Kuhn foi aluno de Popper e assimilou bastante bem as suas ideias. Mas era um historiador e, quando começou a tentar aplicar as ideias de Popper à história da ciência descobriu que os cientistas não andavam sempre a tentar encontrar erros nas teorias. Pelo contrário, quando os cientistas encontravam uma teoria que realmente funcionasse bem costumavam aceitá-la como verdadeira e tentar encaixar todos os novos factos nessas teorias. Ou seja, Kuhn descobriu que, na prática, os cientistas também eram dogmáticos e só quando havia mesmo muita coisa que as suas teorias não conseguiam explicar é que começava a haver algumas dúvidas relativamente à validade das suas teorias. Mas, mesmo quando havia todos estes problemas, estas "anomalias", era normalmente a nova geração que tentava encontrar teorias radicalmente diferentes das anteriores. Um cientista que tivesse sido educado a ver o mundo de certa maneira, dificilmente iria mudar a sua perspectiva, mesmo quando confrontado com muitas limitações da teoria.
Para Kuhn há três fases de desenvolvimento da ciência:
A pré-ciência, quando ainda não se encontrou uma teoria que reolva satisfatoriamente muitos problemas. Aqui não se pode falar ainda de ciência, pois existem vários grupos de investigadores que defendem teorias incompatíveis e que não concordam quanto ao modo de analisar ou abordar certos problemas.
A ciência normal surge quando se encontra uma teoria que permite resolver grande parte dos problemas. Os cientistas têm então grande confiança na verdade dessa teoria (ou paradigma) e não a questionam. Tentam completar essa teoria aplicando-a a novos casos e aumentando a sua precisão. Mas, à medida que o tempo vai passando vão surgindo anomalias, isto é, problemas que nem os melhores especialistas conseguem resolver.
A ciência revolucionária surge quando há tantas anomalias que um grupo de jovens cientistas deixa de acreditar que a teoria ou paradigma anterior seja o correcto. Nesta altura surge um confronto entre dois ou mais grupos de cientistas que defendem ideias radicalmente diferentes. Numa fase inicial a nova teoria não vai ter grande capacidade de competir com a antiga, pois os cálculos matemáticos e a investigação com base nela ainda não vão ser suficientemente desenvolvidos para permitirem obter previsões que sejam tão bons como a antiga teoria. Por exemplo, quando a teoria heliocêntrica surgiu, desenvolvida por pessoas como Copérnico, Kepler, Galileu, Descartes e Newton, foram precisos alguns séculos até que ela proporcionasse previsões dos movimentos dos planetas tão bons como a antiga teoria geocêntrica. Por isso, muitos dos investigadores que apostaram no geocentrismo (como Copérnico, Kepler e Galileu e Descartes) fizeram-no apesar de ser uma teoria pior, do ponto de vista das previsões. Mas pensavam que, se muitos cientistas trabalhassem nela, a poderiam tornar uma teoria superior à teoria geocêntrica.
Ou seja, durante as fases de ciência revolucionária é difícil comparar as teorias entre si, pois umas são melhores nuns aspectos (por exemplo permitem obter melhores previsões), e outras são melhores noutros aspectos (permitem resolver melhor certas anomalias e podemos ter esperança de que venham a permitir obter melhores previsões mais tarde). Hoje em dia acontece isso com algumas teorias, como por exemplo a Teoria M, ou teoria das cordas, em que centenas de físicos investem sem saberem se ela se virá a revelar um fracasso ou um sucesso.
Devido a esta incerteza torna-se muito difícil comparar teorias entre si durante as fases revolucionárias, e Kuhn, para enfatizar este aspecto, afirmou que essas teorias eram incomensuráveis entre si (ou seja, não se podem comparar) por serem tão diferentes e ser difícil saber qual delas se vai mostrar a melhor à medida que mais cientistas as investigam e desenvolvem.
Infelizmente esta constatação de Kuhn de que, na história da ciência há momentos de ciência revolucionária onde os cientistas ninguém sabe qual a melhor teoria e os cientistas têm de apostar numa ou noutra, levou a grandes confusões entre os intérpretes de Kuhn. Alguns intérpretes chegaram mesmo a afirmar que Kuhn estava a dizer que a ciência não evoluia e que não havia teorias piores e outras melhores, pois eram todas incomensuráveis. A confusão desses comentadores vem do facto de não perceberem que Kuhn estava a falar apenas da incomensurabilidade quando aplicada a fases de ciência revolucionária. Como é óbvio, não faz sentido dizer, hoje em dia, que não sabemos se é o sol ou a terra que está no centro do sistema solar!! Infelizmente estas confusões espalharam-se para a maior parte dos manuais portugueses de filosofia sendo o nosso manual "Pensar Azul" um dos raros que apresenta as ideias de Kuhn correctamente.
Em resumo: se Popper, um filósofo, explicou como é que a ciência deveria funcionar (procurando os erros), Kuhn explicou como é que ela de facto funciona (muito dogmática na fase da "ciência normal" e bastante irracional na fase da "ciência revolucionária"). Popper não gostou das descobertas de Kuhn e afirmou que no século XX se tinham criado o "cientista profissional" que de facto é dogmático, mas que a grande ciência dos três séculos anteriores não era dogmática. No entanto a perspectiva de Kuhn tem uma base histórica muito bem fundamentada e difícil de refutar. Parece mesmo que os cientistas são muito mais dogmáticos e que a ciência é movida por valores não-racionais, do que gostaríamos de admitir.
A ciência é a filha pródiga da filosofia, mas por vezes ainda se esquece de que o mais importante é a verdade.