Infância
Nasci em 06 de novembro de 1980 em São João da Boa Vista, São Paulo. Vivi até os 8 anos com meus pais, Lourileide Valim Rocha (foto) e José Carlos de Almeida Rocha em Mogi Mirim. Nesta época, houve a separação do casal e minhas avós, Sérgia Pereira Rocha (materna) e Aparecida de Almeida (paterna) em comum acordo com minha mãe, decidiram que, o melhor naquele momento, seria morar em São João da Boa Vista com a minha avó Sérgia.
Adolescência
Aos 12 anos, como acontece com todo adolescente, comecei a sentir atração sexual. Não sentia atração por garotas e sim por garotos: amigos, vizinhos, colegas da escola, mas não falei nada a ninguém.
Quando completei 15 anos e comecei a trabalhar como auxiliar de escritório na delegacia de polícia de Mogi Mirim. Resolvi contar para minha mãe, irmã e avós, e elas me disseram: “Amamos você da mesma forma. Traga seus namorados em casa para que nós possamos conhece-los e assim tornar as suas relações mais produtivas” (e menos arriscadas).
Sexualidade
Em 1996, estava em um centro espírita em Mogi Mirim quando conheci aquele que seria meu primeiro namorado: Gilson (Gilson Bandeira Rodrigues). Ele me convidou para morar em sua casa no centro da cidade e eu aceitei, pois estaria mais próximo do trabalho e da escola. Nesta época, fazia o ensino médio, espanhol intensivo além do trabalho.
Aos 17 anos sai da casa da minha família para ter uma vida com mais responsabilidade profissional e conjugal. Após um ano de convivência, descobri que Gilson praticava adultério com homens e mulheres. Contra a força dos fatos, não há argumentos! Nos separamos.
Anos mais tarde conheci Adriano (Adriano Castro de Oliveira) através do bate papo IG. Duas semanas após nossa conversa on-line, nos econtramos em São João da Boa Vista. Ele me explicou que morava em Ribeirão Preto e que gostaria de morar comigo porém, havia um problema: ele vivia com uma mulher. Bom, pensei bem... Eu não tinha mais nada a perder naquele momento, então eu pedi a ele que conversasse com a minha mãe e avós para ver qual seria sua real intenção. Minha mãe me alertou sobre o fato dele ser bissexual. Ele contou a sua companheira que estaria saindo de casa por causa de um homem. A mesma não concordou, porém nada podia fazer.
Paixões versus trabalho
Uma semana depois, fui para Ribeirão Preto, voltei a estudar, me matriculei no curso técnico em administração e retomei o curso intensivo de espanhol. Após uma semana, consegui trabalho na Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto. Mais adiante, termino o meu curso de espanhol e o ensino médio, começo a trabalhar na UNIP (Universidade Paulista) como assistente administrativo.
Ele trabalhava como auxiliar de escritório numa empresa de locação de banheiros químicos e também como garçom à noite e, desta forma, nos mantínhamos com certa qualidade de vida. Após dois anos, a relação chegou a níveis incontroláveis de ciúmes da minha parte. Certa noite, chegando em casa mais cedo que o normal, encontro Adriano praticando adultério com sua melhor amiga, Ednéia.
Como eu sabia a respeito de sua bissexualidade, estava a par do risco que existia na relação. Depois do flagrante, resolvemos nos separar. Após este evento, voltei para Mogi Mirim.
Consegui trabalho em Campinas na Wizard Idiomas, como técnico administrativo. Morava com minha mãe, irmã e avó em Mogi Mirim e trabalhava em Campinas. Anos mais tarde, passo a ministrar aulas de Administração Técnico Profissionalizante junto à Microlins, no centro de Hortolândia. Continuava a morar em Mogi Mirim.
