A “novidade” da filosofia de Descartes, em relação aos pensadores anteriores, está sobretudo no modo como ele funda o conhecimento e no novo papel dado ao sujeito racional.
1) O método da dúvida radical. Descartes propõe suspender todas as crenças que possam ser postas em dúvida — inclusive os sentidos e as tradições filosóficas. A dúvida não é ceticismo definitivo, mas um método para encontrar uma certeza absolutamente segura.
2) O ponto de partida no sujeito — o “Cogito”. Da dúvida surge a primeira verdade indubitável: “Penso, logo existo.” (Cogito, ergo sum). A novidade aqui é que a certeza fundamental não vem do mundo externo nem da autoridade, mas da consciência de si enquanto sujeito pensante. Isso inaugura o que muitos chamam de virada subjetiva na filosofia moderna.
3) A ideia de um método científico universal. Inspirado na matemática, Descartes propõe regras de método (análise, síntese, evidência, ordem) para a filosofia e para a ciência. Ele busca um conhecimento claro, distinto e fundamentado na razão — não na tradição ou na experiência confusa dos sentidos.
4) Dualismo mente–corpo. Outra inovação é a separação entre res cogitans — a substância pensante (mente) e res extensa — a substância extensa (corpo, natureza). Isso permite tratar o corpo e a natureza como objetos de explicação mecânica, abrindo caminho para a ciência moderna.
5) Ruptura com a filosofia escolástica medieval. Enquanto a escolástica se apoiava na autoridade aristotélico-tomista e na teologia, Descartes afirma a autonomia da razão, a busca de fundamentos universais e racionais e a reconstrução do saber “a partir do zero”
A novidade da filosofia de Descartes está em: 1) fundar a certeza no sujeito pensante; 2) usar a dúvida como método; 3) propor um modelo racional e matemático de ciência; 4) separar mente e corpo; 5) inaugurar a filosofia moderna.
Sim — a filosofia de Descartes é extremamente inovadora, mas também deixou tensões internas, críticas e problemas em aberto que geraram grande debate na filosofia moderna.
1) O “círculo cartesiano”. Descartes afirma que: 1) Só podemos confiar nas ideias claras e distintas; 2) Sabemos que as ideias claras e distintas são verdadeiras porque Deus não engana; 3) Mas a existência de Deus é provada… a partir de ideias claras e distintas. Isso parece circular: confio nas ideias claras e distintas porque Deus existe, e sei que Deus existe porque percebo isso claramente. Muitos filósofos (sobretudo Arnauld e depois Kant) apontaram esse possível círculo lógico. Descartes tenta responder dizendo que a evidência do “cogito” é auto-garantida — mas a discussão continua aberta.
2) O problema da interação mente–corpo. Ele distingue: mente = substância pensante; corpo = substância extensa (material). Mas… como duas substâncias tão diferentes interagem? Como um pensamento causa um movimento corporal? Como o corpo causa dor ou sensação na mente? Descartes fala na glândula pineal como ponto de mediação — solução considerada frágil. Esse problema deu origem a várias respostas posteriores: ocasionalismo (Malebranche); paralelismo (Spinoza); monismo empírico (Hume); idealismo / fenomenalismo; materialismo contemporâneo. Ou seja, é uma questão que a filosofia até hoje debate.
3) A confiabilidade dos sentidos. Descartes desconfia profundamente dos sentidos — mas ao final: Deus garante que o mundo externo existe e que não somos enganados constantemente. Críticos perguntam: Se os sentidos são tão pouco confiáveis, por que confiar que Deus os “corrige”? Há tensão entre: o ceticismo inicial radical e a reabilitação posterior do mundo físico.
4) A noção de ideias inatas. Descartes sustenta que certas ideias são inatas (Deus, infinito, número, pensamento). Isso levanta questões: como distingui-las de ideias adquiridas? A experiência realmente não participa de sua formação? Todos os seres humanos teriam essas ideias do mesmo modo? O empirismo posterior (Locke, Hume) criticará fortemente esse ponto.
5) A prova da existência de Deus. As provas de Descartes são alvo de debate, especialmente: 1) a ideia de perfeição não poderia vir da imaginação? 2) a passagem da ideia de infinito à existência do infinito é válida? 3) o argumento lembra o ontológico de Anselmo — e sofre críticas semelhantes. Kant, por exemplo, questionará a própria possibilidade de provar racionalmente a existência de Deus.
