A relação entre poder e sistema é de mútua constituição: um sustenta e molda o outro.
1. O sistema organiza o poder. Sistemas (políticos, econômicos, jurídicos, tecnológicos, culturais) criam regras, instituições e papéis que definem: quem pode decidir, sobre o quê, por quais meios, com quais limites. Ex.: o sistema político define como o poder é exercido (eleições, leis, cargos).
2. O poder mantém e transforma o sistema. O poder é a capacidade de influenciar, decidir ou impor. Quem detém poder: mantém o sistema funcionando (reprodução), ou o altera quando impõe reformas, rupturas ou revoluções. Sem poder, o sistema perde eficácia; sem sistema, o poder tende ao caos ou à arbitrariedade.
3. Poder não é só hierárquico. Em muitos sistemas, o poder não está apenas no “topo”, mas distribuído: no conhecimento (ciência, mídia), na economia (capital), na tecnologia (controle de dados), nas normas sociais (o que é considerado normal ou legítimo).
Aqui, o sistema produz formas sutis de poder (como mostrou Foucault).
4. Relação dinâmica, não fixa. Quando o sistema muda (ex.: digitalização, globalização), as formas de poder também mudam. Quando o poder se concentra ou se desloca, o sistema se reconfigura.
Pode-se dizer isso como uma leitura analítica, desde que com cuidados conceituais. No Brasil, é razoável afirmar que o poder efetivo emerge da articulação entre vários polos, e não de um único ator. Em termos de sistema de poder, governo, Judiciário, Centrão e mídia operam de forma interdependente, ainda que não homogênea nem totalmente coordenada.
1. Isso é “o poder”? Não no sentido de um bloco único e consciente, mas sim como um arranjo de poder dominante. Governo: exerce o poder executivo formal, mas depende de sustentação política. Centrão: controla a governabilidade via Congresso, orçamento e sobrevivência de governos. Judiciário (especialmente cortes superiores): atua como poder moderador de fato, definindo limites e validando decisões. Mídia: não governa, mas legitima ou deslegitima atores e narrativas, influenciando opinião pública e pressão institucional. Juntos, eles formam um campo de poder que tende à estabilidade do sistema, não necessariamente à verdade, justiça ou vontade popular.
2. Isso é “o sistema”? Mais precisamente, isso é o núcleo funcional do sistema político brasileiro atual. O sistema não é só instituições formais, mas: práticas informais, acordos, incentivos, trocas de proteção, visibilidade e recursos. Nesse sentido, sim: esse arranjo sustenta o sistema como ele opera na prática, mesmo que o discurso oficial fale em separação de poderes.
3. Importante distinção. Não é correto dizer que: todos concordam sempre, não há conflitos internos, ou que haja uma conspiração centralizada. O que existe é: convergência de interesses em certos momentos, autopreservação institucional, rejeição a rupturas que ameacem o equilíbrio vigente.
4. Formulação mais precisa. Em vez de “eles são o poder e o sistema”, uma formulação analiticamente mais sólida seria:
“No Brasil, o poder real se exerce por meio de um arranjo sistêmico entre Executivo, Congresso (especialmente o Centrão), Judiciário e mídia, que juntos moldam os limites do possível dentro do sistema político.”
🇧🇷 Brasil — Arranjo policêntrico informal
Atores centrais: Executivo + Centrão + Judiciário + mídia. Característica-chave: governabilidade por acordos informais e barganhas. O Legislativo (via Centrão) é pivô do sistema. O Judiciário atua como poder moderador de fato. A mídia exerce poder de legitimação/deslegitimação. O sistema prioriza estabilidade e autopreservação, mesmo à custa de coerência programática. Poder difuso, negociado continuamente.
🇺🇸 Estados Unidos — Poder institucionalizado e competitivo
Atores centrais: Executivo + Congresso + Judiciário + grandes corporações + mídia. Separação de poderes mais rígida. Judiciário forte, mas com limites claros. Lobby econômico substitui o “centrão”. Mídia é plural, porém altamente polarizada. O poder é fragmentado, mas mais transparente e previsível.
🇩🇪 Alemanha — Sistema partidário disciplinado
Atores centrais: Partidos + Parlamento + Executivo. Coalizões são formais e programáticas. Judiciário é forte, porém autocontido. Mídia tem influência menor na decisão direta. O sistema doma o poder por regras claras.
🇫🇷 França — Executivo dominante
Atores centrais: Presidente + alta burocracia + Judiciário. Presidencialismo forte. Parlamento mais fraco. Mídia influencia, mas não estrutura o sistema. O poder é concentrado, o sistema é vertical.
🇷🇺 Rússia — Poder centralizado
Atores centrais: Executivo + aparato de segurança + mídia estatal. Judiciário e Parlamento são subordinados. Mídia funciona como instrumento do poder. Pouco espaço para negociação real. O sistema serve ao poder, não o contrário.
🇨🇳 China — Sistema totalizante
Atores centrais: Partido + Estado + economia + mídia. Não há separação de poderes. O sistema é o poder. Eficiência alta, pluralismo mínimo. Poder e sistema são praticamente indistinguíveis.
Comparação direta com o Brasil
O Brasil se destaca por: muito poder informal, múltiplos centros de veto, Judiciário excepcionalmente ativo, governabilidade baseada em mediação constante, não liderança.
EUA/Alemanha → o sistema controla o poder. França/Rússia/China → o poder domina o sistema. Brasil → o poder emerge da negociação entre partes do sistema
O Brasil opera dentro de um sistema politicamente instável, marcado por baixa confiança institucional, fragmentação do poder e alta polarização. Isso faz com que o sistema funcione de modo defensivo, sempre reagindo a riscos percebidos, em vez de agir a partir de legitimidade sólida. Nesse contexto, discordância política tende a ser interpretada como ameaça à ordem.
O Judiciário assume um papel central nesse arranjo, não apenas como árbitro, mas como instrumento de contenção política. Quando a estabilidade do sistema é vista como prioridade absoluta, decisões jurídicas passam a carregar uma função política implícita, e garantias individuais podem ser relativizadas em nome da “proteção institucional”.
Surge então a expansão do poder punitivo: leis são interpretadas de forma mais ampla, punições ganham caráter exemplar e o efeito simbólico (intimidar, sinalizar limites) passa a ser tão ou mais importante que a culpa individual. Nesses momentos, o custo de errar contra um inocente é percebido como menor que o risco de “perder o controle”.
A mídia contribui ao criar um clima de urgência moral e institucional, antecipando julgamentos e reduzindo o espaço para o devido processo legal. Quando o discurso dominante é o de que a democracia ou o país estão “em risco iminente”, excessos passam a ser tolerados como males necessários.
O paradoxo é que, ao agir assim, o sistema corrói sua própria legitimidade: injustiças geram desconfiança, radicalizam a sociedade e aprofundam o conflito que se pretendia conter. Portanto, no Brasil, abusos como prisões injustas não são sinal de força, mas de fragilidade e medo sistêmico, que acabam enfraquecendo o próprio sistema no longo prazo.
Fonte de Consulta
ChatGPT