Minha avó Cida havia se aposentado e estava morando em Mogi Mirim para cuidar do seu filho, José Carlos. Minha avó Sérgia vendeu uma casa em São João da Boa Vista e comprou outra, na mesma rua que eu e minha mãe morávamos, para ficar mais próxima de nós. Neste período ambas as avós encontravam-se com Mal de Alzheimer e de tempo em tempo elas ficavam piores. Esqueciam-se de tudo. Minha mãe se aposentou e passou a cuidar da avó Sérgia após 25 anos de trabalho como enfermeira.
Ao contrário da minha mãe, meu pai, José Carlos, contratou uma pessoa para cuidar da minha avó Cida, pois nunca foi capaz de cuidar dele próprio. Então, quando eu as via naquela situação de demência, principalmente minha avó Cida, ficava sem poder ajuda-las, afinal, chegamos a um ponto da vida onde cada um precisa cuidar de si mesmo. Várias vezes minha mãe convidou minha avó Cida (sua sogra) para morar com ela, porém José Carlos sempre recusou. Desta forma, a cada ano o quadro de saúde ficava mais instável. Por outro lado, minha avó Sérgia era muito bem cuidada pela minha mãe em todos os aspectos.
Em novembro de 2005, conheci E., um rapaz aparentemente amoroso, romântico e muito carente, de família de classe alta de Campinas, sendo que a mesma não o aceitava enquanto homossexual. Dezessete dias após nosso primeiro encontro, alugamos um apartamento no Bairro Botafogo em Campinas e fomos viver juntos.
Ele saiu fugido de casa. Ambos trabalhávamos em Hortolândia, ele como médico (clínico geral) e eu como educador ainda na Microlins. Íamos e voltávamos juntos e nos relacionávamos muito bem até quando comecei a perceber que ele era homofóbico (auto-repreenção por ser homossexual).
Visivelmente, havia algo errado. Neste período, de novembro de 2005 até julho de 2006, comecei a me estafar com excesso do trabalho e a minha vida conjugal estava ficando instável, pois E. tinha atitudes estranhas como se ele quisesse me esconder da sociedade. De fato, ele escondia!
Além disso, minha avó Cida veio a falecer em 30 de maio de 2005, por negligência e falta de atenção especializada. Quem teria praticado a omissão de não leva-la a um atendimento médico especializado? Seu filho, José Carlos, Valdete, a pajem, ou ambos? Em março de 2006, solicitei ao INSS auxilio doença, pois foi diagnosticada a Síndrome do Pânico. Logo, nos separamos, entregamos o apartamento à imobiliária e eu voltei mais uma vez para Mogi Mirim, desiludido e sem vontade de viver. Era a minha terceira tentativa!
Uma nova fase
Após algumas semanas, me conectei a internet, buscando um site de relacionamento homossexual. Acabei conhecendo Luiz Carlos (Luiz Carlos Cappellano), meu atual companheiro. Teclamos um pouco e, na noite do dia 26 de junho de 2006, fui ao seu encontro. Conversamos muito sobre nossas vidas, nossas expectativas, um em relação ao outro, e resolvemos namorar. Aos poucos, Luiz foi me conquistando e fomos viver juntos em Campinas. Nossa intenção foi criar vínculo afetivo pouco a pouco até a conquista mútua definitiva. Com o tempo, tudo o que vivi no passado foi ficando no esquecimento.
Luiz se tornou mais um membro da minha família e, em contrapartida, me sinto acolhido por sua família, que nos trata com muito respeito e dignidade. Posso dizer que além de ter ganhado um homem completo, ganhei também uma família secundária maravilhosa!
É difícil descrever alguém tão especial como Luiz, pois temos metas e objetivos comuns, gostamos de viajar, gastronomia ou mesmo ficar em casa. Ele é assessor no Município e ministra aulas de História da Arte em uma faculdade da região. O nosso relacionamento é alicerçado no amor, respeito e compreensão.
O grande dia
No dia 27 de fevereiro de 2008 realizamos nosso grande sonho - o de se casar - afinal, não é todo o dia que dois homens unem-se oficialmente no Brasil. Nós somos o 12º casal a se unir através de um contrato de união estável em Campinas, o 120º casal no país. Este ato nos coloca numa estatística muito restrita, ou seja, apenas 0,07% da população brasileira registram suas respectivas uniões junto aos cartórios.
