António Damásio é um neurocientista famoso e talvez o seu livro mais famoso seja "O Erro de Descartes". O erro que Damásio aponta a Descartes é o de ter separado razão e emoção e também o corpo e a alma. Essa separação, de acordo com Damásio, ainda hoje atravessa a neurociência actual, quando por exemplo, tentamos compreender o funcionamento cerebral sem ter em conta o resto do corpo e a sociedade. Damásio procura incentivar uma investigação mais orgânica, isto é, que inclua os vários aspectos que condicionam a nossa mente, e não apenas alguns. Eis o que diz Damásio no seu livro O Erro de Descartes, 1994, pp.253-6 da edição Europa América:
"Não teria sido possível apresentar minha participação nesta conversa sem ter invocado Descartes
como símbolo de um conjunto de idéias acerca do corpo, do cérebro e da mente que, de uma
maneira ou de outra, continuam a influenciar as ciências e as humanidades no mundo ocidental. A
preocupação é dirigida tanto à noção dualista com a qual Descartes separa a mente do cérebro e do
corpo como às variantes modernas dessa noção: por exemplo, a idéia de que mente e cérebro estão
relacionados mas apenas no sentido de a mente ser o programa de software que corre numa parte do
hardware chamado cérebro; ou que cérebro e corpo estão relacionados, mas apenas no sentido de o
primeiro não conseguir sobreviver sem a manutenção que o segundo lhe oferece.
Qual foi, então, o erro de Descartes? Ou, melhor ainda, a que erro de Descartes me refiro com
ingratidão? Poderíamos começar com um protesto e censurá-lo por ter convencido os biólogos a
adotarem, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais. Mas talvez isso
não fosse muito justo, e comecemos, então, pelo ”penso, logo existo”. Essa afirmação, talvez a mais
famosa da história da filosofia, surge pela primeira vez na quarta seção de O discurso do método
(1637), em francês ("Je pense, donc je suis”); e depois na primeira parte de Princípios da filosofia
(1644), em latim (”Cogito ergo sum”).3 Considerada literalmente, a afirmação ilustra exatamente o
oposto daquilo que creio ser verdade acerca das origens da mente e da relação entre a mente e o
corpo. A afirmação sugere que pensar e ter consciência de pensar são os verdadeiros substratos de
existir. E, como sabemos que Descartes via o ato de pensar como uma atividade separada do corpo,
essa afirmação celebra a separação da mente, a ”coisa pensante” (rés cogitans), do corpo não
pensante, o qual tem extensão e partes mecânicas (rés extensa).
No entanto, antes do aparecimento da humanidade, os seres já eram seres. Num dado ponto da
evolução, surgiu uma consciência elementar. com essa consciência elementar apareceu uma mente
simples; com uma maior complexidade da mente veio a possibilidade de pensar e, mais tarde ainda,
de usar linguagens para comunicar e melhor organizar os pensamentos. Para nós, portanto, no
princípio foi a existência e só mais tarde chegou o pensamento. E para nós, no presente, quando
vimos ao mundo e nos desenvolvemos, começamos ainda por existir e só mais tarde pensamos.
Existimos e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser,
na verdade, causado por estruturas e operações do ser.
Quando colocamos a afirmação de Descartes no devido contexto, podemos perguntar-nos por um
instante se poderá ter significado diferente daquele que lhe estamos atribuindo. Poderia ser vista
como o reconhecimento da superioridade da razão e do sentimento consciente, sem nenhum
compromisso firme no que respeita à sua origem, substância ou permanência? É possível. Não
poderia a afirmação ter servido também o hábil propósito de aliviar as pressões religiosas que
Descartes podia sofrer? É possível, mas não podemos saber ao certo. (A inscrição que Descartes
escolheu para sua lápide foi uma citação a que recorria com freqüência: ”Bene qui latuit, bene
vixit” ”Aquele que viveu bem passou despercebido.”,* de Tristia, 3.4.25, de Ovídio. Uma renúncia discreta ao dualismo?) Quanto à primeira
possibilidade de interpretação, e fazendo o balanço final, suspeito que Descartes também queria
dizer precisamente aquilo que escreveu. Quando as famosas palavras surgem pela primeira vez,
Descartes está feliz com a descoberta de uma proposição tão verdadeira que não podia ser negada
ou abalada por nenhuma dose de ceticismo:
[...] e reparando que esta verdade, ”Penso, logo existo”, era tão certa e tão segura que nem sequer as
suposições mais extravagantes dos céticos a conseguiam abalar, cheguei à conclusão de que a receberia sem
hesitação alguma como o primeiro princípio da filosofia que procurava.
