Biogeografia Neotropical
A região Neotropical é conhecida por sua geologia antiga e uma biota única, endêmica, que a caracteriza como uma área biogeográfica singular, onde suas divisões e subdivisões apontam para histórias bióticas específicas, há uma grande diversidade de ambientes, climas e topografia complexa que suportam a existência e múltiplos biomas e ecorregiões.
A Região Neotropical abarca a zona tropical da América, que abrange desde o México até a Argentina, também inclui as ilhas antilhas no mar do Caribe. Geologicamente esta zona é composta por três placas continentais, a placa do Caribe, a placa da América do Norte e a placa da América do Sul, sendo a placa da América do Sul fruto da separação do Gondwana há 100 Ma.
Há cerca de 120 milhões de anos houve a separação dos continentes africano e sul americano durante o Cretáceo, culminando no surgimento do Oceano Atlântico Sul. Neste cenário toda a biota passou por um processo de especiação independentes nos dois novos continentes, pois surgiu uma nova barreira geográfica, o oceano atlântico.
Desde o Gondwana até a completa separação da África a América do Sul permaneceu sempre na mesma posição equatorial no globo, propiciando a esta região uma maior estabilidade climática, tanto essa estabilidade quanto o isolamento do continente sul americano das outras regiões permitiram que as linhagens distribuídas neste continente pudessem se diversificar separadamente e com baixa taxa de extinção.
Durante todo esse período de isolamento, o continente sul-americano desenvolveu uma enorme diversidade de fauna singular, especialmente a partir da extinção dos dinossauros, quando novos nichos se abriram para o aparecimento de novas espécies. O grande apogeu dessa megafauna ocorreu justamente nos períodos glaciais entre 5 milhões de anos e 12.000 anos atrás. Entre as principais espécies que apareceram nesse período, destacam-se a preguiça-gigante, as aves-do-terror (Phorusrhacos), os Thylacosmilus (um tigre-dentes-de-sabre marsupial) e o gliptodonte (parente dos atuais tatus, porém do tamanho de um automóvel Fusca, com 2 t e 3 m de comprimento), entre outros.
Formação do Istmo do Panamá
Sempre existiram ilhas na região central entre o continente Norte americano e o Sul Americano, desde que as Américas iniciaram seu movimento para oeste no Cretáceo Inferior, essas ilhas formavam um arco de ilhas semi emergentes que se chocavam com a América do Sul por volta de 24 Ma de anos. A partir do Mioceno Médio o nível das águas ao longo da margem ocidental da placa do caribe tornou-se mais raso, ilhas vulcânicas se formaram e se ampliaram para criar uma conexão quase completa entre os dois continentes. O istmo do Panamá tornou-se uma ponte terrestre completa cerca de 3 milhões de anos atrás, no Plioceno Médio.
Após cerca de 100 milhões de anos de isolamento entre a América do Norte e a do Sul, surgiu uma estreita porção de terra denominada Istmo do Panamá, que reconectou as Américas e separou o Oceano Pacífico do Atlântico, a cerca de 2,8 milhões de anos, este evento é importante para compreender a evolução da biodiversidade nas américas. A formação do Istmo do Panamá possibilitou um grande intercâmbio biótico americano (GIBA), com espécies se deslocando da América do Sul para o Norte e vice-versa, apesar de ter ocorrido a predominância da fauna nortista sobre a sul americana. Essa preponderância da fauna nortista (de onde vieram, por exemplo, os ancestrais dos camelídeos, o cavalo, a anta, entre outros) devia-se ao fato de que a América do Norte nunca esteve totalmente isolada, graças ao contato com a Ásia por meio do estreito de Bering. Isso gerou sempre muito mais pressão seletiva na América do Norte do que na América do Sul, em que a quase ausência de entrada de novos imigrantes durante muitos milhões de anos tornou as espécies menos preparadas para o intercâmbio e mais vulneráveis aos invasores do norte, gerando a extinção de alguns animais que faziam parte da Megafauna sul americana como por exemplo a Preguiça gigante, o gliptodonte (tatu), ave-do-terror, entre outros.
Bacia São José de Itaboraí, RJ
O Sítio Paleontológico de Itaboraí situa-se na localidade de São José, município de Itaboraí, na Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. As coordenadas geográficas do centro da área são 22º50'20"S e 42º52'30"W.
