Esta pergunta toca no ponto central da Crítica da Razão Pura. A ideia de Kant é que os juízos sintéticos a priori oferecem uma saída para o impasse entre o Racionalismo (conhecimento vem da razão, a priori) e Empirismo (conhecimento vem da experiência, a posteriori)
Até então se pensava que os juízos a priori eram sempre analíticos (verdades lógicas, explicativas, mas sem novo conteúdo) e juízos sintéticos eram sempre empíricos (trazem algo novo, mas dependem da experiência). Kant rompe isso ao afirmar que existem juízos que: 1. ampliam o conhecimento (sintéticos); 2. mas não dependem da experiência (a priori). Exemplos clássicos: “7 + 5 = 12”; “A linha reta é a menor distância entre dois pontos”; Princípios fundamentais da física newtoniana (em Kant)
Segundo ele, isso só é possível porque a mente humana estrutura a experiência por meio de formas e categorias (espaço, tempo, causalidade etc.). Assim, o conhecimento é resultado de: dados sensíveis + formas a priori do entendimento ou, na famosa fórmula kantiana: “Os pensamentos sem conteúdos são vazios; as intuições sem conceitos são cegas.”
Então… isso resolve a questão do conhecimento? Resolve parcialmente — dentro dos limites que Kant estabelece. Kant afirma que o conhecimento verdadeiro só é possível: no âmbito dos fenômenos (o mundo tal como aparece para nós), estruturados pelas categorias da mente
Mas ele também afirma que: não podemos conhecer as “coisas em si” (númeno) Ou seja: Kant fundamenta a possibilidade do conhecimento científico, mas limita o conhecimento metafísico tradicional. Ele não zera o problema do conhecimento — ele reformula seus limites.
Ela foi extremamente influente, mas também criticada: Hegel criticou Kant por manter a separação fenômeno / númeno; Positivistas abandonaram a ideia de a priori forte; Fenomenologia reinterpretou a experiência; Filosofia analítica questionou a noção de “sintético a priori”. Hoje, muitos veem os juízos sintéticos a priori como: uma poderosa solução histórica, mas não definitiva
Os juízos sintéticos a priori dão fundamento para o conhecimento científico, superam a disputa racionalismo × empirismo e mostram que o sujeito participa ativamente do conhecer, mas não resolvem toda a questão do conhecimento — eles a delimitam.
Sim — há uma diferença profunda entre o a priori em Descartes e as formas transcendentais em Kant. Embora ambos falem de algo “anterior à experiência”, eles significam coisas bem diferentes.
Vou resumir a diferença em três níveis: origem, função e relação com o mundo.
Para Descartes, o a priori está ligado às ideias inatas — conteúdos da mente colocados por Deus. Exemplos: ideia de Deus, ideia de substância, princípios matemáticos, noção de perfeição. Essas ideias: têm validade objetiva, são garantidas pela veracidade divina, fundamentam a certeza do conhecimento
O a priori cartesiano é, portanto: uma verdade garantida por Deus e descoberta pela introspecção racional. Ele é ontológico e metafísico — diz respeito ao que é real em si.
Kant rompe com essa ideia. Para ele, o a priori não é conteúdo da mente, mas sim: formas e condições universais que tornam a experiência possível.
Dois níveis: Formas puras da sensibilidade: espaço, tempo. Elas estruturam tudo o que podemos perceber. Categorias do entendimento: causalidade, substância, unidade, pluralidade etc.
Essas formas: não vêm da experiência, não são dadas por Deus, não revelam a realidade “em si”. Elas organizam os fenômenos.
O a priori kantiano é epistemológico e transcendental — diz respeito às condições do conhecer, não ao ser.
Em Descartes, o a priori revela verdades sobre a realidade metafísica. Em Kant, o a priori revela apenas como a mente estrutura a experiência. Ou seja: Descartes: o a priori é garantia de verdade objetiva do mundo. Kant: o a priori é limite do que podemos conhecer do mundo.
Kant não nega o a priori cartesiano — ele o reformula radicalmente: O a priori deixa de ser conteúdo da verdade metafísica e passa a ser condição do conhecimento possível. Por isso Kant limita o conhecimento ao fenômeno, enquanto Descartes ainda busca acessar a realidade em si.
Esta pergunta toca num ponto central da arquitetura da filosofia kantiana. Resposta curta: Não — razão pura e razão prática não são atividades de pessoas diferentes. Elas são duas funções distintas da mesma razão no mesmo sujeito. Kant insiste nisso: não existem “duas razões” nem dois tipos de alma. Há uma única razão humana, que opera em dois domínios diferentes.
É a razão atuando no conhecimento teórico — aquilo que busca compreender o mundo natural. Ela pergunta: “o que posso conhecer?” “quais são os limites do conhecimento?” Na Crítica da Razão Pura, Kant mostra que: o conhecimento vale apenas para os fenômenos, é estruturado pelas formas e categorias a priori, não alcança a “coisa em si”. A razão pura é cognitiva e descritiva.
É a razão atuando no agir moral. Ela pergunta: “o que devo fazer?” “como uma ação pode ser moralmente válida?” Na Crítica da Razão Prática, Kant afirma que: a razão é capaz de legislar moralmente, a moral não depende da experiência, o fundamento da ética é o imperativo categórico. A razão prática é normativa e legisladora.
Não são duas pessoas, não são duas faculdades independentes. São dois usos da mesma razão no mesmo sujeito. Kant quer evitar dois extremos: psicologizar a moral (reduzir à experiência) e metafísica dogmática (alegar conhecimento do noumeno)
Assim: no conhecimento → a razão reconhece seus limites; na moral → a razão afirma sua autonomia. Ou seja: A mesma razão que não pode conhecer a coisa-em-si é aquela que fundamenta a liberdade moral.
Não são duas pessoas. Não são duas consciências. Não são duas naturezas. São dois usos complementares da mesma razão humana: teórico (razão pura); prático (razão prática). E é justamente essa unidade que permite a Kant articular: limite do conhecimento e autonomia moral.
Fonte de Consulta
ChatGPT
Observação: Essas três perguntas foram extraídas de Saber-Fazer Filosofia: O Pensamento Moderno, de Giovanni Semeraro (Coordenador). Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2011 (Coleção Saber-Fazer, 2).