Não há uma resposta simples. A ciência é, sem dúvida, uma das ferramentas mais poderosas que a humanidade já criou.
Combatemos doenças (vacinas, antibióticos, cirurgias), ampliamos o acesso à comunicação e informação, aumentamos a produção de alimentos e entendemos melhor o clima, o universo e a própria vida. Ou seja: a ciência resolve muitos problemas técnicos e práticos.
Mas ela não resolve sozinha os problemas da humanidade, porque muitos deles não são apenas técnicos — são sociais, éticos, econômicos, políticos e morais. Por exemplo: A ciência pode produzir alimentos suficientes, mas a fome persiste por má distribuição. A tecnologia pode aproximar pessoas, mas também pode gerar desigualdade e manipulação. A medicina pode aumentar a longevidade, mas não responde ao sentido da vida ou ao sofrimento existencial. A ciência pode criar energia limpa, mas as decisões de usá-la são políticas.
A ciência oferece meios e soluções, mas as finalidades dependem de valores e escolhas humanas. Por isso muitos filósofos dizem que ciência e ética precisam caminhar juntas.
A resposta mais aceita entre filósofos, sociólogos e historiadores é: não é possível organizar uma sociedade de forma duradoura sem algum tipo de teoria e sem política. E aqui “política” não significa apenas partidos ou eleições, mas o modo como as pessoas decidem quem manda, quem obedece, quem tem direitos e como os recursos são distribuídos.
Toda organização social já envolve teoria — mesmo quando não parece. Mesmo sociedades “simples” ou tradicionais funcionam com: normas, crenças, costumes, valores e explicações sobre o mundo. Esses elementos são, na prática, formas de teoria (ainda que não escritas ou formalizadas). Por exemplo: regras de convivência, papéis de gênero, autoridade de líderes ou anciãos e noções de justiça ou punição. Ou seja, sempre existe alguma visão de mundo que orienta a vida coletiva.
E toda convivência humana envolve política. Política não é apenas governo formal. Política é: tomar decisões coletivas, resolver conflitos, definir responsabilidades e distribuir poder. Mesmo em: aldeias, comunidades rurais, grupos religiosos, cooperativas e famílias ampliadas há processos de decisão — logo, há política. Quando alguém diz “vamos viver sem política”, geralmente quer dizer: “vamos viver sem o tipo de política que existe hoje”. Mas a política, em sentido amplo, é inevitável.
Quando se tenta eliminar a política, o que surge é outro tipo de poder. Experiências históricas que tentaram “dispensar a política”: comunidades utópicas, regimes tecnocráticos e ditaduras revolucionárias acabaram substituindo a política por: poder carismático de um líder, autoridade religiosa ou moral e controle militar ou burocrático. Ou seja: quando a política formal é negada, o poder não desaparece — ele apenas se torna menos visível e menos debatido.
Não é possível organizar uma sociedade sem teoria (porque sempre haverá valores e crenças orientando as ações), nem sem política (porque sempre haverá decisões coletivas e disputas de interesse). O que podemos discutir é: que tipo de teoria queremos (científica, religiosa, filosófica…), que tipo de política queremos (democrática, autoritária, participativa…).
Os dois movimentos nasceram com forte confiança na ciência e na experiência prática, mas ambos enfrentam limites e tensões internas. Vou organizar por correntes e depois destacar convergências e contrastes.
(Comte, depois correntes cientificistas do séc. XIX e início do XX)
O positivismo afirma que o conhecimento válido é o científico, a sociedade deve ser organizada com base em leis objetivas e o progresso é linear e cumulativo. Essa visão produziu avanços metodológicos… mas também gerou limites e contradições.
Contribuições positivas. valorização do método científico, crítica à metafísica e ao dogmatismo religioso, sistematização da pesquisa empírica e confiança no progresso técnico e social.
1) Redução do humano ao que é mensurável. O positivismo tende a excluir: valores, subjetividade, ética, arte e experiência interior. Se só o que pode ser medido é “real”, então grande parte da vida humana fica deslegitimada. Contradição: ele pretende explicar a sociedade, mas ignora dimensões simbólicas e afetivas que também estruturam o social.
2) Neutralidade científica ilusória. O positivismo supõe que a ciência é: neutra, livre de interesses, puramente objetiva. Mas sociólogos e filósofos posteriores (Weber, Kuhn, Feyerabend) mostraram que: toda pesquisa envolve escolhas de valores, paradigmas científicos mudam historicamente e interesses políticos e econômicos influenciam a produção científica. Contradição: o positivismo denuncia ideologias, mas ignora a própria ideologia cientificista.
3) Determinismo social e tecnocracia. Ao buscar “leis sociais” como leis naturais, o positivismo tende a: reduzir a política à técnica, justificar hierarquias “cientificamente” e enfraquecer a deliberação democrática. Ex.: ideias de “engenharia social” e governo de especialistas. Limite ético-político: o progresso técnico não resolve conflitos de valores.
4) Visão ingênua de progresso. Cria a ideia de que a história caminha inevitavelmente para melhor. As guerras, totalitarismos e crises do século XX abalaram essa confiança. Contradição: promete progresso moral a partir do progresso técnico — mas eles não são equivalentes.
(Peirce, James, Dewey — depois correntes neopr pragmáticas)
O pragmatismo afirma que: o sentido de uma ideia está em seus efeitos práticos; verdade é aquilo que funciona em contextos de experiência; conhecimento é processo, não espelho da realidade. Ele valoriza: experiência, ação, experimentação social e democracia como prática coletiva (Dewey).
1) Risco de relativismo. Se a verdade depende do que “funciona”, surge a pergunta: funciona para quem? em qual contexto? com quais efeitos de poder? Sem critérios normativos mais firmes, o pragmatismo pode parecer justificar: soluções oportunistas, verdades instrumentais. Tensão: como diferenciar o útil do eticamente justo?
2) Fragilidade dos fundamentos éticos. Ao evitar princípios universais rígidos, o pragmatismo privilegia consensos práticos e negociações contextuais. Mas isso pode enfraquecer fundamentos éticos universais (direitos humanos, por exemplo). Limite: corre o risco de tornar a ética demasiado dependente da situação.
3) Confusão entre eficiência e verdade. O que é eficaz socialmente pode ser: manipulador, tecnocrático e excludente. Contradição: o critério prático pode legitimar o que “funciona”, mesmo que não seja justo.
4) Dependência do consenso social. Em Dewey, a verdade se constrói na comunicação democrática. Mas sociedades desiguais produzem consensos distorcidos. Limite político: quem tem mais poder também define o que “funciona”.
Base — ciência e método (Positivismo); experiência e prática (Pragmatismo)
Verdade — objetiva, universal (Positivismo); processual, contextual (Pragmatismo)
Força — rigor científico (Positivismo); flexibilidade e democratização (Pragmatismo)
Limite — reducionismo e tecnocracia (Positivismo); relativismo e fragilidade normativa (Pragmatismo)
Positivismo fortalece a ciência, reduz o humano, idealiza a neutralidade e o progresso. Pragmatismo liga conhecimento à vida prática e à democracia; corre risco de relativizar a verdade e enfraquecer critérios éticos. Ambos buscam soluções racionais para a vida coletiva, mas revelam tensões entre ciência, valores e poder.
Fonte de Consulta
ChatGPT
Observação: Essas três perguntas foram extraídas de Saber-Fazer Filosofia: O Pensamento Moderno, de Giovanni Semeraro (Coordenador). Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2011 (Coleção Saber-Fazer, 2).