Porque as pessoas são mais importantes do que as coisas...
Já pensaste porque andamos todos de t-shirt com as costuras para dentro? Quanto a mim seria bem mais confortável pôr a parte lisa junto à pele e a parte das costuras para fora, onde só arranham o vento. E, no entanto, olho para as pessoas e vejo toda a gente a fazer o contrário. Na minha maneira de ver anda toda a gente do avesso! Mas, serei eu que estou enganado? A forma "correcta" de se estar na nossa sociedade é mostrar a parte melhor aos outros, a parte mais bela, mais sorridente, onde está sempre tudo bem. E assim perguntamos: «está tudo bem?» E responde-se «Está, está tudo bem. E contigo também?» ao qual respondemos invariavelmente «Também está tudo bem, obrigado.»
Por fora sorrimos, mostramos a pele lisa, as camisas engomadas, as t-shirts sem costuras. Mas só o conseguimos fazer porque as "costuras" as nossas dúvidas, incertezas, mal estar, discordâncias, ficam todas "do lado de dentro": por dizer, por sentir, por expressar: a arranhar onde dói mais.
Mais uma vez me parece que andamos todos do avesso. Será que é assim que queremos, de facto, levar a nossa vida? Não preferiríamos mostrar-nos como somos, com os nossos altos e baixos, forças e fraquezas? Não preferiríamos contar os nossos medos, confessar as nossas falhas, enfim, mostrar quem somos, realmente, com tudo o que isso possa ter de "feio" ou doloroso?
É que, para mim, ver as pessoas a andar com as t-shirts com as costuras para dentro não é um sinal de boa educação. É um sinal de sofrimento e de submissão: «vou-me por bonito(a) para que os outros me aceitem», mas faço-o pagando um preço: é que as costuras não deixaram de existir, pelo contrário, além de lá estarem, a segurar os dois lados da t-shirt, estão também comprimidas contra a pele, longe da vista mas mais perto do coração, a arranhar, uma sensação não partilhada por ninguém mas que todos sentem às escondidas, que toda a gente adivinha mas de que ninguém se sente à vontade para falar.
Então pensei que seria giro fazer um "dia da t-shirt virada do avesso". As t-shirts viradas ao contrário podiam ter estampadas a frase "as pessoas são mais importantes que as coisas" ou algo similar, como "não olhes para a minha roupa, olha para quem eu sou", ou talvez um pensamento, uma dúvida, algo que normalmente não diríamos aos outros. E a ideia seria precisamente a de que, nessa semana, iríamos pôr os nossos problemas, pensamentos e reflexões cá para fora, por mais extravagantes que fossem para os outros. E nesse dia não nos iríamos importar que os outros pusessem os seus sentimentos cá para fora, por mais extravagantes que fossem, porque, afinal, as pessoas são mais importantes que as coisas, e a verdade é mais importante que a aparência.
Afinal temos tantos pesadelos, medos, dúvidas dentro de nós. Tudo coisas com as quais não sabemos lidar, que não compreendemos profundamente. Como poderemos vir a compreendê-las se as deixarmos escondidas no nosso interior?
As coisas escondidas no nosso coração são como aquela pessoa de quem não gostamos, vai sempre ser alguém desagradável, que queremos evitar. Mas à medida que deixamos vir "ao de cima" as coisas que estão escondidas, à medida que elas vêm à nossa consciência, ao nosso pensamento, à linguagem, aos outros, elas vão deixar de ser esse horror desligado de tudo o resto para as passarmos a ver como parte integral do mundo e de nós próprios. Essa pessoa desagradável afinal tem um interior, talvez não tão diferente do nosso. Podemos continuar a evitá-la, mas vamos compreendê-la. Ela será alguém que até poderíamos ter sido nós, se tivéssemos tido uma história e uma biologia diferente. Não somos assim tão diferentes.
Assim, lentamente, todo o mundo será cada vez mais familiar. Até nos sentirmos em casa em todo o lado. Até sentirmos que nada nos é estranho, que fazemos parte de tudo e tudo faz parte de nós.
Vamos falar! Vamos pôr cá para fora o que nos vai na alma, e, em conjunto, vamos crescer num mundo de aventuras que transforma a solidão, o medo e a ignorância, na festa de quem está ligado a tudo.