dos séculos XVII e XVIII, como as citadas até agora, calçada em “pé de moleque” (pedras que eram assentadas pelos escravos), possui a segunda igreja mais rica em ornamentação em ouro no Brasil, só perdendo para São Francisco em Salvador.
São nada menos de 640 quilos de ouro, ricamente engastados na decoração rococó, da talha que ornamenta completamente o interior da Matriz de Santo Antonio.
Há inúmeros museus na cidade, sendo que um dos melhores é o Museu do Padre Toledo. A antiga residência do prelado conta com tetos decorados pelo Mestre Ataíde.
Hospedar-se em Tiradentes é uma experiência única pois, nos arredores da cidade, há inúmeras antigas casas de fazenda, com mobiliário original de época, transformadas em Pousadas.
Ali se pode de fato sentir-se em pleno século XVIII. Vários proprietários ainda residem nas referidas fazendas e compartilham a mesa do café da manhã com os hóspedes: vários tipos de queijo, doce de abóbora, goiabada, bananada, marmelada, figo e pêssego em calda, doce de leite, pão de queijo e toda sorte de iguarias mineiras são fartamente degustadas!
São João Del Rei é deslumbrante, destacando-se a majestosa Catedral da Candelária, a Igreja do Carmo e a de são Francisco, em cujo cemitério, entre outros, está enterrado o ex-presidente Tancredo Neves. Desnecessário dizer que todas estas igrejas são profusamente decoradas em talha dourada.
Belo Horizonte, a atual capital, é uma belíssima cidade, inteiramente planejada no final do século XIX e que possui ainda lindos exemplares da arquitetura eclética, do início do século XX, que convivem muito bem, lado a lado, com obras modernistas de Niemeyer.
Por falar em Niemeyer, não há como não citar sua obra prima, executada em parceria com o urbanista Lúcio Costa: Brasília.
Sobre ela, para o bem ou para o mal, o rapaz escreveu, em 2015:
“3 dias em Brasília - Algumas ponderações a respeito do Distrito Federal e Brasília, já que são totalmente distintas. Enquanto Brasília "tenta" ser organizada, como na época da sua fundação em 1960, o seu entorno (as cidades satélites) foram crescendo de forma desordenada. Ceilândia, uma das regiões mais pobres do DF, é um exemplo disso. Comparado com Campinas, pode se dizer que Ceilândia é o Campo Grande ou Ouro Verde campineiros.
Nas cidades satélites residem descendentes dos que construíram Brasília, os Candangos. Também, nestas cidades há pessoas com baixa qualificação profissional, na maior parte pessoas oriundas da região nordeste e norte do Brasil (há exceções, também há uma porção de nordestinos ricos e de funcionários públicos).
Enquanto Brasília parou no tempo (pelo bem na nação), as cidades satélites do DF, estão completamente abandonadas pela gestão daquele Estado, já que não há prefeitos e vereadores, mas sim um administrador de cada cidade, nomeado pelo governador. Mato alto por toda parte, professores que não receberam ainda a 2ª parcela do 13º salário, uma saúde pública mais caótica que a de São Paulo.
Enquanto os políticos ficam nas suas bases os finais de semana, é possível visitar os seguintes palácios:
Palácio do Planalto;
Congresso Nacional;
Supremo Tribunal Federal;
Palácio da Alvorada (está com visitas as quartas-feiras).
O transporte público é um caos! Brasília foi feita para quem tem carro. As linhas de ônibus, na sua maior parte não são integradas como aqui no estado de São Paulo. O metrô aos domingos para de funcionar às 19 horas. É tudo muito distante.”
Apesar das ponderações, Brasília impressiona!
Os edifícios modernos, brancos ou cor de concreto, se recortando contra o céu absolutamente azul do cerrado. A vegetação surreal, trazida de todos os pontos do país. Os espelhos d’água e o Lago Paranoá, que foi artificialmente formado para prover humidade e que coroa o Plano Piloto, que tem formato de avião, nos dão uma visão única do futuro que se pensava para o país no final da década de 1950. Aquela época que viu nascer a indústria automobilística nacional, a Petrobrás e a Bossa Nova, que nos projetou mundialmente.