Foi um grande dia! Eu fiquei extremamente nervoso. Não houve nenhum tipo de festa, apenas um almoço para os amigos mais íntimos a fim de comemorarmos àquela data. Não só acredito como vivencio a cada momento a felicidade com o Luiz Carlos.
Novos desafios
O ano de 2009 iniciou-se e com ele o desejo de trilhar por uma nova profissão – a de Geógrafo - então, me matriculo junto ao Centro Universitário Sant’anna em São Paulo onde passo parte do meu dia como aluno assíduo e dedicado, aliás como sempre fui, com a certeza que terminarei mais esta etapa da minha vida, com o conhecimento necessário e a vontade de compartilhar com os nossos alunos da rede pública e/ou privada de educação todo o aprendizado adquirido nestes 3 anos. Neste meio, tive a portunidade de conhecer mais que simples colegas, verdadeiros amigos.
Foi na UniSant'ana, graças aos esforços de profissionais de educação compenetradas às suas atividades como a Professora Geógrafa Silvia Lopes Raimundo e a Professora e Pedagoga Márcia Quevedo Kay, que fui voltando minha atenção, de uma maneira cada vez mais participativa e consciente, ao Materialismo Histórico Dialético, método que nos permite uma apropriação crítica da realidade, com perspectiva de uma atuação transformadora em relação à mesma.
Três décadas de vida: de um lado, mudanças profundas, do outro, continuidade
No dia 6 de novembro de 2010, completei 30 anos. Nasci quase no final da ditadura militar, em 1980. Por isto, a "fase obscura" do Brasil pouco me influenciou, uma vez que, quando se é criança, o pensamento crítico passa longe do alcance intelectual, ainda em processo de formação.
Planos econômicos se sucederam. Do Plano Cruzeiro da minha infância ao Plano Real da minha adolescência. Da inflação galopante do governo Sarney ao confisco da poupança do governo Collor. As dificuldades vividas pela minha mãe que, muitas vezes, precisou trabalhar em dois empregos para sustentar nosso lar, ainda assim, com ajuda financeira das minhas duas avós.
A "revolução tecnológica" nestes trinta anos foi algo surpreendente. Se eu for ficar enumerando as transformações técnicas e informacionais ocorridas neste período, ficaria aqui por horas. Por isso, vou citar apenas uma transformação que marcou o meu passado e o presente: quando eu tinha por volta de cinco anos, ia com frequência à agência do Banco do Brasil, em São João da Boa Vista, onde minha avó Sérgia era correntista. Dentro da agência, havia muitos caixas humanos fazendo o atendimento à população. Havia também um corpo administrativo muito grande. Não existia cartões de débito, e os cartões de crédito eram transcritos através das letras em auto relevo num papel carbono, já que não havia os aparelhos de transmissão de dados em tempo real, como os que possuímos na atualidade. Bom, para a maioria dos correntistas o cheque era a segunda opção depois do dinheiro em espécie. Os talões de cheques eram tirados a cada 30 dias pelos correntistas através do atendimento humano. Havia muitas filas. As senhoras conversavam, conversavam... Enquanto elas e minha avó Sérgia conversavam, eu, criança e muito curioso, brincava subindo e descendo dentro do elevador do banco. Os poucos computadores que existiam eram operados dentro da linguagem de programação "Cobalto" ou "MS-DOS". As máquinas de datilografia estavam por toda parte. Os carros do "momento" eram o Fiat 147, o Escort, o Kadett, entre outros.
