A verdadeira sinceridade não pode existir se não compreendermos o nosso ouvinte.
No filme The Invention of Lying, de Ricky Gervais imaginamos uma sociedade onde a mentira não tinha sido ainda criada. Nessa sociedade haveria carros e edifícios, etc, como na nossa, mas as pessoas não saberiam mentir, nem conseguiriam imaginar o que isso significaria. Ora, se imaginarmos realmente uma sociedade desse tipo veremos rapidamente que ela não seria em nada semelhante à nossa. Provavelmente nem seria possível existir uma sociedade? Porquê? Bem deixo isso à vossa imaginação.
Em todo o caso parece absolutamente claro que só os animais mais primitivos são incapazes de mentir. Se nós fôssemos incapazes de mentir mostraríamos imediatamente a nossa faceta mais primitiva e violenta. «Quero-te bater», «valho mais do que tu», «és mesmo estúpido», seriam frases ouvidas e ditas constantemente. A nossa sociedade transformar-se-ia rapidamente numa selva onde iria imperar a "lei do mais forte".
A "boa educação" é, em grande parte, a arte de omitir, de diluir ou apresentar a verdade de modo a que não seja tão chocante. Será isso uma falta de honestidade ou de autenticidade? Revela uma fraqueza, medo? Ou será, pelo contrário, uma prova de amor e respeito pelo outro? Ou ambas as coisas?
A meu ver, tudo depende. Por vezes ocultar a verdade resulta do medo, outras vezes é um acto de respeito e amor, outras vezes é puro egoísmo e, ainda outras é uma mistura de vários destes aspectos.
Aquilo que se pretende no "dia da t-shirt virada do avesso" é que deixemos de ocultar a verdade, a nossa verdade, devido ao medo ou ao egoísmo. No entanto, quanto mais sinceros somos mais teremos de estar atentos ao outro.
Reparem para eu ser sincero com um finlandês, ou sei finlandês, ou temos de ter outra linguagem qualquer em comum. Se eu me puser a falar à 'tuga', posso contar-lhe tudo sobre o meu clube de futebol preferido, os meus ídolos e projectos, os meus desejos e ambições mais profundas, as minhas dúvidas, os meus amigos, os meus objectivos. E ele não vai compreender uma palavra! Será isto ser sincero?
De um ponto de vista egoísta sim! Eu estou a dizer tudo o que me vai na alma. Se ninguém me vai ouvir, se ninguém é capaz de me compreender, o problema é deles.
Se quisermos passar a vida incompreendidos e sozinhos, esta é uma boa perspectiva para nós. Vamos descobrir que dizemos sempre a verdade e tentamos o nosso melhor, infelizmente, os outros não estão à nossa altura, não nos compreendem.
Outra abordagem é tentar aprender a falar finlandês, ensinar a falar português, ou encontrar uma maneira de falar comum (talvez por gestos), com a qual certamente não vamos conseguir dizer muita coisa, mas pelo menos dizemos alguma coisa.
No primeiro caso dissemos tudo o que nos ia na alma e a outra pessoa não compreendeu nada. No segundo caso se calhar só conseguimos dizer algo do tipo "estou com fome" ou "isto é muito giro", mas sempre é qualquer coisa!! Há uma partilha, mesmo que mínima. No primeiro caso só houve um despejar, sem que ninguém recebesse o que despejávamos!!
Cada um escolhe o que é melhor para si, se é falar sozinho e achar que os outros são estúpidos e não nos compreendem, ou se é compreender quem nos ouve, para depois dizer apenas o que pode ser compreendido por ele(a).
No dia da t-shirt virada do avesso vamos querer falar com estilo. Ou seja, falar de maneira a que os outros nos entendam. Isso, infelizmente, vai querer dizer que as ideias mais profundas que temos vão ser as mais difíceis de dizer, pois estão escritas numa linguagem muito própria: em Joanês, Pedrês, Antoniês, Lilianês, Albertinês, Tiaguês, etc. E só aqueles amigos de mesmo há muito tempo conseguem compreender o significado que damos às experiências mais íntimas que temos (e mesmo esses por vezes não nos entendem).
O que vamos é fazer um esforço para trazermos os nossos ouvintes tão próximos quanto possível da nossa linguagem única, do nosso mundo interior.
Aviso-vos já: é das coisas mais difíceis que podemos tentar, mas também é a única coisa que verdadeiramente desejamos nesta vida: proximidade.