No nordeste são dignas de nota três capitais, bastante antigas, mas que tem maneiras bem diferentes de lidar com o patrimônio histórico material: Salvador, primeira capital do Brasil, ainda no período colonial, Recife, capital de Pernambuco, e João Pessoa, capital da Paraíba.
Salvador, cidade sobre a qual Laurentino Gomes, em “1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, disse ter sido um dia “a cidade mais bonita de todo o Império Português”, é hoje um triste exemplo de tentativa de preservação via decreto, impossibilitada por práticas predatórias cotidianas.
Muito embora se diga que o Pelourinho está tombado, constituindo-se em “patrimônio da humanidade”, é visível a deterioração. Casarões desabam praticamente todos os dias e mesmo a igreja mais profusamente carregada e decorada de ouro em território nacional, a de São Francisco, carece de reparos...
A catedral original, Sé Primacial do Brasil, onde D. João VI foi aclamado, construída com pedras e cal, há muito tempo já foi demolida, sendo substituída em suas funções pela Igreja dos Jesuítas... A igreja de São Pedro, no largo do mesmo nome, veio abaixo ainda antes. Das 365 igrejas que se diz que originalmente havia em Salvador, uma para cada dia do ano, devem restar pouco mais de uma centena.
Igrejas Evangélicas neopentecostais, bem como fiéis fundamentalistas religiosos, estas sim prosperam, sendo uma delas tão grande quanto um campo de futebol.
Há um assédio bastante incisivo aos turistas, que são praticamente coagidos a pagar por absolutamente tudo, desde tirar fotografias ao lado de baianas vestidas a caráter, até pelas famosas fitinhas do Senhor do Bonfim, as quais incialmente são oferecidas como “lembranças”, mas, uma vez amarradas no pulso do incauto turista, acabam sendo cobradas.
Por falar em Salvador, foi nesta cidade que o casal sofreu o único episódio real de homofobia, ao longo de seus quase quinze anos de vida em comum.
Em um ônibus, com destino à belíssima Praia do Flamengo, uma senhora, típica fundamentalista religiosa, se colocou em pé ao lado deles e, tentando a imposição das mãos sobre as suas cabeças, colocou-se a bradar alto, com os olhos fechados;
-“Jesus, cura o homossexualismo!”
Apesar do constrangimento e de terem solicitado ao motorista que fosse imediatamente a uma delegacia de polícia, nada foi feito e acabaram por conversar com um sociólogo baiano, bastante obeso, que ocupava dois bancos do ônibus.
Além de desculpar a fiel neopentecostal, demonstrando que na concepção dela estava apenas “tentando fazer o bem”, ele acabou por lhes explicar sobre “a gaveta”, uma história bastante interessante.
Segundo ele, há em todas as casas da Bahia um móvel com duas gavetas, onde os proprietários da casa guardam todas as contas que chegam pelo correio, desde o Natal até o Carnaval. Ainda segundo ele, as contas só são efetivamente abertas e pagas após a última micareta (carnaval fora de época). Se é real ou não, a história é bastante pitoresca.
Sobre Recife, que é hoje a cidade mais rica e desenvolvida do nordeste brasileiro, o professor escreveu em 2015:
“Cidade linda, desde sempre! Na minha opinião uma das cidades mais bonitas e mais cosmopolitas do Brasil e um dos melhores destinos de viagem em que já estive. Alia a paisagem natural (o mar verde azulado do nordeste, os recifes que dão nome à cidade, as várzeas e os rios preservados), à arquitetura e urbanismo (intervenções humanas) e, principalmente, uma gente boa, acolhedora, educada e extremamente hospitaleira. Não senti jamais o assédio que se faz ao turista, em Salvador ou no Rio de Janeiro, por exemplo, e sempre nos sentimos seguros, mesmo à noite, andando de metrô nos bairros populares.”
