Como vimos é relativamente simples termos certezas em relação ao que sentimos directamente. Descartes descobriu que, para além dessa certeza há uma outra, que condensou na frase "cogito ergo sum" e que normalmente traduzimos por "penso logo existo". A tradução não é inteiramente correcta pois "cogito" é mais do que pensar, é também querer.
A pergunta de Descartes era precisamente a de saber o que é que podíamos conhecer com certeza absoluta. Também se dedicou a outras coisas, como o funcionamento do sistema solar, e era também um matemático conhecido. A vida de Descartes foi muito peculiar e morreu nos braços de uma princesa. Mas isso agora não nos interessa. Descartes estava interessado em saber se poderíamos saber algo com um grau de certeza absoluta.
O raciocínio de Descartes é semelhante ao que fizemos no ponto 3. Eu posso ter a certeza de que estou a sentir ou a ver ou a acreditar em algo. Mas essa experiência interior não me garante que haja algo fora de mim que corresponda àquilo que sinto. Posso estar muito apaixonado por uma ilusão, posso ser assustado por cores em movimento na tela do cinema, posso morrer por Alá quando, talvez, nem sequer venha a ter aquelas virgens todas no céu. O meu mundo interior tem uma evidência que não posso negar, mas em que parte dessa evidência posso confiar.
Num primeiro momento Descartes diz que a única coisa em que posso confiar com certeza absoluta é na existência do meu eu como ser pensante. Ou seja, mesmo que eu me engane acerca de tudo, mesmo que haja um génio maligno (um deus mau) que me queira enganar e me mostre um mundo todo feito de ilusões (desde o mundo físico aos pensamentos da matemática), mesmo assim eu teria de existir como ser pensante para ser enganado.
Ou seja, mesmo que toda a vida seja um sonho, mesmo que as minhas mãos e pés e corpo só existam na minha imaginação, eu terei de existir como ser pensante, como ser capaz de ver, de sentir as mãos e pés e corpo. Por isso, conclui Descartes, a minha existência como ser pensante é, para mim, mais certa do que a minha existência como ser físico.
Esta certeza na mina existência como ser pensante é, no entanto, muito limitada para podermos agir. Por exemplo, não nos diz se as emoções que vemos nos outros correspondem realmente a algo real. Por isso Descartes afirma (p. 157 do livro)
"De há muito tinha notado que, pelo que respeita à conduta, é necessário algumas vezes seguir como indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas."
Ou seja, do ponto de vista prático, da acção, temos de acreditar em muitas coisas sobre as quais não temos a certeza absoluta. Por exemplo, quem tem animais de estimação em geral acredita que eles são capazes de sentir emoções, afectos, generosidade, alegria, altruísmo, egoísmo, etc. Enquanto outras pessoas podem achar que eles são como mecanismos, agindo como se sentissem mas não passando de relógios, maquinaria, complexa. Como provar que um animal sente ou apenas reage como se sentisse? (Note-se que mesmo alguns cientistas da actualidade defendem a tese de que muitos animais não sentem ou, por exemplo, que uma andorinha nunca voa por puro prazer.)
Mas pensar que nada sei de certo para além da minha própria existência, nem sequer se existem fora de mim os meus amigos, familiares, o próprio planeta e o Cosmos, o meu corpo... Isto deixaria qualquer cartesiano (chamamos cartesiana à filosofia de Descartes, porque o seu nome, originalmente se escrevia Des Cartes) num grande abismo. Uma única certeza: eu existo como ser pensante: tudo o resto é incerto! Uma tal pessoa teria de viver a vida rodeado de incertezas e mistérios. A vida de Descartes dá-nos algumas indicações de que realmente ele passou por uma fase assim, em que duvidava de tudo.
Mas desse caos todo nasceu uma ideia que foi, pelo menos para ele, uma salvação perfeita. É o que vamos ver no próximo capítulo.