A Bacia foi descoberta em 1928 pelo engenheiro Carlos Euler que, após analisar um suposto caolim encontrado na Fazenda São José pelo seu então proprietário, Sr. Ernesto Coube, verificou que o mesmo se tratava de calcário. Pesquisadores foram enviados ao local e, nas prospecções realizadas, encontraram uma grande quantidade de fósseis de gastrópodes continentais, o que despertou o interesse científico para a região. Por outro lado, os estudos preliminares de campo e as análises químicas evidenciaram boas perspectivas de exploração do calcário para a fabricação de cimento do tipo Portland. Por mais de 50 anos (de 1933 a 1984), a Companhia Nacional de Cimento Portland Mauá (CNCPM) explorou a pedreira e com o cimento produzido a partir deste calcário foram construídos o estádio Mário Filho (Maracanã) e a ponte Presidente Costa e Silva (Rio-Niterói), entre outros grandes empreendimentos. A exploração foi também responsável pela descoberta de abundante fauna de mamíferos e gastrópodes terrestres, assim como de anfíbios, répteis, aves, alguns vegetais e ostracodes, que muito contribuíram para o melhor entendimento da importante irradiação dos mamíferos ocorrida no início da era Cenozóica.
A Bacia de Itaboraí tem cerca de 60 milhões de anos (Ma) e é uma das menores bacias sedimentares brasileiras (cerca de 1 km2). A formação da bacia está relacionada com os fenômenos geológicos que ergueram a Serra do Mar e provocaram a abertura de depressões nas rochas, dentro das quais os sedimentos foram se acumulando.
A origem dos calcários parece relacionar-se à dissolução de mármores pré-existentes na região (com mais de 500 Ma). Estes foram dissolvidos por águas subterrâneas e trazidos à superfície por fontes termais, formando o calcário na depressão quando a água evaporava. Sedimentos oriundos das bordas da bacia misturavam-se ao calcário formando um calcário argiloso que se intercalava com o calcário puro de origem química. A sequência calcária foi coberta, há cerca de 50 Ma, por sedimentos grosseiros. O depósito calcário que preencheu a bacia foi cortado verticalmente por fendas de dissolução, local onde a grande maioria dos fósseis foi encontrada.
A Bacia de Itaboraí é o único depósito brasileiro que registrou a primeira irradiação dos mamíferos continentais após a extinção dos dinossauros, devido a isso a bacia se tornou conhecida internacionalmente e também por conta da sua importância para o entendimento da evolução dos mamíferos americanos, além disso, uma das Idades Mamíferos-Terrestres Sul-Americanas foi nomeada em sua homenagem – a idade Itaboraiense, e se tornou o único sítio brasileiro a ter seu nome em uma escala internacional de tempo.
Dentre todos os fósseis recuperados na Bacia de Itaboraí os mamíferos são os mais abundantes e diversificados, dentre estes os marsupiais são os mais diversificados. O fóssil de tatu mais antigo conhecido pela ciência foi encontrado em Itaboraí. Fósseis mais jovens de idade pleistocênicas foram também encontrados como mastodontes e preguiças gigantes que já viveram em Itaboraí. A bacia também tem o mais importante registro da ocupação humana nas Américas a cerca de 1 Ma.
Por conta de toda essa importância, todo semestre é realizado um campo no Parque paleontológico de Itaboraí com os alunos da FEBF, esta visita é necessária porque os discentes têm a oportunidade de conhecer e entender a importância deste parque para a história biogeográfica da América do Sul e principalmente do Brasil.
No local é realizada uma caminhada pelas trilhas que cortam o parque, nessas trilhas os alunos podem encontrar fósseis de gastrópodes, diferentes tipos de rochas e até o fóssil de um crocodilo pré histórico, e até um lago que surgiu durante a exploração do cimento no local. Além disso, os alunos visitam o museu que se encontra dentro do parque, onde tem uma réplica da preguiça gigante encontrada no sítio em tamanho real, e também existem fósseis de gastrópodes e diferentes fragmentos de rochas e vários cartazes com a reconstrução dos mamíferos cujo os fósseis foram encontrados lá.
LOCALIZAÇÃO DO PARQUE PALEONTOLÓGICO