Depois dos altos voos de Descartes por terras difíceis de imaginar quanto mais de nelas viver encontramos um autor muito mais fácil de compreender.
David Hume era um escocês muito prático e de pensamento muito claro. Aceitou de imediato a conclusão de Descartes acerca do cogito mas disse que essa certeza só por si não era suficiente para vivermos. Criticou depois Descartes por ter recorrido a Deus para se assegurar da existência do mundo físico já que, sendo Deus perfeito, não poderia ter feito os nossos sentidos de modo a poderem enganar-se (não é claro que Descartes tenha feito isso, pois apenas recorreu a Deus para afirmar que a razão, quando bem usada não era enganadora).
Hume começa por constatar a fé que habitualmente depositamos nos sentidos:
"Parece evidente que os homens são levados, por um instinto ou predisposição natural, a depositar fé nos sentidos; e que, sem qualquer raciocínio ou mesmo quase antes do uso da razão, supomos sempre um universo externo que não depende da nossa percepção, mas existiria, ainda que nós e todas as criaturas sensíveis estivessem ausentes ou fossem aniquiladas..." (pág. 164 do manual)
Para Hume essa confiança nos sentidos era desmentida pois eles não nos dão os objectos em si mesmo mas apenas imagens desses objectos. Por outro lado também não é plausível que essas imagens sejam muito diferentes dos objectos reais que elas representam pois:
como "se pode demonstrar que as percepções da mente devem ser causadas por objectos externos, totalmente diferentes delas"? (idem)
Ou seja, se vejo uma mesa, apesar de a minha percepção da mesa variar muito consoante a distância e a posição a partir da qual eu a vejo, todas essas imagens ou representações que faço da mesa devem ter sido o resultado do contacto real com a mesa. Apesar disso há uma impossibilidade de termos a certeza absoluta do que causa as nossas representações.
Desta dificuldade em ver a realidade tal como ela é em si mesma aparece também o problema da indução. O problema da indução consiste, essencialmente, na impossibilidade de demonstrar que aquilo que ainda não observámos (neste caso o futuro) será semelhante ao que já observámos (o presente e passado). Por exemplo posso ter observado biliões de vezes que o giz cai quando o largo, mas o que me garante que no futuro a gravidade vai continuar a existir e a ter os mesmos efeitos?
Aparentemente nenhuma razão o permite dizer, só a força do hábito, diz Hume, permite explicar porque é que acreditamos que o passado será igual ao futuro.
O problema da indução não se aplica só ao tempo. Por exemplo, posso ter observado dezenas de milhares de cisnes brancos, mas como é que isso me pode permitir saber se todos os cisnes (incluindo aqueles que ainda não vi) são brancos. Em geral o hábito leva-nos a esperar que todos os cisnes sejam brancos, isto se nunca tivermos visto ou ouvido falar de cisnes de outra cor. Segundo Hume, não encontramos nenhuma razão para além do hábito para justificar esta generalização que é partir da observação de uma parte para concluir sobre o todo. (Por exemplo a observação de que a gravidade tem funcionado desta maneira para a conclusão de que irá sempre funcionar desta maneira.)