Como vimos é praticamente impossível a um ser humano viver sem qualquer certeza para além de que existe como ser pensante. Precisamos de acreditar em imensas coisas, por exemplo, que temos um corpo que realmente existe, que os outros existe, que a vida vale a pena, que temos algo de valor a fazer, que a vida pode ser bela, que aqueles que amamos existem realmente e não os estamos apenas a imaginar, que há quem confie e acredite em nós, etc.
Como é que Descartes ultrapassou a sua dúvida radical / hiperbólica, que punha em causa a existência do próprio mundo físico e a confiança no poder da razão?
Bem, Descartes afirma que todas as ideias que tenho só são evidentes para mim, na minha consciência, excepto uma. Esta excepção só poderá ser comprovada por nós próprios: imaginemos um ser absolutamente perfeito em todos os sentidos, ao qual não falta qualquer qualidade? Já está?
Bem, segundo Descartes, quando contemplamos esta ideia da perfeição absoluta (não é a mulher perfeita ou o carro perfeito, pois estas coisas, sendo algo definido têm a limitação de não serem outras: por exemplo a mulher perfeita não é o homem perfeito, o carro perfeito não é o avião perfeito que não é o submarino perfeito, que não é a bicicleta perfeita que não é a árvore perfeita que não é o sol perfeito que não é o planeta perfeito, etc). A perfeição absoluta não é algo fácil de contemplar ou descrever. Aliás, até parece algo impossível de descrever.
Em todo o caso vamos partir do princípio que é possível encontrar dentro de nós essa ideia de perfeição absoluta e infinita em todos os sentidos. Neste caso, diz Descartes, assim que a imaginamos, compreendemos imediatamente que a sua existência é evidente. Essa perfeição tem de existir, e essa certeza é tão evidente como a do cogito existir enquanto cogito (se bem que o cogito seja fácil de imaginar e a ideia de perfeição absoluta seja praticamente impossível de conceber).
É claro que aqui quase ninguém concorda com Descartes. Podemos até interpretar esta afirmação de Descartes como uma tentativa de escapar à fogueira, já que a sua dúvida radical seria certamente considerada uma heresia intolerável na época.
Por outro lado, também é difícil imaginar que Descartes estava simplesmente a tentar escapar da fogueira, pois o seu principal critério de verdade, e que o vai guiar para o resto da vida, depende da existência de Deus.
Reparem, enquanto duvidamos de tudo excepto de que existimos enquanto seres pensantes e com vontade, não podemos ter a certeza de que nada do que pensamos é real.
Mas se é verdade que um ser absolutamente perfeito tem de existir, então essa existência é que está na origem de toda a restante existência que vemos à nossa volta e dentro de nós. Logo, um ser de tal forma perfeito não iria criar uma realidade que me fosse enganar. Segue-se que o engano ou erro estará em mim, no mau uso que faço das capacidades que me foram dadas.
Mais precisamente o erro acontece devido ao mau uso da vontade. Ou seja, o homem é dotado de duas faculdades principais: vontade e razão. Mas quer tanto saber a verdade que acaba por aceitar como verdadeiras ideias que não investigou cuidadosamente.
Se o homem só aceitar como verdadeiro aquilo que vir como absolutamente claro (e distinto) então tudo o que aceitar será verdadeiro.
Deste ponto de vista voltamos a poder confiar nos poderes da razão: a bondade de Deus permite-nos confiar em tudo, tudo o que precisamos é de um método que nos permita chegar à verdade distinguindo-a das crenças. Esse método é o da clareza e distinção. Ou seja, devemos aceitar apenas como verdadeiras as ideias que forem muito claras e distintas.
Claro que isto punha em causa a autoridade das igrejas que se digladiavam na época deixando um rasto de sangue e sofrimento para defender o amor de Cristo, e por isso os livros de Descartes eram proibidos em diversas faculdades na época.