Podemos dizer que a ciência éa filha pródiga da filosofia. Se a filosofia é o amor pela verdade, o desejo de encontrar a verdade, a ciência é uma das formas mais espectaculares na actualidade com que o homem parece ter encontrado a verdade.
Os nossos poderes hoje em dia ultrapassam os desejos mais fantasiosos do passado. Podemos viajar, falar à distância de milhares de quilómetros, enviamos sondas para o espaço, pusemos homens na lua, controlámos doenças, erradicámos pragas, colonizámos o planeta em números que só a escassez de alimentos pode debelar, fomos até aos pontos mais profundos do oceano, enfim... transformámo-nos num super-predador cujo principal objectivo, nos próximos milénios, e enquanto espécie, será atingir a imortalidade. A partir daí... é difícil de imaginar...
Tudo isto foi possível com o avanço da ciência. Mas afinal o que é a ciência e porque foram precisos dezenas de milhares de anos para chegarmos a um método, ao modo de pensar científico que, apenas em dois ou três séculos, nos deu tudo isto?
Aquilo que é certo é que, a partir do século XVII assistimos a um avanço notável da ciência. O porquê de tal desenvolvimento é motivo de alguma polémica. No entanto alguns factores são certamente centrais:
O primeiro é o homem ter finalmente acreditado que podia aplicar a matemática ao objectos do dia-a-dia, ou seja, que o mundo é um "mecanismo". O homem tem uma tendência natural para ver os fenómenos em termos afectivos. Por exemplo se há uma tempestade deve ser um castigo, se um vulcão irrompe é porque um deus está zangado. Se alguém está doente é porque há uma maldição, etc. Ou seja, temos tendência para vermos tudo o que se passa em nossa volta como se fosse uma resposta aso nossos gestos, às nossas atitudes. Também se chama a isto o pensamento "mágico". Ou seja, pensar que tudo gira à nossa volta e que, portanto, fazendo um sacrifício podemos acalmar o vulcão, ou que podemos chamar a chuva fazendo uma dança.
Devido a esta tendência natural não é estranho pensar que o homem nunca tenha tentado aplicar a matemática ao real. Afinal se eram os deuses e as nossas vontades que estavam na origem de tudo o que acontecia então uma pedra nunca iria cair exactamente da mesma maneira. Por vezes o deus puxá-la-ia com mais força, outras vezes com menos. Não havia maneira de prever o que iria acontecer com certeza. A única excepção era o movimento dos corpos celestes, que eram considerados "etérios", ou seja, faziam parte de um outro mundo, mais puro, e precisamente por isso, porque se pensava que não tinham massa e estavam mais próximos da esfera Divina, poderiam ser previstos. Na realidade já há mais de 4 mil anos que os Egípcios tinham conseguido perceber o movimento das estrelas e planetas ao longo do ano.
Mas só lentamente se começou a aplicar a matemática ao mundo do dia-a-dia. Galileu e Newton foram dois grandes pioneiros neste sentido ao mostrarem que os princípios que regiam os movimentos celestes eram os mesmo que regiam os movimentos dos objectos terrestres. O mundo afinal era previsível. Não se tratava de espíritos mas de um "mecanismo".
A noção de que o mundo pode ser tratado como uma máquina e que reage como uma máquina deu ao homem uma grande sensação de poder. Na realidade, tem um lado negro que é a desvalorização, o desrespeito, do que nos rodeia. Mas sobre isso falaremos no terceiro período. O que é certo é que, sem esta visão da natureza como uma máquina, o homem não teria conseguido compreendê-la "cientificamente".
Um segundo factor extremamente importante foi a liberdade de pensamento. Sem ela teria sido impossível inovar em qualquer área do pensamento. Enquanto que o apego à tradição nos leva a querer mostrar como tudo "encaixa" ou pode ser explicado através das teorias já aceites, a liberdade de expressão permite-nos procurar novas teorias, melhores do que as anteriores.
Ora nesta época já há grupos de investigadores com ideias diferentes do que deve ser a explicação correcta de um certo fenómeno. Por isso cada um desses grupos vai tentar mostrar como a sua explicação é superior e como a do outro é inferior. (por exemplo ver a luz como onda ou partícula, pensar que a gravidade é uma acção à distância ou não, o heliocentrismo e o geocentrismo, diferentes explicações para a electricidade, etc).
Esta tentativa constante de deixar a sua contribuição encontrando uma teoria melhor do que todas as outras leva a uma evolução rápida das teorias pois tanto os erros como as soluções alternativas são rapidamente encontrados.
Um terceiro aspecto é a vontade em realmente chegar à verdade. Se os investigadores estivessem só a tentar encontrar teorias estranhas, fantásticas ou tonitruantes poderiam criar um imenso corpo de teorias, mas provavelmente todas elas seriam próximo do inútil. Por outras palavra, tem de existir um desejo autêntico por encontrar a verdade, o que é que realmente está a acontecer.
Além disso a investigação científica é sistemática, analisando muitas explicações alternativas e os resultados científicos só são aceites quando replicados por outros grupos de cientistas...
Todos estes aspectos ajudam a explicar porque é que a ciência conseguiu evoluir mais em trezentos anos do que em toda a história anterior da humanidade. Agora, devemos confiar na ciência?
Bem, independentemente do mundo ser real ou não, o que é certo é que a ciência funciona e bem. Todos os objectos manufacturados que encontramos no nosso dia-a-dia foram descobertos precisamente devido às explicações da ciência. Se essas explicações estivessem erradas então não se perceberia como funciona a tv, as iluminação, os telemóveis, os computadores.
A ciência parece correcta mas fará sentido dizer que não podemos ter a certeza de que o mundo existe fora de nós, mas que temos a certeza do modo como funciona um monitor (mesmo que seja apenas a explicação válida no sonho)?