É lamentável que toda essa mudança tecnológica e, principalmente relacionada com o avanço da informática não permitiu a diminuição da pobreza, a exclusão social no mundo e a concentração da riqueza global nas mãos de poucos grupos empresariais e financeiros, muito pelo contrário, quanto maior foi o avanço tecnológico e o uso da robótica nos parques industriais, maior o número de trabalhadores desempregados devido a substituição da mão de obra humana por robôs, além de um amplo remodelamento ocorrido a partir de 1995, onde o atendimento ao cliente, antes feito pessoalmente entre o funcionário da empresa e o consumidor, passou a ser terceirizado via contato telefônico (o 0800...). Neste período, prevaleu o receituário prescrito aos países em desenvolvimento pelo Consenso de Washington.
Chegamos em 2010, à era da simultaneidade, do internet banking, do iPod, do fast food, do Just in time, da TV de LED em 3D, do MP4, 5...10, entre tantas outras parafernálias tecnológicas, mas também, chegamos em 2010 com o maior individualismo já visto na história da humanidade, em grande parte, provocada por este mesmo "avanço", o consumo desenfreado que transforma "cidadãos" em "consumidores" e que, nestes últimos trinta anos, tem extraído recursos naturais como nunca antes presenciado, e com isso, destruído a natureza e com ela, o próprio homem encontra-se hoje, não ameaçado pela invenção do aquecimento global (já que estamos entrando num período de esfriamento global), mas sim, pela escassez de recursos naturais para as próximas gerações e a própria barbárie que poderá haver no futuro próximo, caso não mudemos o modelo econômico global - o neoliberalismo - que tem minimizado e, por que não dizer, destruído o homem, alienando-o enquanto ser humano e marginalizando quem se opõe a este sistema que já tomou todos os cantos do nosso planeta.
Os movimentos sociais estão cada vez mais fragmentados. O fanatismo religioso tem aumentado e muito. Quanto mais se cria leis que garantam "igualdade" entre todos os "cidadãos", mais desigualdade se instala. A própria "liberdade" em si, garantida pela constituição dos países de democracia já consolidada acaba por prender o próprio indivíduo dentro de um sistema onde a cidadania não existe, já que esta está relacionada ao poder de se estabelecer da pessoa enquanto consumidor.
Mais uma fase da minha vida se foi...
A minha segunda graduação, Licenciatura em Geografia chegou ao fim. Neste trecho não quero me ater ao conteúdo, tampouco aos trabalhos e pesquisas que realizamos durante estes três anos (2009-2011). Quero, isso sim, lembrar as dificuldades que todos nós passamos neste período: dificuldade financeira, noites sem dormir, pressão devido aos prazos para a entrega dos relatórios, muito estresse, transporte público lotado, congestionamentos, mal tempo, calor, muitas vezes, ingestão de alimentos gordurosos como lanches, coxinhas, risoles e muitos doces, já que o açúcar é bom para o aumento da energia corporal.
O sacrifício pessoal que todos nós, alunos do curso de Licenciatura em Geografia da UniSant'Anna passamos, chegou ao fim, pelo menos para aqueles que, ao invés de seguir no bacharelado, buscarão fora deste centro universitário outras formas de inserção acadêmica, como mestrado, doutorado ou especialização. Para alguns, o fim deste período de sacrifício pessoal é o começo de uma outra fase, talvez mais difícil, de acordo com a escolha de cada um.
Mas a vida, nós sabemos é assim, principalmente se levarmos em conta o momento histórico em que vivemos onde o capitalismo neoliberal gera altos níveis de competição em uma sociedade que se apresenta cada vez mais tecnificada porém, menos humanizada. Mas valeu, foi bom, muito bom!
Quero também agradecer nossos professores que sempre se mostraram muito competentes, além disso, se colocaram diante de nós como grandes amigos. Ronaldo Malheiros Figueira, Silvia Lopes Raimundo, Gilberto Souza Rodrigues Júnior são alguns dos educadores que nos acompanharam nesta jornada e que merecem a nossa homenagem: MUITO OBRIGADO!
Termino a minha autobiografia afirmando em relação a tudo o que passei, sejam coisas boas ou ruins (principalmente as boas), VALE A PENA VIVER, TER CONVICÇÕES E LUTAR POR UM MUNDO MELHOR!
Carlos Eduardo Valim Rocha