A escola é um local de encontros e de confronto. Nela estão presentes, voltados uns para os outros, de olhos nos olhos, duas facetas opostas da nossa sociedade: por um lado as regras quase escravizantes do mundo do trabalho, por outro a luxúria quase desvairada do mundo do consumo. Se os alunos pudessem, na generalidade, seriam puros consumidores, viveriam o dia-a-dia imersos na net, nos cafés, a jogar à bola, a conversar, a ver televisão, a comprar, uma vida de divertimento com muitas delícias para nos entreter. Tudo aquilo que nos é proposto pelos media, o mundo que supostamente conquistámos como membros da sociedade ocidental, livre e próspera.
A realidade é bem diferente, no entanto, daquela que os anúncios prometem e mostram. Na prática, aos adultos pelo menos, sobra pouco tempo para usufruir do que quer que seja que o nosso trabalho árduo conseguiu comprar. As férias são normalmente stressantes, os fins-de-semana sabem sempre a pouco, as poucas horas livres durante a semana são para comer, descansar um pouco e dormir. Na prática a sociedade de consumo é um logro, um mito, e passamos provavelmente mais tempo a desejar o novo carro ou a nova televisão do que a usufruir desses objectos que só nos mantêm "no interior da fábrica".
É isso que temos e é isso que se espera dos professores, a quem compete introduzir os alunos neste mundo, a quem compete fazer a passagem de usufruidores do sistema para provedores de bens e serviços, uns mais úteis que outros.
Felizmente não é apenas isso que somos. Porque o homem, para além de uma peça do mecanismo social e biológico, é mais do que isso, uma consciência, um mar de emoções, anseios e mistérios, uma fonte de potencialidades sem fim, de aspirações inexplicáveis, um mundo de picos e abismos indizíveis. E é aí que nos encontramos: colegas, alunos, inexperientes e titulares... estamos todos unidos nesse mistério, nessa viagem que é a vida. Partilhamo-la sem saber muito bem o que nos espera do "outro lado", ou se há sequer um outro lado, ou qual o sentido do que vivemos, ou se há sequer um sentido. Rodeados de mistérios prosseguimos o nosso caminho, encontrando beleza aqui e horror ali, esperança e desespero, mas sempre um mundo tão diverso e com tanto para reflectir.
Neste sentido, de nos encontrarmos como infinitos vestidos de fragmento, é que surge a ideia do "dia da t-shirt voltada do avesso". Um pretexto para nos encontrarmos, não como peças desta gigantesca sociedade, mais um ínfimo passo na corrente de biliões de anos de evolução deste planeta, mas simplesmente como consciências à procura da verdade e partilhando a viagem em direcção a ela.