Descartes procurava uma fundação lógica para a filosofia, e a afirmação não se afastava muito da de
santo Agostinho, ”Fallor ergo sum” (”Sou enganado, logo existo”). Mas, umas linhas mais
adiante, Descartes esclarece a afirmação de forma inequívoca:
Por isso eu soube que era uma substância cuja essência integral é pensar, que não havia necessidade de um
lugar para a existência dessa substância e que ela não depende de algo material; então, esse ”eu”, quer dizer, a
alma por meio da qual sou o que sou, distingue-se completamente do corpo e é ainda mais fácil de conhecer
do que esse último; e, ainda que não houvesse corpo, a alma não deixaria de ser o que é.
É esse o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal,
infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um
lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a
sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação
emocional poderiam existir independentemente do corpo. Especificamente: a separação das
operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo
biológico, para o outro.
Mas há quem possa perguntar: por que motivo incomodar Descartes e não Platão, cujas idéias sobre
o corpo e a mente são muito mais exasperantes, como podemos verificar no Fédon? Por que
preocuparmo-nos com esse erro específico de Descartes? Afinal, alguns de seus outros erros são
bem mais espetaculares do que esse. Descartes pensava que o calor fazia circular o sangue, que as
finas e minúsculas partículas do sangue se transformavam em ”espíritos animais”, os quais
conseguiam depois mover os músculos. Por que não censurá-lo por uma dessas noções? A razão é
simples: há muito tempo que sabemos que ele estava errado nesses aspectos concretos, e as
perguntas sobre como e por que circula o sangue receberam já uma resposta que nos satisfaz
completamente. O mesmo não sucede com as questões relativas à mente, ao cérebro e ao corpo, em
relação às quais o erro de Descartes continua a prevalecer. Para muitos, as idéias de Descartes são
consideradas evidentes em si mesmas, sem necessitar de nenhuma reavaliação.
Pode bem ter sido a idéia cartesiana de uma mente separada do corpo que esteve na origem, na
metade do século XX, da metáfora da mente como programa de software. De fato, se a mente
pudesse ser separada do corpo, talvez fosse possível compreendê-la sem recorrer à neurobiologia,
sem nenhuma necessidade de saber neuroanatomia, neurofisiologia e neuroquímica. É interessante e
paradoxal que muitos investigadores em ciência cognitiva, que se julgam capazes de investigar a
mente sem nenhum recurso à neurobiologia, não se considerem dualistas.
A separação cartesiana pode estar também subjacente ao modo de pensar de neurocientistas que
insistem em que a mente pode ser perfeitamente explicada em termos de fenômenos cerebrais,
deixando de lado o resto do organismo e o meio ambiente físico e social — e, por conseguinte,
excluindo o fato de parte do próprio meio ambiente ser também um produto das ações anteriores do
organismo. Protesto contra essa restrição, não porque a mente não esteja diretamente relacionada
com a atividade cerebral, pois obviamente está, mas porque essa formulação restritiva é
forçosamente incompleta e insatisfatória em termos humanos. É um fato incontestável que o
pensamento provém do cérebro, mas prefiro qualificar essa afirmação e considerar as razões por
que os neurônios conseguem pensar tão bem. Essa é, de fato, a questão principal."