6) A concepção mecanicista da natureza (e dos animais). Ao tratar a natureza como máquina, Descartes conclui que: animais seriam autômatos sem consciência. Isso gera problemas: como explicar comportamento complexo? A dor animal é mera “reação mecânica”? Esse ponto é hoje amplamente revisado — e considerado um limite da visão mecanicista.
As principais tensões abertas: Critério da verdade (Tema) ==> possível “círculo cartesiano” (Problema); Mente e corpo (Tema) ==> interação entre substâncias distintas (Problema); Sentidos (Tema) ==> ceticismo inicial vs. confiança posterior (Problema); Ideias inatas (Tema) ==> papel da experiência (Problema); Provas da existência de Deus (Tema) ==> validade dos argumentos (Problema); Animais e natureza (Tema) ==> mecanicismo excessivo (Problema). Essas tensões não invalidam a filosofia cartesiana — ao contrário, elas impulsionaram a filosofia moderna (Spinoza, Leibniz, Locke, Hume, Kant) a desenvolver novas soluções.
As ideias de Descartes tiveram consequências profundas para a filosofia, a ciência e a concepção moderna de sujeito.
1) Consolidação da Filosofia Moderna. Descartes marca a passagem da filosofia medieval para a moderna ao: romper com a autoridade da tradição e da escolástica; colocar a razão autônoma como fundamento do conhecimento; iniciar a “virada para o sujeito”. Depois dele, o problema central passa a ser: Como o sujeito conhece o mundo? Isso orienta toda a filosofia moderna — de Locke e Hume a Kant.
2) Fundação do racionalismo. Seu método baseado em ideias claras e distintas inspira o racionalismo continental: Spinoza, Leibniz, Wolff. Todos procuram um sistema filosófico: dedutivo; ordenado, com pretensão de evidência racional (quase matemática). A crença de que a razão pode alcançar a estrutura do real é, em grande parte, herança cartesiana.
3) Influência na ciência moderna. O dualismo mente–corpo e a ideia de natureza como res extensa (coisa extensa, mensurável) permitem tratar o mundo físico como regular, mecânico e quantificável. Isso fortaleceu a visão científica moderna: matemática como linguagem da natureza; explicações causais e mecanicistas; rejeição de finalismos aristotélicos. A física clássica (Galileu, Newton) dialoga com esse quadro conceitual.
4) Emergência do sujeito moderno e da consciência de si. Com o Cogito (“penso, logo existo”), a certeza funda-se: não no mundo, nem na autoridade, mas na autoconsciência. Consequências: valorização da interioridade, centralidade da subjetividade, formação da ideia moderna de “eu”. Isso repercute até hoje na psicologia, fenomenologia e existencialismo.
5) Novo problema filosófico: mente e corpo. O dualismo cartesiano gera um campo inteiro de debates: como duas substâncias distintas interagem? Dali surgem respostas posteriores: ocasionalismo (Malebranche); paralelismo (Spinoza); harmonia preestabelecida (Leibniz); monismo / materialismo posteriores. Ou seja, Descartes cria um problema que estrutura discussões até hoje na filosofia da mente.
6) Reação empirista. A defesa de ideias inatas provoca a resposta de Locke e Hume: contestação do inatismo, valorização da experiência sensível, crítica ao racionalismo. Assim, o empirismo se forma em diálogo (e oposição) ao pensamento cartesiano.
7) Influência sobre Kant. Kant herda duas tensões abertas por Descartes: o ceticismo sobre o mundo externo; a confiança na razão. Ele tenta conciliá-las com sua filosofia crítica: o sujeito não copia o mundo — organiza a experiência segundo formas e categorias. Sem Descartes, o projeto kantiano não teria a mesma forma.
As principais consequências: Filosofia (Domínio) ==> inauguração da modernidade filosófica (Consequência); Epistemologia (Domínio) ==> centralidade do sujeito e da razão (Consequência); Ciência (Domínio) ==> consolidação da visão mecanicista e matemática da natureza (Consequência); Filosofia da mente (Domínio) ==> problema da relação mente–corpo (Consequência);Tradições posteriores (Domínio) ==> reação empirista e desenvolvimento do racionalismo (Consequência); Filosofia crítica (Domínio) ==> preparação do terreno para Kant (Consequência).
Fonte de Consulta
ChatGPT
Observação: Essas três perguntas foram extraídas de Saber-Fazer Filosofia: O Pensamento Moderno, de Giovanni Semeraro (Coordenador). Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2011 (Coleção Saber-Fazer, 2).