Já em 2019 escreveu ainda;
“Já exilados na Europa, tanto a princesa Isabel, quanto o próprio Conde D'Eu (que era francês!), quando queriam se referir a uma cidade verdadeiramente bela, falavam em Recife. Compararam em seus diários e cartas, cada vilazinha francesa e cada grande cidade da Europa que visitavam com a capital de Pernambuco. As outras cidades, por maiores e mais famosas que fossem, no cômputo dos príncipes, estavam sempre perdendo. Também tenho este amor pelo Recife. Foi paixão à primeira vista e sempre comento com o C. (que tem paixão pela cultura e pelas cidades hispânicas) que, PARA MIM, exatamente como era para a princesa Isabel e o Conde D'Eu, no seu conjunto (natureza, prédios históricos, pessoas hospitaleiras e simpáticas, sem o assédio aos turistas que existe em Salvador, por exemplo), não existe cidade que eu goste mais e que me pareça mais bonita que o Recife. Guardo no coração e na memória cada passeio, cada cantinho e cada momento que passei nesta cidade, nas poucas vezes em que pude nela estar (sim, pois é mais caro ir ao nordeste que ao exterior, infelizmente).”
Ainda se referindo à viagem de 2015, o rapaz, por sua vez, escreveu:
“RECIFE - OPINIÃO DE UM GEÓGRAFO
1. O que precisa ser melhorado:
Em frente dos muitos edifícios históricos passa fiação elétrica que polui o visual, não há rampas para acesso de deficientes físicos, não há semáforos de pedestres em boa parte do centro histórico, calçadas com muitos buracos, trânsito caótico, transporte público pouco eficiente. Há favelas por todos os lados, mesmo nos bairros nobres. No entanto, são bem menores do que as comunidades carentes de São Paulo ou Campinas. Concordo com D.R. quando ele diz que a cidade é muito quente. Se é quente no inverno imaginem no verão. Agora, que estamos no inverno, a cidade é super abafada, no hotel, só com ar-condicionado!
O bairro São José (comércio popular) é cheio de pessoas que chegam de metrô da região metropolitana. Lá, a higiene dos alimentos não é muito garantida.
2. O que tem de bom:
Comida farta, povo hospitaleiro, além de prédios históricos belíssimos, e igrejas do período colonial / imperial construídas em pedras e talhadas em ouro. O mar da Praia da Boa Viagem varia entre as cores azul e verde, realmente muito lindo!
Assim como no restante do Brasil, a elite de Recife é, na sua maior parte, branca e a classe trabalhadora composta por negros, pardos e descendentes de índios.”
E ainda:
“Gostei mais de Recife e João Pessoa do que de Salvador, pois em Salvador o turista é, o tempo todo, assediado por "guias aproveitadores". Em Recife se anda tranquilamente mesmo pelos bairros pobres sem qualquer constrangimento.”
João Pessoa é bem menor do que Recife e Salvador, com um Centro Histórico, no seu conjunto, relativamente bem conservado. Construção ímpar em território nacional, o Conjunto de São Francisco (Igreja e Mosteiro) é hoje Centro Cultural. Por si só já recomenda uma visita a esta cidade!
A Igreja há muito já perdeu o riquíssimo altar central, retábulo em talha dourada, mas, em contrapartida conserva intacto e inédito coro, com um crucifixo em tamanho natural, que pode ser virado para a nave. Tem também tetos pintados em “trompe-l'oeil” e uma riquíssima capela lateral, toda folhada a ouro e que nos apresenta o “barroco tropical”, onde as volutas e os adornos tradicionais do estilo são substituídos por folhas de palmeira, abacaxis, cocos e outras frutas típicas da região.
A história se conclui exatamente pelos breves relatos de algumas de suas viagens pois o timão - que comanda o leme, direcionando suas vidas - é a harmonia que reina neste lar, fruto de amor incondicional, confiança, respeito mútuo e uma absoluta afinidade temática, que perpassa pelo gosto de conhecer pessoas, lugares, realidades, histórias e culturas!
Os relacionamentos duradouros são aqueles construídos em bases comuns. Princípios, interesses, gostos e posturas semelhantes ou compatíveis, que se mantém, e até se solidificam, com a passagem do tempo.
Já o porto, que é tanto o ponto de partida quanto o de chegada, trata-se do fato de se consideram ambos completamente felizes um ao lado do outro e acreditarem no amor, sentimento sobre o qual afirmou o poeta Vinicius de Morais:
“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
E a história segue...